Isso acaba aqui

1 Capítulo único


Notas iniciais
Esta fanfic faz parte do Projeto One Shot Oculta 2022 e é um presente para minha amiga secreta Vampira Brilhosa, feita com base no combo 1 Espero que gostem

2015

Estava quente, o calor daquela cidade era infernal. Parei na sombra de um telefone público, já praticamente sem uso, para tentar escapar um pouco do sol escaldante.

O orelhão ficava na calçada de uma espécie de birosca, de onde eu vi sair um moço ruivo muito bonito. Me permiti dar uma boa olhada nele, e o rapaz pareceu corresponder, ele era bastante atraente, mas nossa troca de olhares foi interrompida quando minha bolsa foi subitamente puxada do meu ombro. O garoto que a levou parecia jovem, mal entrado na adolescência, não que eu tivesse tido muito tempo para observá-lo, uma vez que ele corria velozmente com minhas coisas.

Meu primeiro instinto foi correr atrás do moleque, mas obviamente era inútil, porque ele era muito mais rápido do que eu. Antes que eu pudesse raciocinar qualquer coisa coerente, o rapaz ruivo, que eu admirei na porta do estabelecimento comercial, passou por mim correndo tão rápido quanto o garoto.

Sem saber direito o que fazer, congelei no lugar. Estava tudo dando errado naquele dia, primeiro me perdi do meu irmão, depois fui roubada e não tinha sequer a menor esperança de recuperar meus pertences. E tudo isso acontecendo apenas no meu primeiro dia nesta cidade.

Foi ideia de Emmett passar o carnaval no Rio de Janeiro, porém, naquelas ruas lotadas, eu tinha acabado me perdendo dele e dos outros. Eu havia parado na sombra daquele telefone público justamente na esperança de vê-los passar por ali a caminho do bloco, mas agora apenas assistia minha bolsa ser levada cada vez mais longe de mim.

Surpreendentemente, quando eu já estava quase os perdendo de vista, o rapaz ruivo alcançou o ladrão e tentou detê-lo. Infelizmente, o moleque acertou um soco nele, que caiu no chão, e continuou correndo em fuga. Apesar da escapada do mais jovem, percebi que minha bolsa ficou na mão do ruivo. Corri até onde ele estava, dessa vez o alcançando com facilidade.

Obrigada. – Tentei dizer em português, mas me enrolei com o idioma. – Desculpe, eu não falo sua língua. – Declarei em inglês mesmo.

Ele riu.

— Tudo bem, eu também sou americano.

— Graças a Deus, você me entende. Obrigada por me ajudar, é tão típico acontecer isso comigo, eu sou um verdadeiro imã para perigo. Você está machucado? – Desandei a falar.

— Estou bem. – Levantou-se do chão.

— Eu não tenho palavras para expressar minha gratidão pelo que você fez por mim, não consigo nem imaginar o que eu faria se tivesse perdido essa bolsa.

— Não foi nada. Eu não poderia vê-la sendo roubada e ficar parado. Fico feliz de ter sido útil. – Ele bateu a poeira da rua de suas roupas, que impregnou na ocasião de sua queda. – A propósito, me chamo Edward Cullen.

— Sou Bella Swan.

— É um prazer conhecê-la. Pena que a situação não seja das melhores.

— Tem certeza de que está mesmo bem?

— Sim, eu estou.

— Tem algo que eu possa fazer por você?

— Na verdade, tem sim. Por favor, eu quero que você tome cuidado. – Pendurou a bolsa de volta no meu ombro e passou a alça pela cabeça, deixando-a atravessada no meu corpo. – Carregue a bolsa sempre desse jeito, é mais difícil de levar. Também sempre proteja o fecho, assim não dá para furtar os objetos de dentro. – Pegou minha mão e colocou sobre o zíper. – E, por favor, evite ficar sozinha, não ande por lugares pouco movimentados. Aqui no Brasil, assaltos armados são mais comuns do que no nosso país, mas em multidões você estará mais protegida, só precisa se prevenir contra furtos.

— Obrigada pelas dicas. Seus conselhos serão muito úteis e eu vou segui-los à risca!

— Então, Bella, o bloco já deve estar saindo da concentração. Podemos ir?

Era tentador ver sua mão estendida para mim, me convidando a acompanhá-lo, mas eu precisava encontrar Emmett.

— Não posso, me perdi do meu irmão e eu preciso ficar aqui para tentar encontrá-lo, na multidão do bloco vai ser mais difícil.

— Tudo bem, então eu fico com você.

— Não, não precisa. Você já fez tanto por mim, não quero tomar ainda mais do seu tempo. Pode ir tranquilo para o bloco, eu me viro a partir daqui.

— Na verdade, eu mesmo vou me sentir mais tranquilo se lhe entregar pessoalmente ao seu irmão.

— Eu não vou quebrar se ficar sozinha por alguns minutos.

— Mesmo assim, só vou ter paz quando souber que deu tudo certo para você.

— Tudo bem. – Concordei com um suspiro. – Mas podemos pelo menos sair do sol? O calor dessa cidade é infernal!

Ele riu e assentiu. Então caminhamos juntos pela calçada procurando uma sombra onde pudéssemos esperar.

— Como é seu irmão? – Perguntou quando paramos novamente na sombra do telefone público.

— Não se parece muito comigo. Ele é alto, forte, tem cabelos crespos e escuros, a pele é tão pálida quanto a minha, mas ele tem os olhos azuis da nossa mãe. Ah, e está com uma fantasia de urso. – Completei.

Ele riu.

— Tudo bem, vou ficar de olho se encontro alguém com essas características.

— Sabe, quando aquele garoto pegou a minha bolsa, eu já não tinha mais nenhuma esperança de consegui-la de volta. Então você apareceu e, surpreendentemente, conseguiu alcançar o ladrão. Eu não achava que fosse possível alguém correr tanto quanto você correu. – Puxei assunto enquanto nós dois nos concentrávamos em procurar Emmett entre a multidão que passava na rua a caminho do bloco.

— Eu costumava praticar atletismo na escola, não é para me gabar, mas tenho alguns prêmios nos 100 metros rasos. Quando eu vi aquele rapaz tomando a sua bolsa eu não pensei direito, mas sabia que tinha que tentar ajudá-la. Foi bom descobrir que eu não perdi a forma.

— Você com certeza não perdeu mesmo a forma. – Corei imediatamente quando notei como aquilo soou. – Desculpe, não foi isso que eu quis dizer.

Eu estava envergonhada pelo que disse, por isso concentrei meus olhos na rua em busca de Emmett. Porém, ouvi quando Edward riu baixinho.

— Tudo bem, eu entendi o que quis dizer.

— Sorte a minha ter alguém tão preparado por perto para me ajudar.

— Não foi nada demais, era o mínimo que eu poderia ter feito.

— Você é um verdadeiro herói!

— É uma pena, mas deixei minha capa de Batman em casa. – Brincou.

— Você faria um ótimo Batman. – Deixei o comentário escapar enquanto estava distraída admirando a curva do seu maxilar.

– Vou encarar isso como um elogio.

— E foi um elogio. – Confessei corada por ter falado demais.

Achei que a vergonha fosse me consumir, mas eu não pensei no que estava fazendo e acabei falando demais. Edward apenas me encarava com um sorriso travesso, o que deixava as coisas muito mais difíceis para mim. Eu sabia que estava mais vermelha do que um tomate. Felizmente, antes que algo mais constrangedor acontecesse, avistei Emmett passar do outro lado da rua e bem atrás dele estava Rosalie, sua namorada.

Apenas Jessamine, irmã de Rosalie, não estava com eles. Porém, eu não estava contando muito com a presença dela durante os festejos. Eu costumava chamá-la de Mestre dos Magos porque a cunhada do meu irmão tinha a capacidade do ancião da Caverna do Dragão para sumir e reaparecer do nada, então, apesar de ser uma boa amiga, não era muito certo contar com sua companhia.

— Ali, meu irmão e minha cunhada! – Falei para Edward.

— Onde?

Ao invés de respondê-lo, acenei para Rose quando ela olhou bem na minha direção. Ela acenou de volta e puxou a mão do namorado, apontando onde eu estava.

— É uma cena um tanto quanto engraçada. – Edward riu. – O cara é um brutamontes com orelhinhas de urso pardo.

Sim, meu irmão poderia parecer meio bobo, mas isso era porque ele tinha um coração bondoso e puro. Emmett cresceu, mas sem perder a inocência de criança.

— Bella, você está aí! Estivemos te procurando por toda parte – Rose disse quando chegou perto o suficiente para que eu a ouvisse.

— Acabei me perdendo. – Expliquei. – Eu ainda tentei ligar para vocês, mas nenhum dos dois me atendeu.

— Deixei meu celular na pousada. – Ela se justificou e olhou para o namorado como se perguntasse sobre o aparelho dele.

— Eu também. – Emmett respondeu com um tom que dizia “eu lamento”.

— Pelo menos nos encontramos agora, eu já estava começando a ficar preocupada com você andando sozinha. – Rosalie concluiu, parecendo aliviada. – Felizmente, não aconteceu nada pior!

— Bom, mais ou menos. – Falei.

— O que houve? – Ela quis saber.

— Eu quase fui roubada.

— Meu Deus, Bella! Como isso aconteceu?

— Um moleque puxou a bolsa do meu ombro, não tive nem tempo de reagir. Mas felizmente eu tive ajuda e acabou tudo bem.

Rose arfou e Emm arregalou os olhos, ambos me analisando como quem procura algum indício de que eu não estava bem. Antes que eles me cercassem de superproteção, decidi continuar falando.

— Este é o Edward. – Apresentei o rapaz parado ao meu lado. – Ele me ajudou a recuperar minha bolsa.

— Sou Emmett, – meu irmão apertou a mão do outro. – Obrigado por ajudar minha irmã.

— Não há de quê.

— Me chamo Rosalie. – Minha cunhada também apertou a mão dele, mas seu olhar oscilou na minha direção e ela me dirigiu um sorriso discreto, porém carregado de malícia.

Rolei meus olhos. É claro que Edward era um homem muito bonito, mas ele tinha me ajudado e era só isso. Apenas isso. Eu nem sequer sabia se ele tinha namorada ou não.

— Bom, agora que você reencontrou seus amigos e está sã e salva, acho que é minha deixa para partir.

Não queria deixar Edward ir, mas seria deselegante da minha parte prendê-lo por mais tempo. O rapaz já tinha salvado meu dia e perdido vários minutos para garantir que eu ficaria bem até reencontrar Emm, eu não estava em posição de exigir mais nada dele.

— Claro. Mais uma vez, muito obrigada por tudo que fez por mim hoje, Edward. Vou estar para sempre em dívida com você.

— Você não me deve nada, Bella. – Me dedicou um sorriso gentil e depois me deu um rápido abraço. – Tome cuidado.

Pediu antes de acenar um tchau para meus acompanhantes e nos deixar.

— Bella, você está bem? Precisa que a gente te leve ao médico ou algo assim? – Emmett perguntou quando o outro homem se afastou.

— Não, eu estou bem. O ladrão não fez nada comigo. Apenas Edward que acabou levando um soco, mas ele também disse que estava bem.

— Você quer prestar queixa da tentativa de roubo? – Dessa vez foi Rosalie quem sugeriu.

— Não, a tentativa não foi bem-sucedida e nenhum bem foi subtraído, não precisamos perder nosso primeiro dia de Carnaval por causa deste incidente. Além do mais, duvido que a polícia consiga encontrar o culpado nesta multidão.

— Então, vamos ao bloco? – Meu irmão chamou.

Eu e a loira assentimos, e seguimos os três no sentido do fluxo até pararmos junto da maior aglomeração em volta de um trio elétrico.

Começamos a seguir a multidão quando o automóvel começou a se mover pelas ruas do Rio. A banda cantava uma música em português que eu não compreendia, mas parecia agradar a massa de pessoas à minha volta, que cantava alto junto do vocalista.

Eu estava me sentindo muito deslocada, não gostava tanto assim de festas, mas aceitei essa viagem para o Carnaval brasileiro porque gostava de passar algum tempo com meu irmão. Depois que nossa mãe morreu, quando eu tinha 7 anos e ele 11, acabei me apegando muito mais a Emm. E, quando ele começou a namorar, descobri que também gostava de passar algum tempo com Rosalie.

— Bella! – Ouvi meu nome sendo chamado e percebi que era Jessamine, que apareceu subitamente, bem do meu lado.

Ela usava um par de chifres vermelhos que piscavam e eu não fazia ideia onde ela tinha conseguido aquilo.

— Comprei algo para você! – Declarou com as mãos escondidas atrás das costas.

— Não sei se quero descobrir o que é.

Jessamine, apesar de ser uma amiga fiel que ganhei quando nossos irmãos começaram a namorar, tinha uma energia que não combinava muito comigo e uma tendência enorme a me meter em roubadas. Mesmo assim, ela tirou as mãos de trás das costas revelando o que trazia. Demorei a entender o que era o arco preto com um círculo branco felpudo preso a ele por um arame. Apenas quando Jess colocou a tiara nos meus cabelos e eu levantei meu olhar, vendo a auréola pairar sobre minha cabeça, foi que eu pude entender.

— Agora estamos combinando, – Sorriu satisfeita. – Você é a santinha e eu a diaba.

Rolei meus olhos, mas não disse nada.

Seguimos o bloco juntas por algum tempo, logo atrás dos nossos irmãos; até que, é claro, Jessamine sumiu de novo. Emmett e Rosalie estavam envolvidos em sua própria bolha, se agarrando sem pudor algum no meio da rua, porém eles não eram os únicos agindo daquele jeito no bloco, aquele comportamento era bem comum.

Estava quase me arrependendo de ter ido para aquela festa, onde me sentia completamente deslocada, quando avistei Edward pulando sozinho a alguma distância de nós. Como não estávamos muito perto do trio elétrico, as pessoas à nossa volta não estavam tão aglomeradas, de modo que eu pensei que seria fácil ir até meu salvador lhe cumprimentar e voltar para junto da minha família. Aproveitando que Rose e Emm se desgrudaram um pouco, puxei o braço dela, chamando sua atenção, e cochichei.

