Irresistível Paixão
1 Capítulo Um.
– Você não pode fazer isso, pai! – Molly riu desdenhosa, folheando outra página do livro que não conseguia se concentrar. – Não seja ridículo. – Finalizou seriamente encarando o homem sentado a poltrona em sua frente.
– Não só posso, como farei, Molly. – Ela ergueu os olhos mais uma vez e ele não retirou o olhar do documento que lia. Documento que sua filha deveria estar lendo. – Você vai para Montana esse fim de semana.
– Eu não vou para aquele fim de mundo, pai. – Jogou o livro no espaço vazio da cama e cruzou os braços encarando-o. Charles tinha um bigode saliente, tão saliente quanto sua barriga. A gravata ficava meio apertada durante a manhã, mas ele ia afrouxando-a durante o dia. O que, o deixava meio bagunçado quando a tarde chegava. Os cabelos negros estavam desgrenhados e haviam rugas de estresse em sua testa.
– Obviamente, você vai. – Ele declarou, claramente não deixando frestas para discussão. Molly sorriu, ela não era a melhor detetive de Seattle á toa.
– Pai. – Começou em tom baixo e lento. – Eu estou bem. Muito bem. Não preciso ficar em uma fazenda, perdida do mundo ou escondida.
Charles suspirou pesadamente e pousou o documento sobre o colo, em seguida abaixou os óculos e a encarou com aquele olhar. Aquele olhar implorativo que dizia “não se meta em confusão, por favor, não se meta em confusão”. Molly sem dúvida, odiava aquele olhar. Sabia que perderia para Charles, quando ele usava aquele olhar.
– Molly, querida, por favor, vá para Montana. – Ele se aproximou sentando-se na cama e pegando suas mãos entre a dele. – Eu sei que não quer deixar o emprego. Mas, eu preciso ir para Tóquio e não irei deixa-la sozinha aqui. Você está de licença, serão só dois meses, e Garth é a pessoa mais confiável que eu conheço. Ficará bem com ele. Além do mais, Holdbrook é um lugar lindo e relaxante. Você irá adorar.
– Pai... – Ela tentou mais uma vez com um suspiro lento.
– Por favor, Molly.
Molly encarou Charles por um longo tempo, até finalmente assentir. Ele suspirou aliviado e em seguida sorriu abraçando-a desajeitadamente. Molly apertou sua mão entre seus dedos e me ajeitou-se sobre a cama.
– Descanse um pouco querida. Vou pedir para Constantine preparar suas coisas. – Com um beijo, ele saiu fechando a porta do quarto.
Ela suspirou pesadamente enquanto ajeitava-se sobre o colchão macio. Não havia dúvidas, partiria para Montana no dia seguinte.
Molly tinha vinte e nove anos, era jovem e bonita. Como Charles dizia, tinha belos olhos castanhos e quase invisíveis sardas ruivas. Os cabelos eram negros e pesados, uma herança de sua avó Constantine, a mãe de sua falecida mãe. Quando Donna morrera, Molly tinha pouco mais de oito anos, era uma garotinha que ainda não sabia muita coisa, mas era inteligente o bastante para saber que a partir daquele dia, com o caixão, nunca mais teria a companhia de Donna, mas ainda tinha Constantine, a avó fora mais do que podia se esperar uma avó. A educara, aconselhara, fora amiga, irmã, mãe e avó. Não podia ter tido companhia melhor em sua adolescência.
Suspirou pesadamente.
Agora estava deixando para trás Const, sozinha naquela enorme mansão, sem companhia nenhuma além dos empregados da casa. Mesmo que estes fossem gentis e maravilhosos com a avó.
Odiava ser obrigada a isso. Tudo devia-se a terrível tentativa de assassinato recente. Seu carro havia explodido e por pouco, Molly também não virara pedacinhos, ou talvez nem isso sobrasse de seu corpo.
O pensamento a fez estremecer.
– Olá, querida. – A voz suave de Constantine invadiu o quarto e Molly sorriu instantaneamente para a avó. Const tinha os cabelos negros característicos de uma índia, as rugas eram pouco visíveis para uma mulher com mais de setenta anos. O sorriso era gentil, fácil, porém ainda assim, imponente. Ninguém em sã consciência ousaria discutir com a majestosa Constantine Michaelson.
– Olá, vovó.
– Como se sente, Molly? – Ela perguntou ajeitando-se sobre a cama. O vestido florido se espalhou pelo colchão.
– Estou bem, papai quem insiste de que irei morrer a qualquer momento. Quer me mandar para Montana, para passar dois meses com um vaqueiro. Por Deus.
Constantine riu audivelmente e Molly franziu as sobrancelhas confusa.
– Porque está rindo, vovó?!
– Não seja tola, Molly. – Constantine suspirou teatralmente e Molly revirou os olhos para a avó. – Eu daria toda a sua herança para passar uma noite ao lado de Garth Holdbrook.
– Vovó! – Molly riu com a expressão chocada e Constantine fez um gesto de descaso com as mãos.
– Ah, querida. Você verá que eu tenho razão. Ah, aquele homem é uma perdição. – Ela se abanou e levantou-se beijando a testa de Molly carinhosamente. – Faça bom proveito dele, Molly. Além de gentil, carismático e divertido, é um ótimo pedaço de filé.
– Oras, vovó. Eu não quero um marido.
– E quem aqui falou em casamento, Molly?
– Eu não quero um namorado, vovó.
– Eu não falei em namoro.
– Vovó!
Constantine riu mais uma vez.
