It's All About Letting Go
1 Capítulo 1
Estava escurecendo, o céu tomando aquela coloração negra, mostrando nuvens que estavam por derramar água sobre a cidade. Uma brisa fria batia nas árvores que, em resposta, balançavam, fazendo surgir um alto barulho de folhas batendo. As pessoas estavam andando pela rua silenciosamente, indo para suas casas. O barulho do latido de cães, ao longe, era o único som, tirando o das folhas, que Gerry ouvia.
Ele estava sentando no banco de seu carro, que estava parado na calçada de uma das ruas. Colocou a mão na cabeça, pensando em tudo que tinha acontecido naquele dia. Gerry havia acordado como um dia qualquer, ido ao trabalho como um dia qualquer. Mas depois disso, as coisas tinham tomado um rumo imprevisível, e Gerry fez coisas, igualmente, imprevisíveis.
Depois de passar um bom tempo apenas parado, olhou para a rua como se procurasse algo. Viu uma mulher vestida em um casaco marrom claro, andando apressadamente pela rua. Observou-a quando, sem querer, deixou cair sua bolsa enquanto procurava algo dentro dela. Ela abaixou-se rapidamente e apanhou-a, reabrindo-a, pegando um molho de chaves e seguindo seu caminho. Ele parou para pensar se todos passavam por problemas como ele passava. Duvidava que as vidas fossem simples, mas também não acreditavam que todas elas ganhavam a tamanha complexidade que a sua apresentava agora.
Ligou o carro, colocou na primeira marcha e tirou do pé da embreagem calmamente. Não precisava de pressa. Não tinha mais nada para fazer. Resolveu dirigir pela cidade. Queria rever as coisas que havia esquecido, assistir às belezas daquela pequena cidade, que, outrora, fora lugar de muita felicidade e amor sem medidas.
A vida, como muitos dizem, é como uma montanha russa. Há picos e “depressões”. Uma hora pode estar muito bem estável, foi o que parecera por boa parte de seu casamento. Mas então, houve a queda. Várias quedas haviam surgido em sua trajetória, umas menores, outras, maiores. Mas então esse pequeno carrinho havia ido forte demais, e ele achava impossível que ele conseguisse subir de novo para o topo da montanha. E isso trouxe conseqüências que, agora, o machucavam.
Seguiu com o carro, olhando todas as casas, lojas, avenidas, carros que passavam por ele. Viu pessoas que brincavam no parque, casais que namoravam. Ele sentia falta de tudo aquilo, que outrora já fora seu. Queria saber se aquilo tudo era um sonho. Se quando abrisse os olhos tudo ia passar. Se quando abrisse os olhos tudo voltaria ao normal. Mas isso não aconteceu. Ele sabia. Nem tudo que quisesse se realizaria.
Dirigiu por mais meia hora, quando passou por uma das pontes mais antigas e abandonadas da cidade. Lá viu alguns moradores de rua dormindo em cima de papelões, encolhidos por causa do frio. Ele se sentiu enjoado. Nunca aceitara o fato de pessoas terem mais que outras. Sempre que pudera, ajudava os outros. Ele e Erin tinham cadastro em uma associação de auxílio aos moradores de rua. Todo o dinheiro que recolhidos eram revertidos à construção de albergues e compra de alimentação para ser distribuída em pontos específicos para aqueles que mal tinham o que comer.
Passou pela ponte olhando para as pessoas que lá estavam. Alguns olhavam de volta, encarando-o. Outros, inclusive, até faziam gestos obscenos em sua direção. Olhou para frente e viu algumas prostitutas. Dirigiu até elas e parou o carro perto de uma. Ela olhou em sua direção, piscou e, com a língua lambendo os lábios, foi até o carro dele. Encurvou-se diante da janela.
─ Olá ─ falou sorrindo. Ele percebeu que ela falava tentando excitá-lo. ─ O que o trás aqui?
Ele desviou a visão, olhando para frente. A expressão inelegível. Depois de um bom tempo, tornou a olhá-la.
─ Quando você cobra? ─ perguntou.
Ela falou, maliciosamente.
─ Depende muito. ─ Ela falava pausadamente ─ Como, por exemplo, do tipo de programa que você vai querer. Pode depender, também, do tempo. Beijo na boca, também tem um preço um pouco maior. ─ Ela sorriu.
─ Entre ─ falou ele.
Obedientemente, ela abriu a porta do carona e entrou no carro. Ela usava uma blusa regata curta que dava mais volume aos seus seios, uma calça muito apertada, um sapato alto bege e tinha os cabelos em um penteado. Deixando apenas uns fios teimosos, caindo por seu rosto. Era bonita, pensou Gerry. Deveria ter uns 19 anos. Gerry se perguntou o que poderia tê-la levado àquela situação. Briga com pais ocasionando algum tipo de vingança, influência de alguma amiga, desejo de ganhar dinheiro de forma rápida e fácil... Existiam diversas possibilidades.
