Isenta — Le monde est divisé
2 Algum lugar em Montana
Notas iniciais
MINHA CABEÇA LATEJAVA. As memórias me faltaram, e, por um momento, apenas me aconcheguei em uma cama muita macia e voltei a fechar os olhos. Porém o mundo deu uma sacolejada, e me sentei apressada.
O movimento abrupto causou uma forte pontada na minha cabeça, e cerrei os dentes para amenizar a dor.
Esfreguei minha cabeça e encontrei um inchaço dolorido na nuca.
A dor me fez voltar a mim, e todas as lembranças voltaram.
A garota com cabelos pretos. O homem. O sangue.
Olhei em volta, procurando saber onde estava.
Era um lugar sem janelas e pequeno, mas bonito. Havia uma cama de casal no canto, afastada, onde eu estava deitada. Ao meu lado, um bidê com livros e um despertador com aparência antiga. O chão era forrado por um carpe escuro, e os poucos móveis eram de madeira clara, dando ao lugar um estilo rústico.
Havia uma televisão pequena, dois sofás pequenos e um fogão portátil.
O tamanho daquele cômodo era familiar, e forcei a memória para lembrar.
Todo o cômodo sacolejou mais uma vez, e a verdade veio como uma flecha: eu estava dentro de um caminhão. Se prestasse atenção, eu conseguia sentir o ritmo dos pneus sobre o asfalto.
Então eu havia sido sequestrada?
Uma pequena abertura coberta por uma cortina vermelha era minha única saída, e decidi arriscar. Sentei-me na cama, testando a firmeza dos meus pés, e levantei. Em silêncio, caminhei pelo tapete com meus pés descalços até conseguir agarrar minhas botas velhas jogadas aos pés da cama. Amarrei os cadarços um no outro e pendurei-as no ombro, dando liberdade as minhas duas mãos.
Empurrei a cortina, abrindo uma pequena fresta, e encontrei a cabine do motorista. Para minha infelicidade, era o mesmo homem que me atacara ontem à noite na direção. Eu o via de costas, mas percebi que um dos cantos de sua boca se inclinou.
— Ora, ora. Veja quem acordou.
A voz confirmava minhas suspeitas. Era o mesmo homem com a voz grave e com um misterioso tom atraente.
Engoli em seco antes de falar.
— O que quer comigo?
— Ah, por favor, não faça parecer que eu vou matar você.
— Bem, é difícil pensar em muitas opções.
— Venha até aqui na luz, para que eu possa vê-la direito. Ontem a noite estava muito escuro, e você se debatia demais.
Minha consciência dizia para obedecê-lo, vai saber o que não se passava dentro da cabeça daquele demente.
Caminhei com as pernas trêmulas até o banco de carona e me sentei desajeitadamente. Era uma cabine muito grande, cinco pessoas poderia ficar a vontade ali dentro.
O homem-psicopata-voz-bonita virou o rosto na minha direção.
Ele tinha cabelos castanhos desordenados e olhos tão verdes quanto grama na primavera. Seu rosto era mesmo comprido e quadrado, como eu tinha visto noite passada; e sua pele era de um tom bronzeado saudável com uma barba rala.
Eu fiquei levemente impressionada, porque, na minha cabeça, psicopatas tinham aparências horríveis, com barriga de cerveja, olhos de louco e barbas por fazer. E deveriam feder. Ironicamente, aquele que me sequestrara era tão atraente quando modelos de revistas de moda, e deixaria no chinelo diversos atores metidos.
Ele deu um sorriso que me assustou. O modo como ele sorria me fazia pensar em um leão lambendo os lábios enquanto observava sua presa pronta para o abate. Ameaçador.
— Você é mais formosa do que eu pensei, Dallas.
Meu cérebro faiscou por um momento, e senti meus olhos se arregalando.
— Como sabe meu nome?
— Sei bastante sobre você. Dallas Mary Rae. Nascida em New Orleans. Tem dezessete anos. Morou em um orfanato quando criança. Está foragida. Atualmente, mora na rua.
Ele franziu as sobrancelhas e reconsiderou.
— Bem, morava nas ruas. Não vai querer voltar para aquelas ruelas sujas, não é?
Eu tinha entrado em estado de choque, e só consegui fechar minha boca, pois meu queixo havia caído assim que ele disse meu nome completo.
— Que tipo de psicopata de merda é você? — Minha voz saiu muito alta.
— Você é dura na queda. — Ele observou. — Deveria me agradecer.
— Bem, obrigada por me assustar, me machucar e me sequestrar. Realmente, foi um grande ato de compaixão.
Ele puxou o ar por entre os dentes.
— Bonitinha, porém ácida.
— E quem é você?
— Shitrit.
— Seu nome é Shitrit?
— Meu sobrenome. É hebraico, pulchra.
— E qual seu nome?
— Você é insaciável.
Eu me calei, mordendo o lábio. Não continuaria com aquela ladainha sem sentido.
— Esqueça.
Ele deu um sorriso de boca fechada.
— Certo. Meu nome é Wentworth. Mas me chame só de Went. Sério.
— Went?
— Algo errado?
Permaneci em silêncio e neguei com a cabeça. Olhei pela janela.
E fiquei sem fôlego.
Campos verdes se estendiam por cima das colinas, até onde a vista alcançava. O céu estava límpido e o sol brilhando com força. Árvores de pinhos e tropicais se misturavam, criando uma floresta única e maravilhosa.
— Que lugar é esse?
— Algum lugar em Montana.
— Montana? — Engasguei. — Quanto tempo eu fiquei desacordada?
— Um dia e algumas horas.
