Isso não é...
45 Isso não é sorte.
Notas iniciais
You're lost and so afraid
Where is the hope in a world so cold?
(Você está perdida e com muito medo
Onde está a esperança em um mundo tão frio?)
45-Isso não é sorte. (Ops, palavra errada. Coincidência.)
Sexta-feira, 13 de março.
Sorte era um conceito que Julie não acreditava. Ou entendia. Acreditar em sorte era acreditar em destino, e se você acreditar em destino você está indiretamente não acreditando em livre-arbítrio e isso era algo que Julie acreditava. Ela odiava quando as pessoas não faziam nada e reclamavam; de Deus, do Universo, das estrelas, do carma, do destino, o que fosse... Julie odiava isso.
Não existia isso de Deus ou Universo te dá o que merece, não existia essa de pensamentos felizes atraem felicidade. As coisas eram como eram e fim. Você faz por onde. E mesmo se não fizer por onde, coisas ruins aconteciam. Podia parecer meio mórbido – era completamente depressivo ao menos – contudo Julie sentia certo conforto ao pensar nisso. Não porque coisas ruins podiam acontecer com qualquer um, mas porque isso não significava que as coisas ruins aconteciam por sua causa. Coisas ruins não aconteciam com ela porque ela merecia. As coisas eram como eram e fim.
Mas hoje definitivamente não era o seu dia de sorte – e o fato de ser sexta-feira treze não deveria ser ignorado, afinal também não existiam coincidências.
Oh, meu Deus, pensou Julie a cada passo. Oh, meu Deus. Oh, meu Deus. Hoje não era o seu dia, definitivamente. Era noticia ruim atrás de noticia ruim. Primeiro seu momento sozinha foi arruinado, depois veio Luke e Ashton brigando – essa parte não foi realmente ruim, mas... – Klaus aparece e dá uma bronca nela – eles que brigam e ela que é a culpada! – sua mãe faz revelações impressionantes... e Julie tem que andar como há muito tempo não andou.
No começo, era um simples caminhar, depois Julie se viu numa corrida lenta até que percebeu que estava sem fôlego, que suas pernas doíam, seu coração batia descontrolado, que a chuva... A chuva misturava-se a suas lágrimas.
Quando tinha começado a chover? Ela não sabia, não se importava. Como sua mãe pode fazer isso com ela? Com seu pai? Liz nem tinha tido decência de dizer isso em outro dia que não fosse o aniversário do seu pai! Era uma falta de respeito para ele, para ela mesma; com toda certeza Julie sentia-se desrespeitada.
As pernas doíam, mas mesmo assim Julie recomeçou a corrida. Ela queria fugir... Contudo ela sabia nunca fugiria o suficiente. Julie não podia fugir da sua mente, da sua imaginação, dos seus sentimentos...
Mas ela não precisava.
Julie não o viu chegado – seus olhos estavam fixos no chão, concentrados no próximo passo – entretanto quando braços a prenderam, ela não fugiu ou relaxou, Julie apenas passou os braços ao redor da cintura dele e empurrou o rosto contra o peito dele, sentindo-se as pernas fraquejar; chorando como não se lembrava de ter chorado antes, chorando pela morte do pai como nunca tinha se permitido. Ela não precisava levantar a cabeça para saber quem era, ela reconheceria aquela pessoa em qualquer lugar. Ele a entenderia.
—Calum – soluçou Julie, apertando a camisa dele entre suas mãos, com medo que ele fugisse dela, como todos pareciam fugir. Com medo que ele deslizasse pelos seus dedos e ela não pudesse impedir.
Luke podia ser a pessoa que Julie sempre iria querer por perto – ela o queria mesmo agora, apesar de saber como ele ficaria irritado com ela (e com razão) – mas ele não entenderia como era ser traído... Como era se sentir traído.
Sua mãe não tinha feito nada de errado, Julia sabia, mas saber na teoria e na prática era diferente. Julie considerava-se alguém racional – ela era racional! – mas... Mas era difícil. Seu pai tinha morrido, sua mãe estava viva; não havia variáveis na equação. Não deveria haver variáveis na equação. Entretanto tinha Julie.
—Shiii – murmurou Calum, alisando o cabelo dela em silêncio.
Julie queria rir apesar de toda a situação. Ela queria rir justamente por causa da situação. Ela sentiu o riso borbulhando no seu estômago junto com seu coração que tinha despencado do seu peito. Era um riso histérico, igual ao que tinha quando via um rato – ela ficava histérica, não era medo. Era um riso dolorido que machucava, mas não o suficiente para impedi-la de querer rir. A dor a fazia se sentir viva... Julie ao menos esperava que fizesse.