— Vou ali cumprimentar o Edward. – Apontei para onde ele estava.

Ela assentiu e me distanciei do casal.

— Olá! – Saudei quando parei ao seu lado.

— Ei, você é um anjo agora!

— Ah! Já tinha me esquecido disso aqui. – Toquei o acessório na minha cabeça.

Naquele momento baixei o olhar, tímida, e percebi que a auréola colocada na minha cabeça por Jessamine combinava com o top branco e com o short cravejado de glitter prateado que Rosalie me convenceu a usar. Corei ao notar aquela harmonização que eu não tinha percebido antes.

— Anjo combina com você. – Sorriu.

Eu não soube o que responder, mas parecia que o olhar dele era capaz de ver através da minha alma. Limpei a garganta e busquei mudar de assunto, antes que a força daquele olhar penetrante fosse demais sobre mim.

— Bom, eu vim só dar um oi. Acho melhor eu voltar agora, antes que me perca de novo.

— Não! Fica mais um pouco, anjo! – Corei pelo jeito que ele me chamou, mesmo sabendo que era por causa da fantasia.

— Eu não quero ser inconveniente.

— Não seria inconveniente nenhum, eu me perdi dos meus amigos e você seria uma companhia bem-vinda nesse momento. — Edward olhou rapidamente por cima do meu ombro antes de voltar a me encarar. — Além do mais, não acho que você vá preferir ficar com seu irmão e sua cunhada.

Olhei para onde estavam Emmett e Rosalie e, novamente, eles estavam se agarrando sem a menor vergonha. Fiz uma careta e emiti um pequeno som de desgosto, enquanto via os dois se pegarem.

— Você tem um bom ponto. – Admiti.

— Então é isso, você me acompanha a partir daqui.

— Quer ajuda para procurar seus amigos?

— Não, eles devem estar bem, em algum lugar por aí.

— Não se preocupa com eles?

— Não, muito provavelmente os dois se afastaram de propósito, eles devem estar precisando de privacidade.

Ri internamente. Privacidade num bloco de carnaval em pleno Rio de Janeiro não parecia um conceito muito viável para mim, porém não disse mais nada a Edward. Ele voltou a pular junto da multidão, como estava fazendo antes que eu chegasse, e eu voltei a me sentir deslocada, só que dessa vez em uma companhia diferente.

— Quer um pouco, anjo? – Me ofereceu a bebida da garrafa que estava na sua mão.

— O que é isso?

— Catuaba.

— Como?

— Ca-tu-a-ba. – Repetiu pausadamente.

— Do que é feita?

— Não faço ideia, mas é uma bebida local e é bem gostosa. Quer provar?

— Tem álcool nisso aí?

— Tem sim, por quê? Você não bebe?

— Não posso, tenho 19.

Não é como se eu nunca tivesse provado bebidas alcoólicas antes, mas agora estávamos em público, no meio de uma multidão, me senti na obrigação de avisá-lo.

— Bobinha, no Brasil o consumo de álcool é permitido a partir dos 18. Além disso, as autoridades deste país têm mais com o que se preocupar do que com menores de idade bêbados. Relaxa, não vai acontecer nada.

Sendo assim, assenti e abri a boca, para que ele despejasse um pouco do líquido. O gosto era diferente, era adocicado, mas ao mesmo tempo deixava um leve amargo na boca. O primeiro gole foi estranho, a bebida não estava exatamente gelada, mas estava fria e foi muito bem-vinda naquele calor.

— O que achou? – Ele me perguntou.

— É estranho. – Confessei.

— Quer mais?

Assenti e abri a boca de novo para ele me servir mais bebida. Edward também tomou um gole e voltou a fechar a garrafa.

Ele voltou a seguir o bloco pulando e dançando, como estava fazendo antes que eu chegasse. Segui junto dele, mas apenas andando, tímida demais para agir como todas aquelas pessoas à minha volta.

— Se solta, anjo! – Ele pegou na minha mão e me fez girar.

— Eu não sei dançar.

— É claro que sabe, é só se mexer.

Andamos mais alguns metros no meio da multidão, seguindo o bloco. Tentei me soltar, como Edward pediu, mas era estranho, me sentia esquisita tentando dançar.

Enquanto isso, ele pulava e tentava cantar as músicas em português, repetindo algumas pronúncias que ouvia. Por um instante, apenas o observei, ele parecia genuinamente feliz. Sorri discretamente, notando como ele se encaixava perfeitamente naquela festa e em toda a alegria dela.

— Você precisa se soltar! Quer mais catuaba?

Assenti e ele me deu mais um gole. Ele também bebeu e nós dois voltamos a seguir o bloco com a mesma energia de antes

Enquanto avançávamos pelas ruas do Rio de Janeiro, me preocupei com o fato de estar me distanciando de Emmett e Rosalie, os dois saíram sem celular, tinha medo de não conseguir encontrá-los novamente. Até que em certo ponto, Edward e eu nos aproximamos mais do trio e eu os perdi de vista.

— Não vejo mais meu irmão! – Disse a Edward desesperada.

— Você se lembra o nome do hotel em que estão hospedados?

— Pousada Beaufort.

— Eu sei onde fica, estou hospedado no Hotel Sol da Meia Noite, que fica logo atrás. Quando o bloco dispersar, eu prometo que te acompanho até lá e você volta para o seu irmão.

Meio apreensiva com aquele arranjo, concordei e deixei que ele me levasse.

— Relaxa, anjo! – Disse notando minha insegurança.

— Você não lembra meu nome, não é?

— Claro que me lembro, Bella! – Disse meu apelido como se para reforçar sua resposta. – Mas gosto de lhe chamar de anjo, lhe incomoda?

— Não. – Respondi corada por tê-lo acusado à toa e não voltei a conversar com ele.

Em alguns momentos, pedi a Edward mais alguns goles da sua bebida de nome estranho e as coisas se tornaram cada vez mais leves. Dava até vontade de sacudir o corpo no mesmo ritmo da multidão. Não sei dizer quanto tempo exatamente se passou, mas eu finalmente estava me divertindo e tinha esquecido totalmente de Emmett, Rosalie e Jessamine.

Eu pulava e dançava, do meu jeito desengonçado, sem me preocupar mais com o julgamento das outras pessoas. Também não entendia a letra das músicas, mas estava curtindo bastante o ritmo animado.

Em determinado momento, Edward me olhou e sorriu, mas logo voltou a seguir o bloco, dançando. Não consegui interpretar muito bem o que aquela expressão dele significava, mas também não estava pensando tão coerentemente, então só o segui pulando no ritmo da música também.

Instantes depois, Edward se afastou um pouco indo até um vendedor ambulante perto de nós. Não o perdi de vista em momento nenhum, até que ele retornou ao meu lado trazendo duas garrafas de água mineral.

— Beba água também – Edward me aconselhou, me entregando uma das garrafas.

— Obrigada. – Agradeci, seguindo seu conselho.

Não percebi quando nos aproximamos ainda mais do trio elétrico e, consequentemente, da maior aglomeração. O fato é que estávamos cada vez mais imprensados entre as pessoas e cada vez mais colados um no outro.

Mais uma vez Edward me olhou daquele jeito estranho e sorriu.

— O que foi? – Daquela vez não consegui conter a pergunta.

— Eu não vou me perdoar se não tentar isso. – Ele falou passando uma mão pela minha nuca e em seguida minha boca estava na sua.

Não resisti à sua aproximação e logo estava entregue ao seu beijo. A mão dele desceu da minha nuca pela minha coluna até parar na minha cintura, deixando um rastro de arrepio por onde passava. Usando os dois braços dessa vez, ele apertou minha cintura colando meu corpo ainda mais ao seu. Enquanto nossas línguas travavam uma batalha, enlacei meus braços ao redor dos seus ombros nos unindo ainda mais.

Enquanto nos beijávamos com fervor, me senti desequilibrar, esbarrando em algumas pessoas à nossa volta, mas não ousamos nos separar. As mãos dele continuaram percorrendo meu corpo, minha boca continuava explorando a sua, enquanto sentíamos as pessoas em que esbarrávamos nos empurrarem de volta.

Infelizmente, respirar nos era necessário e tivemos que nos separar. No entanto, enquanto eu ofegava, completamente alheia ao mundo ao meu redor, Edward desceu seus beijos para meu pescoço e posteriormente por todo meu colo.

Quando recuperei o fôlego, ele voltou seus lábios para os meus, encerrando nosso contato com pequenos selinhos. Ele sorriu para mim e eu retribuí o gesto, mesmo que totalmente corada por causa do nosso contato recente.

Voltamos a andar junto com o bloco, dançando no ritmo da música. Em alguns outros momentos ele voltou a unir os lábios com os meus e, sem debater muito comigo mesma as implicações daqueles atos, permiti que ele o fizesse.

O sol se pôs e rapidamente era noite nas ruas do Rio de Janeiro, o bloco que seguíamos teve seu desfecho e as pessoas começaram a se dispersar. À nossa volta, era audível outras diversas músicas vindas de bares, restaurantes e outras aglomerações; a maioria das pessoas do bloco seguiam para algum desses lugares após a dispersão, porém eu e Edward não. Permanecemos juntos, no mesmo lugar onde o bloco se dispersou, nenhum de nós dois tomando a iniciativa de ir embora.

— Para onde vamos agora? – Me perguntou. – Já está pronta para retornar ao hotel? Quer dar uma volta ou procurar outro bloco?

— Não sei. Está tão quente que eu sequer consigo pensar direito.

Eu estava confusa, me sentia meio tonta mas ao mesmo tempo alegre, não era uma sensação ruim, porém eu com certeza estava sendo incoerente.

— Então que tal um banho? De mar, quero dizer.

— Mas já está de noite.

— A praia não fecha, sabia?

— Jura, espertinho? – Respondi com sarcasmo.

— É sério, anjo. Você vai adorar a praia à noite, você precisa dessa experiência.

Não respondi, apenas olhei para ele desconfiada de que aquele plano seria uma boa ideia.

— Então, vem comigo?

Novamente não respondi, mas ele começou a caminhar e eu o segui, com ele guiando nosso caminho até a orla. Pouco antes de chegarmos ao calçadão, avistei uma figura loira solitária com chifres piscantes.

— Olha lá, aquela é minha amiga, Jessamine. – Apontei para Edward.

— Onde?

— Com chifres vermelhos piscando.

Ele riu e nós nos aproximamos da minha amiga.

— Jess, o que você está fazendo? – Perguntei.

— Curtindo, Bella. Curtindo! – Me respondeu alegre, parecendo até um tanto alterada.

— Você viu Emm e Rose?

— Não e nem quero vê-los tão cedo, pretendo primeiro encontrar uma boca bem boa para beijar. Por falar nisso, quem é o bonitão parado feito uma sombra atrás de você? – Corei pela forma como ela se referiu a ele.

— Este é o Edward, ele me ajudou quando eu quase fui roubada. Edward, essa é a Jess.

— Ei, me empresta isso! – Edward puxou a tiara de chifres da cabeça dela e colocou em si mesmo.

— Fantasia de casal combinando? Brega! – Jessamine revirou os olhos teatralmente, claramente implicando conosco.

— Não somos um casal. – Respondi ainda mais corada.

— Que seja! – Rolou os olhos novamente. – Agora será que você pode pedir para o seu namorado devolver a minha fantasia? Eu não tenho o dia inteiro para perder com vocês dois.

Foi minha vez de rolar os olhos.

— Não vou devolver, isso com certeza ficou bem melhor em mim. – Edward implicou de volta.

Que ótimo, os dois são iguaizinhos. Pensei ironicamente.

Naquele instante uma moça morena bastante curvilínea passou por nós e minha amiga quase quebrou o pescoço acompanhando-a passar. Sorri internamente.

— Ela nem era tão bonita assim. – Provoquei.

— Você só diz isso porque não gosta de mulher, a morena era uma deusa!

Edward apenas riu.

— É sério, será que você pode devolver minha tiara? – Jess se dirigiu a ele, entediada.

— Não devolvo!

— Dane-se. – Jessamine bufou e foi atrás da morena.

— Agora sou seu oposto, anjo. – Edward me disse com um sorriso travesso.

Revirei os olhos de novo e ele riu.

Nós dois voltamos a caminhar e logo chegamos ao calçadão, que estava lotado, assim como a faixa de areia. Fiquei surpresa de ver tantas pessoas na praia à noite, mas Edward estava certo, a experiência valia a pena. O mar ficava lindo no escuro, apenas com as espumas brancas das ondas contrastando. A areia também parecia mais clara, criando ainda mais contraste entre as cores noturnas.

— Nunca tinha visto o mar à noite, é lindo! – Confessei.

— Quer caminhar mais um pouco? Procurar uma área que esteja menos cheia.

Assenti e continuamos seguindo o calçadão para um dos lados.

— Quer beber mais alguma coisa? – Ele me perguntou quando um vendedor ambulante passou perto de nós.

— Acho que vou querer uma água.

— Estou falando de bebida de verdade, Bella. Álcool!

Mesmo assim, ele se dirigiu a um vendedor ambulante, falando em português. Após pagar, recebeu uma lata de cerveja e uma garrafa de água mineral, a qual me entregou.

— Você fala português! – Concluí perplexa.

— Meus pais amam este país e eu e minha irmã viemos aqui algumas vezes desde a infância. Foi daí que despertei interesse em fazer um curso de português lá nos Estados Unidos, mas não se engane, meu idioma não é tão fluente assim, sei apenas o básico para comprar uma comida ou uma bebida assim na rua.

— Você tem uma irmã? Isso é legal, eu simplesmente amo o fato de ter crescido com um irmão por perto.

— Tenho duas irmãs agora, meus pais adotaram a mais nova no ano passado.

— Vocês são adotados?

— Não, eu e minha irmã do meio somos filhos biológicos, mas minha mãe é psicóloga e há algum tempo ela começou a atender crianças adotadas, diante da inserção nesse universo, ela e meu pai decidiram adotar também.

— Isso é bem bonito da parte deles.

— É sim, tenho muito orgulho dos meus pais.

