Ironia do Destino
8 Capítulo 7- A revanche e Atração dos Opostos
Notas iniciais
Passou-se uma semana desde o incidente da piscina. Eu fiquei insistindo para Beatrice me contar quem foi, mas ela sempre dizia a mesma coisa. Eu não sou do tipo insistente, porém, não iria deixar a pessoa que fez isso se safar dessa. Beatrice e eu andávamos pelo corredor da escola e a discussão parecia interminável.
_Emma, de novo isso? Eu já disse que não quero você se vingando de ninguém.
_Mas Bia, eu não vou me vingar!
Bom, eu só ia dar uma lição na pessoa.
_Ah, é mesmo? Da última vez que alguém lhe pregou uma peça a menina teve que cortar o cabelo no ombro de tanta cola que você colocou!
_Pela milésima vez, eu tinha só dez anos!
Ela finalmente parou, respirou fundo e disse:
_Se você fez isso sendo uma “inocente” criança de dez anos, imagina o que faria agora?
Um balde de água na cabeça do responsável não me parece má ideia.
_Eu iria conversar com o responsável como a pessoa sensata que sou.
Ela me olhou, incrédula.
_Se eu te contar, você vai sair do meu pé?
Assenti.
_ Regina desafiou Fred. Satisfeita?
_Espera, o seu Fred?
_Sim.
Fiquei parada e pensando por alguns instantes. Era por isso que ela demorou a semana inteira para me contar? Estava tentando defender seu namorado. Mas porque Fred me jogaria da piscina? Ele poderia recusar o desafio.
_Por que ele não recusou ou saiu do jogo?
_Você sabe que o Fred leva desafios muito a sério.
A verdadeira culpada disso tudo é Regina. Se ela não tivesse o desafiado isso nunca teria acontecido. Eu sabia que ela estava envolvida. Ela tem que receber o troco.
_Emma, nem pense nisso.
Eu sempre admirei a capacidade de Beatrice conseguir tudo o que quer, mas a capacidade dela de ler meus pensamentos (ou seria minhas expressões faciais?) é igualmente incrível.
_Ela é ridícula, só de estar viva já paga micão, você não precisa nem se dar ao trabalho de se vingar. Além do mais, você não é mais uma criança. Esse tipo de pensamento é muito imaturo de sua parte.
Parando para analisar, eu realmente estava sendo infantil. Mas na hora da raiva me parecia a coisa certa a se fazer. Eu lembro das pessoas cochichando e algumas segurando a risada quando eu e Henry passávamos por elas molhados. Isso é um tanto quanto irritante. Agora jogar um balde de água em Regina não me parece mais uma boa ideia, mas eu ainda vou pensar em algo melhor.
Quando bateu o sinal da primeira aula, resolvi sentar-me ao lado de Henry, na fileira da frente. Por mais que eu deteste sentar na frente, eu precisava. Depois do nosso beijo, sempre que ele ia em casa explicar a matéria, eu só conseguia prestar atenção em seus lábios e na maneira como eles se movem quando ele fala e minha mente acabava divagando e relembrando a cena. E quando ele dizia para eu prestar atenção, eu via-me forçada a encara-lo para demonstrar que estava escutando, o que era pior, pois seus olhos azuis são outra bela distração. Só me restava sentar na carteira da frente, pelo menos assim eu me distrairia menos do que quando sento no fundo e, caso surgisse alguma dúvida durante a aula, poderia perguntar a ele.
A professora bisKátia fez uma revisão da tabela periódica. Em geral não gostava das aulas, mas as revisões eram boas porque ouvindo a mesma coisa duas vezes eu conseguia aprender algo. Ainda não tinha decorado todos os elementos da tabela, mas Henry disse que eu só precisava saber os principais (que mais caiam em provas) e me deu uma tabela menor para decorar. Como ele percebeu minha dificuldade extra depois da festa de Duncan, ele separou cada dia da semana para decoramos um grupo de elementos. Segunda passada estudamos os “não metais”, que são: Hidrogênio, Carbono, Nitrogênio, Oxigênio, Fósforo (que eu não sei por que diabos é representado pela letra P se começa com F!), Enxofre, que é representado pelo S, mas ele me explicou, é porque vem da palavra “Sulfur” e o outro não me lembro. Terça estudamos os Gases Nobres, e para eu não esquecer da característica deles, Henry me falou que os nobres não se misturam pois são gases de nariz empinado. O senso de humor dele é adorável. Quarta vimos os metais alca-
_Emma! Poderia responder à pergunta? -Disse ela impaciente, provavelmente por eu não ter prestado atenção em nada do que ela disse desde o início da aula.
