Isto não é mais um romance água-com-açúcar
6 Infiltração
— Alguém me diga que eu estou apenas sonhando...! – Gintoki murmurou mal-humorado. – Alguém me diga que eu não estou vestido como uma mulher como eu estou vendo que estou!
— Está uma gracinha... Paako-chan! – Tsukuyo debochou.
O mau humor de Gintoki era mais do que justificado. Seu rosto estava completamente maquiado, com direito a batom bem marcado e sombras nos olhos. Seu cabelo rebelde, aliado a apliques, estava preso por marias-chiquinhas. Para arrematar o gracioso visual, quimono rosa florido e chinelos. Não precisava olhar sua imagem no espelho pra saber o quão ridículo estava vestido de mulher, porque já se sentia mais do que ridículo... Ainda mais com uma explosão de gargalhadas vinda de Tsukuyo, Kagura e Shinpachi.
Com amigos assim, quem precisava de inimigos?
Onde estava com a cabeça para topar ajudar Tsukuyo? Isso que dava começar a corresponder o amor de uma mulher...
No entanto, tinha a sensação de que pagar esse mico valeria muito a pena...
Tsukuyo estava com um belo quimono azul estampado e seus cabelos loiros estavam presos em um gracioso coque, enfeitado com flores cor de rosa. Sem a sua característica roupa preta, ela perdia parte do título de “Cortesã da Morte” e ganhava um ar mais “inocente”. Claro que a roupa preta era mais sexy, mas para o Yorozuya ela continuava bela.
Após estarem devidamente a caráter, Gintoki e Tsukuyo acertaram com Miwa, Shinpachi e Kagura os detalhes adicionais do plano de infiltração. Era chegada a hora de descobrir o que envolvia o tráfico de mulheres para os Amanto. E nada melhor do que acabar com essa ameaça às mulheres de Yoshiwara atacando por dentro.
*
Tarde da noite. Passos ecoavam por uma das ruas desertas de Yoshiwara. Duas mulheres, sozinhas, passavam por ali calmamente e pareciam bater um papo bastante animado.
— Paako-chan, não deveria ter dado uma garrafada no Yokoshima-san... Ele só te achou atraente...!
— Ele não passava de um pervertido nojento, Tsuki! – uma voz mais grave, que tentava ser suave, respondeu. – Não gosto de homens assim tão apressados. E você quebrou o dedo mindinho do... De quem mesmo?
— Nem sei o nome, só sei que ele queria enfiar a mão no meu quimono. Será que custa ele esperar até o momento certo?
— Ora, Tsuki, você é muito exagerada!
Entre os risinhos abafados que tentava dar como Paako, Gintoki estava era querendo que aquele plano funcionasse logo pra acabar tudo depressa. Odiava aquele disfarce acima de tudo. Parecer um traveco não estava em seus planos.
“Mas que droga...!”, pensou. “Por que isso tá demorando tanto? Já tá passando da hora do ataque!”
Seus pensamentos foram logo ouvidos, pois, naquele exato momento, ele e Tsukuyo foram imobilizados e, em seguida, receberam um pano molhado que tinha um forte odor, deixando-os completamente sem sentidos e sem oferecer qualquer resistência.
*
Tsukuyo foi a primeira a abrir os olhos e procurou se situar, tentando descobrir onde estava. Para começar, não reconhecia o local de imediato. Arrumou suas madeixas loiras, para ficar mais alinhada. Ouviu um ronco ao seu lado, que parecia de alguém ferrado no sono.
Parecia, não... Era realmente de alguém completamente ferrado no sono. Gintoki roncava muito e até babava enquanto dormia. Tsukuyo tentou acordá-lo, mas ele se virou e resmungou:
— Ah, qualé, Shinpachi-kun... Só mais cinco minutos...!
— Que “cinco minutos” o quê? – Tsukuyo cochichou, agarrando-o pelo quimono rosa. – Acorda, homem! Nós conseguimos!
Gintoki bocejou e perguntou no mesmo tom de voz, enquanto ajeitava o incômodo aplique de maria-chiquinha:
— Conseguimos o quê?
— Conseguimos nos infiltrar! Já podemos investigar quem está por trás desse esquema de tráfico, e...
Quando se virou para ver o rosto do Yorozuya, saltou para trás:
— O que é isso??
— “O que é isso”, o quê?
— A sua maquiagem... Tá toda borrada...! – disse e sacou um pequeno espelho.
