Issues - Short fic
1 ISSUES - O fim de um relacionamento
Notas iniciais
Atualmente, Férias de verão
EUA — Portland, Oregon
Junho, 2020 — 05:00 PM
Decidida remexo em minhas anotações e procuro um papel guardado há muito tempo em minha gaveta. Retiro meus desenhos inacabados, rascunhos obsoletos enquanto procuro a única coisa que me interessa naquele instante, a letra de uma canção. A responsável por fazer que um simples flerte se tornasse em uma relação de dois anos.
Ao procurar uma letra específica eu passo por várias outras de minha autoria, que talvez nunca fossem exibidas ou interpretadas. Um alívio domina meu ser quando encontro o que procurava, felizmente está aqui, intacta um tanto amassada e maltratada pelo tempo mas, legível.
Pego meu violão, testo alguns acordes e me esforço para lembrar de como a minha voz soava dentro daquela melodia. Confiro a letra repetidamente pois, insisto em trocar algumas palavras, contudo ainda é como me lembro, ainda se encaixa em muitos aspectos de um relacionamento falido.
A letra fora finalizada após um de meus términos, a cada discussão e desentendimento a letra era modificada. Porém, conforme voltávamos a nos relacionar a canção retornava ao lugar de origem: no fundo de uma de minhas gavetas, não porque não amava a canção, ou acreditava na ausência de sua relevância, pelo contrário, o meu apreço por ela era imensurável, trazia-me boas sensações, mas com o tempo tornou-se apenas uma memória e encontrá-la foi como resgatar algo que talvez tivesse se perdido.
Não é uma certeza e talvez não seja algo bom depositar tanta responsabilidade em um mísero pedaço de papel quando eu sei que o responsável por todas essas emoções tem outro nome, prender-me a algo material apenas pelo apego não é saudável. Mas afinal, como eu poderia ser saudável a essa altura considerando que não aderi isso à minha vida no âmbito pessoal?
Ensaio repetidas vezes a canção que já foi responsável por inúmeros acontecimentos.
Uma.
Duas.
Três.
Trinta vezes.
E ainda não parece o suficiente, talvez minhas cordas vocais doam um pouco devido ao esforço e decidi retomar alguns exercícios para aquecimento a fim de manter-me quieta em seguida. Preciso pôr um fim nisso. Preciso colocar um ponto final, sentir que fiz algo.
Em um completo silêncio organizo um breve cenário, posiciono minha câmera no tripé, a visão obtida através dela é a minha parte favorita do quarto repleta de fotos e desenhos autorais. É um espaço tão especial e íntimo. Há tanto de mim e das pessoas que fazem parte da minha vida.
Já passa das sete quando finalmente sento no banco com o meu violão em mãos para fazer algo, é o surto de adrenalina. Minhas mãos quase tremem, estou nervosa. É a endorfina que me deixa com a sensação de estar anestesiada.
Será que é mesmo esse o nome do hormônio?
Minhas roupas são as mesmas de sempre, simples e confortáveis. É claro que para a gravação eu não permiti que o pijama fosse usado, então aderi jeans e uma camiseta estampada para o meu outfit do dia, enquanto meu cabelo estava preso em um alto rabo de cavalo e meu rosto exibia uma maquiagem simples. Minhas mãos parecem suar.
Antes, ao programar minhas ações não esperava me sentir desta maneira, ansiosa e repleta de receios. Afinal, não existem espectadores neste instante, ninguém para me ver cantando ao vivo, em teoria tal fato deveria me tranquilizar. Porém a possibilidade do julgamento alheio me faz querer desistir, é claro, a possibilidade deste vídeo ser esquecido facilmente é imensa, contudo, a hipótese de que meus colegas de classe me enxerguem como uma ridícula é quase paralisante. Talvez nunca comentassem na minha frente, mas cogitar tal cenário me dá calafrios e ... Não! É o suficiente.
Respirei fundo quatro vezes e pensei comigo mesma:
"Você não pode controlar tudo, Clarissa. O que as pessoas dizem e fazem é por conta delas. Você é capaz de controlar suas ações, apenas."
Recordo-me de Dorothea e suas palavras, suspirando mais uma vez de olhos fechados enquanto buscava coragem para dar continuidade a algo que eu desejava fazer.
Além do mais, eles que se fodam não é mesmo?
O colegial acabou há tempos.
Olá universidade!
Reza a lenda que as pessoas da faculdade estão menos preocupadas com a vida alheia e mais interessadas em sobreviverem ao número enorme de matérias, professores e trabalhos, e bem... Em partes é verdade.
No momento em que o ano letivo se iniciar, não serei mais uma caloura, e por alguma razão temo que eu pareça infantil e que todos me achem ridícula. Eu sei, eu sei que estou pensando demais e me preocupando demais. Porém, infelizmente, reconhecer tal fato não me tranquiliza.
A agonia está presente assim como quando me apresentei para Jonathan há alguns anos. A ansiedade é a mesma, quase a mesma.