Ligou o motor do carro e saiu dirigindo. Andaram por algum tempo, passando pelas ruas da cidade. As lojas já estavam fechadas e poucas pessoas ainda circulavam pelas ruas, que já estavam desertas. A menina foi o caminho todo olhando para a frente. Depois de algum tempo, olhou para Gerry e sorriu:
─ Então, para onde estamos indo? ─ perguntou inocentemente.
Gerry a olhou.
─ Quero apenas uma companhia. ─ falou, fazendo uma tentativa de sorriso que não dera muito certo.
─ Ah, sim. ─ falou ela, tirando o sorriso do rosto.
Seguiu-se um momento de silêncio. Gerry olhou para ela algumas vezes com certa curiosidade.
─ Então, qual é o seu nome? ─ perguntou Gerry, olhando para ela e em seguida desviando o olhar para a frente.
─ Meu nome? ─ ela flou, mostrando um olhar de suspeita.
─ Sim, seu nome.
─ É... ─ hesitou ela ─ Trisha. Todos me chamam de Trisha.
Gerry achava Trisha um nome muito bonito.
─ Trisha? Um nome muito bonito. Então, Trisha, quantos anos você tem?
Gerry percebeu que ela tinha ficado um pouco desconfortável com a pergunta. Então ela virou-se para ele e sorriu.
─ Porque isso importa, não é? ─ Ao falar isso, colocou a mão em sua perna, um pouco acima do joelho, passando a mão ali repetidas vezes. ─ Você com certeza deve estar querendo relaxar. Então, para que perguntas? Essas coisas não importam.
Em seguida subiu sua mão, até sua parte íntima. Apertou o local, sentindo o membro dele.
─ Muito melhor, não é? ─ falou ela.
Ao toque dela, Gerry sentiu-se ficar ereto. Um pequeno espasmo percorreu seu corpo.
─ Não há necessidade de perguntas. Vamos apenas... aproveitar esse momento único. Vamos nos divertir.
Depois Trisha abriu o botão de sua calça, abrindo seu zíper e vendo sua cueca branca.
─ Você quer se divertir, não quer? ─ perguntou Trisha.
Gerry estava extasiado pelo momento. Todo o seu corpo desejava isso.
─ Muito melhor, não é? ─ repetiu ela. Ele sorriu. ─ Tenho certeza que assim fica ainda melhor.
Dito isso, ela colocou a mão por dentro de sua cueca, tirando seu pênis para fora, abaixando-se e colocando-o na boca. Gerry soltou um gemido.
Ao perceber o que estava acontecendo, empurrou-a.
─ Não faça isso. Eu disse que queria apenas conversar com você. Que queria apenas companhia.
Trisha ficou claramente com raiva, mas apenas encostou-se no assento.
─ Não estou no clima para esse tipo de coisa agora. ─ Gerry falou, e Trisha apenas olhou para o outro lado.
─ Desculpe, então. Só que não pareceu que você não queria quando coloquei na boca.
─ Hoje foi um dia muito difícil para mim. Muita coisa que eu não imaginava aconteceu hoje.
Trisha olhou para ele, interessada.
─ Como o que?
Gerry olhou-a e resolveu dizer.
─ No trabalho, descobri que, sem querer, peguei o celular de minha mulher por engano. Descobri porque chegou uma mensagem para mim, de um homem chamado Christopher. Eu não conheço nenhum Christopher. Portanto fui ver do que se tratava.
Gerry pegou o celular, enquanto falava. Procurou pela mensagem e mostrou para ela.
“Oi amor. Estou com saudades. Quando nos veremos novamente? Faz um bom tempo, ein? Você realmente escolheu ficar com Gerry? Sei que não tenho muita coisa, mas eu poderia ter assumido esse filho e poderíamos ser feliz sem ter muito. Por favor, volte para mim. – Christopher.”
─ Eu não consegui acreditar quando vi. Brian não era meu filho. Nunca achei que ele era muito semelhante a mim, mas não acreditava que Erin chegaria a esse ponto. Ela me traía há muito tempo. Brian tem 6 anos. Eu não consegui acreditar.
Trisha olhava diretamente para ela, totalmente concentrada no que ele dizia.
─ E o que você fez? ─ perguntou ela.
─ Saí do escritório e fui direto para casa. Ao chegar lá a vi lavando a louça e meu fi... ─ ele se interrompeu ─ Brian estava brincando no jardim de casa com seus brinquedos. Entrei em casa e gritei com ela, exigindo satisfação. Ela ficou calada e não respondeu aos meus questionamentos. Não sei o que deu em mim, mas quando me dei conta ela estava caída no chão com uma faca enfiada na barriga. Desesperei-me. Puxei a faca, mas ela continuou sangrando. Eu sabia que não podia fazer nada, pois caso eu chamasse a ambulância eu seria o culpado. Então coloquei minhas mãos em seu pescoço e apertei até a luz dos seus olhos desaparecer. Quando olhei para a porta da cozinha, meu fi... Brian estava me olhando espantado. Ao perceber que eu o encarava ele começou a gritar. Corri até ele e tapei-lhe a boca, depois derrubei-o no chão e também apertei-lhe o pescoço. Matei minha esposa e meu filho.
