Iris

11 Crown of the Fallen


Os olhos da djinn enalteciam-se e reluziam como esmeraldas. Observava atentamente os detalhes da cidade, uma das poucas capitais de seu povo. Orube seguia-a logo atrás, compartilhando a curiosidade da companheira, enquanto aproximavam-se de outros dois djinns guardiões. A ninfa impressionava-se da grandiosidade da estrutura, ricamente decorada em gemas, metais preciosos, e esculpida detalhadamente.

–Por aqui.

Os guardiões direcionaram-nas à uma grande nuvem circular, e acompanharam-nas enquanto subiam ao segundo nível.

–Esperávamos por vocês. – disse, em voz grave, um dos guardiões. As duas entreolharam-se, enquanto chegavam à grande cidade.

–Bem vindas à Anr'kash.

Observaram, com olhos maravilhados, a grande cidade que pairava nos céus, sem muros ou paredes para limitar-se no horizonte. A djinn, ainda mais estupefata, via seu sonho tornar-se realidade. Antes, perdida e solitária a procura de algo, agora reencontrava sua casa, seu lar. Abraçou Orube, de forma que nunca havia feito antes, e seguiram em frente, ouvindo ao fundo instruções de que deveriam apresentar-se à Khalif.

–Ny'slor... O que você acha que queriam dizer com "Esperávamos por vocês"?

A face de Ny'slor nebulou-se em dúvida.

–Bem... minha raça sempre fora conhecida em grandes dons de ilusionismo, mas, além disso, também somos bons oráculos. Contam lendas de que, há séculos atrás, quando as guarnições humanas existiam em todo o continente e além dele, haviam djinns para aconselhá-los.

–Creio que seja isto mesmo.

Enquanto passavam pelas largas ruas, atraíam olhares de todas as direções. Aparentemente, não era comum haver pessoas novas na cidade, nem mesmo de outras raças, como a ninfa, vagando despretensiosamente. Prosseguiram, pela maior estrada, até observar, longínquo, um grande castelo flutuando mais acima da cidade. Deixavam para trás as numerosas construções, em uma arquitetura única. Todas possuíam telhados em formato de grandes gotas, e alguns, como as estalagens e tabernas pelas quais passaram, grandes torres cilíndricas, com janelas que remetiam à grandes arcos, pontudos em seu topo e largos na extensão, com belos resguardos no inferior. Também observava-se não haver vidros em suas janelas, apenas cortinas levemente translúcidas, pois não haviam chuvas ou tormentas que acometessem as construções.

Pararam, então, em frente às grandes escadarias que levavam-nas à basílica e, também, moradia da Khalif. Neste ponto, haviam cinco guardiões bloqueando sua passagem, e também outros dispostos nos largos degraus flutuantes. Possuíam armadura entalhada em um material nunca visto antes pela ninfa, mas conhecido da infância de Ny'slor. Ela trazia consigo em sua bagagem um diadema feito daquele metal exótico, e que continha o azul-claro de seus cabelos; da mesma maneira, a armadura dos guardiões reluzia no mesmo tom ciano-claro. Retiraram, um a um, seus capacetes, que formavam uma fenda em formato de Y, e continham belas penas azul-escuras no topo. Abriram caminho, de maneira deveras respeitosa, e assim também proferiram:

–Bem vinda, Arauto. Bem vinda, Aemir. Khalif Yash'yimn está ciente de suas vindas, e as aguarda na basílica principal.

Entreolharam-se novamente antes de prosseguir, cautelosamente.

–Aemir? Isto é um título cultural? — questionou Orube.

–Em nossa cultura, Aemirs são grandes líderes, embaixadores ou generais. Mas... não entendo o porquê de chamarem-me assim. Deve haver algum engano.

–Acredito que a Khalif nos esclarecerá algumas coisas. Ou, pelo menos, espero...

E tornaram a pensar com seus botões, enquanto subiam os largos degraus que pairavam sobre o ar. Era possível ver, logo abaixo de seus pés, as nuvens alvas desfazendo-se e refazendo-se, mostrando de relance as planícies, e o início das florestas esverdeadas mais a frente. Acima de si, o firmamento claro tornava a escurecer, revelando as primeiras tonalidades alaranjadas, típicas do pôr-do-sol. Fitavam, cada uma, um ponto da paisagem exuberante, até fitarem de vez a imponente basílica, de proporções colossais. Haviam inúmeras torres, projetando-se aos céus em todas as partes da construção. Assemelhava-se aos castelos humanos, porém, em tons amarelo-claros, como as mais claras areias dos desertos, e detalhes rubros por toda a extensão. Orube lembrava-se dos livros que tratavam sobre arquitetura, e nenhum deles mencionava esta tão peculiar. Ainda assim, as grandes janelas e portões remetiam a lembrança dela à arquitetura gótica, que algumas cidades humanas usavam em suas construções. Mesmo com a leve semelhança, os djinns transpassavam uma sensação de leveza única, e faziam-na sentir-se extremamente bem.

