Irmãs
5 O cair da máscara - parte 2
Notas iniciais
Eu ainda encarava Mauricio surpresa enquanto tentava entender toda aquela situação, eu não podia acreditar que aquele homem poderia ser tão frio ao ponto de me deixar crescer longe da minha família, ao lado de uma mulher que fez da minha vida um inferno e que quase acabou com a vida da minha irmã. Eu não sabia o que sentir, eram muitos sentimentos misturados, tudo girava e eu precisei me sentar para recuperar as forças, não era verdade, não podia ser verdade. Ainda estava meio desconectada da realidade quando ouvi a voz da minha mãe.
—Como você foi capaz disso Maurício? — ela perguntou com a voz chocada – Vender a própria filha?
—Eu nunca quis ficar nesse fim de mundo e você sabe muito bem disso – ele disse frio – Eu e o Geraldo nos conhecíamos desde a adolescência, um dia ele me procurou querendo saber se eu conhecia algum casal que queria dar uma criança para a adoção e eu tive a ideia de vender o bebe que você esperava – ele continuou tranquilamente – Mas quando nós fomos ao hospital fazer a sua primeira ultra e você não se sentiu muito bem eu entrei na sala do medico e ele me disse que você esperava gêmeas e eu fiquei mais tranquilo porque você teria uma criança para chamar de sua.
—E você diminuiria a sua culpa vendendo apenas um de nós — eu disse enquanto o encarava com raiva – Como você pode?
—Foi fácil – ele disse reassumindo o tom frio – Eu nunca amei a Rebeca, apenas me casei com ela porque a minha mãe me obrigou a assumir a garota religiosa que eu havia enganado e engravidado – ele suspirou entediado – A vida aqui era muito parada, eu queria mais e com o dinheiro que o Geraldo me deu eu consegui viver muito bem por todos esses anos.
—Eu não acredito que o homem que um dia eu amei pode ser uma pessoa tão fria – minha mãe ainda estava muito abalada — Você tem noção do sofrimento que você causou a todos nós? O quanto a Isabela foi infeliz naquela casa? O quanto a Manuela sofreu por crescer sem um pai?
—Eu sei e não me importo – eu não podia acreditar no que ouvia – A Isabela cresceu numa família rica Rebeca, teve tudo do bom e do melhor que eu sei e a Manuela consegue ser tão dramática e carente quanto você era quando te conheci.
—A única parte que eu tenho que agradecer a você Mauricio é o fato de não ter tido o desprazer de te ter como pai – eu disse com ódio na voz – O Orlando era o melhor pai do mundo e você nem sabe o que é isso, não é mesmo? A única coisa que você sabe é enganar as pessoas e ferir os sentimentos delas!
—Que lindo discurso – ele disse batendo palmas – Agora deixem eu sair daqui ou vocês nunca vão conseguir salvar a vida da pirralha grudenta.
—Você só sai daqui depois que entregar o totem – eu me levantei novamente e o encarei – Nós precisamos dele para salvar a Manuela.
—Eu já disse que não me importo – ele disse com raiva – Por mim o Geraldo pode matar aquela garota chata.
—Nunca mais repete isso – eu disse enquanto ia na direção dele disposta a agredi-lo, porem Otávio me segurou – Me solta – eu gritei enquanto me debatia nos braços do noivo da minha mãe – Ele merece levar uns tapas para aprender a nunca mais a se referir a minha irmã dessa forma!
—Eu te entendo Isabela e compartilho do seu sentimento – Otávio disse enquanto me segurava firmemente – Mas isso não adiantaria de nada, depois que você extravasasse a raiva poderia até se arrepender.
—Escuta o idiota do noivo da sua mãe filhinha – Mauricio disse debochadamente – E eu não deixaria você me bater sem revidar.
—Não me chama de filha – eu gritei enquanto chorava de raiva – Você não é e nem nunca será o meu pai!
—Por mais que você negue os laços de sangue que nos unem são mais fortes Isabela – ele comentou enquanto ria – Você pode até não querer, mas é o meu sangue que corre em suas veias. Você só existe por minha causa sua pirralha insolente, eu sou seu pai e você me deve respeito.
—Você nunca foi pai para nenhuma das meninas – minha mãe disse calma com os olhos fixos no cafajeste – Um homem capaz de vender a filha recém-nascida e abandonar a outra desde o nascimento não é pai! Você é um monstro sem coração que só sabe espalhar a dor por onde passa, a única coisa boa que você fez nessa vida foram as minhas meninas e nada mais.
—Belas palavras – o idiota batia palmas debilmente enquanto ria – Eu nunca quis ser pai Rebeca – ele disse me encarando com raiva – Ou você acha que eu queria passar a minha juventude cuidando de criança? Eu tinha muito que aproveitar para perder o meu tempo com duas meninas insuportáveis como essas.
—Dobra a língua para falar das minhas filhas – minha mãe gritou – Você não tem o direito de falar delas dessa forma!
—Agora que já esclarecemos as coisas eu vou embora – ele disse indo para a porta porém Pedro o impediu – Sai da frente caipira.
—Você ouviu a Isabela – o marido da minha tia se pronunciou pela primeira vez desde que chegamos ali – Você só sai daqui quando entregar o totem.
—E se vocês não me deixarem sair eu mesmo ligo pro Geraldo e mando ele acabar com a vida da Manuela – ele retirou o celular do bolso e me encarou – Você quem escolhe Isabela.
—Deixa ele ir Pedro – eu disse enquanto Otavio me abraçava protetoramente – Ele é inútil pra gente como sempre foi.
—Obrigado filhota – ele disse enquanto se dirigia para a porta – Eu mando um cartão postal pra vocês.
Ele saiu e eu me permitir desabar nos braços do noivo de minha mãe, meu choro era uma mistura de raiva, frustação e tristeza, tudo e nada se passava pela minha cabeça naquele momento. Eu sempre desconfiei do caráter de Maurício, porém a certeza de que ele realmente não prestava foi ainda mais surpreendente. Saber que ele era mau caráter ao ponto de me vender para a Regina quando nasci superou todas as expectativas que eu tinha sobre ele, mesmo que eu soubesse que havia algo de errado ali, eu nunca iria supor que ele seria capaz de algo tão absurdo. E por mais que eu tentasse sufocar aquele sentimento de rejeição que se apossou de mim por saber que ele nunca quis ser pai eu não conseguia, ele era meu pai biológico, eu tinha um pouco dele em mim e saber que ele nunca nos quis, tanto eu quanto a minha irmã, foi frustrante demais para mim e a única coisa que eu pensava era que aquele sentimento seria muito mais doloroso para Manuela quando ela descobrisse a verdade sobre o pai que ela sempre quis conhecer. Eu e minha irmã não merecíamos isso depois de tudo que passamos, Maurício poderia ter ficado desaparecido pelo resto de nossas vidas e nos poupar de todo aquele sofrimento. Senti que alguém me tirava cuidadosamente dos braços de Otávio e me senti reconfortada ao sentir o calor dos braços de minha mãe me envolvendo, ela afagou meus cabelos deixando que eu chorasse livremente e lavasse a minha alma de todos aqueles sentimentos ruins.
—Vai ficar tudo bem meu amor – ela disse e beijou meus cabelos carinhosamente – A mamãe ta aqui e vai te proteger sempre.
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