— Sabe, meu pai também adotou meu irmão. Quando meus pais se casaram Emm já tinha 3 anos. Mesmo assim meu pai o adotou e criou nós dois quando minha mãe morreu.

— Sinto muito pela sua mãe.

— Tudo bem, isso já faz tempo.

Continuamos caminhando em silêncio por mais alguns instantes, até que descemos para a areia e passamos a caminhar seguindo o mar.

— Qual o nome das suas irmãs? – Retomei nosso assunto anterior.

— Alice e Bree.

— São nomes bonitos. Assim como Edward. – Completei.

— Obrigado. – Sorriu. – Se quiser pode roubar a ideia dos nossos nomes para seus futuros filhos.

— São nomes bonitos, mas não, obrigada.

— E como seus filhos vão se chamar?

— Ainda não sei, mas quero que eles tenham nomes únicos, um nome exclusivo que ninguém mais tem.

— Você não tem medo que com isso eles sofram bullying na escola?

Bullying? Ah, não! Daqui para eu ter filhos já teremos superado isso, o mundo com certeza vai ser um lugar mais justo.

Ele riu alto.

— Ah, anjo, você é uma sonhadora incurável!

— Se não tivermos os sonhos, o que nos resta, então?

Eu não sabia o quanto já tínhamos andado, desfrutar da companhia de Edward era extremamente fácil, tanto que eu sentia que podia continuar caminhando com ele pra sempre. Quando me dei conta, as pessoas à nossa volta eram cada vez mais escassas. Ainda estávamos longe de sermos os únicos na praia, mas os outros estavam mais distantes agora.

— Está pronta para aquele mergulho?

— Não. – Fiz careta.

— Do que tem medo, anjo? Você vai gostar, confie em mim.

— Onde vamos deixar nossas coisas?

— Aqui mesmo. – Respondeu já tirando seus sapatos, camisa e os chifres piscantes de Jessamine, jogando tudo na areia.

— E se tentarem levar minha bolsa de novo?

— É um risco que temos que correr. – Ele respondeu com tom brincalhão.

— Não, Edward. Eu não posso perder essa bolsa!

Porém ele não me deu ouvidos, me derrubou na areia, tirou meus sapatos, minha bolsa e minha tiara. Colocou tudo na areia e usou sua camisa para deixar minha bolsa, sua carteira e seu celular mais escondidos. Na sequência me pegou nos braços, me tirando qualquer chance de lutar contra, e correu para o mar.

Quando já estava na água, me soltou deixando que as ondas atingissem meus joelhos. A água estava fria, mas não era nem de longe tão gelada quanto a praia congelante de La Push, perto de onde eu cresci. Até que aquele banho foi bem-vindo, levando em consideração o calor que eu estava sentindo desde cedo.

Permiti que Edward me levasse para mais fundo no oceano e mergulhamos de uma vez só. Quando retornamos à superfície, ele me puxou para mais perto, me prendendo no círculo dos seus braços.

— Tudo bem, você já me convenceu que o banho de mar foi uma boa ideia, mas será que podemos sair agora? Estou realmente com medo que tentem levar minha bolsa outra vez.

— Nós podemos ficar de olho daqui mesmo. – Ele nos virou de frente para o local em que nossos pertences estavam.

— Você nunca vai conseguir correr atrás de outro ladrão tendo que sair da água.

Ele bufou.

— Você não relaxa nunca? – Perguntou, porém mantive minha expressão séria. – Tá bom, você venceu, vamos sair.

E imediatamente começamos a nos direcionar de volta para a areia. No instante em que eu estava fora da água, me arrependi do mergulho, o vento batendo contra minhas roupas molhadas me causaram frio instantaneamente.

Edward começou a pular para se aquecer, ao alcançarmos as nossas coisas de volta. Repeti seu gesto e até que ajudou um pouco. Depois, nós dois nos sentamos na areia para contemplar o oceano.

— De onde você é? – Ele perguntou de repente.

— Washington, uma cidadezinha chamada Forks.

Bom, no verão anterior eu tinha me mudado para Nova York, para fazer faculdade na mesma instituição em que meu irmão estudava. Ele se mudou para lá 3 anos antes de mim e eu sentia muito sua falta, por isso na hora de escolher uma faculdade decidi voltar para perto dele. Porém, ainda sentia muita falta de casa, do meu pai e de tudo que eu conhecia até então, por isso não achei relevante citar a mudança para Edward. Preferia que ele pensasse em mim como a garota do interior que eu realmente era.

— E você? – Perguntei por fim.

— Sou de Chicago.

— É uma cidade linda.

— Conhece?

— Não, só vi na TV, mas já pensei em visitar.

— Você devia ir algum dia, e se precisar de um guia é só me ligar. – Deu uma piscadela.

Me peguei distraída, observando sua beleza. Já era noite e, apesar de estar movimentada, a praia estava escura naquele horário. A pouca luz que chegava até nós vinha dos postes no calçadão, nos deixando na penumbra. Mas, por incrível que pareça, os olhos verdes dele pareciam mais brilhantes e profundos naquelas condições.

— O que foi?

— Você fica bonito nessa luz.

— Você também. O perfil do seu lábio fica ainda mais irresistível no escuro.

— Então não resista.

Diante da minha sugestão ele chegou mais perto, seu rosto se aproximando do meu. Sua mão voltou à minha nuca e eu zerei a distância entre nós.

Nosso beijo não tinha nada de calmo. Assim como mais cedo, era como se tivéssemos urgência em explorar a boca um do outro. Não importava o quão perto estivéssemos, nunca parecia ser preto o suficiente. De repente, ele se ajeitou, se debruçando sobre mim. Senti meu corpo pender para trás e logo eu estava deitada sobre a areia, com Edward em cima de mim.

Agarrei seus cabelos e puxei, tentando conseguir ainda mais contato com ele, como se aquilo fosse possível. Ele desceu uma mão pela lateral do meu corpo deixando um rastro de arrepio. Sua mão brincou por um instante com a pele exposta da minha barriga entre o cós do short e a barra da blusa. Sorrateiramente, senti sua mão subir pela minha barriga, por dentro do top, e alcançar meu seio esquerdo, onde ele estimulou e apertou.

A carícia estava uma delícia, mas um alerta piscava lá no fundo da minha mente.

— Edward, não... – Tentei pedir afastando levemente meus lábios dos seus, mas soou quase como um gemido.

— O quê? – Ele também parecia gemer, quando respondeu com os lábios grudados à pele do meu pescoço.

— Por favor, pare.

— Por quê? – Perguntou com o rosto ainda enfiado na curva do meu pescoço, mas parou com os beijos e suspirou.

— Tem gente ao redor.

— Esquece eles, ninguém vai se importar com a gente. – Pediu, retomando os beijos.

— Mas eu me importo. – O empurrei levemente.

— Não seremos os primeiros e nem os últimos a transar na praia.

— Mesmo assim, eu não quero aqui.

E diante da minha declaração, ele suspirou novamente e saiu de cima de mim. Edward se jogou na areia ao meu lado e ficamos os dois encarando o céu, enquanto nossa respiração desacelerava.

— Quer vir a um lugar comigo?

Assenti em silêncio e nos levantamos para voltar a caminhar.

~*~

Eu estava deitada sobre o peito de Edward, apreciando suas mãos subirem e descerem suavemente pelas minhas costas nuas. Abri meus olhos me deparando com a pele do peito dele, o subir e descer ritmado do seu tórax conforme ele respirava.

Na minha bolsa, que repousava sobre a cadeira no canto do quarto, meu celular tocou, indicando a chegada de uma nova mensagem. Com um suspiro, e sem nenhuma disposição, levantei-me para pegar o aparelho.

Emmett: Eu e Rose estamos indo jantar. Onde você está?

Bella: Voltando para o hotel.

— Preciso ir. – Avisei a Edward.

— Mas já?

— Está tarde. Meu irmão, minha cunhada e minha amiga já deram por minha falta.

— Nós vamos nos ver amanhã?

— Quem sabe? – Perguntei retoricamente.

Eu gostei dele e com certeza repetiria a tarde e a noite agradável que tive ao lado dele, mas não queria fazer planos nem algo que levasse a me apegar, afinal eu tinha plena consciência de que ele era apenas um rolo de carnaval, passados aqueles quatro dias, Edward não seria mais nada para mim.

— Eu acompanho você até sua pousada.

— Não precisa, estamos tão perto, eu consigo ir sozinha.

— Eu faço questão.

Não discuti e nos vestimos os dois, em seguida saímos caminhando, conversando amenidades, até chegarmos na minha pousada.

— Está entregue. – Ele disse.

— Obrigada, Edward.

— Quais seus planos para amanhã, anjo?

— Combinamos apenas de ir à praia durante o dia, não podemos ir a nenhum bloquinho como hoje porque de noite vamos ver o desfile das escolas de samba.

— Ah sim, é um espetáculo maravilhoso.

— Você também vai?

— Não, já fui em outro ano, dessa vez eu decidi economizar o dinheiro do ingresso, que é bem caro. Mas sendo sua primeira vez eu recomendo demais, acho que você vai gostar.

— Assim espero.

— Então posso te ver na praia amanhã?

— Sim, você pode.

— Então, até amanhã, anjo.

— A gente se vê. – Selei meus lábios nos dele mais uma vez e entrei na pousada.

Após me despedir, fui direto ao meu quarto, onde Jessamine já estava. Ela parecia ter tomado banho e também usava uma roupa diferente que esta tarde.

— Vai jantar? Ou já comeu com o bonitão que roubou minha fantasia? – Ela me perguntou.

— Vou jantar. Vocês me esperam tomar um banho também?

— Vai rápido.

E eu entrei no banheiro do nosso quarto.

~*~

Na manhã seguinte, eu havia acabado de acordar, estava esperando Jess sair do banheiro, quando o telefone do quarto tocou. Atendi.

— Srta. Swan, tem um rapaz na recepção do hotel lhe procurando. – A funcionária me informou.

— Quem é? – Perguntei curiosa.

— Ele diz que se chama Edward Cullen.

— Ah sim. Pode pedir para ele vir até o meu quarto?

— Claro. Vou mandá-lo.

— Obrigada.

Após desligar a chamada, pulei da cama e me apressei para trocar de roupa, para receber Edward. Mal tinha terminado de me vestir quando o ouvi bater na porta.

— Ei! Que surpresa. – Disse ao recebê-lo.

— Bom, você disse que eu podia te ver na praia hoje, achei que seria mais fácil te encontrar aqui do que na beira-mar.

— Nós acabamos de acordar, ainda vamos tomar café-da-manhã.

— Eu posso esperar na recepção, se isso não for um problema para você.

— Não, tudo bem, pode ir lá. – Selamos nossos lábios rapidamente e ele saiu, deixando com que eu e Jess terminássemos nossa higiene matinal.

Naquela manhã, eu, Edward, Emmett e Rosalie aproveitamos bastante a praia. O sol estava escaldante, mas o mar refrescante, que estava mais gelado do que na noite anterior, era o contraponto perfeito. Para variar, Jessamine desapareceu e não tivemos mais nenhuma notícia dela até retornamos para a pousada, onde nos arrumamos para ir ver o desfile.

~*~

Edward estava certo, as escolas de samba eram um verdadeiro show, um espetáculo que valeu a pena cada centavo gasto com os ingressos. Estávamos em uma arquibancada, cercados daquele calor humano do Rio de Janeiro. Emmett tomou bastante cerveja, Jess aproveitou para tentar sambar como algumas pessoas lá na avenida, eu e Rosalie estávamos empenhadas em eleger nossa escola favorita.

Quando o desfile acabou, o sol já tinha nascido. Levando em consideração o tempo que levamos para conseguir um taxi e voltar para o hotel, as ruas da cidade já estavam lotadas de foliões, fantasiados, cobertos de glitter, bebendo e animados, prontos para começarem o terceiro dia de festa.

Assim que descemos do carro, um Emmett totalmente bêbado cambaleou pela calçada e decidiu que seria uma boa ideia se apoiar em mim. Como ele era muitas vezes maior que eu, obviamente nós dois fomos ao chão, eu me ralei toda na calçada e ainda fiquei presa sob o corpo do meu irmão.

— Emmett!

— Bella!

Jess e Rose gritaram ao mesmo tempo e correram para nos ajudar. Com Emm já de pé, sua namorada o ajudou a se apoiar e agiu como sua guia enquanto entrávamos na pousada.

— Já estão servindo o café-da-manhã. O que vocês acham de comer antes de ir dormir? – Jess sugeriu.

— Sinto muito, irmã, mas tenho que colocar esse aqui na cama, não vou conseguir mantê-lo de pé por muito tempo. – Disse Rose.

— Eu estou bem. – Meu irmão falou com a língua toda enrolada.

— Claro, claro, agora vamos para a cama. Vejo vocês mais tarde, meninas. – Rose saiu levando o namorado para a suíte deles.

— Então sobramos nós duas. Vamos tomar café? – Jess me chamou.

— Claro!

Nos servimos no buffet e escolhemos uma mesa para sentar. Enquanto comíamos, comentávamos sobre o desfile que assistimos durante a madrugada, como uma escola era mais bonita que a outra, como os detalhes dos carros alegóricos eram perfeitos e como as fantasias eram minuciosas.

Estávamos quase acabando nossa refeição quando o celular de Jess tocou dentro de sua bolsa. Ela o pegou imediatamente e leu a mensagem que chegou.

— É a morena de anteontem. Bella, me empresta o nosso quarto um pouquinho?

— Ah não, Jess. Eu estou exausta.

— É só meia horinha.

— Meia hora? – Ergui uma sobrancelha, nem ela acreditava naquilo.

— Tá bom, duas horinhas, no máximo.

— E para onde eu vou enquanto isso?

— Você é esperta, tenho certeza que vai pensar em algo para fazer. – Piscou para mim.

Bufei, mas ela não esperou minha resposta, apenas levantou-se da mesa e foi para nosso quarto, já digitando no celular.

Estava exausta, não costumava passar a noite acordada daquela forma, só queria cair numa cama e dormir, mas fui banida do meu próprio quarto.