Postaram-se em frente aos grandes portões, adentrando o salão da extraordinária cúpula. O chão, ladrilhado no mesmo amarelo-claro do exterior, também continha diversos detalhes escarlates, bem como a runa das ilusões ao centro. Logo à frente, uma escadaria dividia-se em duas, e os corredores proeminentes circundavam a extensão do aposento, levando às entradas de algumas torres, bem como outros cômodos. Logo a frente da escadaria, ao centro da bifurcação, havia um grande arco, com grandes cortinas vermelhas-rubi e portas abertas para o interior da sala. Foram acompanhadas até este salão, por um jovem djinn, de cabelos verde-escuros. As duas jovens viraram-se para o arco, observando-no sumir por entre as acomodações, e não notaram que adentrava também, por outra porta transversal, a Khalif daquele povo.

–Bem vindas, Orube e Ny'slor.

As maga e a ilusionista tornaram a virar-se, e fizeram uma reverência à Khalif Yash'yimn. A djinn-mor possuía cabelos prateados como a lua, e olhos que refletiam o arco-íris. Trajava, em seu peito, uma bela armadura, tão alva quanto seus longos cabelos cacheados, e entalhada com pedrarias e detalhes avermelhados. Sua cauda, como a de todos os de seu povo, assimilava-se a um ciclone, porém, mais brando, e translúcido como uma cachoeira. Seu diadema real, com um grande leque atrás de sua cabeça, também reluzia nos tons do arco-íris, de forma extremamente encantadora. A Khalif tornou a andar pelo cômodo, enquanto conversava com a ninfa e a djinn.

–Os elementos avisaram-me de que bons ventos traziam grandes esperanças, minhas jovens. No entanto, eu não soubera interpretar tal profecia, até ver vocês. Agora, eu entendo.

Yash'yimn aproximou-se das duas, com um olhar acalentador.

–Espero que encontrem aqui o que procuram. Nosso reino não costuma abrir portas para estrangeiros, porém, Ny'slor é esperada há décadas em nosso povo. Você, minha bela Ny'slor, é a última da linhagem secular dos oráculos, agraciados pelos elementos com o mesmo poder que eu, hoje, possuo.

–Linhagem secular? Mas, minha nobre Khalif, eu não sou quem procuras!

–Ah, tenha certeza de que sim. É confuso, mas lhe asseguro que não lhe digo mais do que a verdade. Seus pais, há tantas primaveras atrás, foram os grandes conselheiros de minha mãe, e eu apenas sou sua sucessora, como você também o será, se assim quiser.

A khalif retirou, da algibeira de Ny'slor, o diadema que a ilusionista carregava consigo.

–Esta é a prova, minha jovem. Está fadada à nobreza, e não às tabernas.

–Você os conheceu? Meus pais... eu gostaria de poder saber mais sobre eles.

–Em minha biblioteca jazem inúmeros pergaminhos e escrituras. Tens toda a liberdade de passar quanto tempo queiras lá, e descobrir a história de todas as maneiras que lhe for possível.

Os olhos de Ny'slor preenchiam-se de lágrimas, e seu coração, de gratidão. Orube abraçou-na, compartilhando da alegria — e, também, com a esperança de um dia ter seu passado revelado.

–E você, Arauto... Não possuo nada para lhe oferecer além de pouso, pois sei estar em missão do Pentágono. Se necessitar de ajuda, de qualquer origem, estarei disposta a lhe oferecer. Suas medalhas não podem fazer-me contrariar isto.

–Tenho minhas preocupações em determinado humano, Khalif Yash'yimn. Teria como ajudar-me nisto? É a única coisa que peço-lhe.

A Khalif fez-lhes sinal para que seguissem-na, enquanto atravessava outros corredores por entre a basílica. Levou a djinn para sua biblioteca pessoal, para que a mesma descobrisse por si mesma o destino de seus pais, e então, seguiu com Orube para o topo de uma das inúmeras torres. Havia um orbe ao centro, e grandes janelas permeavam o cômodo não tão grande quanto os anteriores.

–Este é um orbe de comunicação, jovem maga. Creio que saibas utilizar-no, pois equivale-se do arcanismo, e não são muitos de nós que tem a proficiência para manipulá-lo.

–Obrigada, Khalif. De verdade.

–Não há do que agradecer, Arauto. És honrada o suficiente para ter de meu reino o que for necessário. Afinal, se os deuses e o Pentágono agraciaram-na com tal poder, quem sou eu para negar-lhe?

As duas sorriram, enquanto Yash'yimn deixava-na a sós. Orube tornou a concentrar-se, e pôs suas mãos em torno do orbe. Não era muito grande, e, enquanto a magia fluía pelo mesmo, a maga via surgir logo acima dele, em sua frente, uma espécie de portal.

