Irremediável

1 Uma segunda-feira.


Dormi mal, tive um sono inquieto, e acordei com a cabeça explodindo e sem noção nenhuma de tempo-espaço. A ressaca cobria meus olhos e embrulhava meu estômago, ao mesmo tempo em que eu verificava na tela brilhante e grande de mais do celular, que era segunda-feira. 03 de maio. 6:30 da manhã. Uma hora para a aula e — droga — eu estava a minutos de estar atrasada. Olhei pela janela aberta, o dia quase surgindo. A janela aberta, o quarto meio claro, a porta fechada. As roupas de ontem a noite jogadas no chão, em cima do violão e das letras de musicas que ainda não consegui terminar.Pedaços de mim mesma que não consigo achar a melodia correta, a sincronia exata entre letra e som, som e coração. Mãos e olhos, olhos e ouvidos. Nada mais estava em sincronia comigo mesma.

Acordei meio sem fome — ou então era só o álcool fazendo seu efeito de me deixar enjoada e sem vontade alguma de comer — o que não era nada normal, pois eu sempre estava com fome. Sabia que algo estava errado, mas culpei a dor de cabeça pelas premonições idiotas, pelos sonhos ruins, pela falta de ânimo. Afinal, o que se espera de uma pessoa que passou o final de semana de porre? Eu não era um exemplo a ser seguido nem por mim mesma. Era o tipo de pessoa que minha mãe me mandava ficar longe. Mas, mãe, como ficar longe de mim mesma? Me ensina a receita?

Fui tomar banho, sentei no chão e deixei a água escorrer pelo meu corpo, levando consigo pelo ralo os vestígios do fim de semana movimentado e ruim. Meus pensamentos se misturavam à agua quente que caía, e eu não me misturava com nada. Fiquei parada, estática, até a água quente começar a perder efeito e meu corpo reclamar da posição. Me sequei, passando a toalha vagarosamente pelo meu corpo, avaliando as lesões e os hematomas, provenientes de noites na rua, bebada, sem noção alguma de com quem estava ou o que estava fazendo. Não estava tão ruim assim, já tinha sido pior. Meu corpo estremeceu ao tocar em um hematoma, e eu estremeci ao lembrar o motivo, então sai do banheiro o mais rápido que consegui sem quebrar nada. Nem minha unha, nem minha cara.

Se antes eu estava a minutos de estar atrasada, agora eu realmente estava atrasada. 7 horas. Meia hora para as aulas. Droga. Enquanto eu colocava meu uniforme amarrotado e sem graça e procurava minha mochila, meu celular apitou. Mensagem. Saí correndo, sem tempo para pegar dinheiro, ou avisar minha mãe que estava saindo, ou ao menos pensar. Não pensar era uma estratégia muito boa para mim, costumava usar com frequencia. Todas as vezes que as coisas ficavam pesadas de mais. Saia na sexta e não pense na hora de voltar. Beba, e não pense no que seus pais vão achar. Fique com quem quiser ficar com você, e não pense no que seu namorado vai dizer. Beba mais, e não pense na ressaca do dia seguinte. Saia no sábado e não pense em avisar ninguém. Beba e não pense, beba pra curar a ressaca do dia anterior. Volte a hora em que não aguentar mais beber, e não pense que no outro dia é seu aniversário. Saia no domingo, e não pense em comemorar. 17 anos, quem comemora 17 anos? Beba mais e não pense no porre em que você vai estar, afinal é seu aniversário e você tem que comemorar. Não pense. Não pense na prova chata de aritimética no fim do mês, não pense na entrega do trabalho de inglês na segunda, dia 03.

Segunda, dia 03. Meu ônibus estava atrasado, ou era eu que estava atrasada e perdera o ônibus? Sentei no banco gelado e úmido do ponto de ônibus, enquanto esperava o próximo. Fazia frio, e eu, na minha loucura em acordar atrasada e não saber aonde ir, o que fazer ou aonde está, esqueci de colocar um agasalho. O vento frio cortava meu rosto, rachando meus lábios e gelando meu nariz, que eu sentia ficar vermelho a cada rajada de vento. O dia estava claro, como se zombasse de mim pela minha falta de atenção a ele. Como se falasse “isso é para você aprender a olhar na janela, antes de sair”. Tinha algumas crianças correndo até o primário mais próximo, um homem com seu cachorro — ou um cachorro com seu homem, e isto seria bem mais adequado, segundo a cena que se passava -, uma senhora com cesta de compras, indo a feirinha que funcionava todas as segundas no meu bairro. Pessoas vivendo. Pessoas vivendo às sete horas da manhã e eu não era capaz nem de pegar o ônibus certo e não perder minha primeira aula.

Peguei meu celular para verificar o quão fodidamente atrasada eu estava e vi a mensagem não lida, que abri instantaneamente.

“A noite foi boa, o fim de semana ruim, mas nós temos apresentação de inglês na quarta aula, apareça até lá, por favor.”

Sorri. Pelo menos alguém lembrou de me avisar da apresentação. No dia, claro. Respondi a Maira com os dedos um pouco duros por causa do frio. “Noite ruim, fim de semana ruim, relógio que não desperta, amigos que não ligam. Estarei ai na quarta aula.” Ela poderia lidar com um pouco de culpa.