Então uma ideia me ocorreu. Havia outra cama que eu já tinha usufruído naqueles dias. Eu tinha sono e não havia nada a perder, no máximo eu não o encontraria e teria que voltar para esperar na recepção da pousada enquanto Jessamine liberava nosso quarto.

Na noite anterior, foi ele que guiou nosso caminho praticamente sozinho, quando foi me levar de volta. Eu não sabia se conseguiria encontrar o caminho exatamente, mas com sorte eu me lembrava o nome do lugar. Precisei parar na rua, perguntar a alguém se falava inglês e pedir informação de como chegar no hotel de Edward, mas felizmente consegui chegar. Na recepção, por sorte, a primeira coisa que notei foi uma placa indicando que os funcionários também falavam minha língua.

— O quarto do Sr. Cullen, por favor. – Pedi à funcionária.

— A senhorita sabe o primeiro nome dele? – Me perguntou com um sotaque esquisito.

— Edward. Edward Cullen.

Ela procurou no computador e pareceu ter encontrado, depois digitou algo no telefone e esperou, mas pareceu não obter retorno da ligação.

— Não há ninguém na suíte, mas talvez a senhorita o encontre no nosso café-da-manhã.

Ela me indicou o caminho até o restaurante da pousada e eu agradeci. No caminho, cruzei meus dedos na expectativa de encontrá-lo. Assim que atravessei as portas do restaurante eu o vi, infelizmente Edward não estava sozinho, havia mais dois rapazes na mesa com ele. Estava quase dando meia volta e saindo dali, arrependida de ter ido procurá-lo, quando ele me viu e acenou para mim. Então era tarde para fugir e acabei me aproximando.

— Anjo, que bom te ver! Estes são meus amigos: Garrett e Benjamin. – Apontou os dois. – Esta é a Bella, a garota do bloco que eu falei para vocês.

— Olá. – Saudei tímida, acenando à distância para eles.

— Ao que devo essa surpresa?

— Nada, eu já estava de saída.

Fiz menção de me afastar, mas ele ficou de pé e me impediu de ir.

— Ei, espera! Se você veio até aqui deve ter tido um motivo.

— Não era nada. – Eu estava coberta de vergonha por tê-lo interrompido com seus amigos.

— Fala, anjo.

Diante daquele olhar penetrante, eu não tinha como resistir, então terminei sendo sincera.

— Jess está usando nosso quarto, não tenho para onde ir.

— E você pensou em ficar aqui? – Concluiu.

Assenti.

— Certo, eu te levo até o meu quarto.

— Não, pode continuar sua refeição. Eu vou esperar lá na frente.

— Deixa de bobagem, senta aí e espera com a gente.

Estava morrendo de vergonha de estar ali entre os três rapazes, mas os amigos de Edward eram bastante gentis. Apesar das diversas provocações entre eles três, em nenhum momento eles me deixaram desconfortável.

Não demorou muito para que eles terminassem o desjejum e os dois amigos saíssem para o bloco, deixando que Edward e eu fossemos ao quarto dele.

— Você está machucada? – Perguntou olhando para minhas pernas expostas pelo short que eu estava usando.

— Ah, eu caí.

— Você atrai mesmo todo tipo de perigo, não é? Primeiro o assalto, depois uma queda. Quer tomar um banho e lavar esses arranhões? Eu posso te emprestar algo para vestir depois.

Assenti e ele me indicou o banheiro da suíte. Quando saí, Edward estava me esperando com uma camisa dele, que parecia um vestido em mim, e com um spray antisséptico, que eu não sabia se ele tinha na mala ou se saiu para comprar enquanto eu estava no banho.

Após cuidar dos meus ferimentos, nos aconchegamos sob as cobertas. Com as cortinas fechadas, ar-condicionado ligado e os braços de Edward ao meu redor, a situação estava perfeita para o descanso que eu tanto desejei.

Não sei que horas eram quando acordei, o quarto continuava na mesma escuridão com as cortinas fechadas. Edward estava sentado na cadeira do quarto, tomando uma cerveja direto da latinha.

— Oi, anjo. Acordou? – Ele falou quando me viu espreguiçar.

— Dormi demais?

— Não, eu apenas fiquei cansado de continuar deitado, vim sentar um pouco aqui.

— Acho que já passou da minha hora, não é? Melhor eu voltar para minha pousada.

— Espera mais um pouco. Eu estava com fome, pedi comida para nós dois, não sabia se você ia querer, mas tinha esperança que me acompanhasse.

— Não precisava ter pedido comida para mim também, eu não queria te dar esse trabalho.

— Não é trabalho, na verdade seria um grande prazer desfrutar da sua companhia.

Eu ficava envergonhada pela forma com que ele falava comigo, parecia que ele me via como algo especial. No fundo do meu consciente eu sabia que aquilo era apenas artimanhas de um conquistador, que meu caso com ele não passaria daquele Carnaval, mas era inevitável entregar tudo que ele quisesse quando eu o ouvia falar daquela maneira. Era praticamente irresistível vê-lo implorar, fazendo aquela cara de cãozinho abandonado.

Terminei cedendo, a comida demorou um pouco, mas chegou. Comemos dividindo outras latinhas de cerveja, que ele pegou no frigobar do quarto. Comemos, bebemos e passamos boa parte da tarde conversando amenidades, nada muito pessoal sobre nossas vidas mas conversamos sobre nossos amigos, depois sobre música, filmes, livros e série, este último tema, pelo que percebi, era algo que Edward levava muito a sério.

Após discordamos sobre Ross de Friends, Edward se calou por um momento e depois se distraiu com a televisão que estava ligada. Passava um filme, eu reconhecia alguns atores na tela, mas o filme estava dublado em português, portanto eu não compreendia os diálogos.

— Dança comigo? – Me pediu do nada.

— Aqui?

— Sim.

Ele ficou de pé e me estendeu a mão. No filme, estava tocando uma música, eu não a reconhecia, parecia ser autoral daquele enredo, mas era lenta e tinha uma letra romântica. Me levantei e aceitei sua mão estendida na minha direção, deixando que ele me conduzisse naquela dança.

A música acabou e os personagem começaram novos diálogos, mas nós dois não nos separamos, continuamos nos balançando no ritmo de antes.

— Quando você vai embora? – Perguntou repentinamente.

— Amanhã, meu voo parte à noite. E você?

— Volto na quarta, meu voo é pela manhã.

— Isso quer dizer que não vamos nem nos encontrar no aeroporto. – Concluí com tristeza.

— Não vamos pensar nisso agora, ainda temos um dia inteiro juntos para aproveitar amanhã. – Ele pediu.

Concordei, deixando que ele continuasse a me conduzir na nossa dança. No filme, outra música começou, daquela vez mais agitada, mas não mudamos nosso ritmo, ainda dançando abraçados.

Delicadamente, Edward curvou-se até tocar seus lábios mais uma vez nos meus. Eu cedi imediatamente ao contato, apesar de tê-lo beijado apenas no dia anterior meu corpo já sentia sua falta. Nosso beijo fluiu com leveza até que paramos na cama.

Mais tarde, acordei assustada, sem saber quanto tempo exatamente tinha se passado. Daquela vez, Edward estava dormindo ao meu lado. Com cuidado, saí da cama e fui procurar meu celular na bolsa para ver as horas, porém aquilo só serviu para perceber que fiquei sem bateria.

— Que horas são? – Sussurrei para mim mesma.

Não sabia onde podia ver as horas, Edward não tinha nenhum relógio visível em nenhum lugar por ali. Então tive a ideia de abrir a cortina e tomei um susto enorme.

— Puta merda! – No susto, terminei falando mais alto do que pretendia.

— O que houve? – Ele perguntou confuso, ainda acordando.

— Já é noite!

Não vi de onde ele puxou o celular, mas no instante seguinte estava conferindo as horas no aparelho.

— São 19:22.

— Eu passei o dia todo fora, meu irmão deve estar querendo me matar!

Naquele momento eu já rodava o quarto feito um furacão, recolhendo minhas peças de roupas e me vestindo novamente.

— Tudo bem, me dá só alguns minutos que eu te levo de volta.

— Não dá tempo, eu tenho que ir agora!

— Eu levo você. – Insistiu.

— Não, eu posso ir sozinha. – Já estava vestida e pronta para ir. Subi na cama, depositando um selinho rápido em seus lábios. – Eu realmente tenho que ir agora.

Saí apressada sem nem dar ouvidos ao que Edward tentava me dizer. Logo eu estava na rua, caminhando para onde eu acreditava ser o caminho de volta para onde me hospedei.

Demorei um pouco para perceber que estava perdida, quando saí correndo da pousada de Edward, eu não fazia ideia para que lado ficava a minha pousada, não sabia para onde ir. Infelizmente, naquele momento também percebi que as ruas começavam a ficar mais vazias para aquele lado que eu estava indo. De repente, a voz de Edward invadiu meus pensamentos sem minha permissão. “E, por favor, evite ficar sozinha, não ande por lugares pouco movimentados”, ele tinha dito.

Enquanto eu estava sozinha na rua, perdida e assustada, uma voz atrás de mim me paralisou.

— Bella! – Era Emmett.

Meu irmão parecia bravo, eu não tinha nem coragem de sustentar seu olhar porque eu sabia que tinha feito besteira e estava errada naquela situação.

— Onde você estava? Sabe que Rose e eu passamos o dia inteiro preocupados com você?

— Eu.. eu... – Gaguejei, sem saber o que responder.

— Vamos voltar para a pousada. Lá a gente conversa. – Meu irmão demandou bravo.

O caminho de volta foi feito num silêncio desconfortável. Felizmente, Emmett sabia nos guiar de volta ao local em que nos hospedamos, porém ele ia na frente respirando forte e pisando pesado, enquanto eu seguia atrás dele encolhida, me sentindo exposta e pensando no que poderia dizer a ele.

Chegando na pousada, fui levada direto ao quarto dele e encontramos Rose lá dentro, parecendo apreensiva. Assim que me viu, a loira correu para meus braços, transparecendo alívio.

— Bella, graças a Deus!

— Senta aí, agora nós vamos ter uma conversa – Emmett ordenou, apontando para a cama.

Rosalie me soltou, parecendo confusa, e eu fui fazer o que meu irmão mandou, vendo minha cunhada se escorar contra a porta do quarto para nos dar espaço. Enquanto isso, ele permaneceu de pé, na minha frente, enquanto eu encarava o chão, ainda sem coragem de olhar nos seus olhos.

— Será que agora você pode me dizer onde estava?

— No Hotel Sol da Meia Noite – Fui sincera.

— O que você estava fazendo em outra pousada? Você bebeu, Isabella?

— Um pouco. – Confessei baixinho.

— Você bebeu? – Repetiu incrédulo.

Não tive coragem de dizer mais nada, então meu irmão seguiu com seu sermão aos gritos e quanto mais falava, mais alto era seu tom.

— Eu vivi um inferno hoje preocupado com minha irmã mais nova e você estava bebendo pelas ruas do Rio de Janeiro. Tem noção do que se passou pela minha cabeça nessas horas sem notícias suas? Estava prestes a te procurar nos hospitais, achei que você tivesse mais cabeça do que isso!

— Emmett, já chega! – Rosalie interveio.

— Não, Rose. Bella foi irresponsável. Ela precisa saber o inferno que a gente passou aqui sem saber onde ela estava.

— Emmett, eu disse que já chega! Não está vendo o estado da sua irmã? É claro que aconteceu alguma coisa que ela não parece pronta ainda para contar. Isso não é hora de brigar, nós temos que dar apoio a ela. Além disso, você não está com moral aqui para dar sermões. Se não estivesse literalmente caindo de bêbado esta manhã talvez ela tivesse conseguido nos contar aonde ia.

Meu irmão bufou e saiu do quarto batendo a porta. Rosalie se agachou à minha frente e segurou minhas mãos nas suas.

— Bella, está tudo bem se você não quiser dividir com a gente o que aconteceu, mas saiba que estamos aqui para te apoiar no que você precisar.

— Emm está certo. Eu fui irresponsável.

— Por quê? Pode me explicar melhor?

— Eu estava com Edward. Eu sei que não devia ter passado o dia todo com ele sem dar notícias a vocês, mas só fui atrás dele porque Jessamine pediu o nosso quarto para ficar com uma garota.

— Oh meu Deus, Bella! Por que você não disse isso logo? Eu vou matar a minha irmã por te tirar assim do seu próprio quarto.

— Ela não fez nada, eu fui atrás de Edward porque eu quis. E não falei nada justamente para Emmett não direcionar toda aquela raiva para ela, vocês duas são irmãs, não quero criar um mal-estar no relacionamento de vocês.

— Não seja boba! Jess faz muitas besteiras na vida dela e não pode arrastar você para isso também, ela precisa ser responsabilizada pelos seus atos.

— Deixa isso para lá. – Fiz um gesto de descaso com a mão. – Não precisa contar para Emmett tudo o que houve. Já passou, não precisamos reviver a fúria dele. De todo modo, eu também tive minha parcela de culpa.

— Tudo bem, Bella, mas se quiser conversar sobre qualquer coisa sabe que pode contar com a gente, não é?

— Claro que sim. Obrigada, Rose.

Abracei minha cunhada e fui para meu próprio quarto, onde Jessamine já estava.

~*~

Na terça-feira, último dia de Carnaval, todos nós amanhecemos com ânsia de aproveitar ao máximo nossas últimas horas no Brasil. Após o ocorrido no dia anterior, Emmett parecia um guarda-costas grudado em mim, mas felizmente ele não se opôs quando eu quis voltar à pousada de Edward, meu irmão apenas disse que ia comigo.

Mais uma vez, eu, Edward, Emmett e Rosalie aproveitamos o dia juntos, com Jessamine aparecendo magicamente em alguns poucos momentos. Pela manhã, achamos um bloco de rua, como no sábado, depois comemos na praia e à tarde achamos outro bloco, mas antes do final deste, acabamos nos separando. Meu irmão e sua namorada precisavam arrumar as malas para nosso retorno aos Estados Unidos, como eu já tinha deixado quase tudo arrumado pela manhã, apenas a roupa de usar no aeroporto estava fora da mala, me permiti ficar mais um pouco. Porém, ao invés de continuar no bloco, Edward e eu voltamos ao hotel dele, mais especificamente para a cama dele.