– Molly, Molly. Aproveite mais a vida querida, e ouça-me bem, aproveite daquele homem. Você verá que eu tenho razão. – Ela sorriu carinhosamente. – Suas coisas estão prontas. Devo colocar algumas peças de lingerie? – Arqueou a sobrancelha maliciosamente.
– Por Deus, vovó! Não! – Molly levou as mãos até o rosto, sentindo-se corar furiosamente. – O que o papai vai pensar?!
– Molly, você não faz ideia do que passa pela cabeça do seu velho pai.
Constantine sorriu marotamente e deixou o quarto, Molly encarou a porta mais uma vez sentindo-se confusa. Então suspirou, e ajeitou-se novamente sobre as cobertas. Já passavam-se das dez e certamente, teria muitas surpresas pela manhã.
Assim que pousei meus pés sobre a tão famosa Holdbrook, senti o ar quente do rancho bater contra meu rosto. Eu não estava acostumada com tanto calor, Seattle, geralmente, era chuvosa e úmida. Encarei ao redor e o lugar, era sem dúvida muito bonito. Haviam várias árvores e uma fonte no jardim de entrada, a casa era majestosa, grande e bonita, muito característica de uma fazenda. Havia um cavalo preso nas muretas da escada, ele era forte e bonito. Provavelmente, algum puro sangue. Vê-lo atiçou minha curiosidade, considerando que eu nunca estive tão perto da natureza além de zoológicos antes.
Porém, a única coisa que me ocorreu, foi que eu não sabia quem era Garth Holdbrook e nem onde ele estava. O piloto que me deixara no rancho com o avião particular do papai já havia partido, e com uma lentidão exagerada eu caminhei até a entrada da casa. Minhas malas se encontravam em minhas mãos, sendo arrastadas pelos pedregulhos, e eu agradeci por não usar saltos nesse momento, apesar de ultimamente, estar usando-os muito pouco.
– Olá?! – Ouvi alguém pigarrear atrás de mim e me virei encarando a senhora baixa e bronzeada. Ela tinha cabelos escuros e encaracolados, e um sorriso acolhedor nos lábios vermelhos. – Sou Camélia. A governanta do senhor Holdbrook. Você deve ser a Molly.
– É, sou eu. – Eu sorri e estendi a mão, respondendo ao seu cumprimento gentil. – É um prazer Camélia.
– Pode me chamar de Cam. – Ela sorriu. – Venha comigo, vou te mostrar seu quarto. Pode deixar as malas aí, querida. Logo Casey virá busca-las. Ele é jovem e meio bobo. Não se incomode se ele ficar babando em você um pouco.
Eu ri baixinho e passei a acompanha-la em direção a casa.
– Tudo bem. Esse lugar é lindo. – Comentei depois de alguns minutos de caminhada.
– É sim, Garth gosta de manter tudo muito acolhedor. – Ela indicou-me a entrada da casa, a sala era ampla e tudo era em tons de branco e marrom, um contraste perfeito e como dissera Cam, bastante acolhedor. Haviam escadas para o andar de cima da casa, a porta do que devia ser um escritório e mais a frente outra que talvez fosse da cozinha. – Eu gostaria de ficar para lhe mostrar o restante da casa, mas acho que Garth mesmo fará isso.
– Camélia, eu não estou, sabe, incomodando? Meu pai ficou pirado com o acidente... – Balancei a cabeça preocupada, mas Cam somente sorriu pegando minhas mãos entre as suas.
– Claro que não, querida. Fico feliz de ter uma companhia nesta casa. Garth é muito gentil e companheiro com todos aqui, mas, passa mais tempo cuidando das terras do que de fato em casa.
– Oh! Então tudo bem. – Eu suspirei e nós caminhamos até o andar de cima, haviam vários quartos e Camélia me indicou todos eles, disse que havia uma biblioteca e que em alguns minutos Garth me mostraria o cômodo.
– Bom, aqui está o seu quarto. – Ela indicou uma porta e eu a abri encarando a decoração acolhedora, diferente dos quartos de hospedes das casas de Seattle. Havia uma cama, com a cabeceira de madeira com entalhes de rosas, a colcha era de retalhos coloridos e havia diversas almofadas sobre a cama. Do outro lado do quarto um guarda-roupa grande e também com entalhes, o quarto era bonito e espaçoso, a janela dava para o jardim da casa e eu me aproximei para observar a vista.
Eu não esperava ter exatamente a visão que tive.
Observei atentamente a figura imponente na entrada, ele conversava com um outro rapaz, um pouco mais jovem e muito mais magro. No entanto, eu podia apostar que aquele era Garth Holdbrook. Os cabelos eram castanhos escuros e ele era alto. Usava uma regata preta que evidenciava os músculos de seu braço e jeans surrados. Notei com pesar, que vovó tinha completa razão a respeito do senhor Holdbrook. Ele sorriu para o garoto e pude notar as covinhas em seu rosto, os olhos eram escuros e marcantes, tinha um rosto charmoso, eu diria. Podia ser um modelo, ou um homem de negócios bem vestido em um Armani. Mas era um fazendeiro, um cowboy. Ele ergueu os olhos em minha direção, e eu pisquei atônita quando ele aumentou ainda mais o seu sorriso em minha direção, os dentes brancos e perfeitamente alinhados, os lábios bem desenhados. Ele acenou divertido e eu me recompus, notando só então, que eu estava avaliando-o de boca aberta como uma idiota.
Eu engoli em seco e respirei fundo mais uma vez.
Por Deus!
Aquele era o Garth Holdbrook. A perdição.
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