Irreversível

5 Capítulo V


Notas iniciais
(*) Niccolò Paganini: Variations on the Carnival of Venice Link: https://www.youtube.com/watch?v=C_JLj3jTtXQ

Capitulo V

O sábado chegou surpreendentemente rápido. Tanto que Ichigo mal sentiu a sexta-feira, de tão curtinha que foi.

Ele saltou da cama num impulso, ironicamente havia acordado cedo demais, o que lhe irritou muito. Quando tinha a chance de dormir até tarde, seu corpo despertava sozinho.

Aproveitou aquela manhã bonita para fazer sua corrida costumeira dos finais de semana. O sol naquela manhã de sábado raiava com o seu brilho intenso.

Uma manhã perfeita para correr, o céu azul lhe proporcionava um pequeno show com a atração das lindas e barulhentas maritacas, voando em bando. O silêncio agradável, o inicio do comercio, lojas abrindo e começando mais um longo dia de árduo trabalho para seus funcionários.

Aos sentir o ar da rua, Ichigo inalou profundamente. Alongou o corpo, trabalhou os bíceps, depois as pernas, sempre fazendo uma contagem de dez segundos.

Dez segundos contatos, corpo alongado, relógio no pulso, Ipod no bolso, agora só restava um minuto certo para começar a correr. Seus exercícios duravam em torno de uma hora e meia, contando no relógio. Era oito horas e vinte minutos da manhã quando Ichigo começou a correr.

O caminho percorrido, sempre iniciava em frente de seu prédio até a praça mais próxima, e vice-versa, ao que dava em torno de quinze minutos cada volta.

Uma hora e meia depois Ichigo estava de volta ao seu prédio, tendo uma pequena surpresa esperando-o na porta de seu apartamento: Eram Karen, Yuzu e seu escandaloso pai.

Sua irmã caçula quando o viu correu para abraça-lo, puxou suas orelhas, por não dar noticias e nem aparecer mais em casa. Ichigo se desculpou, acenou para Karen pouco mais adiante, ao lado do pai,.

Na vez de cumprimentar Isshin, o homem apontou o dedo na cara do morango e gritou escandalosamente que ele estava com péssima aparência. A principio, ele foi surpreendido pela abordagem um tato ofensiva de seu velho, mas depois resolveu ignorá-lo, Isshin era assim, nem valia a pena se exaltar com ele.

O trio entrou no apartamento, acompanhados pelo seu anfitrião.

Apesar de não demonstrar muito Ichigo ficou bastante contente de ver, que sua pequena e aconchegante família havia arranjado um tempo de se unir somente para visita-lo naquele dia. Sabe como é, ele andava sentindo-se um pouco... solitário, meio rejeitado e desgostado ultimamente.

O almoço ficou por conta de Yuzu.

Teria ficado por conta de Isshin, se caso ele não fosse tão estabanado, ao invés de dar assistência a filha, resolveu atrapalhá-la.

Depois do almoço, durante a tarde eles jogaram cartas, assistiram a reprise de um programa de humor, que geralmente passava a noite na televisão, nos dias de semana, mas aos sábados era reprisado. Suas irmãs adoravam aquele programa, principalmente Yuzu, que encantada comentava com todo mundo na escola.

Quando os três foram embora, o morango tirou um cochilo, acordando somente no cair da noite com o som do telefone tocando.

— Alô. — atendeu sem animo, mas a pessoa do outro lado da linha não respondeu.

Ichigo ouviu uns zumbidos, barulhos de automóveis. Massageou as temporadas sentindo o peso do sono abater novamente.

— Alô!! — repetiu num tom consideravelmente alto.

Ao contrário de você, que demora séculos para atender um interfone, eu não sou surdo.

Ichigo ficou um tempo olhando para a parede com cara de idiota.

— Aizen?

Ligue para a portaria e libere minha entrada.

— Como? E porque eu deveria fazer isso?

Porque estou na frente de seu prédio e estão barrando minha entrada. Tudo porque você não atende o interfone. Por favor, avise o porteiro!

Ichigo rodou os olhos.

Como se fosse preciso fazer aquilo, depois de duas, quer dizer: três, visitas dele no seu apartamento. Até parece que o porteiro ficaria abordando-o. Mas... ei, ei espera um pouco!

Mas o que? Aizen estava na entrada do seu prédio? Ichigo arregalou os olhos, compreendendo tudo.

O que ele queria naquele horário? Se bem que não era muito tarde, comparado aos horários que ele costumava a fazer suas inconvenientes visitas.

O que ele quer agora?

