Isso não é coisa de garota

2 Não converse com estranhos - Parte I


Numa segunda-feira à noite, feriado do dia do trabalho, garotas se arrumavam em suas penteadeiras. Vestidos com pedrarias, brilhos e lantejoulas estavam dispostos sobre suas camas, aguardando a hora de ser o sortudo a ser escolhido. Elas seguravam o vestido, com uma das mãos, e colocavam uma clutch em frente, com a outra mão, em busca da combinação perfeita. No iPhone daquela garota, que se arrumava, tinha uma amiga fazendo o mesmo, via vídeo chamada. As duas trocavam opiniões e tiravam dúvidas a respeito de suas inseguranças.

Esse vestido fica bom em mim?

Essa roupa me faz parecer mais gorda?

O que eu uso? Eu não tenho roupa nenhuma — Ela dizia, olhando para a pilha de roupas em sua frente.

Quando essas garotas combinaram seus lindos vestidos, suas bolsas caras — que mal cabiam seus celulares — e seus sapatos imponentes, elas entraram em seus luxuosos carros e dirigiram até a Secrets, uma balada recém-inaugurada, bem no coração de West Beverly — Lar de famosos e artistas.

Na Secrets a música era alta e ritmada e a bebida liberada. Na porta, identidades falsas foram entregues aos seguranças e quantias exorbitantes de suborno foram pagas.

Chloe entrou acompanhada de Hanna, sua cunhada, que havia voltado para a cidade depois de anos. Junto com as garotas estavam Justin, namorado de Chloe e irmão de Hanna, Simon, irmão de Chloe, Noah e Jordan. Era um grupo de amigos de infância, com exceção de Hanna.

Dentro da Secrets o DJ tocava uma versão eletrônica de Miss Independent, do Ne-Yo. Era o tipo de som que faz você não conseguir ficar parado. Cabeças giravam de um lado para o outro, cabelos voavam e ocasionalmente a multidão saltava. Justin chegou próximo ao ouvido de Hanna e lhe disse que iria ao bar com os garotos e saiu, deixando Chloe e Hanna.

Hanna e Chloe pouco conversaram, estavam ocupadas demais se divertindo com a música. Havia um conforto naquela ausência de palavras, como se seus corpos se comunicassem sem precisar de uma verbalização. Era uma conexão agradável.

Bem próximo das duas, estava Madeline, sua melhor amiga Mia, o namorado de Mia, Seth, e Kyle, um amigo de Seth. Madeline fazia uma dança sensual, enquanto Mia dançava timidamente. Os dois garotos nada faziam, ficavam apenas parados, imóveis, como dois seguranças brutamontes, apenas observando. Eram másculos demais para mexer o corpo.

Uma figura familiar fez com que Seth tocasse o ombro de Kyle, cochichasse algo em seu ouvido e saísse de seu local, imergindo na multidão. Mia tentou acompanha-lo, mas sem sucesso. Acabou perdida e pressionada entre corpos suados, empurrada e espremida. E foi desta forma que ela acabou chegando ao bar.

Na entrada da boate, Louise chegou desfilando com suas amigas, as coadjuvantes de sua vida, Charlotte, Brooke e Kimberly. Elas foram até o bar e tomaram dois shots de tequila cada uma, como de costume. Feito isso, desfilaram até o centro da pista de dança.

Louise deslizou como uma dama de vermelho. Seu vestido rendado se destacava em meio à multidão de cores neutras. Como se ela fosse o centro da porra toda e todos girassem em torno dela. Pelo menos é assim que ela se sentia.

As garotas dançavam suas coreografias em sincronia, fruto de várias tardes assistindo videoclipes e dançando na casa uma da outra. Todas se moviam no mesmo ritmo.

Andando em meio à multidão, dois rostos familiares chamaram a atenção de Brooke e Kimberly, fazendo com que elas deixassem o grupo e desaparecem, restando apenas Charlotte e Louise.

Num dado momento, Charlotte avistou um estranho em meio à multidão. Um estranho muito bem vestido, com o cabelo bem penteado e barba feita. Mas não um estranho qualquer. Esse estranho a observa de volta.