Finalmente, quase meia hora depois, meu ônibus passou. Adeus Biologia II. Mas eu poderia lidar com essa falta, qualquer coisa era melhor que quarenta minutos de uma velha rabugenta e chata falando sobre algo que não me interessa e que não fará parte do meu futuro acadêmico, se é que vou ter um. Sinceramente, não sei para que vou usar Biologia da Conservação em Sociologia. Então, uma falta a mais ou a menos não mudaria nada na minha vida. Me sentei ao lado de uma senhora com lenço rosa na cabeça, que cedeu seu lugar na janela e se sentou ao lado do corredor.

— Está indo para a escola, filha? — Ela perguntou, com voz de avó que faz bolo de chocolate e põe pra esfriar na janela da cozinha.

— Atrasada, mas estou sim. — Respondi, sorrindo.

— Antes tarde do que nunca. Parece cansada. Parece sofrida. — Ela disse, analisando meu rosto.

Não sabia que sofrimento era estampado tão sutilmente assim. Para mim, eu conseguia esconder muito bem o sofrimento que se alojara em mim. Obviamente não fiz um bom trabalho.

— Só estou cansada. Cheguei tarde em casa ontem, e dormi mal. Nunca durmo muito bem, mas a bebida piora a situação. — Comentei.

— Ah, a bebida. Mal de toda uma geração. — Ela disse, sorrindo. — Sabe uma coisa que é bom para isso? — Ela perguntou, me olhando, esperando uma resposta.

“Dormir?” Pensei. Quando ela percebeu que eu estava esperando sua afirmação, suspirou e disse:

— Amor.

A encarei. Ela me olhava com esperança, talvez com dó. Meu ponto chegou, e aproveitei a oportunidade pra sair sem responder, dando um leve bom dia e um obrigada pela conversa. Não queria discutir sobre amor.

Entrei no colégio com pátio frio. Por que ainda lavam isto no inverno? Deveria ter uma lei que proíbe as tias da limpeza de lavar o pátio no frio, pois a escola, que já é fria e melancólica mesmo durante seus melhores dias, consegue ficar mais deprimente. Ainda mais para quem não trouxe agasalho.

— Também atrasada? — Perguntou a conhecida voz da minha melhor amiga. Me virei para abraça-la, e em segundos, foi como se todo peso do mundo tivesse saido de cima das minhas costas.

— Aquela sms foi só pra me deixar mal? — Perguntei, rindo.

— Olha só quem fala. Amigos que não ligam? Amigos que estão dormindo, de ressaca, porque sairam pra beber com você em pleno domingo, senhora “preciso ficar sozinha, mas se quiser ficar comigo, eu pago um uísque”. Aliás, onde você arrumou a identidade falsa? — Ela despejou tudo de uma vez, com a voz suave de sono, e sempre rápida de mais.

— Aquele cara que eu estava pegando, ele mexe com essas coisas. Foi a unica coisa boa que consegui arrancar dele. — Falei, remexendo na bolsa, inquieta.

— Tudo bem. Poderia ter pego uma pra mim também, sabe. Se bem que eu tenho cara de 12 anos, não de 17. Nem meus pais acreditam que eu tenho 17, e olha que foram eles que me fizeram. — Ela disse, rindo.

Ri junto.

— Você vai agradecer quando estivermos com 60 anos. Eu com cara de 80 e você com cara de 30. — Falei rindo, enquanto subíamos o bloco para a sala.

— Isso só vale a longo prazo. Mas você tem cara de 20 e eu de 12, você se vira muito bem com uma identidade falsa ao que me perguntam se não erraram minha data de nascimento na minha identidade verdadeira . — Ela disse, remexendo os cabelos loiros mal presos, exasperada.

— Mai, ninguém liga pra quantos anos você tem, eles só querem te comer. — Eu disse, ajeitando uma mexa do cabelo dela, que se recusava a ficar no lugar.

— Olha Kris, ninguém liga pra quem quer me comer. Vou casar virgem.

Ela olhou pra mim. Eu olhei pra ela. Nos encaramos por alguns segundos, e então ficou dificil de mais conter o riso.

— Tudo bem, isto foi realmente forçado. — Eu disse, enquanto me sentava no degrau gelado, esperando a professora sair da sala para poder entrar.

— Ah, vai falar que você nunca sonhou em casar de véu, grinalda, e uma igreja inteira te aplaudindo enquanto você beija seu amado? — Ela disse, dando espaço para a professora, que finalmente saiu.

Me levantei. A segui para dentro da sala e me sentei no meu lugar, ao lado da janela. Ela se sentou na minha frente, de frente para mim.

— Amor é para quem acredita. Casamento é para quem ama. Logo, não terei nem um dos dois, graças a minha incrível descrença em mim mesma. — Eu disse.

— Credo, você é muito pessimista. Se eu não te conhecesse a tanto tempo, diria que é algo entre emo depressiva e puta mal comida. — Ela fez uma careta.

— Eu também te amo, Maira. — Eu ri.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.