“É o poder da exposição, querida” uma voz ressoou na minha cabeça.
É claro que tornar-se vulnerável a esse ponto é novidade para mim, uma imensidão incalculável poderia me julgar sem o menor motivo aparente. Mas não importava, não importa. Eu não posso controlar todo mundo, não sou capaz de fazer isso, ninguém é, pessoas são maldosas às vezes e não está tudo bem, e eu não posso deixar essa possibilidade de julgamento e impedir de fazer algo que quero.
"Quantas vezes você já não de fazer algo que queria?"
"Quantas vezes mais você vai deixar de fazer qualquer coisa só porque tem medo do que as pessoas irão dizer?"
E mais uma vez as palavras de Dorothea surgem em minha memória. Respiro profundamente mais uma vez e conto até vinte. Ajeitei minha postura e soltei um grito ao fim com o objetivo de relaxar, rindo ao fim por minha atitude aleatória. Mas ainda assim eu pareço “presa” demais em minhas tentativas:
“Ah, oi. Eu me chamo Clarissa. Vou cantar uma música que eu… Péssimo. Novamente”
“E aí? Eu sou a Clary e escrevi uma canção, e… Eu odiei o que eu disse. Deletar!”
“Hey! Eu sou a Clarissa, na verdade eu não faço a mínima ideia do que eu estou fazendo… De novo!
“Eu sou a Clary, escrevi uma canção e espero que vocês gostem.”
Mesmo que ao final da gravação estivesse satisfeita com a introdução, e não cismasse mais como minha voz soava “falsa” ao me apresentar em frente às câmeras, ainda não sentia que a música soava perfeitamente. Algo parecia faltar. O vídeo já havia sido postado, mas a versão acústica não era o suficiente, quando pensei na canção a melodia era semelhante à obtida. Inicialmente investi em algumas batidas enquanto pensava no resultado final, porém por alguma razão desisti, mas neste instante parecia ser o que faltava. O ritmo era bom, contudo lento demais para o que eu sentia naquele momento.
Talvez meus recursos não fossem suficientes para que soasse como eu esperava. Sabia que algo precisava ser feito, então disquei um número conhecido por mim há muito tempo.
— Alô, Simon?
(>>>)
11:00 PM
Simon Lewis é o meu melhor amigo desde os sete anos de idade. Além de ser exemplar em computação e edição, é experiente com gravações de músicas devido à sua banda “Curse Paradise” que foi deixada de lado a partir do momento em que cartas de faculdades indicaram sua aprovação há um ano.
Seus óculos pendem de seu nariz, pois além de seu corpo estar curvado a armação está um tanto larga como consequência do uso constante, o que favorece a situação. Lewis segura meu notebook enquanto assiste ao vídeo. Não esboçava reação alguma, apenas aparecia esperar que acabasse. Observava-o sentado em minha cama, enquanto eu permanecia em pé, próxima à porta.
Talvez estivesse ruim, mas conhecendo-o sabia que diria isso da melhor forma possível. Pude ouvir o fim da canção, e em seguida olhou-me franzindo a testa:
— Jace te fez escrever isso? — perguntou curioso.
— Nós terminamos. — fui breve, reforçando o que ele já sabia. Lewis tinha conhecimento que eu tinha dado fim ao meu relacionamento, contudo não tinha sido atualizado sobre os mínimos detalhes, ninguém na verdade. Apenas souberam o necessário, e com isso quero dizer o comum “não estava dando certo”, o que com certeza não era mentira.
— Foi exatamente isso que eu quis dizer — suspirou — Você quer falar sobre isso? — apenas neguei com a cabeça, e apontei para o computador em seu colo pedindo sua opinião silenciosamente — Eu gostei. — endireitou a postura — Qual o problema com ela?
— Parece morta. — seu feição demonstrou confusão — Não quero dizer morta, mas parece muito distante da canção que eu idealizei. Eu também gosto dessa versão. Mas eu só queria fazer algo melhor. — tentei explicar — Mas acho que talvez eu não consiga sozinha. São muitos detalhes em pouco tempo, e eu nunca fiz nada do tipo. — respirei profundamente, torcendo internamente para que a resposta fosse positiva — Você pode me ajudar?
— Claro. — me empolguei imediatamente, esboçando um sorriso. Abraçando-o de forma desajeitada, fazendo com que ele se desequilibrasse e tombasse para trás — Mas eu preciso da aparelhagem… — riu da minha atitude, e empurrou-me levemente para lado — E nós precisamos conversar sobre o que exatamente te deixa desapontada com a …
— Obrigada, obrigada — o interrompi enquanto distribuía beijos por seu rosto. A felicidade era tamanha que não era capaz de contê-la, Simon abraçou-me desajeitadamente devido à posição que o deixei. — Vou pensar em algo essa noite, e…
— Acho que talvez você já tenha feito demais. — levantou-se, ficando em minha frente — Deixe isso pra amanhã, você precisa descansar. — revirei os olhos, gesticulando como se estivesse afastando um inseto — É sério. Depois vamos ter que pensar onde gravar e outros detalhes importantes e você precisa estar bem. Certo? — beijou minha cabeça e apertou uma de minhas bochechas. Apenas assenti, concordando — Vou indo, Fray. — piscou e saiu pela porta. Ouvi seus passos descendo as escadas e a porta principal fechando.
