Isso não é...
67 Epílogo.
Notas iniciais
Epílogo
O céu estava claro como não deveria estar. Não deveria haver sol, céu limpo; deveria ter nuvens carregadas, tempestades e muita água. Um dilúvio. E mesmo um dilúvio não deveria ser suficiente. Mas seu pai amava dias de sol, então quem sabe o céu estava como deveria estar.
—Isso é ridículo — disse Julie, olhando para qualquer canto menos para baixo.
Existiam flores e flores e flores, Julie odiava rosas por isso — a maioria daquelas flores eram rosas. Existia grama bem podada, verde e brilhante; árvores, jambos e é claro flores. A adubação dali deveria ser incrível... ah, ela era. Corpos mortos deveriam ser um ótimo fertilizante. E aqueles jambos eram deliciosos — Julie pode ou não ter comido alguns, ou roubados quando era pequena.
—Isso não é ridículo — discordou seu irmão.
—Então por que estamos aqui? Papai não está numa cova dessas — apontou Julie, ainda sem olhar para a cova nos seus pés. Ou para a epígrafe que dizia "Andrew Hemmings".
—Você sabe a teoria da pequena borboleta.
—A maldita teoria da pequena borboleta — respirou Julie, tentando não sorrir. A maldita teoria da pequena borboleta a perseguia
—Exato — sorriu Luke. — E você sabe o que a segunda lei da termodinâmica diz sobre energia.
—Energia não pode ser criada ou destruída, apenas transformada — disse julie sem pensar. Se ela sabia algo, ela sabia algo; não existia espaço para dúvidas ou reflexões ou razões sobre seu irmão saber o que ela sabia. — Desde quando você sabe as leis da termodinâmica? Quando você se tornou esse bom aluno?
—Eu não sei, provavelmente quando fui obrigado a estudar, quando você se recusou a compartilhar a resposta.
—Cuidado, papai está te ouvindo.
—Ele não está — discordou Luke. — Se a teoria da pequena borboleta está certa, papai não está aqui. Papai nunca ficaria num local tão sem graça quanto um cemitério
—Eu sei disso — disse julie. — Mas eu não entendo porque eu estou aqui. O corpo do papai está aí, mas ele não está. Eu não entendo porque eu acordei e pensei "é hoje, é finalmente hoje".
—Você sabe o porque, Julie. Papai pode não estar aqui, mas... Essa é a comprovação que ele realmente não estar. E talvez você finalmente chegou a última fase do luto e precise dessa prova física.
—Tecnicamente, na minha opinião, a prova física seria a exumação.
—Nós não vamos exumá-lo
—Eu não disse que eu queria, mas essa seria uma prova física veridica.
Luke ficou calado, talvez refletindo sobre a veracidade da fala de sua irmã ou da falta dela, mas quando se pronunciou, ele disse:
—Vou te deixar sozinha.
—O que? Por que? Eu não quero ficar sozinha. Eu vou fazer o que?
—Converse.
—Converse? Eu vou conversar o que com uma pedra e um corpo deteriorado? Como você mesmo disse, a energia não está ali.
—Você não sabe — discordou Luke. — Ele pode ser uma dessas borboletas. Ou a grama, que nem...
—Oh meu Deus, você está assistindo rei leão e vai dizer aquilo que o Mufasa disse sobre o ciclo da vida, que os leões comem zebras e viram grama que as zebras comem! — acusou julie.
—Você enlouqueceu? Não responda — pediu luke, levantando a mão. — Eu vou atrás da Malia e você vai ficar aqui. Conversando. Entendeu?
Julie balançou a cabeça, observando impotente seu irmão caminhar com facilidade e conhecimento através de túmulos, epígrafe tristes, flores murchas e jambos deliciosos. Luke sempre vinha ali, percebeu ela. Não era porque ela não vinha ali, que seu irmão não viria. Não era porque ela veio que seu irmão a deixaria sozinha.
—Hum, Luke? — chamou julie, hesitante. — Sobre o que se conversa? Sobre o tempo?
—Sobre o que você e papai conversavam? — questionou Luke, pacientemente. Parecia até que Julie não sabia que tempo era para quando não se tinha assunto.
—Sobre o tempo — respondeu sua irmã, surpreendendo-o. — Papai gostava de falar sobre isso comigo, ele sempre começava a falar sobre o tempo quando me via e depois... E depois o assunto evoluía.
Luke riu, surpreso. Ele deveria saber que seria assim, porque seu pai e sua irmã eram maravilhosos e claramente não sabiam socializar. Deveria ser por isso que Julie começava com um assunto e termina com outro.
—Converse sobre o tempo então — disse ele. — Apenas... Converse. Entendeu?
Julie balançou a cabeça rapidamente, assentindo. Ela tinha entendido. E ainda não sabia o que fazer. O que ela diria sobre o tempo?
