It's You

1 Because he it is not you.


Eu sentia os olhos de todos sobre mim enquanto eu caminhava o mais rápido que podia pela praça de Daggorhorn. Minhas narinas queimaram quando eu senti o cheiro da morte, ainda pairando no ar.

A notícia que o Lobo havia sido morto já estava circulando por todos os lugares, isso era um alívio para os habitantes. Agora, a cidade viveria mediocremente em paz, como sempre.

Um calafrio percorreu meu corpo quando eu o avistei, estava cercado por alguns homens, eles pareciam conversar alegremente sobre algo.

Quando me aproximei, seus olhos pousaram sobre mim, confusos e ele se afastou do grupo para me abraçar. Seu abraço era diferente de todos os que eu já havia experimentado. Pela primeira vez em dias, eu me senti verdadeira e completamente segura. Quando o abraço acabou, ele se afastou, um dos braços ainda em minha cintura apertou gentilmente a carne ali.

– Valerie, eu pensei que — seu tom de voz baixou, tornando se um murmúrio apenas — você havia ido embora com Peter. Onde ele está?

O nome de Peter pareceu ter um gosto amargo na boca de Henry, ele fez uma careta. Eu sorri, feliz por saber que ele ainda gostava de mim. Dei um passo á frente, colando nossos corpos, antes de responder:

– Ele foi embora.

Henry franziu o cenho, minha resposta havia levantado mais perguntas.

– Porque você não foi com ele?

Suspirei pesadamente.

– Porque eu não quis. Viver longe de quem eu mais amo, não é algo com qual eu me acostumaria.

Seus olhos lampejaram, eu pude ver a esperança sendo plantada em sua mente e em seu coração. Mas de repente, aquele brilho no olhar foi substituído por algo frio, duro, como pedra. Aquilo fez com que eu e odiasse. Ele tinha certeza que eu não o amava. Aquilo queimou em meu peito. Antes que o silêncio se tornasse completamente constrangedor, ele falou:

– Sim, entendo. Sua mãe com certeza sentiria muito a sua falta. Ela perdeu Lucie e eu soube que seu pai desapareceu, sinto muito. — Ele me olhou com aquele olhar que fazia meu coração se aquecer, não era pena, era apenas amor — Se Suzette perdesse você também, Valerie, não sei o que seria dela.

Senti meus olhos cheios de lágrimas quando Henry falou de Cesaire, meu papai, o Lobo. Consegui conter as lágrimas antes que elas transbordassem de meus olhos. Eu sabia que precisava falar para Henry sobre o seu terrível engano, também precisava contar que Cesaire era o Lobo. Mesmo que aquilo doesse em mim, como uma ferida em carne viva, eu tinha de fazê-lo.

Ele merecia saber quem havia matado Adrien, seu pai. Mas eu não conseguia dizer nenhuma palavra, nem um mísero som ousava sair por entre meus lábios. Pela primeira vez em dias, eu pensei em tudo o que havia acontecido. Em todos que haviam morrido. Mesmo que nem todos fossem merecedores da vida, eu senti pena.

Cesaire, Lucie, Claude, o Bailio, Father Auguste, Father Solomon, a Avó, Adrien, entre tantos outros.

Quando finalmente consegui falar, percebi que estava chorando. Minha voz saiu entrecortada em meio aos soluços que irrompiam de minha garganta. Percebi também que Henry me abraçava protetoramente. Minhas mãos estavam agarradas no casaco que ele usava, manchava minha roupa e a dele com as minhas lágrimas salgadas.

Senti-me extremamente idiota por ter esse ataque justo quando iria me declarar para Henry, mas eu sabia que não podia mais aguentar. Enquanto tudo estava acontecendo, a adrenalina em minhas veias não dava tempo para que eu pensasse muito. Mas agora eu me permiti chorar.

Depois de alguns minutos chorando copiosamente, eu senti mais uma vez o olhar das pessoas que passavam ao nosso redor. Aquilo me incomodou, eu não gostava de chorar na frente de ninguém. Dessa vez, consegui encontrar minha voz e apenas com um sussurro quase inaudível, eu pedi para que ele me levasse para casa.

