Iridescente

2 Festa Estranha Com Gente Esquisita


Notas iniciais
Esse ai para a minha amiga Thamiris, obrigada por sempre me incentivar a melhorar e continuar. Te amo lindona :* Espero que gostem! Abraços e Beijinhos

O Mais Longe Possível, Sec. XXI.

Manuela não esperava visitar o lago tão cedo, principalmente depois dos pesadelos que recentemente passaram a perturbá-la. Mesmo estando no Residencial Bosque Alcântara, que era onde ela morava desde sempre (ou ao menos era isso que ela lembrava), havia maneiras de evitar o lago, o que ela não conseguira evitar foi sua convocação até o local.

Por menos que Manuela gostasse de Julia Albuquerque, ou do irmão pervertido dela, a garota agora era namorada do seu melhor amigo e Davi a havia feito prometer que iria até aquela festa.

Aquela era a quinta convocação de Davi para as festinhas da namorada e Manu estava ficando sem ideias convincentes para boicotar sua presença nelas.

“E por falar nisso, onde está aquele ingrato?!”.

A garota estudou mais uma vez o local, havia varias luzes penduradas entre as árvores, que ofuscavam a beleza noturna, pois as estrelas iluminariam tudo perfeitamente do céu junto à enorme lua.

A maior parte dos alunos do ensino médio do Nossa Senhora do Carmo dançava aleatoriamente a música que saia das caixas de som, ou se debruçava sobre uma enorme mesa em busca de petiscos e bebidas. A outra parte deles tentava se engolir ou fazer coisas bem piores, como o Lauro Oliveira e a Nayara Farias. A Madre superiora sempre os castigava por estar fazendo coisas inapropriadas nos corredores da escola.

E o resto – um grupinho elitizado do convênio – levava a sério o porre antes das provas do vestibular na traseira de uma picape prateada.

O que sua mãe havia dito mesmo antes que ela saísse de casa? Ah, sim. Foi um “divirta-se”. Sério?! Pensou Manuela soltando um suspiro impaciente e preparando-se para dar meia volta quando uma garota de cachos dourados toda sorrisos a puxou para a bagunça onde se dançava.

— Finalmente! Não acredito que vencemos a sua reclusão! – disse a loira entre pulinhos empolgados.

— Ei Caroline, para com isso. Eu interajo com várias pessoas.

— Sim, mas desta vez é pra valer em uma festa. Você entendeu o que eu quis dizer. Tudo bem que não é uma das melhores, mas mesmo assim você poderia ter pedido minha opinião para o look.

Manuela franziu o cenho enquanto Carol colocava sua blusa cinza para dentro do short jeans e soltava delicadamente seus cabelos castanhos do coque descuidado que ela havia feito. Caroline e Davi eram como seus irmãos, estar na presença da amiga fez Manuela se sentir mais a vontade e, sobretudo juntar-se as batidas da música com a loira.

“Now I'm feelin so fly like a G6/Like a dayse hayley, Like a G6”.

— Você se importa se dermos uma voltinha? — Carol perguntou — É que eu estava procurando o Hugo.

Manuela assentiu em concordância para a garota. Hugo Souza era o carinha por quem Caroline era apaixonada desde o fundamental. Ele tinha cabelos cacheados e um bom senso de humor. E finalmente — depois de uma conversa com Manuela, que Caroline nem sonhava que acontecera — havia percebido os sentimentos de Carol por ele.

Mas não foi com Hugo que as duas acabaram dando um encontrão. Foi com um dos caras que deveriam estar na picape entre os exibidos do convênio, especialmente porque aquele era O cara da picape e o mais exibido de todos os caras que Manuela conhecia.

— Duas gatinhas desacompanhadas e de mãos vazias. Isso não me parece certo — Disse Rodrigo Albuquerque com um sorriso pervertido nos lábios.

Ele ofereceu duas garrafas de Ice sabor limão para elas enquanto entornava a sua.

— Que peculiar a sua concepção de certo. — disse Manuela ironicamente — Sendo mais objetiva com a nossa conversa a resposta é não Rodrigo. Pode procurar outras vítimas.

— Mas desta vez vamos ficar com isso — disse Caroline pegando as duas garrafas que o rapaz segurava — obrigada.

