Iskandar: O Refúgio Dos Vivos

1 1- O retorno dos mortos


Notas iniciais
A primeira horda de zumbis ataca.
Zilda e Jane fogem de casa.

Se eu fosse uma coveira, uma médica legista ou trabalhasse em um necrotério, certamente poderia descrever a sensação de ver o primeiro morto-vivo sair de sua tumba. Algumas pessoas gostariam de ver essa cena. Uma mão subitamente surge no chão, e logo depois o dono da mão abre caminho por entre a escuridão de sua cova. O coveiro grita, mas não há nenhuma testemunha para sua angústia no cemitério. É noite, claro. Essas cenas de terror tem que ser à noite.

Muitos gostariam de ver um apocalipse zumbi. Yeah! Armas e socos à vontade. Juntar um grupo realmente foda e detonar os miolos daqueles canalhas fedorentos, compartilhar momentos divertidos e tensos.

Mas ninguém nunca quer estar no lugar do coveiro.

Ninguém quer estar em um apocalipse zumbi na vida real.

E, infelizmente, isso está acontecendo na vida real.

Já que não sou nem coveira, nem legista, nem nada, o que me resta é contar como soube da praga.

Cheguei da escola aquele dia com a fome costumeira. Eram quase seis horas da tarde e a TV estava ligada e o noticiário falava sobre política. Minha mãe estava na cozinha, minha irmã e meu pai assistindo ao noticiário.

- Teve boa prova, Zil?

- Ótima. — menti. Era um teste de história para o qual eu não tinha estudado. Mas era novembro e eu já estava passada na disciplina, então, não me importava mais com a nota.

- Que ótima que nada. — Minha irmã riu. — Essa aí nem estuda mais para as provas.

Jannet tinha 23 anos e ainda não sabia o que fazer da vida. Minha mãe, advogada, queria empurrá-la para direito. Meu pai, médico, tentava convencê-la a fazer medicina. Resultado: Jane se formou em direito na faculdade, mas não deseja seguir carreira. Agora quer tentar uma escola de medicina.

- Claro, se eu já... — parei a frase no meio. O apresentador de TV interrompia a programação e noticiava mais uma vez aquela 'notícia' que não sai das telas a três dias.

- E mais mortos-vivos foram vistos perambulando pelas ruas de Nova York e Chicago. Um morador de rua descobriu que uma pancada na cabeça deles é suficiente para derrubá-los. Vamos entrevistar agora...

Mudei o canal.

- Não posso acreditar que vocês assistem uma coisa dessas. Está na cara que alguns fãs de zumbis se fantasiaram e saíram nas ruas. Como tantas pessoas podem acreditar nisso?

- É o fim dos tempos, pessoal. A Praga abateu-se sobre a terra para castigar os maus. Quando não há mais lugar no inferno, os mortos voltam para punir os vivos, porque...

Desta vez eu desliguei a TV. Olhei para o meu pai, que ria em silêncio de minha expressão furiosa. Jane mantinha os olhos arregalados para a TV, como se estivesse vendo um show de horrores de outro mundo na tela negra. Ela tremia.

- Ora, por favor... — Minha mãe passou por mim com um grande saco de lixo nas mãos. — Deixem eles noticiarem o que quiserem.

Ela saiu da casa com um saco nas mãos e por um momento, eu, meu pai e minha irmã rimos. Minha mãe também voltava em meio a uma risada, mas ela jamais chegou a passar pela porta.

Um vulto grande a empurrou para o lado antes que ela pudesse entrar na casa e os dois caíram. Meu pai pegou a coisa mais próxima a ele (um abajur) e correu para socorrê-la. Mas antes que pudesse fazer qualquer coisa, um homem grande pulou sobre ele e fez a coisa mais inacreditável que poderia fazer: mordeu seu braço.

Meu pai quebrou a lampada do abajur na cabeça do homem e -só por precaução- amassou sua cabeça com extrema facilidade. Ainda havia mais um. Por um momento, ele desapareceu de vista, no lado onde mamãe caíra com o homem.

Passado o choque, corri para a cozinha. Vasculhei rapidamente três gavetas antes de achar o que eu queria e corri em direção à porta. Meu pai já voltava, com o rosto suado, a camisa coberta de sangue e uma expressão atormentada nos olhos. Eu fitei uma Jane atônita.

- Onde está a mamãe?

Lágrimas começaram a escorrer por seu rosto. Jane correu para abraçá-lo e por um momento, eu fiquei congelada, sem saber o que fazer. Passado o choque de milésimos de segundo, corri para a porta da casa, passando por cima de um homem caído de costas com as roupas de grife esfarrapadas.

Um homem totalmente desfigurado jazia morto ao lado de minha mãe, mas sua figura exótica mal se comparava ao estado da minha mãe. Olhei para onde antes tinha estado seu braço, e agora só havia uma poça de sangue e uma mistura de fragmentos de ossos quebrados. Desviei o olhar só para encarar sua barriga aberta, o intestino grosso caindo para fora do corpo. Resisti ao impulso de vomitar e dei meia volta para voltar para casa, quando uma mão fria agarrou a gola da minha camisa por trás.