—Você está toda molhada – disse Calum, depois de um tempo, percebendo que Julie não pararia de tremer tão cedo. Não quando o frio começava a chegar aos seus ossos e misturava-se aos seus soluços. – Vamos para casa.
—Eu não quero ir para casa – murmurou ela, fungando. (Calum teve que reprimir uma careta quando a sentiu esfregando o nariz na sua blusa.)– E-eu não quero ver a mamãe agora.
—Mas não podemos ficar na chuva. E eu não tenho um guarda chuva e minha blusa já está começando a ficar transparente.
Essa declaração fez Julie rir, somente porque ele era Calum e ela a amava e sentia que enlouquecia um pouco. Um riso suave e agradável; um riso divertido e não histérico. Um riso que deu a ela disposição para levantar a cabeça e zombar do seu amigo, porque ele era um idiota.
—Claro que não. Não queremos que ninguém veja seu corpo sexy, Calum.
—Vamos, Julie. – Calum revirou os olhos, ignorando a graça da situação. – Você precisa falar com Liz.
—Não agora.
—E para onde vamos?
—Congelar até a morte – respondeu ela, como se fosse óbvio. (Era óbvio, ela já congelava, só faltava a parte da morte.) – Ou morrer com pneumonia .
—Ou ambos.
—Você sabe como se aquece um corpo, certo? Tirando a roupa, ficando nu... – sussurrou Julie, perto do ouvido dele. Perto o suficiente para morder. Ou ver que ele corava apesar do frio. – Por que você está coran...
—Que história é essa de tirar a roupa e ficar nu?
Julie não queria levantar a cabeça e ver a pessoa que ela mais queria ver no momento, porque isso seria sucumbir e chorar ainda mais. Ela não queria ser fraca. Mas ela queria menos ainda congelar até a morte e ter no seu túmulo a epígrafe "Aqui jaz Julie Hemmings, órfã de pai, desgosto da mãe, gêmea controladora, amiga de coração gelado... Que ironicamente morreu de frio". Julie tinha pena de quem fosse gravar isso na sua pedra e ela não queria que sua última ação na terra fosse sofrimento para algum estranho aleatório. E se a única forma de impedir isso era levantando a cabeça e dividindo um guarda-chuva com Ashton, ela dividiria um guarda-chuva com Ashton.
—Parece que não vamos morrer de frio, Calum – anunciou Julie, levando seu amigo consigo.
Calum era o amigo. Calum era sua fogueira... E sua vela particular. Ele iria aquecê-la e a daria forças para impedi-la de se agarrar com Ashton. Em suma, Calum era sua dama de companhia.
—Se você quiser que eu tire a roupa para você, Julie, eu tiro sem problema – disse Ashton, passando braço sobre os ombros de Julie com um sorriso. Sorrindo ainda mais ao senti-la inclinando sobre si. – Para você também, Calum. Eu não deixaria um amigo morrer enquanto eu pudesse ajudar.
—Acho que eu prefiro morrer de frio – assinalou Calum, cruzando os braços que tremiam levemente comparados à Julie.
Ficar na chuva, sentir a água gelada, era uma falsa tortura, pois no final você acabava se acostumando; a verdadeira tortura estava em sair dela e perceber o quão frio era estar nela. Calum e Julie eram a prova disso, tremendo e batendo os dentes.
Por isso Julie tinha inclinando-se contra Ashton apesar de ter dito a si que não iria fazer isso, porque ela podia lidar com uma promessa quebrada quando estivesse bem numa cama, mas não num caixão, porque Ashton estava seco debaixo de um guarda-chuva. Seco e quente. E Julie queria um pouco daquilo.
—Então... Como vocês sabiam que eu estava aqui? – perguntou Julie.
—Acho melhor irmos para o carro antes – disse Ash, preocupado que ambos morressem congelados. Era só o que faltava para sua vida estar completa.
—C-car-ro? – gaguejou Julie.
Se tinha um carro por que, em nome de Deus, ela estava na chuva? Ela poderia estar sentada e aquecida num banco, descansando suas pernas que doíam! Mas não, ela estava na chuva, com as pernas sem forças e tremendo de frio.
—Oh – suspirou Julie, jogando-se no banco e suspirando.
—Oh – concordou Calum, sentando-se ao lado dela.
—O aquecedor agora não seria nada mau – sugeriu ela, como quem não queria nada, mas olhando desejosa para o próprio.
—Ou uma toalha – completou ele, olhando para Julie e franzindo a testa antes de desviar o olhar constrangido.
Julie olhou para baixo, curiosa pela reação de Calum, e constatou que... o-ohhh. Seu pijama tinha grudado na sua pele, como Calum temia ter acontecido com ele, mas que não aconteceu com ele. Ela estava numa situação pior. Ela estava na chuva por mais tempo que ele. Ela que tinha um pijama transparente grudado na pele.