Joguei meu corpo para trás, sentindo o colchão macio relaxar minhas costas. Suspirei de alívio ao sentir meus músculos esticarem finalmente. Tinha conseguido, era um alívio. Embora ainda exista muito a se fazer, a sensação de ter “decidido” e tomado uma atitude é ótima.
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Atualmente, Férias de verão
Junho, 2020 — Terça feira, 03:00 P.M
Já tínhamos conversado sobre banalidades, nossas amizades, entrada na faculdade e como estava sendo a experiência de seu relacionamento com Izzy e eu estava me esforçando para escapar do assunto que hora ou outra chegaria: Jace Herondale.
Dentre tantos tópicos banais sobre nossas vidas como, antigas e atuais amizades, a faculdade e a experiência como um todo e o relacionamento amoroso de Isabelle e Simon, existe um o qual eu me esforço para evitar: Jace Herondale.
Simon tentou, contudo desviei do assunto da melhor forma que pude, sendo breve e vaga sobre o tópico em questão. Nos silenciamos após começarmos a trabalhar na música, Lewis analisava a letra e ouvia a versão publicada em seus headphones. Enquanto eu dedilhava meu violão pensando em como gostaria que as modificações fossem feitas. Ocupamos diferentes partes do quarto, Simon está em minha escrivaninha, ao mesmo tempo que eu me mantenho sentada no chão, pois enjoei do conforto da cama.
Subitamente ouvi um barulho, como se algo caísse. Desviei minha atenção e procurei o responsável por tal som, mas nada mudou, exceto por Simon que agora me encarava como se tivesse descoberto a resposta para um enigma escondido na música.
— O que foi? Tá tudo bem? — perguntei ajeitando-me, assumindo uma postura séria.
— A música não é de agora, não é? Essa é aquela música? — frisou. Não entendi. Permaneci olhando para ele esperando que me desse mais informações. Obviamente a canção é importante, existe uma história por trás, contudo me sinto incapaz de respondê-lo com certeza sem saber sobre o assunto — A música que você pediu o Jace em namoro. — concluiu. Minha reação foi encher o pulmão com ar. Olhando perplexa para Simon. — É essa não é?
Meus olhos arregalaram um pouco e pisquei algumas vezes antes de conseguir pensar em algo. Naquele momento eu entreguei a resposta, mesmo que sem a intenção. A dorzinha no peito apareceu, pois não esperava que ele descobrisse.
Como ele soube?
Meus amigos descobriram que eu fui quem pediu Jace em namoro e como o pedido foi feito. Porém, eu nunca cantei para ninguém além dele, mesmo que fosse algo solicitado frequentemente por eles enquanto Jonathan e eu ainda namorávamos. Ninguém, nem mesmo Simon ou Isabelle, conheciam a música usada no dia do pedido.
As palavras parecem não servir, então apenas assenti tentando poupá-las, e Simon tornou a perguntar:
— É por isso que você não gosta dessa versão? — pareceu curioso. Mas o silêncio perdurou por alguns instantes que pareceram mais uma eternidade até que eu respondesse.
— É uma versão muito bonita. — digo simplesmente — Mas é muito emocional — assumo ao respirar profundamente e pôr a mão na testa — ‘Pra mim é muito emocional. — fecho os olhos fortemente jogando o corpo para trás. Nosso diálogo parece ser preenchido por lacunas intermináveis de silêncio constantemente. Enquanto Lewis parecia ter na ponta da língua suas perguntas, eu soava como se estivesse processando lentamente cada palavra proferida.
— Você ainda gosta dele? — questionou após uma pausa. Ergui o tronco, sentando-me mais uma vez.
— Nós terminamos.
— Isso não é resposta.
— E isso importa? — revirei os olhos.
— Não parece uma versão de término, Clarissa. — mostrou a mão que segurava a versão escrita da canção — Você escreveu como uma confissão?
— Confissão? Essa letra é de meses atrás, já viu o estado dessa folha? Não é como se eu tivesse acabado de escrever. — fui na defensiva. Lewis retirou os óculos fechando os olhos ao suspirar. — Nós terminamos. Eu terminei. — desviei o olhar. Assumir que o término dependeu exclusivamente de mim doía, mesmo que a parte mais racional de mim gritasse que fiz o que era necessário, o que deveria ter sido feito há tempos.
— Certo. — virou-se voltando a encarar o notebook à sua frente. Ele não estava satisfeito com a minha resposta, porém minhas atitudes demonstravam que não estava interessada em continuar o assunto, e não seria ele a tocá-lo novamente.
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