- Ahhhh! — Jane, abraçada ao meu pai, abriu os olhos a tempo de me ver girar o corpo e passar a faca de carne (o objeto que eu peguei na cozinha) pela garganta do homem. O metal penetrou com facilidade em sua pele putrefata e verde; seu pescoço pendeu para trás e ele caiu no chão com um baque surdo.

Eu me aproximei para ver a figura do homem que acabara de matar. E quase gritei como Jane. Aquele homem já-estava-morto. Eu mesmo o vi, em seu funeral. Jonathas L. Smith, o antigo prefeito da cidade. Voltei para casa e fechei a porta imediatamente ao ver mais meia dúzia de homens como o antes falecido -e agora falecido de novo- Jonathas.

Então o noticiário estava certo.

Tentei me controlar. Eu precisava manter a calma.

- Vamos para o segundo andar. — disse meu pai, pela primeira vez depois de algum tempo. Algumas daquelas figuras já esmurravam a porta. Empurrei Jane para as escadas enquanto meu pai foi a cozinha.

Subimos apressadas, pulando alguns degraus, e nos escondemos no último quarto do corredor.

- Todos eles estão mortos.

- O que? — Jane falou, um pouco alto demais.

- Shhhh! Acho que o som pode atraí-los, como quando você gritou lá embaixo...

Zap! A porta do quarto escancara-se de repente. Eu e Jane voltamos a respirar quando vemos a silhueta de meu pai com uma trouxa na mão. Ele abre a trouxa sobre a cama, e volta para trancar a porta.

- Meninas, me ajudem com isto aqui. — ele indica um armário. Eu o ajudo a empurrá-lo para a frente da porta.

Posso ouvir as janelas de vidro no térreo sendo quebradas e passos de pessoas se arrastando abaixo de nós. Agora tentamos falar o mais baixo possível.

A trouxa que meu pai fez com a toalha da mesa da cozinha trazia três facas de cozinha, dois pacotes de pão, biscoitos, uma panela, alguns alimentos enlatados e uma coisa que eu nunca soube que possuíamos: um revólver, além de alguns cartuchos. Eu fitei o meu pai e ele deu de ombros.

- Precisamos ter com que nos defen...

Então ele cambaleou. Seu rosto ficou vermelho. Jane aproximou-se e tocou sua garganta.

- Você está ardendo de febre.

Ele sentou-se na cama e pude ver a profundidade da mordida que levara do morto.

A carne da região foi arrancada e dava para ver um pouco o osso de seu braço. Uma enorme quantidade de sangue ensopava o ferimento enquanto ele tentava estancá-lo com a mão.

- Ele te mordeu...

Meu pai assentiu. Nos seriados que eu assistia sobre zumbis, quando alguém recebia a mordida de um deles virava, também, um morto-vivo. Será que havia a possibilidade de...

Jane voltou com uma sacola de remédios que minha mãe guardava sempre em cima do guardarroupas.

Minha mãe.

- Meninas, quero que fujam daqui. — Jane começou a chorar de verdade — Jane, você sabe dirigir, certo? Leve sua irmã. Ouvi alguma coisa sobre um centro de refugiados em Atlanta e que...

- Não, pai, nós vamos juntos — Jane disse entre lágrimas. Eu voltei-me para a cama onde meu pai se deitava.

- Quero que espere amanhecer. Esses monstros não são muito confiáveis agora à noite. Nem devem ser de dia, também. — meu pai sorriu. Mas parecia que sorrir doía, então ele ficou sério novamente — Pegue meu carro. Desçam pela árvore. Zil te ajuda. Ela sempre foi uma molecona desde criancinha. Forcei um sorriso enquanto meu pai acariciava meus cabelos. E então toda a força que lhe restava se esvaiu e sua mão caiu ao lado do corpo. Lá fora dava para ver a lua cheia sorrindo tristemente no alto do céu. Pisquei meus olhos para não chorar.

- Durma um pouco. — disse com a voz um pouco embargada e não gostei nem um pouco desse meu tom melancólico. Prometi que nunca iria chorar. Jane fez que não com a cabeça. — Vamos sair amanhã e... você ouviu o que o papai disse. Ela deitou-se na cama e logo estava dormindo.

Sozinha no escuro, não pude deixar de pensar no que aconteceu. Minha mãe e meu pai estavam mortos. Balancei a cabeça para afastar a lembrança da minha mãe caída no chão, meio devorada por um cara que poderia ter sido um vizinho que morreu dois anos atrás...

O sol estava quase nascendo quando ouvi um rosnado baixo. Mas este não parecia vir de baixo, ou do outro lado do armário. Com aqueles, eu já estava acostumada. O rosnado vinha do quarto. Eu me ergui num pulo, a tempo de ver meu pai se remexer na cama.

Aproximei-me a tempo de vê-lo abrir os olhos.

Sem pensar peguei a arma e fiz o que já vi muitos fazerem na televisão: destravei e dei um tiro certeiro em sua testa. Jane acordou com um grito.

Peguei uma mochila eu tinha arrumado na noite anterior e estendi outra a Jane.

- Temos que sair daqui.

Ela concordou com a cabeça e nós subimos no parapeito da janela.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.