Isso é para sempre
1 Capítulo Único
— O que eu posso fazer a respeito disso? Não vejo muitas opções. — Ana, que estava sentada num barranco, sentindo a grama que o cobria roçar em sua pele e fazê-la coçar levemente, disse olhando para o lago que refletia as árvores que ficavam na margem oposta, enquanto jogava-lhe pedras, quis uma orientação de seu amigo Felix, que estava sentado a seu lado e não olhava para nenhum local em especifico a sua frente.
— Há muitas opções. — O garoto disse sem olhar para ela, ou dar indicio que estava observando algo além de olhar perdidamente para o horizonte.
— Ótimo — Ana estava um pouco irritada e se levantou ficando de costas para o lago. — Se há tantas opções assim, por que não faz uma listinha?
— Só por que você não considera suas opções, boas opções, não quer dizer que elas deixem de ser opções.
— Acho que você acabou de atingir a sua cota de palavras “opções” por hoje. Pô Felix, eu estou falando sério! Eu preciso de uma solução para o meu problema. — Ana irritada, chutou uma pedrinha até o lago.
— Possiblidades.
— Ãh?
— Durante o dia de hoje, vou trocar a palavra opções por possibilidades já que atingi minha cota da primeira. Não quero extrapolar com o português.
— Certo, como se eu realmente ligasse. E eu sei que existem essas op...possiblidades que não são tão boas, mas elas não me servem. Eu preciso de uma solução favorável para mim.
Felix se levantou, foi até o lago e molhou sua mão dentro dele e passou-a no rosto. Depois voltou-se a sentar, mais ou menos onde estava.
— Ok, Ana, recapitule o seu problema para ver quais são suas possiblidades e quais dessas possibilidades sãs as favoráveis.
— Se você continuar assim vai atingir sua cota com a palavra possiblidades também. Meu problema, o mesmo que venho dizendo há semanas, mas você parece ter ficado meio tapado desde a primeira vez que eu te falei isso, é que meus pais querem mudar de cidade e eu não quero isso.
— Alternativas. — Murmurou Felix, mas dessa vez, Ana nem se preocupou em perguntar e prosseguiu falando.
— Droga, eu nasci nessa cidade, vivi aqui minha vida toda e gosto daqui! Meus amigos estão aqui, os lugares que gosto de ir, a minha escola, coisas não tão relevantes como aqueles cachorros que vivem correndo atrás de qualquer veículo que passa em minha rua, aquele motorista que sempre dá bom dia para os passageiros e sempre dirige o ônibus que vou para a escola, e ainda tem este lugar. Eu amo esse parque. Droga, droga, droga, DROGA! Simplesmente não posso me mudar, eu não quero me mudar.
— E qual o motivo seus pais têm para se mudarem? — Felix ainda olhava para o horizonte. — São mais importantes que os seus? A propósito, você atingiu sua cota com a palavras droga.
— Eles querem mudar os ares, dizem que uma cidade como essa nunca vai se valorizar; essas coisas que os adultos prezam e nós tendemos a ignora e ligar para o que realmente importa. — Ana fez uma pausa e respirou, depois disse. — Merda. — O que fez Felix dar um leve sorriso de canto, mesmo ainda não tirando os olhos do horizonte.
— Analisando tudo, podemos ver que realmente, você não tem muitas alternativas e muito menos, favoráveis.
— É o que eu venho lhe dizendo desde o começo, merda!
— A mais viável, aparentemente, é falar para eles o que você acha dessa viagem, mas ainda assim, não há muita chance que isso funcione.
— E você não acha que já fiz isso? Já disse a eles que não quero ir.
— Já argumentou com eles? Talvez se você falar do motorista que te dá bom dia todos os dias no ônibus, eles resolvam ficar.
— Hey! Estamos falando sério aqui. E o motorista do ônibus é simpático apenas, não é como se ele desse oi só para mim, falando assim parece que ele é algum tipo de tarado.
— Então tudo bem, esse não pode ser um bom argumento, mas é só pensar no por que realmente quer ficar e dizer a eles. O verdadeiro motivo.
— O Verdadeiro motivo? — Ana mordeu o lábio. — Acho que seja por que tudo isso é passageiro. Tudo um dia passa. Um dia, essa época, a adolescência, e o tempo livre para compartilhar com os amigos sem lá muitas outras responsabilidades, vai passar. E os locais que antes eram os “locais de sempre”, um dia serão os locais ocasionais de encontros, e no fim, vai chegar à fase do “estou sem tempo.” E sim, eu sei que isso vai acontecer, e é por isso que desejo ficar, para poder aproveitar muito mais esse tempo aqui. Além do mais, não é fácil substituir bons amigos, principalmente você, né Felix. Eu nunca neguei que você é meu melhor amigo.