Porém, antes que elas saíssem Rodrigo segurou Carol pelo braço.

— Garotas, vou reconsiderar e tentar mais uma vez. Talvez não tenham entendido a oportunidade que estão perdendo, não é sempre que convido menininhas do segundo ano para esquentar o banco de trás do meu carro.

— Não, geralmente as do primeiro ano são iludidas mais facilmente. Agora solta a minha amiga Rodrigo!

Aquela altura as pessoas que estavam por perto já haviam parado de dançar e os observavam.

Ele estudou Manuela com seus olhos azuis pálidos.

— Não fique com ciúmes Manu, tem Rodrigo pra você também.

— Na verdade eu acho que já chega Rodrigo — disse Davi se aproximando deles — Solte a Carol e deixe minhas amigas em paz.

Os olhos amendoados de Davi brilhavam de raiva.

— Eu não fico me metendo entre você e a minha irmã. Por que não faz o mesmo Davi?

Rodrigo estava irritadiço.

— Porque eu respeito a sua irmã. E espero que você no mínimo faça o mesmo com elas.

Rodrigo soltou Caroline e saiu de perto deles bufando e xingando. As outras pessoas voltaram a dançar, mas Manuela sabia o que estavam comentando.

— Você está bem? Ele te machucou? — perguntou Davi preocupado enquanto envolvia Carol em um abraço apertado.

— Não, mas você vai acabar me sufocando ursinho.

— Não me chame assim Sininho, pessoas estão ouvindo. A proposito, tem alguém te esperando ali.

Ele indicou o rapaz de cabelos cacheados que estava devorando avidamente uma fatia de pizza perto da mesa.

— Eu já volto — disse Carol com um largo sorriso no rosto enquanto já caminhava até Hugo — Divirtam-se, mas não muito!

— Ela não vai voltar — disse Manuela para Davi.

— Provavelmente não vamos vê-la pelo resto da noite — ele respondeu, abrindo um largo sorriso — Mas estou feliz por ver você aqui, Darth Sweet.

Ele era uns bons vinte centímetros mais alto que ela e era forte, por tanto ser abraçada por Davi dava aquela sensação de estar sendo sufocada, mas também de estar segura.

— Vem, dança comigo. — ele disse.

Por sorte Davi sempre fora um excelente parceiro de dança, por azar a musica era lenta. O que fazia com que a proximidade dele deixasse-a entorpecida nos últimos tempos.

— Você não deveria estar com a miss universo?

— A Julia? Ela está com as amigas — ele respondeu aborrecido — não gosto muito delas e quando estão por perto Julia me ignora.

— Porque ela é uma vaca.

— Não fale assim — ele a repreendeu.

— Mas é verdade.

Davi apenas juntou-se mais a ela e repousou seu queixo sobre a cabeça da garota. Manuela sentiu seu coração acelerar, havia dito a ele para ficar quieto e se comportar, nada demais estava acontecendo, apenas uma dança entre ela e seu melhor amigo, mas as batidas não cederam o ritmo.

— Você está calada, o que aconteceu? O idiota do Rodrigo te chateou com mais alguma coisa?

— Mais do que o normal? Não, eu só estava pensando.

— Na sua mãe de novo? Eu sei que ela está doente e também estou preocupado com ela, mas você precisa se divertir um pouco, seu pai já chegou de viagem não é?!

— Sim e nem falou comigo direito. Parecia estar aborrecido ou algo assim.

— Ele só está preocupado, não é nada demais — Davi disse enquanto afagava os cabelos castanhos da amiga e a encarava docemente com seus olhos amendoados sob os cabelos negros que precisavam de um corte.

Manuela apenas enterrou o rosto no peito do amigo e inalou seu cheiro amadeirado.

— Ei, — ele disse levantando o rosto dela delicadamente para que olhasse em seus olhos — tudo isso vai se resolver, você é uma garota forte, vai conseguir passar por tudo isso. Além do mais não está sozinha, tem a mim e tem a Carol também.

— Por mais que ela esteja perdida no seu romance de contos de fadas. — disse Manuela com um pequeno sorriso nos lábios, apesar de ainda ter os olhos ardendo — Eu sei.