—Só tenho uma camisa, eu acho – murmurou Ashton, abrindo o porta-luvas e encontrado um moletom.
—Você pode ficar com ele, Julie. Sua situação é mais crítica do que a minha – opinou Calum, forçando-a nas mãos dela.
—Se você acha que eu vou discordar, está enganado.
Colocando as mãos na barra do seu pijama, Julie começou a puxá-lo para cima quando percebeu os olhos que a encaravam. Era difícil não encará-la, ela sabia, mas deveria ter um limite para aquilo. Calum olhava-a com curiosidade, Ashton... Julie não queria nem saber o que passava na cabeça dele.
—Vou ter que furar os olhos de vocês? – perguntou ela, pegando-os de surpresa.
Consciente do que fazia, Calum desviou os olhos e fechou-os, envergonhado por estar encarando sua melhor amiga – Julie o perdoou. Mas Ashton estava ciente do que fazia desde o início e sorriu pelas palavras de Julie, tomando seu próprio tempo para encará-la de baixo a cima, dos pés descalços até os olhos vermelhos de lágrimas.
—Eu não me importaria de ter os olhos furados se essa fosse a ultima imagem na minha mente – disse Ash, finalmente fechando-os depois de ver um sorriso no rosto dela.
A única coisa que Ash realmente queria era isso. Um sorriso no rosto de Julie. Algo que não fosse apenas tristeza na expressão desolada dela. Vê-la chorando desesperada enquanto agarrava-se a Calum foi um dos piores momentos de Ashton, pois sabia que não havia nada que pudesse fazer para ajudá-la.
—Você realmente vai tirar a blusa, ficar nua, aqui? – perguntou Calum. – Na frente de um cemitério?
—É isso ou ficar com hipotermia e precisar de um corpo para me aquecer – retrucou ela, revirando os olhos adiantada pelas próximas palavras de Ashton. – E não é como se os mortos fossem sair dos túmulos para me comer.
Julie podia não saber quais seriam as palavras, palavras por palavras, contudo ela sabia do que falaria, qual era o contexto delas. Ao menos Julie pensou que Ash fosse oferecer seu corpo para aquecê-la – ela esperava por isso (talvez até desejasse por isso) – mas não foi o que ele fez.
—Você está com muito frio? – perguntou Ashton, virando-se com tudo no banco, preocupado.
Julie tremia muito, isso era certo, mas podia ser tantos motivos. Ela podia estar tremendo por fazer frio, por ter pouca carne e fazer frio, ou porque estava num choro silencioso. Tudo era possível, todas as opções tinham chances iguais. Todas eram para ser preocupar.
—Feche os olhos, Ash – avisou Julie, puxando a blusa para baixo. Ela mal havia chegado ao umbigo. Desse jeito, ela não seria retirada nunca. – A não ser que deseja que eu os fure. E não. Eu não vou morrer.
Dobrando os joelhos em cima do banco, Julie puxou sua blusa para cima, escondendo os seios com os joelhos, antes de puxar o moletom para baixo. Tudo o mais rápido possível para que Ashton não abrisse os olhos e tentasse espiá-la. Julie confiava em Calum, ele não era o problema, Ashton era. Até se um desconhecido passasse na rua e a visse – isso é se conseguisse enxergar algo além da chuva e do vidro fumê manchado pelo vapor – Julie não consideraria um problema, estaria mais para um milagre.
—Pronto – disse ela. – Como estou? Sexy? Fofa?
—O que? Não vai mais furar os meus olhos se eu os abrir? – questionou Ash.
—Como sabiam que eu estava aqui?
Cemitério não era um local de encontro certamente. Julie nem sabia para onde ia ate que chegou a entrada do cemitério e bateu em Calum. Ela nem sabia se iria realmente entrar. Julie nunca tinha entrado antes e não se sentia disposta a entrar agora. Então como sabiam que ela estava ali, quando ela nem própria sabia que estaria ali?
—Luke – responderam ambos.
Claro, isso não a surpreendia. Luke de alguma forma sempre sabia o que ela ia fazer antes dela mesma. Seu irmão sempre sabia onde ela escondia os ovos e livrava-se deles antes que ela pudesse utilizá-los. Luke era um estraga prazer, entretanto Julie nunca se sentiu tão grata por isso quanto agora.
—Ele mandou vocês virem? – perguntou ela, embora quisesse saber por que ele não tinha vindo atrás dela pessoalmente.
—Luke ligou primeiro para mim e pediu para te encontrar – disse Calum.
—Então por que Ash...
—Eu não podia sair. Festa chata – resumiu Calum.
—Mas...
—Eu sei, dã – zombou Calum, virando-se para que ela pudesse vê-lo sorrindo, mantendo os olhos fixo no rosto dela, como se Julie não estivesse vestida.