Ele se afastou, seus olhos encontraram os meus por apenas um segundo, então ele se virou e me puxou pela mão. Caminhamos alguns metros até chegar a uma árvore, completamente branca por conta da neve. Um cavalo estava preso por uma corda amarrada em seu pescoço e a outra ponta dava algumas voltas no tronco da árvore.

Henry desamarrou o cavalo e antes que eu pudesse monta-lo sozinha, senti as mãos dele segurando-me a cintura, erguendo-me do chão e depositando me em cima do animal. Ele subiu á minha frente e instintivamente, eu passei os braços ao redor de sua cintura, deixando meu corpo se aproximar do dele, sentir seu calor.

O cavalo começou a se movimentar devagar, mas depois que Henry pressionou seus calcanhares nas costelas do animal, ele começou a correr. Eu sentia o vento gélido esfriando meu rosto, congelando as lágrimas. Por onde passávamos éramos vistos apenas com um olhar de curiosidade da parte de todos. Mas eu não prestei atenção nisso, já estava chegando em casa quando vi que lá estavam algumas pessoas reunidas, na verdade, a casa parecia estar cheia. Mais cheia do que no velório de Lucie, se é que isso era possível.

Mas o pior era que eu não podia ir para casa com todas aquelas pessoas lá. Precisava ficar sozinha. Praguejei baixinho algo incompreensível até para mim, mas Henry entendeu o recado. Suas mãos trabalharam rapidamente nas rédeas do cavalo, fazendo-o virar para o lado do qual havíamos vindo. Eu apenas fechei os olhos e me deixei levar, sentindo o frio tomar conta do meu ser.

Poucos minutos depois o cavalo parou subitamente. Eu abri meus olhos rapidamente e olhei em volta. Era a loja da família Lazar, de Henry. Eu respirei fundo. Ele havia me trazido para a casa dele que ficava atrás da loja. Por mais que eu estivesse feliz por poder ficar sozinha, não me senti bem com aquilo.

Se Henry tinha tanta certeza que eu não o amava, não era certo ir a casa dele assim. Mas lá no fundo, eu sabia que estava sendo boba. Ele estava apenas sendo gentil, um verdadeiro cavalheiro. Henry desceu primeiro e estendeu uma das mãos para mim, ajudando-me a descer.

Caminhamos silenciosamente até a porta, ele pegou uma chave no bolso e a colocou na fechadura, girando-a. Quando a porta se abriu, ele fez um sinal para que eu entrasse primeiro. Esperei que ele fechasse a porta. Ele passou por mim, mostrando-me o caminho para sua casa. Sua voz estava rouca quando ele falou, depois que já estávamos em sua casa.

– Ainda não compreendo.

Ele disse simplesmente, mais para si mesmo do que para mim. Mas mesmo assim, perguntei:

– O que você não compreende?

Senti seu olhar sobre mim e me virei na poltrona para encara-lo.

– Porque você não foi embora com ele?

– Porque ele não é você!

Pude notar que sua respiração acelerou, os olhos estavam com aquele brilho novamente. Mas também havia confusão.

– Eu não entendo. Você o ama, sempre o amou. Por isso rompi o nosso noivado, para que você pudesse viver com ele, ser feliz.

Eu me levantei e caminhei até sua poltrona, sentei-me em seu colo. Inclinei-me para frente, sem desviar o meu olhar do dele, colando nossas testas.

– Peter foi alguém que eu amei á muito tempo e ele mudou, eu mudei. Ele é meu passado, você é meu futuro. É você que eu amo, Henry. É você.

Fechei os olhos quando seus lábios tocaram levemente os meus, senti uma de suas mãos apertando-me a cintura, enquanto a outra passeava livremente por minhas costas. O beijo se aprofundou e eu pude sentir seu gosto, tão bom. Mesmo com o frio que fazia lá fora, eu me senti quente.

Quando o beijo terminou, os olhos de Henry tinham algo que eu nunca havia visto antes. Não sei descrever o que era, só sei que era algo que o deixava ainda mais perfeito. Antes que seus lábios se juntassem aos meus novamente, ele sussurrou:

– Eu te amo, Valerie.

Notas finais
Então era isso, pessoal. Espero que tenham gostado da fanfic. Comentem e me deixem saber o que acharam. Beijos, xXx.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!