'Tá, como se nem suspeitasse do que Aizen queria. Ele pensou em fazer totalmente o contrário do que seu chefe havia pedido, e avisar ao porteiro para não permitir a entrada de Aizen no prédio.

Sério.

— Aizen, não é uma boa hora .

Não aceito qualquer desculpa.

Aizen não sabia mesmo seus limites.

Mas Ichigo estava disposto a fazer o impossível para manter o furacão que era Aizen Sousuke, o mais longe possível, de sua vida.

Estou horas tentando contato com você, vai ter que me receber!

Era seu chefe... sim, era... mas definitivamente era irritante demais. Aizen tinha que perder aquela mania de pensar que o mundo girava em torno de seu umbigo.

Pouco tempo depois Ichigo recebia Aizen, de braços cruzados no corredor, na frente do elevador aberto, com uma carranca dura na face. E já na primeira troca de olhares, o instinto galanteador de Aizen não perdeu tempo:

— Gostei do visual. — disse correndo os olhos pelo modelito que vestia o corpo do Kurosaki.

Ichigo não soube onde enfiar a cara. Os dois seguiram para dentro do apartamento. Mal colocaram os pés e Aizen soltou uma bomba em cima do rapaz.

— Vista-se... adequadamente. — O Kurosaki torceu o nariz, e ergueu uma sobrancelha.

— Pra que?

— Vamos jantar fora.

Ah 'tá, e o livre arbítrio não existe?

x

Ichigo ficou verdadeiramente agradecido por Aizen ter sido um grande intrometido, por ter entrado em seu quarto e opinado, sem que pedisse realmente uma opinião a ele sobre a roupa que pretendia vestir. Enquanto escolhia uma que fosse adequada para usar naquela noite, Aizen não teve papas na língua quando disse:

“Esta roupa não é aceitável. Vista algo sofisticado e leve, depois do jantar vamos a outro lugar”.

Porém, de inicio Ichigo não aceitou sua opinião, mas isso foi de início, depois ele pensou bastante e chegou a conclusão de que era melhor seguir os conselhos de Aizen. Afinal naquela noite Ichigo estaria ao lado de ninguém menos que Aizen Sousuke, o publicitário.

Também imaginou que Aizen não o levaria a um boteco qualquer para comer uns takoyaki e beber saque. Afinal estamos falando de Aizen Sousuke, um homem requintado, esmerado, sofisticado, apurado e cheio de mais outros frescurados.

Enfim.

Ichigo olhava em volta pensando que aquele lugar não tinha nada a ver com ele, diferente da vez que saiu com Inoue, ali estava sentindo-se verdadeiramente deslocado.

Os ombros numa tensão só, as sobrancelhas juntas e o suor escorrendo frio na lateral do rosto. Ergueu os olhos ambares apenas para encarar a figura relaxada e intelectual do publicitário, que estendia o cardápio num gesto apurado para o garçom.

— Ichigo, decidiu-se? — perguntou ele, numa tranquilidade de admirar, e Ichigo imaginou mil e uma maneiras de mandá-lo para os confins do inferno.

Óbvio que ele não havia se decidido, sequer tinha noção do que significava aqueles pratos colombianos e caros, tinha medo de escolher qualquer um e acabar comendo um assado ou cozido de elefante.

Vai saber.

O Kurosaki forçou a visão correndo os obres pelo cardápio, a procura de algo fácil de ser pronunciado, ao invés de ficar apontando o dedo no cardápio para o garçom, igual um pobre ignorante.

Encontrou um prato cujo o nome parecia bem fácil de ser pronunciar e melhor ainda o preço era bem acessível, podia pagar sem medo de ser feliz.

— Pa-pa.. pepa... papi... — tanto o garçom quanto Aizen olharam pra ele como se fosse um ser de outro mundo. A cara que Ichigo fez foi impagável.

O morango praticamente emperrava o cardápio aberto, cobrindo o rosto, rubro de vergonha. Poucos instantes passaram e ele ainda não tinha conseguido pronunciar o prato.

Papas Chorreadas, senhor? — interrompeu o garçom para um final feliz.

Ichigo acenou, entregando o cardápio ao garçom.

— Tem certeza, Ichigo? — Aizen perguntou, sem muito interesse. Sem pensar direito o morango fez um gesto rápido respondendo que sim.

Aizen ficou um tempo olhando-o com uma expressão indecifrável no rosto. Antes do garçom se retirar, o publicitário achou melhor ele mesmo fazer o pedido de bebida para o Kurosaki.

Quando se viu só com o chefe, morreu de vergonha. Mas Aizen estava mais relapso quanto aquilo. O desconforto na verdade era só da parte de Ichigo.