— Você precisa mesmo ir agora? – Perguntou me prendendo em seus braços, como se não tivesse a menor pretensão de me deixar sair dali.

— Sim, eu preciso. Tenho que tomar um banho ainda e organizar os últimos itens antes de fechar a mala. Se eu não sair agora posso terminar me atrasando para o voo.

— Eu posso lhe acompanhar ao aeroporto, se quiser. – Ofereceu subindo sua mão pelas minhas costas, me causando um arrepio.

— Não, acho melhor a gente se despedir aqui mesmo.

— Não vamos nem trocar contatos?

— Não. Afinal, que futuro a gente teria? Somos de lugares totalmente distantes e temos vidas muito diferentes. Acho melhor ficarmos só com as lembranças desses 4 dias, que foram muito boas.

— Tudo bem. – Ele suspirou e passou a mão nos cabelos, bagunçando os fios mais do que já estavam, mas parecia resignado. – Então, isso acaba aqui?

— Isso acaba aqui.

2022

— Vamos acordar a mamãe?

— Mamãe, acorda!

Despertei ouvindo as vozes das pessoas que eu mais amava no mundo. Lentamente, abri os olhos me deparando com meu marido parado na porta do nosso quarto e nossa filha nos braços dele.

— Bom dia, meus amores! – Saudei.

Quando nos despedimos no Brasil, eu voltei para a faculdade em Nova York e, por alguns meses, acreditei que realmente não fosse voltar a ver o homem bonito e gentil que conheci no Carnaval. Até que no verão decidi me inscrever num curso de férias de escrita criativa.

Eu já estava na porta do auditório com os outros alunos, quando decidi ir buscar água para tomar durante a palestra, com isso, quando voltei, todos já tinham entrado e eu estava atrasada. Por isso, apressei o passo, me concentrando no chão para não tropeçar, porém eu não vi que tinha mais alguém chegando e me choquei direto contra um corpo maior que o meu, quase indo ao chão.

“O que está fazendo aqui, anjo?” Foi o que eu ouvi e que me fez levantar o olhar para ter certeza que era mesmo Edward ali, me segurando para impedir que eu caísse.

Não tivemos muito tempo de conversar naquele momento, afinal estávamos atrasados para a palestra, mas sentamos lado a lado no auditório e depois ele me convidou para tomar um café. Foi então que eu descobri que ele estudava cinema em Dartmouth e que estava naquele curso porque queria ser roteirista, já eu queria trabalhar com editoração de livros. Após aquele encontro por acaso, passamos o verão inteiro juntos, quando não estávamos no curso estávamos passeando por Nova York ou dormindo juntos no apartamento que ele alugou para passar aquele período.

Naquele mês que passamos juntos, durante o curso de férias, tivemos muito mais chances de nos conhecer, foi um tempo mais longo que os quatro dias no Brasil e eu finalmente aceitei que se a vida nos proporcionou tantos acasos é porque deveríamos aproveitar de alguma forma. Então, naquele verão mesmo, aceitei ser namorada de Edward Cullen.

Daí até ele virar meu marido e pai da minha filha foi inevitável, Edward com certeza era minha pessoa certa, nós dois nos complementávamos perfeitamente, ele era feito para mim e eu para ele.

— Acorda, mamãe! – Minha pequena repetiu.

— Estou acordada, meu anjo. – Respondi me sentando na cama e estendendo meus braços para ela, que rapidamente pulou do colo do pai para o meu.

Com dois anos de idade, minha pequena já se alimentava de comidas sólidas, mas por recomendação do pediatra eu ainda a amamentava pela manhã e antes de colocá-la para dormir. Assim, habituada àquela rotina, ela se ajeitou logo no meu colo e buscou pelo meu seio sob o pijama.

— Sabe que dia é hoje? – Edward perguntou voltando a se deitar do meu lado na cama.

— Aniversário de Nessie. – Respondeu soltando brevemente meu seio e logo o retomando.

Quando mais nova, Renesmee não conseguia pronunciar seu nome, apenas “Ness” por isso acabamos adotando aquele como seu apelido, que posteriormente evoluiu para Nessie.

— Não, hoje não é aniversário de Nessie – Edward a corrigiu.

Desde que ganhou sua primeira festinha de aniversário, minha filha pareceu gostar muito daquele evento; por isso, vez ou outra, lembrava-se do dia e perguntava se era seu aniversário de novo. A ingenuidade dela e seu amor por aniversários sempre nos fazia sorrir, mas eu e seu pai precisávamos ensiná-la que aquela data só acontecia uma vez a cada ano e não com tanta frequência como ela gostaria.

— Hoje é Dia de Ação de Graças. – Expliquei, mas aquele dia não parecia empolgar tanto Nessie, que não esboçou nenhuma reação.

— Nós vamos jantar com o tio Emmett e a tia Rose. – Edward completou. – Você está animada para jantar com seus tios, filha?

Dessa vez ela apenas assentiu, sem largar meu seio.

— Você precisa mesmo trabalhar hoje, amor? – Perguntei acariciando os fios ruivos do meu marido.

— Infelizmente sim.

— Mas é feriado. – Me queixei.

— Eu sei, anjo, mas você sabe como é o diretor de ficção da emissora. – Ele já havia se queixado diversas vezes. – Aro quer que a nossa série comece a ser gravada ainda este ano, para ir ao ar no ano novo, então temos muitas cenas para adiantar e esses encontros da sala de roteiro são necessários. Infelizmente estou de mãos atadas hoje.

— Tudo bem, eu entendo. Mas não demore, estaremos te esperando para o jantar de ação de graças.

— Eu vou me arrumar, quanto mais cedo eu for mais cedo estarei de volta. – Me beijou mais uma vez e se levantou da cama.

— Volte logo para mim.

— Sempre, anjo! – Sorriu.

~*~

Apesar do combinado ter sido passar o Dia de Ação de Graças com Rosalie e Emmett, nenhum dos dois eram bons na cozinha, por isso eu e Jessamine nos dividimos para levar nosso jantar. Assim, quando Edward saiu, decidi não ficar com Nessie em casa, pensei em levá-la mais cedo para a casa do tio para que eu pudesse preparar as comidas com mais tranquilidade.

— Bella, que surpresa você aqui tão cedo! – Foi meu irmão mesmo quem abriu a porta para nós.

— Oi, Emm. Será que vocês podem ficar com a Nessie pra mim?

— Aconteceu alguma coisa, Bells?

— Não, só preciso resolver umas coisas do jantar.

— Algo grave?

— Não, não. – Respondi tentando usar meu melhor tom despreocupado. – Então, vocês podem ficar com ela?

— Claro. Quem está pronta pra fazer muita bagunça com o tio? – Ele gritou animado para minha filha.

— Euuu – Renesmee respondeu alegre e pulou para os braços dele.

No instante em que Emmett entrou no apartamento, correndo com a sobrinha no colo, Rosalie apareceu na porta.

— Bella! – Me cumprimentou com um abraço. – Entra um pouquinho, eu preciso trocar uma palavrinha com você.

— Precisa mesmo ser agora? Eu estou com um pouco de pressa.

— Prometo que vai ser rápido.

Diante desta promessa eu assenti e entrei no apartamento, sendo recebida pela lontra deles, que logo se enrolou nas minhas pernas. Legalmente, lontras não podiam ser animais de estimação, mas como biólogo meu irmão entrou com um pedido na justiça para adotar esta lontra asiática, que foi apreendida com um traficante de animais e tinha muitos sinais de maus tratos. Desde então, meu irmão e minha cunhada, que era veterinária, passaram a ser os tutores do animal.

Sentei-me no sofá da sala de estar e peguei a lontra no colo fazendo carinho no bicho. Não vi sinais de Emmett nem de Nessie pela sala, então deduzi que eles tinham ido pelo corredor, onde Emm e Rose transformaram um dos quartos em brinquedoteca, para a sobrinha e para os filhos que pensavam em ter no futuro.

— Bella, você pode enganar seu irmão, mas vejo essa ruguinha de preocupação na sua testa. Tem algo sério acontecendo?

— Não exatamente, mas eu esperava que Edward pudesse me ajudar com Nessie hoje para eu cuidar do jantar e ele simplesmente foi trabalhar.

— Hoje?

— Exatamente. E isso me deixa frustrada.

— Você chegou a falar com ele como se sente sobre isso?

— É difícil conversar quando mal temos tempo juntos. E na maior parte desse tempo Nessie também está com a gente, tem certos assuntos que prefiro não tocar com ela por perto.

— Você pode trazer ela para cá se precisar, só não deixe a falta de comunicação bagunçar o casamento vocês.

— É exatamente o que eu pretendo fazer. Obrigada pela conversa, Rose, mas está na minha hora, preciso mesmo ir.

Coloquei a lontra no chão e me levantei.

— Bella, saiba que se precisar de qualquer coisa pode me ligar e eu vou te socorrer na hora. – Minha cunhada falou levantando-se também. – Se algum dia Edward fizer ou disser qualquer coisa que te magoe pode me chamar que eu vou na mesma hora quebrar a cara dele.

— Obrigada, Rose. É bom saber que eu posso contar com o seu apoio. – Sorri sem humor e a abracei em despedida.

Ela me acompanhou até a porta.

— Bella! – Me chamou quando eu já estava me dirigindo à saída do prédio. – Eu fui testemunha do seu amor pelo Edward, e do amor dele por você, desde o começo. Eu sei que esse sentimento é puro e sincero. Tenho certeza de que tudo vai se resolver da melhor maneira possível, em nome desse amor enorme de vocês.

— Obrigada, Rose. Eu vou tentar me lembrar disso. – Sorri gentilmente. – Por favor, diga a Nessie que eu mandei ela se comportar e qualquer coisa me ligue que eu volto correndo.

— Pode deixar. – Rose consentiu.

~*~

Assim que voltei para casa, iniciei imediatamente os preparativos do jantar. Quase no mesmo instante também recebi uma mensagem da irmã do meu marido.

Alice: Precisa de ajuda com alguma coisa para o jantar de hoje?

Bella: Não, está tudo sob controle.

Quando aceitei namorar com Edward, ele ainda teria que voltar para seu último ano em Dartmouth, afinal ninguém abriria mão de um curso na Ivy League, porém ele me prometeu que voltaria em 1 ano para fazer especialização na cidade. Além disso, a irmã do meio dele, tinha sido aceita na mesma universidade que eu e no outono também se mudaria para Nova York.

Antes de voltar para sua faculdade, Edward me apresentou à minha nova cunhada. Ela era adorável e tinha apenas 1 ano a menos que eu. À princípio, fiquei um pouco apreensiva, Alice era nova na cidade, talvez eu fosse sua única amiga naquele momento, mas eu não era boa em relações pessoais. Felizmente, ela conseguiu controlar a situação por nós duas.

“Relaxa, Edward. Bella e eu seremos grandes amigas!” Foi o que ela disse antes do irmão ter que partir de volta para Dartmouth.

Alice era sociável, e é claro que rapidamente estava cheia de novos amigos, mas sua previsão acabou tornando-se certeira e nós duas ficávamos mais próximas a cada dia. Como melhores amigas, eu diria.

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Minha cunhada também se deu muito bem também com Emmett, Rosalie e Jessamine. Esta última, aliás, tinha mais em comum com a irmã do meu namorado do que eu pudera prever. Quando Edward arranjava um tempo para nos visitar em Nova York, nós 6 acabávamos nos tornando um grande grupo inseparável.

Em consequência disso, naquele ano combinamos todos de passar o Dia de Ação de Graças juntos, enquanto nossos pais e outros familiares tinham planos diferentes.

Porém, o dia estava correndo e nada de Edward voltar. Sem minha filha exigindo atenção o tempo todo, consegui terminar de cozinhar tranquilamente e depois me arrumei, mesmo assim meu marido não tinha voltado. Estava ficando tarde, então pedi que ele fosse direto para a casa do meu irmão e nos encontrasse lá.

Coloquei todos os pratos no carro e dirigi para o prédio de Emm novamente. É claro que, enquanto eu atravessava a rua com todas as travessas que estava levando, um carro passou muito perto e quase me atropelou, eu atraía aquele tipo de perigo, mas felizmente cheguei segura ao apartamento.

Alice e Jessamine, que agora eram casadas, já haviam chegado também e estavam brincando com a sobrinha. Quando eu entrei, a lontra mais uma vez se enroscou nas minhas pernas e quase me fez derrubar todas as travessas. Felizmente, Rosalie me salvou pegando tudo e levando até a mesa de jantar.

— Onde está o chato do seu marido? – Jess perguntou.

— Ele está vindo direto do trabalho.

— Ele está trabalhando hoje? – Alice estranhou.

— Infelizmente sim.

Logo quando se mudou para Nova York, Edward conseguiu um emprego na emissora Volturi. Na maioria dos casos, roteiristas trabalhavam como freelancer, porém este canal de TV por assinatura estava constantemente produzindo filmes e séries originais, por isso optaram por manter uma equipe criativa fixa.

Aquele contrato foi ótimo para meu marido, porque permitia certa estabilidade e garantias. Ele podia crescer gradativamente no trabalho e ir conseguindo cargos melhores. À princípio, sua função era apenas de assistente, ele não participava ativamente do processo criativo das séries em que estava envolvido, porém aquilo lhe serviu para criar experiência. Então, depois de quase dois anos naquela função, ele conseguiu sua primeira oportunidade para escrever alguns episódios, como roteirista da equipe.

Naquele mesmo mês ele me pediu em casamento e nós começamos os preparativos. Nos casamos no verão de 2019, um mês antes do meu aniversário de 24 anos e dois meses depois do aniversário dele de 26. Durante algum tempo, ele trabalhou naquela função de roteirista integrante de uma sala de roteiro, o qual escrevia apenas alguns episódios. Já eu, consegui emprego em uma editora, como sempre sonhei.

No ano seguinte, descobri que estava grávida, toda a família ficou feliz com a chegada da nossa menininha. Naquela mesma época nós dois começamos a trabalhar de casa, assim como o mundo inteiro.