Seus olhos fixos em Charlotte. Olhos nos olhos. Ambos em uma dança sensual de olhares a distância.

Ele caminhou com confiança entre a multidão, sem perder Charlotte de vista e, sem nem perceber, ela também caminhou ao seu encontro, deixando Louise sem nenhum aviso.

Então eles se encontraram e, como se já se conhecessem há anos, eles dançaram. Corpos colados dançando em sincronia. Charlotte que é contida, de repente se permitiu curtir o momento. Charlotte dançava de costas para o estranho, seus corpos se empurrando um contra o outro. As mãos grandes e fortes do estranho deslizavam lentamente pela pele negra do braço de Charlotte, e ela gostava.

De repente, uma chuva de papel dourado picotado caiu sobre eles. Um belo sorriso da garota, um olhar profundo do homem. Um daqueles momentos pelo qual você espera a vida inteira. A conexão. Charlortte que pouco acreditava no amor começou a se perguntar: “é ele?”.

Hanna também avistou um estranho — um lindo rosto na multidão. O rosto chamou Hanna com um acenar de cabeça. Hanna se perguntou: “Por que não?” e então o seguiu porta afora, deixando Chloe para trás.

De repente Chloe percebeu que estava sozinha. De repente Madeline também percebeu que estava sozinha. As duas estavam próximas, por que não ficarem sozinhas juntas? Numa aproximação espontânea de baladas, as duas começaram a dançar juntas, cintilando sob os holofotes que pareciam estar sobre elas.

No bar, Mia pediu uma água com limão ao barman. Com um dos cotovelos apoiados no balcão, segurando seu rosto angelical, ela mexia seu copo de forma melancólica.

— Mia Hathaway — Uma voz familiar a despertou de seu transe — Você em um bar? Nunca pensei que veria isso! — O garoto sorriu.

— Noah Hartley — Ela o saudou — Eu frequento bares. Você que não está lá para me ver.

— O que está bebendo? — Ele perguntou, se sentando na banqueta ao lado — Vou beber o mesmo que você.

Mia sorriu timidamente, fazendo suas bochechas corarem.

— Água com limão — Ela respondeu.

— Está em um bar bebendo água com limão? — Ele gargalhou, fazendo-a corar ainda mais — Eu bebo uma água com limão com você e você toma uma dose de vodka comigo.

— Eu não sei... Seth não gosta muito que eu beba.

— Meu irmão é um babaca. Não sei como aguenta — Isso fez Mia sorrir.

— Mas só uma — Mia aceitou o convite.

Noah pediu para que o barman trouxesse dois shots de vodka. Os dois pequenos copinhos com liquido transparente foram postos sobre o balcão. Noah direcionou um lindo olhar para Mia, que foi recebido como um desafio. Ele pegou um dos copinhos, virou o líquido e pôs o copinho virado para baixo, no balcão. Mia pegou o segundo copinho e fez o mesmo. O líquido desceu queimando por sua garganta e ela balançou a cabeça com o gosto, isso fez Noah sorrir. As bochechas sardentas de Mia ficaram avermelhadas e ela tocou o próprio rosto com timidez.

— Meu rosto está queimando — Ela sorriu. Noah levou os dedos gentilmente ao rosto dela e tocou suas bochechas com delicadeza.

— Está mesmo — Noah disse, se aproximando lentamente. Seus rostos estavam próximos e seus olhares fixos um no outro. Seus lábios tão próximos que seus hálitos se encontravam.

— Que merda está acontecendo aqui? — Mia se afastou bruscamente, quase caindo da banqueta. Seth estava atrás dela, parado, apenas observando.

— Não é nada, Seth — Ela disse, se levantando e, pegando no braço dele, continuou: — Vamos embora.

— Não — Ele puxou o braço — Quero saber o que está acontecendo entre vocês dois.

— Na boa, Seth. Não está acontecendo nada, mas se quiser brigar... — Noah abriu os braços, num convite para confusão.

— Vamos embora, Mia — Seth recuou. Agarrando Mia pelo braço, ele a arrastou pela multidão. Tipo um homem das cavernas, sabe?!