Felix foi novamente ao lago, molhou a mão e passou no rosto, voltando a ficar sentado e olhando para o horizonte.
— É, realmente eles não vão ficar quando você justificar o seu motivo para eles.
— Exatamente, os adultos ignoram esse tipo de coisa. — Disse Ana frustrada.
— Porém, não é pelo fato deles não se importarem ou ignorarem, mas é que você está errada.
— Como assim? Eu estou errada? Eu sou a vilã?
— Não, não, você não é a vilã. Só não entende as coisas. Tudo isso que você falou, sobre ser passageiro, na verdade não é. Lembra de quando você me ligou e a gente marcou de ir no lugar de sempre? — Ana agradeceu mentalmente por eles ainda terem um lugar de sempre. Uma velha lanchonete no centro da cidade onde eles sempre iam comer, antes de andar à toa pela cidade. — E ainda pelo telefone, a gente apostou para ver quem chegaria primeiro? Ambos corremos até lá, eu venci, é claro. E então percebemos que estávamos cansados, com sede e sem dinheiro? Já que com a correria acabamos esquecendo de levar?
Ana gargalhou e Felix também, olhando em direção a ela quase que pela primeira vez desde que chegaram ao local.
— E lembra-se de como naquele dia, tentamos arrancar um lanche grátis do tio dono de lá, já que éramos clientes assíduos? O máximo que ele fez foi olhar para gente com cara de deboche. — Ana abraçou a barriga de tanto rir, Felix perdeu o ar em sua risada e deitou na grama e sem querer rolou um pouco a baixo naquele barranco, quase parando dentro do lago. Ele parou olhando para o céu e rindo, enquanto Ana fazia o mesmo. De repente ele parou de gargalhar, mas ele ainda levava um sorriso bobo em seu rosto.
— Tem gente que não sabe valorizar um bom cliente. — Retrucou Ana.
— Agora, me diz Ana: Como um momento tão vívido desses em nossas mentes pode ser passageiro? Você conseguirá ir numa lanchonete, seja nessa cidade ou em outra, sem que aos menos periodicamente, se lembre desse momento?
— Creio que não. — Suspirou ela, percebendo pelo tom do amigo que ele também havia constatado que não havia forma de Ana não se mudar. Os dois eram amigos desde de o segundo ano do fundamental, praticamente conheciam melhor o outro do que a si mesmo. Ainda olhando para o céu, Felix disse:
— E conseguirá ir num parque, ou visitar algum lago, sem que ao menos se lembre deste momento aqui? Que é praticamente a nossa despedida? Não, Ana, é impossível. Essas coisas, os bons momentos, as boas amizades, as coisas importantes que obtemos durante a vida, isso tudo. — Felix ficou de pé e girou em seu próprio eixo com os braços abertos; — Isso é para sempre. Não há como evitar. Estarão presente para sempre na nossa mente, como se fizessem parte do nosso DNA e mesmo depois de nossa partida dessa vida, esses momentos estarão gravados nos pensamentos privados do universo, aqueles momentos que ele não compartilha com ninguém.
Após ouvir essa última parte, Ana chorou. Lágrimas de saudade, pelas coisas que estaria longe dali alguns dias. Lágrimas de alegria por todos os momentos “para sempre” que havia tido ali, com Felix e outros amigos e que iria carregá-los para sempre com ela. A garota caminhou até o garoto e abraçou-o. Um abraço que devia sintetizar todos os anos vividos em companhia e amizade um do outro, numa única e verdadeira despedida. Não que não fossem dar um último adeus, antes da viagem dela, mas aquela seria a verdadeira despedida.
Após o abraço, Felix guiou Ana até perto do lago, agachou-se e fez com que a garota fizesse o mesmo. Ana pode ver que os olhos dele, que também estavam vermelhos, ele havia chorado também. Felix falou:
— Faça igual a mim. — E realizou um gesto, que ele já repetia pela terceira vez naquele dia. Enfiou a mão no lago e passou no rosto. Sem entender muito, Ana fez o mesmo e Felix se justificou num sorriso sofrido: — Isso ajuda a disfarçar as lágrimas.
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