_Repete a pergunta.
_Eu quero um exemplo de um dos metais de transição.
_Ah, o Cu professora!
A sala inteira caiu na gargalhada, até Henry não se conteve. Obviamente ela ficou irritada com a resposta. Mas eu respondi certo, pois o Cu é o cobre e ele é sim um metal de transição. Henry me explicou isso quinta-feira e eu nunca esqueceria um elemento desses.
_Emma, está correto, mas eu prefiro que da próxima vez diga as letras C e U. Pronunciar essa palavra é... -Ela se demorou por um instante- deselegante.
A aula prosseguiu normalmente. Quando faltavam trinta minutos para o intervalo, ela nos surpreendeu.
_Classe, hoje teremos teste surpresa!
A sala fez um “Ahhh” de desolação em coro. Ninguém esperava isso (bom, isso é óbvio, por isso se chama teste surpresa) porém, por alguma razão, eu não estava nervosa. Estudei tanto com Henry que dessa vez poderia me sair bem.
_Vocês terão direito a usar a tabela periódica.
A professora começou a entregar as folhas e quando terminou de organizar a sala, restavam apenas vinte e cinco minutos para bater o sinal. Comecei a ler a prova tentando manter a calma, até porque se eu queria passar de ano, dependia muito desse teste. A primeira questão era: “Por que o hidrogênio é considerado um elemento atípico”? Lembro que Henry explicou isso no dia em que vimos os não-metais, é porque o hidrogênio é o único elemento que não tem nêutrons no núcleo e não se encaixa em nenhuma família da tabela periódica. Ele até disse que o Hidrogênio é o “forever alone” da tabela, e eu cantei um trecho de uma música assim: “hello darkness my old friend”. Tive que segurar o riso. Estudar era engraçado com Henry. Depois que ficamos mais amigos ele passou a fazer mais brincadeiras nas explicações. O resto da prova foi tranquilo, eu lia as questões e lembrava de cada referência e explicação dele (as que eu consegui prestar atenção, pelo menos) e por sorte, a maioria eu lembrei e consegui passar para a prova. Quando faltavam dois minutos para sairmos da sala, a professora disse:
_Turma, vou recolher as provas. Quem está na última carteira passe a prova para o colega da frente, e assim sucessivamente. Então pegarei as provas das fileiras com os das primeiras carteiras.
Um passou a prova para o outro até chegarem a mim. Percebi que Regina sentou em minha fileira assim que vi seu nome em uma das provas. Essa era a oportunidade perfeita para uma revanche! Sem que a professora percebesse, peguei o teste de Regina e escondi dentro de meu caderno que estava em baixo da mesa. Se a professora não olhasse seu teste, é como se ela não tivesse feito e ficaria com nota mínima! Entreguei as folhas para a professora com a maior naturalidade que pude. Não me considero uma pessoa má, mas Regina mereceu. Não só por ter empurrado Henry e eu da piscina, mas por tudo que ela já fez comigo e com outras pessoas que não fizeram nada de errado para serem tratadas com desrespeito.
_Emma, como acha que se saiu? -Perguntou Henry
_Pela primeira vez, acho que fui bem!
Ele deu meio sorriso, aquele que não é estonteante, mas não deixa de ser encantador.
_Que ótimo! Isso quer dizer que os estudos estão funcionando. Se continuarmos assim, você vai passar de ano.
_Isso é tudo que eu quero. -Admiti.
Quando o sinal tocou, peguei minha bolsa e fui em direção à porta, mas antes de pisar o pé para fora, a professora bisKátia me chamou.
_Emma! Espere. Tem um caderno debaixo de sua mesa. Creio que é seu. -Ela pegou o caderno e estendeu para me entregar -Peg- Antes de terminar a frase, uma folha caiu de dentro dele.