Para nós, o home office não foi um problema, nossas funções permitiam isso. Porém, um ano e meio após entrar naquele sistema, o chefe do meu marido o chamou de volta para trabalhar no escritório. Eu, no entanto, como estava com filha pequena, fui liberada pela editora para continuar trabalhando de casa.

Edward, ao voltar para o escritório, foi recebido com uma novidade: pela primeira vez ele seria o chefe de uma sala de roteiro, havia mais um roteiro nascendo e daquela vez ele seria responsável por tomar as decisões mais importantes e também escreveria episódios mais relevantes da série.

É claro que a promoção do meu marido me deixava feliz, tinha muito orgulho do seu esforço e dedicação, porém aquilo fez com que ele ficasse cada vez mais ocupado. Há uns meses ele andava mais ocupado do que de costume, e foi exatamente isso que o fez sair em pleno feriado, além de frequentemente chegar tarde em casa.

Naquele dia, por exemplo, estávamos quase decidindo começar sem ele quando a campainha tocou e Rosalie saiu para abrir.

— Desculpa o atraso, anjo. – Ele pediu diretamente a mim.

Eu estava brava antes da sua chegada, mas era impossível manter aquela postura com o olhar profundo dele sobre o meu e seu sorriso torto direcionado a mim.

— Tudo bem, só vamos jantar logo. – Chamei.

— Finalmente! Eu estou faminta! – Jess reclamou e Emmett soltou uma gargalhada alta.

Nos acomodamos nos lugares à mesa redonda e meu irmão começou a dar graças.

— Sou grato pelas pessoas que estão aqui nesse dia conosco e por nossa comida. – Ele agradeceu e então apertou a mão de Rosalie, que estava à sua direita, para que ela fizesse seus agradecimentos.

— Sou grata por nossa saúde. – Rose agradeceu e passou a vez para meu marido.

— Sou grato pelas coisas boas que este ano trouxe, pelo meu emprego, por ter sido promovido e por estar indo tão bem.

Suspirei, me distraindo do que Edward falava. Seu primeiro motivo de gratidão era seu trabalho. É claro que eu me orgulhava do seu sucesso e também estava feliz com a promoção dele, mas ver que aquilo se tornou a prioridade da vida dele me deixava preocupada.

— Você tem alguma coisa para agradecer, lindinha? – Ele perguntou a Nessie, que estava no meu colo.

— Eu sou grata... – Ela olhou ao redor como se buscasse algo pelo qual agradecer, então seu olhar parou no boneco em seus braços. – Pela patrulha canina. – Respondeu por fim, arrancando risadas de todos nós. – E pelo papai e pela mamãe. – Completou.

Eu sorri e Edward soltou a mão de Rosalie para fazer carinho nos cabelos de Nessie. Depois ele apertou minha mão, indicando que era minha vez de falar.

— Sou grata pela minha família. – Disse simplesmente e apertei a mão de Jess. Esperava que com isso Edward entendesse o que realmente importava.

Jess agradeceu pelo amor e Alice pelas pessoas que nos cercam. Então nos servimos e começamos a jantar. Nessie ainda estava inquieta, o que me atrapalhou um pouco de comer. Felizmente, o pai dela terminou seu jantar rápido e passou a distraí-la para que eu pudesse comer mais sossegada.

Por fim, quando todos nós terminamos de jantar, eu e Alice ajudamos Emmett a tirar a mesa. Enquanto isso, Rose e Jess corriam atrás de Nessie, brincando de pega-pega, e a lontra corria atrás delas. Edward foi até a caixa de som de Emmett, escolhendo uma música para ouvirmos.

Após ajudar na cozinha, pedi permissão ao meu irmão para preparar para mim um dos chás da coleção importada de Rosalie. Com meu chá, passei pela sala, onde os outros conversavam e brincavam, mas fui direto para a varanda. Ainda era outono, mas já começava a esfriar, por isso, a bebida quente era bem-vinda. Suspirei admirando as luzes de Nova York diante de mim.

— Ei! – Ouvi a porta da varanda sendo aberta ao mesmo tempo em que a voz do meu marido. – Você está brava?

— Não. – Forcei um sorriso para enfatizar minha resposta.

— Me desculpe pelo atraso hoje, anjo.

— Tudo bem, pelo menos você está aqui.

— O trabalho está me consumindo, você sabe, mas eu não vou deixar isso ser um problema entre nós. Eu não quero ver você desapontada comigo.

Assenti, mas não respondi nada. Eu estava me cansando de sempre ter que compreender os atrasos dele.

~*~

Na segunda-feira após o feriado, acordamos juntos, como de costume, e seguimos nossa rotina, mas tudo muito mecanicamente. Levantar, nos arrumar, cuidar de Renesmee, tomar café, então Edward saía para trabalhar. Não voltamos a conversar, não tocamos em nenhum assunto substancial, apenas frases curtas e práticas.

“Bom dia.”

“Me passa o iogurte.”

“Você vem jantar?”

“Nessie tem balé hoje?”

“Vejo você à noite.”

Quando Edward saiu, minha obrigação era levar Nessie na escola. Aquele era o melhor horário que eu tinha para trabalhar, pois ficava sozinha em casa até o horário de ter que buscá-la novamente. O dia foi bem produtivo, consegui terminar a leitura de um original que a editora tinha recebido há alguns dias, e fiz todas as observações e sugestões necessárias. Enviei o texto para minha chefe devolver para a autora exatamente na hora que eu tinha que buscar minha filha na escola e levá-la ao balé.

Nessie trocou de roupa no próprio estúdio, antes de começar sua aula. Minha filha era adorável em sua roupa de balé e ficava ainda mais fofa tentando seguir os passos da professora, mas com seu jeito infantil, pouco coordenado. Pensei em mandar um vídeo para Edward; no começo, quando Nessie entrou no balé meses atrás, ele adorava vir comigo e ficar babando pela nossa filha exatamente como eu estava fazendo agora.

Meu marido, porém, demorou a ver o vídeo que eu enviei. Então voltei a me concentrar na minha filha e em seus movimentos. Quando sua aula acabou, conferi mais uma vez o aplicativo de mensagens, Edward tinha visualizado, mas respondera apenas com emojis de olhos de coração. Suspirei e levei minha filha de volta ao carro, prendendo-a em segurança na sua cadeirinha.

Ao ligar o carro, conferi as horas no painel. Era início da noite, mas o horário de expediente já tinha terminado para a maioria das pessoas. Então pensei em fazer uma visita para Alice, minha cunhada que com o tempo se tornou uma de minhas melhores amigas.

— Você quer ir ver a tia Alice? – Perguntei a Nessie.

— Tia Alice! – Repetiu animada.

Então passei a dirigir em direção ao apartamento da minha cunhada.

— Princesa da tia! – Minha cunhada abriu a porta já transbordando energia e tomando Renesmee nos braços. – Que visita maravilhosa.

— Você estava ocupada? Pensei em vir e conversar um pouco.

— Não, estava trabalhando de casa hoje, terminando a edição de um vídeo, mas já estava mesmo na hora de parar. Vocês já jantaram?

— Não, estamos vindo direto do balé.

— Tia, eu estou com fome. – Nessie se pronunciou.

— Está com fome, lindinha? A tia tem macarrão com queijo que sobrou do almoço, você quer?

Assentiu e fomos todas para a cozinha, onde Alice serviu uma pequena porção para minha filha e colocou no microondas para esquentar.

— Jess já chegou? – Perguntei.

— Ainda não. Hoje ela tinha um paciente à domicílio, deve demorar mais.

Jessamine era fisioterapeuta e atendia numa clínica ou em casa, o que fazia com que ela tivesse os horários mais malucos de todos nós do nosso grupinho.

— Você estava no balé, lindinha? – Alice puxou assunto entregando o prato a Nessie.

— Sim, eu estava dançando igual a minha professora.

Então, Nessie desandou a contar sobre seu dia no balé e seus ensaios, enquanto a tia ouvia tudo atentamente. Eu frequentemente tinha que lembrá-la de comer o macarrão que ela mesma pediu. Por fim, Renesmee acabou seu jantar e seguiu contando sobre seu dia. Foi quando Jessamine também entrou em casa.

— Olha só, temos visita. – Ela observou e nos cumprimentou.

— Sim, Bella e Nessie apareceram aqui de surpresa.

— Vocês já jantaram? – A loira perguntou notando o prato sujo da minha filha sobre a mesa.

— Não, só eu, tia. – Renesmee respondeu.

— Legal, vocês me esperaram. Posso pedir comida chinesa para nós?

— Na verdade, eu queria conversar. – Confessei.

— Conversa de adulto? Chato! Vem, Nessie, nós que somos jovens não precisamos ficar nessa chatice. – Jess ofereceu em tom de brincadeira, mas solicitamente tirando minha filha da sala, para que eu pudesse desabafar com minha cunhada.

— Ei! Eu sou mais nova do que você. – Alice protestou também entrando na brincadeira.

— Você é a mais velha daqui! – Também protestei, lembrando que Jessamine nasceu alguns meses antes de mim.

— Estou falando de juventude de espírito e aqui só eu e Nessie somos jovens. Vem, lindinha, vamos assistir desenho no quarto das tias.

E elas saíram do nosso campo de visão. Alice me conduziu também até a sala, onde nos sentamos no sofá.

— Pronto, pode me contar tudo. – Ela pegou nas minhas mãos.

— Eu queria falar sobre Edward.

— Certo, o que tem ele?

— Eu queria saber se você notou algo diferente nele.

— Como assim?

— Ah, diferente. De alguma forma, diferente.

— Não, não notei. Por que exatamente você está perguntando isso?

— Edward está diferente em casa. Mais ausente, mal conversa comigo, queria entender se o problema está em casa ou se você como irmã também notou alguma mudança.

— Sinto muito, mas para mim ele está igual. Acho que para nossos pais também, minha mãe já teria reclamado de alguma forma se Edward estivesse mudado.

— Então o problema é comigo. – Concluí com um suspiro arrasado.

— Acho que não, Bella. Edward te ama tanto, você deve estar interpretando alguma coisa errado. Talvez ele esteja com problemas no trabalho e não queira te contar para não te deixar preocupada…

— Não sei se é isso, Alice. Ele parece estar feliz com o trabalho, é em casa que estão nossos problemas.

— Você pensa em se separar do meu irmão? – Perguntou seriamente.

Pensei na resposta. Havia algo errado e eu queria uma solução, mas eu não era capaz de conceber a imagem de uma vida sem Edward ao meu lado, estávamos juntos há tanto tempo que já fazíamos parte um do outro.

— Não. – Respondi com sinceridade. – Mas não sei onde vamos parar na situação em que estamos. – Confessei, ainda sendo sincera.

— Se você não quer se separar, eu tenho certeza que vocês vão conseguir se entender. E se eu o conheço bem, sei que ele também não quer te perder. Ele é meio lerdo, mas te ama, você e Nessie foram a melhor coisa que aconteceu na vida dele.

— Disso eu não duvido, mas as circunstâncias mudam. – Suspirei.

— Não acho que seja o caso. Se meu irmão souber como você se sente em relação ao casamento de vocês tenho certeza que ele vai fazer de tudo para consertar as coisas.

Queria ter a mesma confiança que ela, mas eu estava insegura. Não soube o que lhe responder, por isso permaneci calada.

— Quer que eu fale com ele? – Ofereceu.

— Não! Acho que pode ser pior ele pensar que eu estou expondo nossa vida.

— Você não está expondo nada, eu sou da família! – Ela parecia ultrajada.

— Mesmo assim, agradeço sua oferta, mas eu vou encontrar um jeito sozinha de me entender com ele. Só precisava saber se você também compartilhava das minhas inseguranças.

— Gente, vocês ainda estão conversando sério? Porque o entregados está subindo com nossa comida – Jessamine falou aparecendo no corredor do apartamento. – E eu estou com fome.

— Tudo bem, já acabamos aqui. – Respondi. – Onde está minha filha?

— Está quietinha assistindo desenho lá no quarto.

Assenti e fui vê-la. Nessie realmente estava tranquila assistindo TV no quarto das tias, por isso a deixei lá mesmo enquanto jantava com minhas duas amigas. Naquela noite, ainda cheguei em casa antes do meu marido. Como todo o restante da semana, ele chegou tarde mais uma vez.

Mais tarde naquela noite, quando fomos deitar, ele achou que eu já estava dormindo, mas vi quando ele ao meu lado, de costas para mim, digitou uma mensagem para Benjamin, seu amigo de longa data.

Edward: Fiz merda, acho que meu casamento está em risco.

Aquela mensagem me fez pensar, eu não queria me separar, afinal o amava demais, mas também estava magoada com todas as suas ausências e atrasos nos últimos meses. Por isso, não falei nada naquele momento, apenas deixei ele continuar pensando que eu estava dormindo.

~*~

Os dias que se seguiram não mudaram em nada para nós, também não consegui achar uma abertura para ter a conversa franca que precisava com meu marido. No final de semana seguinte, o primeiro de dezembro, montamos a árvore de natal com Nessie, aquele foi o dia mais normal que tivemos em muito tempo, como a família feliz que sempre fomos. Depois, Edward voltou a sua rotina maluca de sair cedo e voltar tarde do trabalho.

Faltando uma semana para o Natal, era sábado e, novamente, Edward saiu cedo de casa. Eu estava mais uma vez no meio da tarde sozinha com Nessie, quando minha cunhada mandou mensagem.

Alice: Me empresta sua filha? Quero fazer uma surpresa para Jess.

Bella: Que tipo de surpresa entre vocês duas pode envolver minha filha?

Alice: Só quero fazer uma noite de família com ela, filmes e pipoca, seria legal ter uma criança junto, para ficar mais família.

Não caí nessa conversa dela, estava me parecendo desculpa esfarrapada, eu só não sabia o quê podia ter por trás daquele pedido.

Bella: Por que isso agora?

Alice: Não posso planejar um dia especial com a minha mulher?

Bella: E o que hoje tem de tão especial? Eu sei que não é o aniversário de vocês porque fui eu que apresentei as duas e com uma semana vocês estavam namorando. O aniversário de vocês é o que, 20 de setembro?

Alice: 15 de setembro, na verdade.

Bella: Wow!

