Ironia do Destino
9 Capítulo 8- (Parte 1): Esclarecendo Sentimentos
Notas iniciais
Quando quinta-feira começou (à exatamente duas semanas e três dias desde que fui destinada a estudar com Henry), achei que seria mais um dia normal. Eu estava completamente enganada.
Depois de refletir sobre o que Beatrice disse (“os opostos se atraem”), me perguntei o que eu realmente sinto por Henry. Eu gosto de seu perfume, do seu sorriso, da cor azul de seus olhos, do seu corpo, do seu beijo, do seu bom caráter, do modo como ele se empenha em me ajudar, de como ele é inteligente e... Estou começando a acreditar que gosto dele de verdade.
Assim que desci as escadas para tomar o café da manhã, Lucy não parava de me olhar. Parecia que estava pensando em como me dizer algo.
_Mãe, pode falar. -Eu disse, sentando-me ao seu lado.
_Bom dia, Emma.
Eu à olhei de soslaio enquanto levava o copo de leite à boca. Estava claro que não era isso que ela queria me dizer.
_Muito bem — Ela cruzou as pernas e se sentou com uma postura impecável. -Sábado à noite nós iremos jantar na casa de John. Ela vai nos apresentar à sua família.
_Vocês finalmente vão tornar oficial?
Ela assentiu.
_Pretendemos fazer isso no jantar. -Concluiu.
Mas, espere um momento... Se John vai nos apresentar para sua família e ele é tio do Henry, então quer dizer que...
_Os sobrinhos de John também vão? -Perguntei.
_Se você quer saber se o Henry vai, pode apostar que sim.
Eu engasguei na hora.
_O que te levou a pensar isso?
Ela me deu aquele típico sorrisinho de mãe, de quem sabe de tudo.
_Você acha que eu não te vi abraçada na esquina com ele no sábado?
_Não ficamos nem três segundos abraçados!
_Ah, e agora você está até contando os segundos? Estou impressionada.
Argh! Eu odeio quando ela me provoca dessa maneira. Revirei os olhos como resposta e me retirei da cozinha. Eu já havia terminado o leite e, de qualquer maneira, estava atrasada para escola.
_Tchau, mãe.
Durante o caminho para Santa Helena de Cupuaçu fiquei pensando no que minha mãe dissera. Se antes eu não sabia o que eu e Henry somos, agora muito menos. A dúvida era: amizade ou amizade colorida, mas a opção “primo” definitivamente não estava na lista.
Chegando na escola, percebi que todos os alunos dos terceiros anos estavam reunidos no pátio. Isso raramente acontece; da última vez foi porque dois garotos estavam brigando, com direito à socos e uma lesão no nariz. Tentei achar Beatrice no meio da multidão, mas encontrei primeiro o Fred (pois ele é mais alto), então foi só seguir em sua direção para encontrá-la.
_Bia! -Tive que gritar devido ao barulho de agitação dos outros alunos -O que está acontecendo?
_Oi Emma! -Ela se aproximou para eu ouvir melhor – A diretora reuniu todo mundo para dar um aviso. Ainda não sabemos o que é.
Depois de uns dez minutos de espera, a diretora Margarida subiu no pequeno palco do pátio com um microfone na mão quando fez o seguinte anúncio:
_Alunos! Silêncio. Silêncio por favor! -A conversa foi diminuindo, até se tornar murmúrios e, por fim, o silêncio. _Muito melhor agora! Obrigada. Bom, a nossa escola foi avisada de última hora de um evento que está ocorrendo no Campus da cidade. A faculdade preparou uma feira de ciências e convidou todos os alunos de ensino médio que estão prestes a se formar. Como não tivemos tempo de avisar os seus responsáveis antes, a coordenação da escola está encarregada de entrar em contato com eles agora para avisá-los. Vamos partir na próxima aula. Como é de conhecimento de todos, o local fica à dois quarteirões daqui, então iremos andando. Gostaria de pedir que mantenham a calma até a hora de irmos. Obrigada pela atenção e até breve.
Depois de se retirar, os alunos instantaneamente voltaram a conversar. Claro que eu não sou uma exceção.
_Caramba, vamos perder todas as aulas chatas de hoje. Me lembre de agradecer aos universitários depois.
_Ai, ai, Emma. Só você mesmo. Você deveria ir com Henry, ele adora ciências e com certeza poderia te explicar o que não entender lá.
Isso foi tipo um “Vai com ele porque quero ficar a sós com o Fred”. Eu prefiro ir com Henry do que segurar vela.
_ Já entendi agora. -disse com tom de choro.
Nós rimos. É uma piada interna nossa do meme do garoto que gosta do raça negra.