Uma folha? Era a folha! Fui o mais rápido que pude em direção ao teste de Regina. Falhei miseravelmente quando ela pegou antes e viu o que era.
_EMMA CLARK! O que o teste de Regina faz dentro de seu caderno?
Eu congelei. Não tinha o que dizer! Como me safar dessa?
_Eu, ãhn, é que...-
Antes que eu me enrolasse mais ainda com as palavras, Henry interviu.
_Caramba Emma, você é muito distraída mesmo! -Ele se virou em direção à professora- Professora Kátia, eu vi que a tabela periódica que emprestei para Emma está em cima de sua mesa. Acredito que ela foi guardar e acabou colocando a prova de Regina em seu caderno por engano.
A professora pareceu não acreditar na teoria de Henry.
_Henry por mais que isso seja possível, eu não acho que Emma vai confundir uma prova com uma tabela periódica. -Ela respondeu.
Ele deveria parar de me defender e aceitar logo que joguei sujo.
_Professora, a Emma -ele se virou para mim- com todo respeito- e voltou a olhar para Kátia- tem Déficit de Atenção. Acho que é muito provável que ela seja capaz de confundir algo que para senhora seja tão óbvio. Ela se distraiu durante a aula, ao esquecer o caderno debaixo da mesa e é claro que também possa ter confundido uma folha de tabela periódica com uma folha de testes, até porque, são do mesmo tamanho.
A partir daquele momento, comecei a gostar mais de Henry. Ele estava me defendendo, mesmo sabendo que eu estava errada. Eu precisava falar algo, não podia ficar igual uma estátua acompanhando a discussão.
_Me desculpe professora, eu não deveria ter me distraído tanto assim. Eu estava pensando no intervalo e... Podia te jurar que a folha que eu tinha pego era da tabela!
Ela ficou intercalando o olhar de Henry para mim, com o dedo indicador no queixo, pensativa. Até tirar uma conclusão.
_Bom, Henry não é de defender algo com tanta convicção sem estar certo de que está sendo justo. Acredito na palavra de vocês. Emma, eu vou deixar passar dessa vez, mas da próxima preste mais atenção. -Ela pegou a folha da tabela em cima de sua mesa e me entregou- Estou de olho em você. -Disse, saindo da sala.
Henry e eu ficamos sozinhos na sala, todos haviam saído para o intervalo. Eu nem sabia o que dizer. Se ele não me defendesse, provavelmente levaria uma suspensão, ou pior, minha prova seria anulada e minhas chances de passar de ano seriam escassas! Sem pensar duas vezes, eu me aproximei e o abracei, tentando expressar toda minha gratidão. Ele retribuiu o abraço de forma carinhosa.
_Obrigada Henry, você me salvou. Mas como a folha da tabela periódica foi parar na mesa dela?
_Eu coloquei.
Ele se arriscou para me defender! Isso foi tão corajoso de sua parte.
_Emma, por que fez isso?
_Bia finalmente me contou quem nos jogou na piscina. Foi Fred, mas Regina que o desafiou. Ela foi a culpada e eu só queria que ela pagasse pelo que fez.
Henry segurou meu rosto com as mãos, os olhos preocupados, fixos em mim.
_Você está me dizendo que fez essa loucura, que arriscou repetir de ano, só porque fomos jogados na piscina?
Parando para olhar por esse ângulo, eu me sentia ridícula.
_Sim? -Soou mais como uma pergunta do que uma resposta.
_Nunca mais faça isso! Você se rebaixou ao nível dela, isso não é do seu feitio.
Ainda estávamos próximos e suas mãos continuavam em meu rosto. Eu senti uma vontade imensurável de beijá-lo. Desde a festa de Duncan que penso nessa possibilidade, mas nunca dava certo. Quando ele ia em casa dizia para eu focar nos estudos. Como beija-lo quando está tão concentrado em um livro? E na escola há sempre outras pessoas por perto. Só que, agora estamos sozinhos e a proximidade dele e seu olhar são como um convite para eu acabar com o espaço entre nós. Fui tomada por um impulso e quando percebi, meus lábios já se encontravam no dele e minhas mãos estavam ao redor de sua nuca.