— Filha da...
— Nunca veio a Montana?
— Não. — Dei um suspiro, ainda encarando a paisagem. — É maravilhoso.
— Eu sei.
Eu o olhei com os cantos dos olhos. Went estava sentado relaxado no banco, dirigindo por aquelas estradas desertas com familiaridade.
— Você é... Caminhoneiro?
Ele deu uma risada um pouco desconforme.
— Isso não é um caminhão, Rae. É um trailer.
— Parece ser um caminhão.
— Ok. É um trailer disfarçado de caminhão.
— Está falando sério?
— Digamos que a antiga aparência do meu trailer era muito conhecida.
Tive vontade de bater com a mão na testa.
— Você é um foragido. Claro, como não pensei nisso antes? Espere. Está me fazendo de refém?
— Que ideia tola.
— Você não negou.
— Nem afirmei.
— Isso é loucura! — Exclamei um pouco apavorada.
— A vida é uma loucura.
Um sentimento claustrofóbico tomou conta de mim, e fiquei desesperada por ar. Tentei abrir a janela com meus dedos trêmulos.
Uma mão grande cobriu a minha e tirou meus dedos do botão. Arranquei rapidamente minha mão e a escondi debaixo das pernas. Olhei para Went com a boca aberta, e encontrei seus olhos verdes faiscando.
— Não abra a janela.
— Por que não?
Ele pensou por um momento.
— Não quero que passe pela sua cabeça a ideia de se jogar daí.
— Só preciso de ar.
Seus olhos abandonaram a dureza que os assombrava e sua boca se contorceu num sorriso irônico.
— Se quiser uma respiração boca a boca, é só pedir.
Eu me afastei bem dele, desconfortável, e colei na porta.
— Cale a boca.
Estudei a porta ao meu lado, a tranca e o botão que abria o vidro. Testei a trava, e ela se mexeu com facilidade. Eu poderia abrir a porta do carro e me jogar. Com certeza sairia machucada, mas sobreviveria. Poderia correr por entre as árvores. Teria alguma chance de fugir dele até uma cidade mais próxima e pedir ajuda.
— Escute Dallas. — A voz dele me assustou, eu estava perdida em meus planos. — Não faça nada idiota.
Eu o olhei por cima do ombro e percebi que ele estava me encarando, seus olhos estavam duros. Como se lesse meus pensamentos.
Ele apontou com a cabeça para minha mão sobre a trava da porta.
— Você sabe que está melhor aqui do que lá fora.
— Você me sequestrou. — Falei, como se ele já não soubesse.
— De quê?
Meu cérebro demorou a assimilar as palavras dele, que vieram tão rápidas, e formulei a pergunta devagar.
— O que quer dizer?
— Sequestrar é roubar uma pessoa de alguém ou de algum lugar. A pergunta é: eu te sequestrei de quê?
Eu me remexi desconfortável, e desviei os olhos, sabendo que ele tinha razão.
Eu não tinha ninguém no mundo. Fui abandonada assim que nasci, deixada de lado em um orfanato com velhas zangadas e cintos de couro. Levava uma surra pelo menos uma vez ao dia, para garantir a disciplina. Tinha que aguentar o assédio intenso do cozinheiro, que constantemente esfregava suas mãos engorduradas em todas as partes das meninas. Consegui ficar naquele lugar enquanto pude, e, aos dez anos, pulei a janela do segundo andar à noite, torci um tornozelo e manquei até estar em uma distância segura daquele inferno.
Desde então, morei nas ruas, vivendo com o mínimo possível e fazendo coisas que eu nunca imaginei que faria.
Aprendi coisas que considero valiosas, como, por exemplo, que não se pode deixar levar pela fome, ou pelo cansaço. Nunca chegar perto de homens em grupo. Correr muito rápido. Sempre planejar furtos, até mesmo os menores, para evitar ser presa. Se um orfanato era ruim, a cadeia era pior.
Não tinha amigos. Não tinha casa. Não havia nada que pudesse ser tirado de mim, além da minha própria vida. Era a única coisa pela a qual eu temia. Eu mesma.
— Você me trouxe, ou, pelo menos, está me levando a algum lugar contra a minha vontade. Isso é sequestrar.
O automóvel deu uma freada brusca, parando quase imediatamente. Eu quase caí por cima do painel e dei de cabeça no vidro.
Went se inclinou por cima de mim, e todo meu corpo ficou tenso com a proximidade dele. Ele puxou a tranca e abriu a porta ao meu lado, me empurrando levemente para fora.
— A escolha é sua agora, pulchra.
Eu já estava saindo do caminhão/trailer, minhas pernas balançavam a alguns centímetros do chão. Entretanto, algo no tom da sua voz, uma angústia que se misturava ao tom grave e sensual, me fez olha-lo por cima do ombro.
Went me encarava com os olhos mais uma vez duros com sentimentos que eu não conhecia, e suas sobrancelhas estavam tensas e franzidas. O sorriso de deboche havia abandonado seu rosto, ao invés dele, apenas uma linha reta sem expressão.
Eu encarei mais uma vez a linda paisagem a minha frente. O verde da grama era o mesmo verde dos olhos dele, que estavam perfurando minhas costas.
— Eu não tenho para onde ir. — Admiti, e o encarei.
Went estendeu uma mão para mim.
— Então venha comigo.
Sabia de todas as possibilidades, todas as consequências. Conhecia meus riscos e reconheci que aquilo era loucura.
Porém antes que eu pudesse reconsiderar, minha mão se enrolou na dele e deixei que ele me puxasse mais uma vez para o banco de carona ao seu lado.
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