Deixei Beatrice para trás e procurei Henry. Ele estava ao lado de um dos seus (poucos, eu atrevo dizer) amigos. Não o conheço muito bem, mas sei que se chama Alison. Quando me aproximei ouvi um pedaço da conversa deles;
_...por isso eu acho que LOL é muito melhor do que DOTA. -Concluiu Alison.
Assim que perceberam minha presença, pararam de conversar.
_Oi Emma -disse Henry com um sorriso agradável no rosto.
_Oi Henry. Eu posso ficar com você durante a feira de ciências?
_Claro.
_A Bia que sugeriu, ela disse que seria mais fácil entender os experimentos com você para me explicar.
_Bem... os universitários com certeza vão explicar os experimentos, mas eu posso tirar as dúvidas que tiverem ao meu alcance.
_Acho que ela só estava tentando se livrar de mim.
Nós rimos. Alison se retirou assim que percebeu que estava ficando de fora da conversa. Agora eu teria o tempo de uma aula inteira para ficar na companhia de Henry.
_Então... eu preciso falar com você.
_Pode falar.
Eu não queria tentar declarar meus sentimentos a ele no meio da multidão.
_ Não posso fazer o que quero aqui. Não podemos ir à um lugar mais privado?
O rosto dele ruborizou. Será que ele interpretou de uma maneira maliciosa?
_C-claro.
Me vi pegando sua mão e o guiando até os corredores da escola. As outras salas estavam em aula e os alunos dos terceiros estavam todos na quadra (exceto por nós dois), então os corredores estavam vazios. Quando enfim paramos, respirei fundo e comecei a falar:
_Não sei como te dizer isso. Acho que eu... meio que gosto de você, mas não gostar como amigo, é como se, tipo...
Eu não estava conseguindo falar direito. Argh! Sou péssima para essas coisas. Nunca precisei me declarar para ninguém antes e não conseguia fazer isso encarando os olhos de Henry, eu fixava o chão tentando procurar palavras para explicar o que nem mesmo eu compreendia e...
Meus pensamentos foram interrompidos quando ele segurou sutilmente meu rosto com uma das mãos e colocou uma mexa solta de cabelo atrás de minha orelha com a outra.
_Tudo bem, Emma. Eu sei como se sente.
Então ele me beijou. Foi o beijo mais sincero que recebi. Era como se ele entendesse o que eu sentia e tudo o que fiz foi retribuir o beijo, tentando demonstrar o que palavras não foram suficientes para expressar. Quando finalmente paramos, tentei organizar os pensamentos.
_Eu gosto disso... -Eu segurei sua mão- de estar com você. Acontece que, agora somos primos. Eu não sei se quero te chamar assim, soa terrível nos meus ouvidos.
_Nós não temos nenhum grau de parentesco, como assim nós somos primos?
_Bom, era isso que eu queria falar com você. Minha mãe está namorando o seu tio John, isso muda tudo.
_Nossa! Eu não sabia. Ele não disse nada sobre isso!
_Eles vão revelar no jantar de amanhã.
_Ah! Então por isso ele me convidou e disse que tinha algo para anunciar.
_Não diga nada a sua família. E se finja de surpreso quando ouvir a notícia.
_Está bem, não se preocupe com isso. E Emma, seremos primos de consideração, não é errado estarmos juntos.
_Eu sei, só me parece... estranho.
_Não é tão estranho assim.
_Não é só isso. É sobre ter um pai também, sabe? Eu nunca tive um. Não sei se estou pronta para ter agora. A vida inteira foi só eu e minha mãe, como vou saber se estou pronta para tê-lo em minha família agora? E se eu ele não gostar de mim? E se não nos dermos bem?
Por que eu estou me abrindo para ele? É como se tivesse algo preso há muito tempo em minha garganta e eu simplesmente precisava falar disso com alguém.
_Meu tio é uma boa pessoa, eu te garanto. Ele faz algumas piadas sem graças às vezes, mas fora isso é um homem em que você pode confiar.
Eu ri do comentário das piadas sem graça. Céus! Como ele consegue me fazer rir em um momento assim? Eu deveria estar com a expressão horrível, mistura de choro com riso.
_Vai ficar tudo bem, eu prometo. -Disse ele, me acariciando.
Com ele falando essas palavras em um tom de voz tão suave, é até fácil acreditar.
O sinal tocou; deveríamos estar no pátio da escola. Fomos rápido até lá e esperamos a diretora nos instruir.
_Alunos! -dessa vez todos ficaram quietos de primeira- Os responsáveis por vocês já foram avisados sobre a feira de ciências. Por favor, dirijam-se à entrada da escola. Vamos seguir pela calçada principal até o campus. Acompanhem os coordenadores e eu.
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