—Hum... Será que as nuvens abriram-se para saudar seu rei? — brincou julie, fracamente, fechando os olhos para encarar o sol. Seus olhos ainda queimaram e suas lágrimas deslizaram pelas sua bochechas. Ela fungou, passando o dorso da mão no nariz. — Sinto sua falta, papai. Ninguém... ninguém nunca me entenderá como você. Ninguém nunca me deixará dançar sobre os seus pais, me girando e dizendo que sou sua princesa.
Julie ainda lembrava desse dia. Era natal, nevava tanto que ninguém poderia entrar ou sair, fazia tanto frio que todos estavam dormindo juntos no chão, aquecendo um ao outro porque as diversas camadas de roupa e edredom não eram suficiente.
Eram tantas pessoas perto dela que Julie não conseguia dormir, com calor enquanto todos estavam com frio. Ela claramente deveria ter algum problema na recepção dos seus nervos, porque podia ver todos tremendo. Ou era algo genético, porque seu pai era igualzinho.
Sua mãe dormia ao seu lado, tão espalhada que Julie ficava surpresa de seu pai conseguir dormir com ela. Luke estava do seu outro lado, sozinho com o edredom que deveria dividir. Ao lado dele estava Calum e Malia, dividindo o edredom como julie deveria estar com seu irmão. E... E nada de Andrew.
Levantando com cuidado, Julie saiu pisando e girando com cuidado entre os espaços vagos, sentindo-se como Barbie em #. No ultimo, ela tropeçou e cairia se uma mão não tivesse segurado-a.
—Ei, pai — sorriu Julie.
—Ei, filha — riu ele, pegando-a pelos braços e levantando-a até que estivesse livre de corpos distorcidos.
Colocando-a no chão, Andrew ofereceu a mão e disse:
—Aceita essa dança... princesa?
—Não tem música, papai — disse julie
—Você não está ouvindo?
E ela estava. Julie não sabia como não estava antes, mas era como se quanto mais prestava atenção, mais alta a música ficava.
—Eu não sei dançar? — tentou ela.
—E nunca vai saber se continuar arrajando desculpas. Segure minha mão, essa vem aqui, pés sobre os meus. — Julie seguiu suas ordens. — E feche os olhos.
—Fechar os olhos? — repetiu ela, mantendo-os bem aberto.- Tenho certeza que não é assim que funciona.
—Não é — concordou Andrew. — Mas você parece ser uma mocinha que não vai me deixar guiar, então feche os olhos. Feche os olhos — pediu seu pai novamente quando ela não o fez.
Hesitante demais, confiante demais, Julie fechou os olhos e deixou seu pai guiar, sentindo, aproveitando, o voo. Parecia que ela estava voando. Livre, livre e livre.
—O que você acha? — questionou Andrew.
—Parece que eu sou uma borboleta! — exclamou Julie, abrindo os olhos e vendo a expressa igualmente alegre do seu pai.
—Ou uma fada — disse seu pai, girando-a.
Depois daquele dia, Julie virou uma fada, porque o sentimento daquele dia foi maravilhoso. Ela amava a sensação de liberdade e poder que aquele momento tinha lhe proporcionado
—Resumo rápido dos acontecimentos: estou bem, mamãe está bem, luke está bem, calum está bem, ash... ah, é, você não o conhece... Você o conhece — corrigiu-se, lembrando-se que Andrew conhecia. — Mas não tão bem. E não como meu namorado — disse julie, pensando se seu pai teria gostado de Ashton. Por uma parte, sim. Por outra, completamente não. Mas ele teria ficado ao seu lado, teria aceitado sua opinião como fez tantas outras vezes. E teria ficado feliz por ela.
Baixando os olhos para a epígrafe, Julie levantou a cabeça rapidamente, tentando esquecer o que via. Mas a imagem havia ficado gravada na sua mente, não tinha como fugir daquilo... Não conseguindo fugir daquilo, Julie baixou os olhos novamente.
Era ali que seu pai estava. Era ali que o corpo do seu pai apodrecia. Numa pedra simples, sem grandes ornamentos, com data de nascimento desconhecida e morte de 5 anos atrás. E com a frase "amado até o fim e depois".
—Ei, pai, será que você está bem seja lá onde for a continuação de aqui e agora? Será que sente a nossa falta? Eu sinto a sua. Eu sinto tanto a sua falta — chorou julie, mas sorriu em meio as lágrimas, meio rindo ao pensar no que seu pai diria "é melhor ter amado e perdido ou nunca ter amado?" e quantas vezes fosse preciso, quantas pessoas perdesse, quantas vezes seu coração fosse quebrado e devastado e colado junto novamente, Julie preferiria amar e perder do que
Nunca ter amado, porque o que ela sentia agora era Saudades e não arrependimento, ela sentia as lágrimas dos momentos tristes e os risos da alegria. Ela sentia a companhia dessas pessoas consigo, sendo uma parte sua, como ela era — foi — delas. Ela não estava sozinha.
—Hora de visitar Malia agora — disse julie, levantando-se e limpando a poeira de seu vestido. Colocando a mão em cima da pedra, ela se despediu — Tchau, papai.
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