Bella: Certo, então qual é a comemoração hoje?

Alice: Dia internacional contra a violência contra prostitutas.

Bella: O quê?

Alice: Você perguntou, é o que diz na internet.

Bella: E o que isso tem a ver com vocês?

Bella: Pior, o que isso tem a ver com minha filha?

Alice: Nada. Só é sábado e eu quero uma noite em família.

Alice: Vai, Bella, deixa de ser chata e me empresta a pestinha.

Bella: Tá bem! Eu vou arrumar ela.

Bella: Mas você está proibida de falar de prostitutas na frente dela.

Como prometi, fui arrumar minha filha, que ficou alegre com a possibilidade de passar a noite assistindo filme com as tias. Ao pôr do sol eu estava chegando com ela no apartamento de Alice e Jessamine.

— Obrigada, Bella! Você é a melhor de todas. – Minha cunhada agradeceu já ao nos receber na porta, enquanto pegava a sobrinha dos meus braços.

— Cuidado com o tipo de filme que vocês vão deixar ela assistir. – Recomendei. – Ainda não engoli essa história de surpresa.

— Nós sabemos cuidar dela, Bella. – Rolou os olhos. – Agora será que você pode ir pegar o jantar que eu encomendei no La Bella Italia?

— Tá me achando com cara de motoboy? Por que você não pediu delivery?

— Ia demorar muito, para ir buscar é mais rápido e Jess está quase chegando.

— Então por que você mesma não pega?

— Porque agora estou cuidando de Nessie.

— Você vai ficar me devendo essa! – Apontei um dedo em sua direção e foi minha vez de rolar os olhos.

— Claro, claro. Agora vai logo buscar a comida antes que Jessamine chegue e estrague a surpresa. – Ela praticamente me expulsou do apartamento.

— Nessie, comporte-se! – Recomendei antes de sua tia fechar a porta.

Alice estava estranha, eu não entendi nada do que ela estava planejando, mesmo assim dirigi até o restaurante para buscar o jantar que ela encomendou. Enquanto eu caminhava do carro à entrada do La Bella Itália, pensei em deixar mais uma mensagem para ela.

Bella: Cheguei no restaurante.

Bella: Te odeio!

Eu ainda estava mexendo no celular quando empurrei as portas de vidro fumê e entrei, por isso não vi como estava lá dentro, mas o silêncio chamou minha atenção, normalmente aquele restaurante estava sempre lotado e tomado pelo burburinho de conversas. Aquilo me fez levantar o olhar.

Havia apenas um garçom junto ao bar circular no centro do salão. Ao meu lado direito, onde deveria estar o maitre do restaurante, estava meu marido vestido num terno que não era o que ele usava quando saiu de casa. Ao lado dele havia uma mesa posta, com velas e flores, mas todas as outras mesas do salão estavam desarrumadas, com as cadeiras viradas em cima.

— Edward, o que você está fazendo aqui? – Eu estava confusa, o restaurante parecia fechado.

— Estava esperando você, janta comigo? – Estendeu a mão para mim.

Eu não estava entendendo nada. De repente, olhei para minhas próprias roupas, calça jeans e suéter, eu não estava sequer vestida adequadamente para jantar naquele lugar.

— Eu vim buscar o jantar de Alice, ela vai fazer uma surpresa para Jess. – Mal consegui formular uma frase, de tão perdida que estava.

— Não tem surpresa nenhuma para Jessamine, a surpresa é para você.

— Como assim? Alice está com Nessie, eu tenho que ir pegar ela.

— Alice sabe de tudo, ficar com Nessie era parte do plano, não se preocupe.

— Você planejou isso? Alice estava mentindo para mim? – Perguntei, a compreensão me atingindo lentamente.

— Sim. – Sorriu.

— Por que você fez isso?

— Achei que nós precisávamos de um momento a dois, faz tempo que não saímos a sós.

— O que te fez lembrar disso agora?

— Não é de hoje que eu sei que você está infeliz comigo, por isso eu sabia que tinha que fazer algo para mudar isso.

— Não estou infeliz. – Corrigi. – Talvez decepcionada.

— Mesmo assim, eu sei que fui negligente e estive ausente muitas vezes para você. Então, será que hoje eu posso te compensar oferecendo esse jantar?

Ele puxou a cadeira para mim. Assenti em silêncio e aceitei seu gesto, ocupando meu lugar à mesa. Ele sorriu, parecendo aliviado.

— Obrigado por me deixar consertar as coisas para nós. – Disse sentando-se também.

Olhei em volta, percebendo uma coisa.

— Foi aqui que você me pediu em casamento.

— Exatamente. Eu queria demonstrar como cada momento que compartilhamos foi especial para mim e eu me lembro de cada um deles.

O garçom, que antes estava próximo ao bar, se aproximou de nós, mas ao invés do cardápio já trazia os pratos na bandeja.

— Tomei a liberdade de pedir seu ravioli favorito, espero que não se incomode.

— Não, eu ia mesmo pedir isso. – De certa forma era até gratificante saber que ele lembrava os meus gostos, nós dois nos conhecíamos como ninguém.

O garçom nos serviu o jantar e o vinho. Edward me tranquilizou, dizendo que a volta para casa de táxi também já tinha sido planejada, e que no dia seguinte ele viria buscar nossos carros. Quando o funcionário se distanciou nós voltamos a conversar.

— Eu sei que estive muito ausente, trabalhando demais, mas prometo que a partir de agora terei mais tempo para você e para nossa família. – Se comprometeu. – E que nós vamos ter mais momentos a sós como esse.

— Eu não preciso de muita coisa, só quero fazer parte da sua vida, sentir que você a compartilha comigo, como tem sido desde que nos reencontramos naquele curso de escrita criativa.

— Eu não tenho muita coisa além do trabalho para dividir com você. E as coisas lá estão um pouco complicadas, Aro tem cobrado demais de todos da equipe criativa, não sou só eu que tenho sofrido com esses prazos malucos que ele está cobrando. Os próprios showrunners das séries já tiveram uma reunião com ele para pedir para diminuir o ritmo, todas as equipes estão sobrecarregadas e as produções estão avançando mais rápido do que conseguimos exibir no canal. Enfim, acredito que depois dessa reunião as coisas vão melhorar um pouco no trabalho, mas antes eu só tinha problemas e não queria te aborrecer com eles.

— Eu não me importo que você fale de seu trabalho, eu só gostava de te ouvir. Sempre gostei quando você dividia comigo as historias que estava criando.

— Eu tenho contrato de confidencialidade sobre os roteiros que escrevo, você sabe.

— Antes você me mostrava o que estava escrevendo. – Me queixei.

— Bella, estamos em público. – Sussurrou para mim. – E se o garçom escuta alguma coisa? Ou se aqui tem câmeras e alguém vaza nossa conversa? – Ele olhou ao redor.

— Ah! – Compreendi. – Mas você pode me contar sobre seu trabalho quando estivermos em casa. – Sussurrei também.

— Claro, eu te conto tudo. Mas será que podemos mudar de assunto agora, antes que eu perca meu emprego?

Eu ri e passei a eu mesma contar mais sobre minha rotina e de Nessie. Quando o assunto era nossa filha, Edward também tinha suas observações a fazer, provando que ele nunca foi relapso como pai. No fim das contas, tivemos um jantar agradável e eu sentia que as coisas estavam verdadeiramente voltando aos eixos para nós. Sorri internamente, pensando que eu poderia lidar melhor com o novo cargo do meu marido no trabalho se ele fosse atencioso comigo, como foi naquele jantar.

Não tivemos que pagar a conta, talvez o preço da comida já estivesse incluído no acordo que Edward fez para fechar o restaurante para nós naquela noite. Aquilo me levou a pensar: o quanto será que meu marido tinha investido para fazer essa surpresa para mim? No entanto, conclui que, pelo bem da minha sanidade, era melhor eu nem saber os valores.

No táxi, voltando para casa, voltei a olhar meu celular. Havia uma nova mensagem da minha cunhada.

Alice: Ainda me odeia?

E uma sequência de emojis chorando de rir.

Bella: Sim! E seu castigo vai ser ficar com Nessie por essa noite.

Ela respondeu apenas uma risada. Guardei meu celular e me aconcheguei mais nos braços do meu marido. Era bom saber que eu o tinha de volta por inteiro.

~*~

No Natal, nós não viajamos, pois minha sogra daria um grande jantar de véspera de Natal e fazia questão da presença de todos.

Quando Alice se mudou para fazer faculdade em Nova York e Edward tinha planos muito sólidos de fazer isso também dentro de um ano; os pais deles, Esme e Carlisle, também decidiram se transferir de Chicago para que a caçula, Bree, pudesse crescer mais perto dos irmãos. Assim, meus sogros estavam morando em Hoboken, Nova Jersey, uma cidade mais pacata, mas ainda assim perto o suficiente de Nova York para que todos pudéssemos visitá-los com frequência.

Quando chegamos à casa dos meus sogros, o carro de Alice já estava estacionado na entrada da garagem e Bree, que agora tinha 15 anos, estava na varanda conversando com um garoto mais ou menos da sua idade. Cumprimentamos minha cunhada e entramos na casa, eu carregando Nessie nos braços e Edward levando o vinho e a torta que assamos para contribuir com o jantar.

Carlisle foi quem nos recebeu, e logo nos abraçou desejando felicitações. No nosso campo de visão também estavam Esme, organizando a mesa, e Alice e Jessamine, abraçadas no sofá. Meu sogro pegou as comidas das mãos do filho e eu coloquei Nessie no chão, para que pudéssemos tirar os casacos.

Após nos desfazermos dos acessórios de inverno, minha filha correu para os braços das tias, perto da árvore e dos presentes, enquanto eu e meu marido fomos abraçar minha sogra.

— Precisa de ajuda? – Ofereci a ela.

— Não querida, acho que acabei aqui, falta só o peru que ainda está no forno. Agora é só esperar os outros chegarem.

Uma vez que eu e Jessamine estaríamos presentes nesse jantar, Esme também fez questão de convidar Emmett e Rosalie, para que ficássemos entre irmãos. A Sra. Hale, mãe de Rose e Jess, morava no interior do estado e também tinha sido convidada, para que passasse o Natal com as filhas. Infelizmente, apenas meu pai morava longe demais para fazer parte daquele momento. O que me consolava era apenas saber que ele estaria bem com seus amigos em Forks e que meu irmão estaria comigo naquela noite.

— Feliz Natal! – A voz grave de Emmett foi o que anunciou que ele estava chegando, um segundo antes que a porta se abrisse, revelando ele, Rosalie, a mãe dela e a lontra deles.

Todos nós devolvemos as felicitações, Rosalie soltou a coleira da lontra que correu por toda a casa, reconhecendo o espaço alegremente. Minha filha logo pegou o bicho para brincar, enquanto os outros, ainda perto da entrada, retiravam os casacos.

— Eu trouxe um pavê, é receita de família. – A sra. Hale explicou, entregando a travessa para Esme.

— Querida, não precisava, mas muito obrigada. – Minha sogra recebeu a travessa. – Eu vou colocar na cozinha por enquanto.

Logo depois, Bree entrou em casa parecendo um tanto afoita.

— Pronto, cheguei.

— Onde está meu genro? – Carlisle perguntou.

— Pai! – Ela repreendeu ficando corada. – Diego não é meu namorado.

— Vocês deveriam resolver logo essa situação de vocês dois, eu acho que gostaria de ter um genro para intimidar. – Carlisle provocou. – Não tem como implicar com minhas noras, elas são adoráveis.

— Você é o melhor, sogro! – Jessamine respondeu rindo e eu corei diante do elogio.

Edward chegou junto a mim e beijou minha bochecha.

— Posso servir o jantar? – Esme retornou da cozinha, completamente alheia ao assunto que estava rolando entre o marido e a filha.

— Não podemos esperar mais um pouco? – Edward perguntou olhando o celular, parecia aflito com algo.

— Por quê? – Eu quis saber.

— Por nada.

— Vocês querem dar o jantar de Nessie primeiro? – Minha sogra sugeriu.

— Pode ser. – Olhei para o tapete, onde minha filha estava brincando com a lontra do tio e um bicho de pelúcia. – Nessie, você quer jantar agora?

— Quero! – Respondeu decidida, mas sem se distrair de suas brincadeiras.

— Então, eu vou olhar como está o peru no forno. – Esme disse.

Montei o prato de Nessie apenas com o que já estava na mesa, ela não comeria peru de todo jeito, e pedi para que Edward desse a ela.

— Vou ajudar sua mãe na cozinha. – Expliquei a ele.

E enquanto meu marido tentava convencer nossa filha a parar de brincar um pouco, fui ajudar minha sogra. Ela me pediu para cuidar dos molhos enquanto ela preparava o peru. Nos mantivemos cozinhando juntas, entre assuntos agradáveis, até que todos os pratos ficaram prontos e ela levou para a sala, mas eu permaneci na cozinha.

Lá na sala, várias vozes eram audíveis, porém na cozinha estava calmo. Me permiti apreciar um pouco o silêncio ao meu redor e ao mesmo tempo as vozes distantes. Fim de ano é sempre um período de muitas reflexões, fazer um balanço de nossas vidas, então me peguei pensando sobre a minha trajetória. Eu era feliz, tinha uma família linda e era grata por cada pessoa naquela sala, isso era motivo mais do que suficiente para sorrir.

— Mamãe!

— Oi, meu amor. – Sorri para minha filha e para seu pai, que segurava ela no colo.

— Eu quero pudim. – Minha pequena pediu.

— Você quer pudim? O que o papai disse sobre isso? – Perguntei a ela, me aproximando para dar-lhe um beijo no rosto.

— Papai disse que eu podia comer pudim se comesse toda a salada de batatas.

— E você comeu a salada toda? – Ela assentiu. – Comeu mesmo? – Perguntei a Edward.

— Comeu sim.

— Então pode ir pedir pudim a tia Alice.

Ela comemorou e Edward a colocou no chão. Rapidamente, minha filha saiu correndo de volta à sala.

— E você, o que estava fazendo aqui sozinha, anjo? – Perguntou quando ficamos a sós.

— Estava pensando na vida.