–Orube?

A imagem de Vincent formava-se, e seus olhos rubis entregavam a felicidade que o mesmo sentia ao ver sua amada.

–Meu Vincent! Ah, meu amor, como sinto falta sua...

–Estás em algum reino? Em segurança?

–Sim, mas é uma longa história. E você, meu amado?

–Minha missão fora concluída, porém, tive notícias de Dwalinn, e nada boas. Soube que o anão pereceu, logo após levar o artefato aos domínios do Pentágono.

–Mas... como?

–Dizem que, logo após ter atravessado novamente os portões protegidos pelos Alados, o bravo paladino fora atacado por membros da Escola Amazonita.

–Ouvi rumores desta Escola. Seus discípulos utilizam-se da música para amaldiçoar seus inimigos. Quando não tombam-os em combate, falecem logo após. É uma perda terrível...

–Por isto estou preocupado com você, minha ninfa. Poderia eu acompanhar-lhe em sua missão?

Um sorriso percorreu a face da maga.

–Minha amada, o Pentágono levará-me até você. E se não o fizer, o destino o fará.

O portal desfizera-se, e Orube soprara uma última jura de amor, baixinho, pelo ar. Deixara o cômodo e, também, a basílica, indo caminhar pelo agitado centro da cidade etérea, para refletir um pouco. O céu, repleto de estrelas, a acalmava, e fazia-na pensar em diversas coisas, para tentar fugir de suas preocupações. Era o Arauto da Noite, então, por que o medo? Sentia sua confiança esvair-se pouco a pouco, enquanto via a corrupção assolando grandes e poderosos heróis, como Dwalinn fora. Havia lido em pergaminhos com pedidos de socorro de cidades que eram subjugadas por demônios e mestres corrompidos pela força demoníaca, e sua esperança era abalada. Porém, isto fizera-a pensar ainda mais em sua missão. Tomara consigo, em sua algibeira, os mapas apurados que Ny'slor deixara para si, e fora à procura de outros. Encontrara alguns em posse de comerciantes, e os comprou, não importando a veracidade dos mesmos. Seguiu, então, para uma das tabernas que rodeavam a cidade, à procura de algumas canecas de hidromel.

Adentrou a taberna, bastante diferente das últimas que havia posto seus pés. Nas paredes, era possível ver mapas, medalhas, dentre outros suvenires. As mesas não eram manchadas, chamuscadas, nem tinham marcas de facas fincadas, ou mesmo cortes de espada.

"Bem," pensou, "estou em uma capital, não é mesmo?".

Sentou-se em um dos bancos no balcão, e pediu por uma caneca de hidromel. Ignorava os olhares para si, embora surpreendentemente houvesse ali poucos djinns, e mais anões, ciclopes, dentre outras raças. Um kobold a servira, e tornara a sumir por entre uma das portinholas do estabelecimento. Sem a ninfa notar, um sátiro sentou-se ao seu lado.

–Foi numa taberna que nos conhecemos, lembra-se?

A voz soara deveras familiar para Orube. Virou-se, e teve nos olhos a visão de Licaste, o shaman que também estava em missão do Pentágono. Orube deixara uma expressão de alegria fugir.

–Licaste! Nossa, eu realmente não esperava encontrar-lhe aqui.

–Nem mesmo eu, Arauto. Mas é bom estar em um reino onde os elementos são quase o centro de tudo, embora de forma diferente...

–Tem tido notícias de Lúthien? Há tanto tempo que não a vejo...

–Minha Lúthien está bem, sim, completando sua missão, assim como eu.

Orube riu, e fitou carinhosamente o shaman nos olhos.

–"Minha" Lúthien.... — riu novamente — Por esta eu não esperava. Mas fico feliz por vocês dois!

–Obrigado, pequena ninfa. E Vincent? Ainda em suas missões solitárias?

O sorriso no rosto da ninfa fora fechando-se, lentamente, e uma expressão mais cautelosa formara-se.

–É... mas ele está a meu caminho. Terminarei minha missão em poucos dias, se assim Nix permitir, e creio que todos nos reuniremos novamente. Estão havendo muitos rumores de corrupções demoníacas assolando cidades, e atravessando até mesmo os domínios dos Alados.

–Isto é preocupante, maga. E, ainda hoje, não tivemos notícias concretas sobre o suposto Arauto desconhecido.

–Procurarei saber mais sobre, Licaste. Mas agora, retornarei aos meus aposentos, pois pretendo seguir viagem amanhã.

–Boa sorte. Que os elementos a favoreçam.

Orube tomou o último gole de hidromel, deixou uma quantia em prata para o taberneiro, e tornou a levantar-se.

–Que a sabedoria o acompanhe.

A maga refez o caminho de volta para a basílica, observando a Lua iluminar seu caminho, e procurando respostas, no fundo de seu coração. Esperava estar pronta para os próximos dias.