Manuela pensou estar imaginando coisas, mas jurava que vira Davi se inclinar sobre ela minimamente à medida que seu sorriso ia sumindo, quando ouviu um tagarelar irritante que parecia não ter começo nem fim.

— Eu estava te procurando. — disse Julia cruzando os braços, seus olhos iguais aos de Rodrigo cintilavam — Oi pra você também Manuela. Como eu ia dizendo, você não pode simplesmente me deixar sozinha e nem ao menos disse para mim aonde estava indo, quando fico sabendo por Emily Duarte que você tinha brigado com o meu irmão, sabe quantas historias diferentes chegaram até mim Davi?!

Ela tagarelava sem parar enquanto cruzava os braços, os cabelos tingidos de acaju estavam presos em um rabo de cavalo. Davi dizia qualquer coisa a ela enquanto Manuela a fuzilava com os olhos desejando que aquela criatura voltasse pelo buraco de onde veio.

Ela se viu imaginando varias coisas, esmurrando o rosto de Julia, colando sua boca com supercola, ou raspando seus cabelos tingidos, mas o que aconteceu foi o que Manuela desejou por último e com mais fervor. Fogo.

De repente a saia florida da garota estava incendiando, como? Era difícil de explicar, não havia nenhuma fonte de fogo no lugar e nem poderia haver, eram normas do Residencial.

Manuela olhou para a cena surpresa, mas no fundo satisfeita, quando voltou seu olhar para Davi percebeu que o rapaz tinha uma expressão nada satisfeita e acusatória.

Tudo aconteceu muito rápido depois, Julia ficou encharcada, as pessoas se aglomeravam para saber o que havia acontecido, Davi levara a namorada para longe do local sem dirigir um olhar sequer à Manuela. E Manuela pôs suas pernas para funcionar, levando-a para bem longe daquela festa, do lago e de todas aquelas pessoas.

Mal percebeu o trajeto. Apenas desligou o piloto automático quando estava do lado de dentro da casa branca com enormes janelas de vidro. As cortinas prateadas já estavam vedadas e a maioria das luzes apagadas, ela ainda estava aturdida, o coração batia tão vigorosamente que poderia sair pulando de seu corpo a qualquer momento.

22h20min marcava o relógio da sala de estar, sua mãe, Alanna já deveria estar dormindo. Seu pai provavelmente estaria com ela. Ótimo, sem ninguém para perguntar sobre a festa.

Manuela resolveu ir até a cozinha, um pouco de água a ajudaria a se acalmar.

— Pensei que você fosse chegar mais tarde.

Ela não tinha percebido que o pai estava sentado à mesa da cozinha, por isso deu um pulo de susto quando ele falou.

Kevin tinha a aparência cansada e o olhar distante, olhos escuros. Não castanhos como os de Manuela, mais escuros, mas não negros.

Manuela uma vez questionara a falta de características semelhantes a dos pais "Do que está falando?!" Dissera Kevin "Seus lábios são iguais aos meus e este Nariz você herdou da sua mãe." Já Alanna lhe contou que ela parecia muito com um de seus parentes que estava muito distante, de quem sentiam muitas saudades. Por imaginar que se parecia com um dos avós Manuela resolveu não perguntar mais nada, uma vez que sua mãe já havia dito que seus avós há muito haviam morrido.

— Não pretendia assustar você.

— Como está a mamãe?

— Ela tomou os remédios, está descansando. Vai acordar melhor.

— Okay.

Quando Kevin focalizou seus olhos em Manuela eles estavam inquisidores e sombrios.

— Aconteceu algo na festa que você queira falar?

— Nada, não bebi nem usei drogas e fiquei bem longe dos garotos pervertidos.

Kevin pareceu confuso no inicio mais apenas assentiu esfregando o rosto cansado com as mãos.

— Certo. Sua mãe disse que você anda tendo problemas com uns pesadelos.

— São apenas sonhos, nada demais.

Ele estreitou os olhos, mas acabou assentindo novamente. Kevin levantou-se e partiu para seu quarto e de Alanna.

Sem um: "boa noite", ou "Durma bem" e principalmente, sem um "tenha bons sonhos".

Havia algo de errado ali. Talvez ela não fosse a única naquela casa a esconder coisas.