— E o que permeava esses seus pensamentos?

— Você, com certeza. – Sorri passando meus braços em volta de seus ombros. – E Nessie.

— Sobre o que exatamente você estava pensando? – Ele também passou os braços pela minha cintura.

— Sobre nossa história, os dias no Brasil principalmente.

— Quem nos visse no Brasil, há quase 8 anos, jamais seria capaz de dizer que acabaríamos assim algum dia. – Edward riu de leve.

— Nós prometemos que não íamos voltar a nos ver. – Ecoei seu pensamento com a memória do nosso passado.

— Fazer o quê? – Ele deu de ombros. – Fomos feitos para ficar juntos, anjo.

— Sinceramente, foram tantas coincidências na nossa história que eu sou obrigada a acreditar nisso também.

— Sabe, eu mal pude acreditar quando você esbarrou em mim naquele seminário de escrita criativa.

— Eu não esbarrei em você! – Me defendi, mesmo sabendo que era verdade. – Você que estava no meu caminho.

Bem, a quem eu estava querendo enganar? Eu estava sempre envolvida em acidentes daquele tipo. Edward riu.

— Claro, eu que estava no lugar errado. – Rolou os olhos com ironia.

— Exatamente, você que veio para a minha cidade.

— Era destino, a gente tinha que se reencontrar.

— Sabe, quando eu me despedi de você lá no Brasil achei mesmo que fosse definitivo, que a gente não ia mais se ver.

— Emmett disse que você chorou durante todo o caminho de volta para Nova York.

— Ele exagera. – Rolei meus olhos.

— Poxa, anjo, custa você inflar meu ego um pouquinho e admitir que sentiu a minha falta? – Fez biquinho.

— Como se seu ego já não fosse inflado o suficiente.

— Você não me ama, não é?

— Ah, como você é dramático! Vai se sentir melhor se eu disser que chorei todos os dias até te reencontrar? Afinal, de quantas maneiras um coração pode ser despedaçado e ainda continuar batendo?

— Muito melhor! – Ele sorriu e me beijou.

O beijo começou calmo, mas nada com Edward era casto, então logo estávamos explorando os lábios um do outro com avidez. Meus braços o prendiam a mim como se desejassem fundir nossos corpos. Ele desceu suas mãos até meus quadris e me levantou, me colocando sentada sobre a bancada da cozinha, sem quebrar nosso contato.

— Eca! – Ouvimos alguém dizer e interrompemos nosso beijo, nos virando para nos deparar com Jessamine na soleira da porta da cozinha.

Edward resmungou frustrado e eu pulei da bancada.

— O que vocês dois estão fazendo aqui sozinhos? É Natal, tem uma festa rolando lá na sala. – Minha amiga falou com tom entediado.

— Eu estava me aproveitando da minha esposa, você não notou? – Meu marido a provocou e eu ri, escondendo meu rosto em seu peito.

— Você é grosseiro, Edward!

— E você atrapalhou algo aqui. Então que tal nos deixar a sós de novo? – Continuou a provocá-la.

— De jeito nenhum! É nojento saber que vocês estão fazendo safadezas aqui na cozinha. Além disso, vocês dois têm uma pestinha que está enchendo o saco lá na sala pedindo pudim.

— Então por que você não vai dar pudim a ela? – Perguntei com o mesmo tom de implicância que meu marido usou.

— Simples: porque não sou mãe dela. – Minha amiga respondeu entediada e deixou a cozinha.

Edward suspirou.

— Em partes ela tem razão, não devemos deixar Nessie tanto tempo fora das nossas vistas, isso é um prato cheio para ela aprontar alguma. – Concluiu.

— Ela vai ficar bem se passar alguns minutos longe da gente; seus pais, a sra. Hale, suas irmãs, meu irmão e nossas cunhadas estão lá com ela, eles vão ficar de olho nela.

— Convenhamos que Emmett, Bree e Jessamine também precisam de supervisão.

Eu ri.

— Tudo bem, sr. Pai Coruja. Vamos voltar para nossa cria. – Suspirei.

— De qualquer forma, serei todo seu mais tarde. – Piscou para mim e pegou na minha mão, me levando de volta à sala.

Como previ, Renesmee estava perfeitamente bem, nos braços de Bree, enquanto Esme finalmente lhe entregava seu pudim. Jessamine já estava de volta aos braços de Alice no sofá e as duas começaram a se beijar.

— Ei! Parem de fazer essas coisas, tem criança presente! – Emmett reclamou, pegando um guardanapo sobre a mesa, amassando numa bolinha e jogando nelas.

— Devemos ir para a cozinha? – Alice perguntou com ironia, olhando na minha direção.

— Fofoqueira! – Acusei Jess, que riu.

— O que estava acontecendo na cozinha? – Carlisle perguntou.

— Você não vai querer saber, pai. – Alice disse se virando para ele, que estava de pé conversando com a sra. Hale, Emmett e Rosalie, atrás do sofá onde ela estava.

— Eca! – Bree reagiu à fala da irmã.

— Você não tem modos, Edward? – Esme ralhou.

— Não aconteceu nada demais na cozinha, mãe.

— Sim, Jessamine exagera no que ela conta. – Completei.

— Aham, eu exagero. – Ela provocou.

— Calada! – Mandei e Jess apenas riu.

Felizmente, alguém mudou de assunto e o tópico da cozinha foi esquecido. Logo estávamos todos nos organizando para jantar.

— Eu quero assistir desenho. – Nessie pediu terminando seu pudim e se prostrando aos pés de Alice, que sempre colocava desenhos no seu celular ou na TV para a sobrinha ver.

Esme declarou que a refeição estava servida e todos nós nos sentamos à enorme mesa de jantar dos Cullen. Edward e eu procuramos lugares onde fosse fácil ficar de olho na nossa pequena assistindo desenho no celular da tia, sentada no sofá da sala de estar. Carlisle fez uma breve oração e nós nos servimos da comida.

Minha filha não deu nenhum trabalho durante o jantar, aliás ela caiu no sono no sofá mesmo, alguns minutos após sentarmos para comer. Meu marido, no entanto, não parava de olhar o celular, tanto que em determinado momento me senti na obrigação de repreendê-lo discretamente, afinal um jantar com toda família como aquele não era o momento para ficar usando celular. Por um instante, ele largou o aparelho e terminamos a refeição sem outras interrupções.

Quando todos encerramos, não continuamos muito tempo sentados à mesa. Alguns de nós espalharam-se pelos cantos da casa ainda com suas taças de vinho, apenas sentando-se para conversar. Já eu, Esme, Alice e a sra. Hale começamos a levar os pratos e travessas sujas para a cozinha.

Após guardamos as sobras, as outras retornaram para a sala, enquanto eu jogava os restos de comida na lixeira e organizava as peças sujas na lava-louças. Depois eu as segui, me juntando a todos na sala com uma nova taça de vinho.

Nessie ainda estava adormecida, porém agora com Edward junto a ela, com sua cabeça colocada sobre o colo dele.

Com o movimento de pessoas pelo ambiente, a lontra voltou a agitar-se, correndo entre as pernas de todos e subindo no colo daqueles que estavam sentados, cada um dando um pouco de atenção ao animal, sem deixar seus próprios assuntos.

Ouvi quando o celular de Edward vibrou em seu bolso e o olhei intrigada, enquanto ele lia a mensagem.

— O que foi? – Perguntei curiosa, depois dele verificar tantas vezes o aparelho.

— Sua surpresa acabou de chegar.

Não entendi nada, mesmo assim, observei meu marido retirar nossa filha do seu colo, repousando sua cabeça suavemente sobre uma almofada, e se dirigir até a porta para abri-la. Não havia ninguém ali, o que me deixou ainda mais confusa, mas logo ouvi passos nos degraus da varanda e então avistei quem eu menos esperava.

— Pai! – Exclamei ao mesmo tempo em que corria para os braços de Charlie, como se minha vida dependesse daquilo.

— Oi, criança. – Respondeu me recebendo em seus braços.

— Surpresa! – Edward disse isso baixinho ao nosso lado.

— Pai? Como...? – Emmett parecia mais travado do que eu, congelado no lugar, sem conseguir formular sua pergunta, como se não acreditasse no que estava vendo.

— Foi um esforço conjunto para surpreender vocês dois. – Rose admitiu, passando os braços em volta do marido.

— Eu sabia como você estava triste por não passar as festas com seu pai, falei com Rosalie e ela disse que Emmett estava do mesmo jeito. – Edward me explicou. – Então nós planejamos tudo, compramos a passagem e enviamos para Charlie.

— Edward comprou a passagem. – Rose corrigiu. – Ele fez tudo praticamente sozinho.

— Você foi extremamente necessária para convencer Charlie a vir até aqui.

— Disso eu não duvido, posso imaginar a dificuldade que deve ter sido tirar meu pai de Forks, nem eu mesma consegui essa proeza.

— Eu tenho meus motivos, – Papai reclamou. – Meu voo atrasou 2 horas e o aeroporto estava um caos, era melhor ter ficado em casa.

— E perder a chance de passar esse momento com sua família? Tenho certeza que viajar hoje deve ter sido estressante, mas não valeu a pena?

— Não sei, um dos meus filhos ainda nem se mexeu do lugar, parece que não está feliz em me ver.

— Ah, pai! Eu só fui pego de surpresa. – Então, finalmente Emmett se mexeu e tomou o meu lugar nos braços de Charlie.

— Onde está minha neta? – Perguntou, soltando meu irmão.

— Ela apagou no sofá. – Edward apontou em sua direção.

— Posso dar um beijo nela? Estou morrendo de saudades. – Charlie me perguntou e eu assenti em resposta.

Observei meu pai andar até o sofá e se curvar sobre a neta, depositando um beijo em sua face.

— Vovô? – Nessie acordou um pouco desorientada.

— Oi, querida!

Aos poucos ela foi despertando mais e reagindo mais animada ao avô que não via há mais de um ano, exceto pelas chamadas de vídeo que fazíamos às vezes.

— Pai, infelizmente nós não conseguimos esperar para jantar, mas imagino que você esteja com fome. Posso fazer um prato para você? – Perguntei.

— Eu estou faminto, criança!

Assim, fui até a cozinha onde estavam as travessas do jantar e montei um prato para meu pai e depois coloquei a comida para esquentar no micro-ondas. Ao retornar para a sala, meu pai sentou-se à mesa para comer. Eu, Emm e Rosalie ficamos fazendo companhia a ele, enquanto conversávamos sobre as novidades.

Depois que meu pai acabou de comer, nós quatro levantamos da mesa e nos juntamos aos outros, que estavam espalhados pela sala de estar. Charlie entrou no assunto de Esme, Carlisle e da sra. Hale, que estavam parados de pé, perto das portas de vidro que davam acesso ao quintal. Eu me juntei ao meu marido no sofá, sendo acolhida em seus braços. No outro sofá estavam Jessamine e Alice, também abraçadas. Rosalie, portanto, sentou-se na poltrona e começou a folhear um dos livros dos meus sogros que estava sobre a mesa lateral. Já Emmett, se juntou a Nessie e Bree, que brincavam com a lontra no tapete à nossa frente.

Iniciamos uma conversa, eu, Alice, Jess e Edward, enquanto assistíamos os outros brincarem. Em dado momento, meu marido me soltou e levantou-se indo até a porta. Eu apenas o observei, sem entender o que ele estava fazendo.

— Vocês poderiam olhar a Nessie para nós por um instante? – Edward perguntou, voltando do closet da entrada com nossos casacos em mãos.

— Não já estamos olhando? – Rose perguntou, como se meu marido fosse burro.

— Claro, só queria saber se vocês poderiam continuar olhando ela por um momento.

— Aonde vamos? – Perguntei quando ele me entregou meu casaco.

— Eu queria te entregar o seu presente agora, está lá na estufa.

— Achei que meu presente fosse meu pai.

— Não, isso era o mínimo que eu poderia fazer para colocar esse sorriso lindo no seu rosto. Mas ainda tenho algo embrulhado em papel de presente para te dar. Vem comigo, anjo?

Assenti e o segui até o quintal da casa, onde minha sogra cultiva plantas. A estufa era basicamente uma pequena cabana montada com estrutura de metal e paredes de vidro, com prateleiras de ambos os lados cheias de vasos com plantas. Lá dentro, foi fácil encontrar o embrulho colorido em uma das prateleiras, entre os vasos. Porém, ao invés de me entregar, ele passou os braços ao redor da minha cintura e apoiou seu rosto na curva do meu pescoço.

— Esse foi um ano e tanto, fui promovido, finalmente consegui o cargo que eu tanto sonhei, chefiar uma sala de roteiro, mas eu fui negligente com você e com nossa menina. Enquanto eu trabalhava tanto, quase perdi você e esse teria sido o pior erro da minha vida.

— Você não quase me perdeu, eu não saberia viver sem você. – Alisei minhas mãos pelos seus braços. – Além disso, fico feliz que a iniciativa de diminuir o ritmo no trabalho tenha partido de você, sem precisar se tornar um problema entre nós.

— É bom ouvir isso, mesmo assim, eu reconheço o quanto fui negligente com você e com nossa família e prometo que vou me esforçar para nunca mais cometer esse erro.

— Acho que posso lidar com isso. – Sorri e o beijei.

— Dança comigo, anjo?

— Por que isso agora?

— Dançar sempre foi uma coisa nossa, mas faz tempo que não fazemos isso. – Ele se afastou dos meus braços para dar play na música em seu celular, que já estava conectado a uma caixa de som bluetooth que estava numa das prateleiras, perto dos vasos.

Edward estendeu a mão para mim e eu aceitei, indo para seus braços e deixando que ele me conduzisse.

— Sabe, antes de te conhecer eu nunca dançava, eu nunca me permiti, porque eu não sabia dançar, até que naquele carnaval você me mostrou que eu podia me soltar.

— Você sempre soube dançar, anjo, só não se permitia acreditar nisso. – Ele disse, como sempre sendo muito gentil comigo.

— Só sei dançar com você.

— Isso é o que o amor faz.

Notas finais
Obrigada a quem leu até aqui. O que vocês acharam da história? Me contem nos comentários ;)
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!