Sousuke iniciou um assunto banal sobre como gostava daquele restaurante, de como a comida era saborosa e leve, e o atendimento era maravilho e blábláblá.. Ichigo apenas ouvia calado, vez ou outra concordava só para não deixar seu chefe desconcertado.

Um tempo depois os pedidos chegaram. Quando o garçom depositou com suavidade e elegância o prato na frente de Ichigo, o morango pensou que estava tendo náuseas. Deu uma olhada na escolha de Aizen e depois para o próprio que sorria, um sorriso matador. Sentiu ganas de esganá-lo.

Jantaram na mais perfeita harmonia, cada garfada uma tortura. Pior era ouvir Aizen sussurrar o tempo todo que o prato era maravilhoso, que o sabor era divino, e que talvez quem sabe ele não repetisse? Claro tudo deboche.

Ichigo descobriu que preferia mil vezes um takoyaki com um saque fresquinho.

x

— Não entendo quais foram as razões que o levaram a escolher aquele prato. — comentou Aizen e Ichigo entendeu, que seu chefe estava tirando uma "onda" da sua cara.

— Perdão por não entender nada de pratos estrangeiros, principalmente colombianos.

— Porém, confesso Papas Chorreadas também tem algo de saboroso. — por um momento Ichigo chegou acreditar. Aizen sabia mentir muito bem.

— Diz isso porque não era você que estava jantando ele hoje.

Aizen riu pelo nariz e Ichigo olhou de canto, achando aquele simples ato... interessante. Depois do jantar que rendeu muito desgosto para ele e momentos de sabores divinos e diversão para Aizen, a dupla saia do restaurante conversando amistosamente sobre o único assunto que tinha destaque entre os dois naquela noite: o prato escolhido por Ichigo.

— Acredito que também não apreciastes o ambiente requintado?

Ichigo ficou um tempo reformulando aquela pergunta, Aizen estava querendo dizer o que aquilo?!

— Não que é que não tenha gostado, apenas prefiro lugares mais... normais.

— Normais?

— É, sabe... er tipo uma barraquinha, takoyakis, katsuteras... essas coisas.

Aizen fez um “Ah” de entendimento. Os dois agora andavam lado a lado no estacionamento, indo para onde o carro de Aizen estava.

— Onde vamos agora?

O publicitário sorriu de canto.

— Logo saberá.

x

Ichigo teve certeza que passaria por mais uma seção de constrangimentos naquela noite, quando a lamborghini gallardo de Aizen estacionou na frente de um prédio espelhado de aproximadamente... vinte andares. Primeiro ele tentou se enganar, dizendo a si mesmo que talvez Aizen estivesse apenas fazendo uma paradinha para ir ao banheiro ou sei lá o que, mas...

— Chegamos. — Anunciou Aizen para sua desgraça. Ichigo deu uma olhada pelo vidro, vendo um aglomerado de pessoas bem vestidas, fotógrafos e...

— Ei, ali não é aquele ator... como é mesmo o nome dele? — perguntou a si próprio, sem esperar realmente uma resposta.

— Ukitake Jushiro. — Aizen respondeu, sentado ao seu lado, com os olhos grudados em suas costas.

— É, esse mesmo! — Ichigo exclamou olhando, admirado, distraindo-se por um momento. — Ah e do lado dele não é aquele senador...

— Kyouraku Shunsui.

O morango riu de canto assentindo, mas de repente ele se deu conta do papelão que estava fazendo e se sentiu um grande idiota. — E gora, onde você resolveu me enfiar?

— Logo sabe-

— Não me vem com essa de “logo saberá”.

Aizen não disse nada, apenas sorriu de canto, ajeitou o terno e saiu do carro, quando o motorista abriu a porta.

Ichigo ficou um tempo olhando para porta fechada e para a silhueta de Aizen do lado de fora. Um tempo depois sua porta se abriu, ele espiou apreensivo, mas sem alternativas saiu do carro, se juntando a Aizen do lado de fora.

Os flashes imediatamente tomaram conta da dupla, muitas pessoas falando ao mesmo tempo, gritos, multidões se formavam em volta deles. Havia muitos seguranças por perto tentando conter as pessoas.

No fim a entrada no prédio foi rápida, porém dificultosa, Kurosaki não imaginava que seu chefe pudesse atrair tanta atenção daquele jeito.

Agora dentro do prédio podia-se ouvir os gritos abafados da rua, Aizen se encarregou de entregar dois envelopes, que Ichigo deduziu serem convites, na recepção. Seguiram por um corredor longo e logo entraram numa imensa porta marrom, que dava acesso direto a um vasto saguão.