Gintoki viu sua imagem no espelho e deu um grito agudo. O motivo era que sua cara mais parecia com a de um fantasma, coisa que o deixava completamente apavorado. O fato de ter esfregado os olhos fez com que ficasse com grandes borrões de rímel ao redor, e sua cara branca de susto fez com que ele mais se parecesse com um integrante da banda Kiss. A kunoichi tratou logo de consertar a maquiagem do ex-samurai, para não estragar o plano de infiltração.
Estavam em um grande quarto, ricamente decorado, parecendo uma grande suíte presidencial. Estavam apenas os dois ali naquele suntuoso cômodo. Tsukuyo foi checar a porta e constatou que estava trancada.
— Ei, qual vai ser o próximo passo agora? – Gintoki perguntou. – Sair daqui?
Eles ouviram passos se aproximando da porta e a loira respondeu:
— Não é boa ideia. Tem gente chegando aí, então temos que encarnar nossos papéis.
— Eu odeio essa parte...!
A porta do aposento se abriu, dando passagem a um ser humanoide, com pele lilás e cabelos tão prateados como os de Gintoki. O Yorozuya se perguntou se o ser em questão não era o Kaiohshin do Leste, saído do mangá de Dragon Ball para fazer uma pontinha em uma fanfic de Gintama. O alien, além da pele lilás e dos cabelos prateados, era de baixa estatura e tinha um olhar penetrante, bem como trajava roupas tradicionais japonesas.
— Devo adverti-las, caras damas, de que qualquer tentativa de fuga será devidamente rechaçada. – com agilidade, o Amanto lançou uma corda luminosa que algemou fortemente as mãos de Gintoki e Tsukuyo, que ofereceram alguma resistência, mas sem sucesso. – Sigam-me... O patrão as espera.
*
Várias mulheres, enfileiradas lado a lado e com as mãos amarradas, estavam como se estivessem expostas em uma vitrine, recebendo todos os tipos de olhares de machos bastante interessados. O grande problema é que eles não só olhavam como tocavam nas “mercadorias”.
Os dois infiltrados ali rezavam mentalmente para que ninguém os apalpasse, senão certamente os disfarces seriam postos a perder. Primeiro, porque Tsukuyo iria meter uma kunai no sujeito e, segundo, porque Gintoki não iria tolerar um macho botando a mão nele e jurava que enfiaria sua bokutou naquele lugar de quem cometesse tal coisa.
Para a sua sorte, não passara por isso, mas por ser ligeiramente mais alto, chamara atenção. Um amanto igual ao que os levara até ali – porém um pouco mais alto e esguio – fixava seu olhar tanto nele como em Tsukuyo, como se estivesse interessado.
Nisso, começou o leilão, no qual foram dados sucessivos lances até que o tal Amanto arrematou por uma grande quantia as duas “fêmeas” pelas quais estava interessado.
Horas depois, a Cortesã da Morte e o Yorozuya foram trancafiados em outro grande quarto, desta vez com mais mulheres, que pareciam bastante amedrontadas. As mulheres eram belas cortesãs que, ao que parecia, também estavam ali após serem leiloadas e arrematadas.
— Ei, Tsukuyo – Gintoki cochichou. – É impressão minha, ou estamos enfiados em um harém?
— Pelo jeito, sim, Gintoki. – Tsukuyo respondeu no mesmo tom. – Mas vamos começar a descobrir algumas coisas e, pra isso, precisamos nos socializar com as outras.
Nisso, a loira deu um tapa nas costas do Yorozuya disfarçado e disse com voz alegre:
— Vamos lá, Paako-chan! Vamos nos apresentar para as meninas!
Gintoki teve que se segurar muito pra não protestar e entregar o disfarce com a sua própria voz grave. Recuperou o equilíbrio após quase cair de cara no chão e disse, já tentando “afinar” a voz e encarnando sua personagem:
— Ai, Tsuki, isso dói...! O que as meninas vão pensar de você?
— Sou apenas uma pessoa bastante extrovertida, nada mais! Oi, meninas, eu sou a Tsuki e esta é a Paako-chan, ela é muito tímida, sabe?
Um silêncio sepulcral tomou conta do ambiente, enquanto as outras mulheres se entreolhavam, sem entender nada ali que acontecia com a dupla. As tais Paako e Tsuki eram realmente estranhas. Paako tinha um físico bastante incomum para as mulheres de Yoshiwara, não só a cor dos cabelos como os olhos de peixe morto e uma postura não muito feminina. Parecia mais o tipo “mulher-macho” do que outra coisa.
No entanto, um burburinho se fez ouvir entre as oito mulheres ali. Gintoki e Tsukuyo se entreolharam. Será que elas engoliram a história dos dois?
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