Trisha estava muito assustada, e Gerry pode perceber que ela tentava abrir a porta. Ele se desesperou.
─ Você não pode contar isso a ninguém. Afinal, escondi o corpo, ninguém viu. Ninguém vai me culpar. Vou dizer que ela está viajando. Além disso, eu estava com a razão. Ela me traiu. Não precisa ficar preocupada. Apenas não conte a ninguém.
─ Me deixe sair. ─ falou Trisha, com a voz tremente e lágrimas formando em seus olhos. ─ Por favor.
─ Mas, como vou saber se você não vai contar? ─ perguntou Gerry.
─ Eu não vou, prometo. Apenas me deixe ir.
─ Você não pode ir. Não até eu confiar em você.
Lágrimas brotaram pelos olhos de Trisha.
─ Pode confiar sim, não vou dizer nada. Eu prometo.
─ Mas, porque você está chorando. Não te fiz nada. ─ falou Gerry.
─ Me solte ─ suplicou ela.
─ Não ─ respondeu Gerry.
Trisha começou a gritar desesperadamente.
─ Não grita! ─ gritou Gerry, cobrindo sua boca com a mão. ─ Não tem necessidade de gritar. Eu não te fiz nada.
Trisha mordeu com a maior força que tinha a mão de Gerry. Gerry tirou a mão e gritou por causa da dor.
Nesse momento Trisha virou-se para a porta, abriu-a e saiu correndo pela rua deserta rodeada de árvores. Ao longe viu as luzes da cidade e correu naquela direção, gritando por “Socorro”.
Gerry saiu do carro e foi, em disparada, atrás dela.
─ Volta aqui, vagabunda. Não te fiz nada. Volta! ─ berrava ele.
Trisha não lhe deu ouvidos e continuou correndo. Pisou em algumas poças de água e quase tropeçou em uma pedra que estava na estrada. Ficou atenta caso algum carro passasse, mas nenhum passou.
Gerry estava chegando cada vez mais perto até que, finalmente, conseguiu alcançá-la. Empurrou-a, derrubando-a no chão. Assim que a pele dela entrou em contado com o chão, o pavimento arranhou seu rosto, fazendo surgir sangue.
─ Ta vendo o que você me fez fazer! Eu não queria fazer isso.─ falou Gerry.
─ Me solta! ─ berrou ela o mais alto que conseguia.
─ Fica quieta.
─ Não vou dizer nada a ninguém, por favor confia em mim.
─ Mas você correu do carro, não consigo mais confiar em você. Você tentou fugir de mim.
─ NÃO!
Ele enrolou suas mãos em volta do pescoço de Trisha. Ela gritou com o contato e tentou lutar, arranhando-o com suas unhas e tentando chutá-lo. Mas não conseguia, pois ele estava em cima de suas pernas.
Gerry apertou o mais forte que conseguia. Depois de algum tempo, percebeu que ela estava ficando mais fraca, seus movimentos mais lentos. Até que não havia mais nada. Ela estava morta.
Ele se levantou e pôs-se a chorar. Ele havia matado três pessoas naquele dia. Não estava se reconhecendo. Não sabia o que ia fazer. Lembrou-se de quando era criança e não fazia coisas erradas. Quando era tudo felicidade. Mas a sua vida tinha tomado um rumo que ele nunca imaginou que tomaria. Seu carrinho atingido o chão muito forte, era impossível voltar aos trilhos.
Ele resolveu que precisava esconder o corpo. Olhou ao redor e viu apenas mato lá. Foi até o carro, abriu o porta-malas e viu os corpos de Erin e Brian jogados lá dentro. Brian tinha os olhos abertos, numa expressão de terror. Ele chorou fortemente, arrependendo-se do que tinha feito, no que tinha se transformado.
Colocou os dois corpos no chão e pegou uma pá grande e uma muda completa de roupas. Foi até a floresta e cavou um buraco. Jogou os três corpos lá. Depois pegou sua roupa que estava suja e que guardava lembranças do que tinha acontecido naquele dia. Ficou completamente nu. Depois de colocar as roupas no buraco, junto com os corpos, vestiu a roupa e enterrou-os.
Depois virou-se e foi para o carro. No caminho pensou o que faria. Ele poderia dizer que e Erin e Brian viajaram. Não havia forma de ligarem o desaparecimento de Trisha a ele. Afinal, ela era uma prostituta, e prostitutas saíam com muitas pessoas. Mas tinha medo que a família de Erin suspeitasse. Ela era filha única. Seu pai era uma boa pessoa, mas muito arrogante. Sua mãe era um amor de pessoa e adorava passar o dia com os dois, às vezes. Eles moravam a três horas de distância. Ele teria que pensar melhor nisso. Por hora, ele queria apenas ir para casa.
Ao chegar no carro, abriu a porta e entrou. Sentou-se e colocou a chave. Respirou profundamente. Quando ia ligar carro, sentiu algo gelado tocar sua cabeça na parte traseira. Olhou pelo vidro e viu dois olhos encarando-o. Ele assustou-se.
─ Adeus. ─ falou a voz.
Então ele disparou.
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