Havia bastante pessoas, muitos artistas, algumas pessoas que Ichigo não lembrava, mas sabia que tinha visto na televisão. Alguns cumprimentaram Aizen, que ficou um tempo conversando com eles, um garçom passou por eles, com uma bandeja de prata na mão, oferecendo champanhe. Aizen pegou uma taça e estendeu para Ichigo e depois pegou uma para si próprio.

O publicitário puxou de leve o pulso do morango, afim de não perder muito tempo conversando com aquelas pessoas, sorriu e de forma educada se retirou.

Eles seguiram em direção a uma escadaria, no meio do caminho, trombaram com outro garçom, Aizen pegou suavemente a taça da mão de seu assistente, que ainda estava pela metade e depositou sobre a bandeja.

Depois de subirem três lances de escadas os dois passaram por uma nova porta, seguidos por algumas pessoas. Entraram num enorme salão, Ichigo ficou admirado com a arquitetura clássica e sofisticada, tudo ali era muito dourado, organizado e lustroso.

Havia um enorme palco coberto com cortinas negras, era um salão de eventos: teatros, operas e concertos, essas coisas.

Não teve dúvidas Aizen o levou para assistir algo do estilo. Er... bem, não é que não gostasse, mas ele tinha absoluta certeza que não era algo que apreciasse também.

Eles se aproximaram das cadeiras e Aizen cedeu espaço para que sentasse primeiro. Ichigo ficou um tempo encarando-o com um tédio explicito e detestando aquele tipo de tratamento. Ta certo que ele era gay, mas não era uma mulher. E mesmo que fosse uma, seria uma mulher extremamente feminista, ou seja, detestaria aquele tipo de cavalheirismo.

Contudo sentou-se mesmo assim. Ah só pra não deixar o pobre homem no vácuo por muito tempo, e também seria besteira começar uma discussão por causa de uma gentileza exagerada vinda de Aizen.

Aizen sentou-se depois, ao seu lado, deixando-o ereto e nervoso. Sei lá por que, já que durante todo o caminho de sua casa até o restaurante, do restaurante até ali, esteve sentado ao lado do publicitário no carro.

Mas não era tão perto assim.

Pela primeira vez naquela noite Ichigo sentiu o perfume dele exalar, impregnando em suas narinas.

Ah, hoje 'tá diferente!

Corou. Desde quando ele ficava inalando odores do seu chefe?

Desde aquele dia.

— A curiosidade finalmente matou o gato? — A voz de Aizen soou, chegando aos seus ouvidos. Ichigo desviou sua atenção do casal de artistas, que sentava na fileira do outro lado, para olhar o sorriso fechado de seu chefe.

— Não, ainda não. — De alguma forma Ichigo achou que deveria falar baixo, já que as pessoas que chegavam ali sussurravam ou estavam silenciosas demais. — Que lugar é esse Aizen?

— Não é óbvio? — Aizen sempre respondia aquilo para fazer suspense. Ichigo odiava isso.

— Não. — respondeu.

Aizen apenas sorriu, vendo as luzes se apagarem. Ichigo mesmo no escuro não deixou de olhar para onde Aizen estava. Uma pequena fresta de luz no palco iluminou a plateia, atraindo sua atenção, as cortinas negras se abriram, enfim iluminando todo o salão.

Lá no palco havia uma porção de cadeiras, instrumentos e partituras, que não tardou a serem ocupados pelos músicos. O maestro entrou logo em seguida fez uma curta reverencia e começou a conduzir a orquestra.

As primeiras notas eram leves, aconchegantes, Ichigo chegou a fechar os olhos achando aquela sensação bastante agradável e quando os tons começaram a elevar-se o maestro fez um movimento brusco onde a musica parou, as luzes piscaram duas vezes e se apagaram por um curto período de intervalo, até que o som de um violino especial preencheu o silêncio, e uma luz branca, mas fraca iluminou o centro do palco.

Notas finais
CBem-vindo novatos. *.* Mr Zero, muito obrigadinho pela recomendação lindona. ♥ Amei. Já disse isso milhões de vezes né! Hihi E claro agradeço a todos que estão acompanhando e comentando, vocês são demais. Espero que não tenham dormido neste capitulo ~zZzZzZz~ (Nyulan dormiu) O próximo é continuação, fui obrigada a dividir ou ele não saia hoje. Genti ainda não terminei de responder as reviews, mas vou respondendo aos pouquinhos. ;_; paciência com a tia aqui, ela tem que atualizar três histórias até segunda-feira. Enfim... Até sexta que vem, beijão, fui. 8D