—Mas...
—Não se preocupe, Julie. Eu não iria te deixar sozinha na chuva.
—Então por que Luke ligou para Ashton...
—Porque ele obviamente não sabia disso.
De todos os pensamentos que Julie tinha, ela falava apenas 1$%, porque Calum sabia qual era os 99% restante mesmo que eles não fossem ditos. Ela amava isso – não o fato de ser interrompida, mas o de alguém conhecê-la tão bem. E odiava – quando se tornou tão previsível? Não importava.
—Eu te amo! – exclamou Julie, pulando em cima de Calum. – Você sabe disso, não é? Que você é uma pessoa muito importante para mim? – fungou Julie, esfregando o nariz. – Que eu faria qualquer coisa para te ver feliz?
—Eu acho que você ficou muito tempo na chuva – murmurou Ash. Julie demonstrando os sentimentos tão publicamente era uma Julie doente ou recentemente acordada.
—Claro que eu sei, Julie – disse Calum, mandando um olhar do tipo “não estrague o momento” para Ashron. – Eu também te amo. Agora, mova-se para o lado se não você vai ficar toda molhada de novo.
—Para a casa dos Hood, Ashton! – disse Julie, apontando para frente, como se tivesse avistado um super herói voando, sem se soltar do seu amigo. – Temos um Calum a devolver! A menos que você não se lembre do caminho...
—É claro que eu me lembro do caminho – murmurou Ash, grato por ter algo a fazer além de encarar Julie pelo retrovisor.
Julie estava acabada. Olhos e nariz vermelhos, lábios rachados, pele gelada que nem defunto (ou vampiro, embora ela fosse contrariar e dizer que vampiros não tinham pele gelada se não o sangue consumido iria coagular), pantufas num estágio final e ainda tinha o mesmo pijama horroroso que Ash via todo dia nela. Pelo menos, ele seria jogado fora depois disso.
—Você sabe que está sendo uma idiota, não sabe? – perguntou Calum, diretamente, olhando-a diretamente. Ele sabia o que ela fazia, ele conhecia aquela técnica de ignorar o que acontecia, mudando de foco.
—Eu acho que mereço ser idiota – murmurou Julie, cruzando os braços. Ela sempre podia contar com Calum para estragar o momento.
—Não com a Liz. Ela é uma ótima mãe.
—Calum – reclamou Julie, fechando os olhos e batendo a cabeça na janela.
—Escute. Ela é uma ótima mãe – repetiu ele. – A melhor mãe que eu conheço. – (Ashton discordava, mas não por muito.) – Quando você ficou desacordada no hospital por três dias, eu nunca vi Liz tão desesperada antes. Ela não saiu do seu lugar por um minuto. Toda vez que eu a encontrava ela estava cheia de olheiras, com os olhos vermelhos, descabelada... Você não sabe o quão doida Liz ficou. Ou como foi difícil fazê-la sair do seu lado, quando você abriu os olhos e voltou a fechá-los. Ela queria ser a primeira pessoa que estivesse ao seu lado quando você acordasse. Ela queria ser a pessoa que diria que Andrew morreu e tinha sido sepultado quando você estava em coma. Então você não será uma idiota com a Liz, ouviu, Julie?
—Você é um idiota – resmungou Julie, abrindo os olhos para vê-lo.
—Sim, eu sou. Mas você está sendo mais e sabe que estou certo.
Julie sabia. Julie sabia que ela estava errada. Cada vez que uma palavra saia da sua boca, Julie tinha vergonha de si, entretanto isso não fazia com que elas parassem. Foi por isso que ela tinha saído de casa, porque sabia que falaria o que se arrependeria depois... Não, Julie queria dizer cada uma daquelas palavras, mas se arrependia antes mesmo dela saírem da sua boca.
—Sim, eu sei – respondeu Julie. – Mas você sabe que eu serei ainda mais idiota hoje e sabe que é melhor não ir para casa.
—Você não...
—Não conversarei com Liz hoje. Amanhã – prometeu Julie, suspirando para que pudesse desenhar no vidro embaçado. – Mamãe não esperou ate hoje para dizer? Então ela pode esperar ate amanhã para ouvir.
—Julie...
—Certo, certo. Não vou discutir com Liz amanhã, vamos conversar que nem pessoas civilizadas... que não somos – ressaltou ela, para não deixá-lo muito esperançoso.
—Onde...
—Bem, eu não posso ficar com você, então só sobra Ash.
—Oi? – chamou Ashton, surpreso. – Que história é essa?
—Vou dormir com você! – cantarolou Julie. Completando (e recuando) em resposta a sobrancelha levantada dele: – Não assim, seu pervertido!
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