O beijo começou com sutileza, dei apenas alguns selinhos, mas foi ficando mais intenso. Os selinhos viraram beijos prolongados até que ele enfim tomou a iniciativa de explorar dentro de minha boca. Senti uma de suas mãos percorrer as minhas costas. Eu arrepiei com o gesto e retribuí a carícia mexendo em seu cabelo, que é mais macio do que eu imaginava. Será que agora temos oficialmente uma amizade colorida? Eu já nem sei mais o que somos! Não sei nem mesmo o que sinto por ele; só pode ser desejo. Quando me dei conta, Henry estava segurando meu quadril com firmeza. Conforme ele foi me empurrando, comecei a dar passos para trás até encostar em uma carteira. Senti suas mãos deslizarem até chegar na parte de trás da minha coxa. Com um movimento só, ele me colocou sentada em cima da mesa. Aproveitei para entrelaçar minhas pernas ao seu redor para que ele se aproximasse mais. Seus lábios só saíram dos meus para percorrerem o caminho de meu pescoço. Eu estava adorando, não queria acabasse, mas quando menos esperávamos, o sinal do intervalo tocou.
Desci da mesa rapidamente, arrumei minha roupa e me peguei ajeitando o cabelo de Henry (até porque eu o havia deixado desgrenhado). Ele estava tão ruborizado quanto eu. Não sei quando desenvolvemos essa intimidade, provavelmente ao longo das últimas duas semanas, mas eu nunca imaginaria isso naquela segunda-feira em que fui destinada a estudar com ele. Henry tem essa influência sobre mim, ele me deixa tão confusa! Desde que fomos “obrigados” a estudar juntos, muita coisa mudou. Minha dificuldade de prestar atenção em algo (mais especificamente nele) piorou, porém, ironicamente, meu empenho na escola estava melhor. Como isso é possível? Sem contar que ele me desperta algo que nem eu compreendo, é uma mistura de desejo com divergência, como se-
_Emma? -Henry estalou os dedos perto de meu rosto- Precisamos ir na sala nove antes que os outros estranhem nossa ausência.
_O-okay. Vai você primeiro.
Henry saiu da sala; esperei um momento antes de me retirar também. Ficaria muito óbvio se saíssemos juntos de uma sala vazia (ou pelo menos suspeito).
O restante das aulas foram normais (tirando o fato de que eu fiquei pensando no que aconteceu no intervalo durante todas elas), e é claro, Beatrice. Ela começou o interrogatório mais cedo do que previ. Estávamos a caminho de volta para casa quando ela começou:
_Por que você não passou o intervalo comigo e com Fred?
_Eu estava na sala.
_Por que Emma? Você começa todas as aulas esperando que elas acabem. Duvido muito que tenha preferido ficar na sala do que sair para o recreio.
_Intervalo. -Corrigi ela.
_Tanto faz, se eu quiser eu chamo de “hora do lanchinho”.
Tentei segurar a risada diante de seu comentário, mas falhei.
_Não muda de assunto não. Por que?
Já que ela não iria parar de insistir e eu realmente não estava a fim de lhe contar sobre Henry, preferi dizer da minha façanha com a prova de Regina.
_O que eu disse para você sobre se vingar? Meu Deus Emma. Você é uma teimosa! Ainda bem que Henry te livrou dessa! E por falar nisso, você sabe onde ele estava no intervalo?
Balancei a cabeça negativamente (e mentirosamente).
—Fred foi devolver o livro de Aritmética na biblioteca e não o viu. O que é um pouco estranho, ele sempre fica lá durante os intervalos. Sabe... -Ela me encarou com um olhar malicioso- É até meio coincidência vocês dois terem sumido durante todo o intervalo. Não rolou nada nesse tempo?
Suspirei, e ainda assim, tentei negar:
_Pare de criar teorias conspiratórias. Eu e o Henry não temos nada a ver, por que iria rolar alguma coisa entre a gente?
_Lá vem você com esse papo de “nada a ver”. Você ficou com ele na festa do Duncan, o que te impediria de ficar com ele agora? Além do mais, os opostos se atraem. -Ela bateu de leve em meu braço com o cotovelo.
Os opostos se atraem.... Eu fiquei refletindo sobre isso até chegar em casa. Será mesmo que poderíamos ficar juntos? Eu não sei ao certo o que sinto por ele, mas parando para refletir, será que pode funcionar?
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