Notas iniciais
Oooi, esse é só o primeiro capítulo, uma pequena introdução sobre como Irene faz os caras sonharem. Espero que gostem! :)

Irene Noturna. Era o que dizia, escrito em letras garrafais mal desenhadas na placa da porta de Irene, a mais conhecida meretriz da cidade. E a mais cobiçada. Uma noite com ela custava o preço de um iPhone do ano, talvez dois, se ela estivesse de mau humor. Ela fez sua fama no bordel mais conhecido de Teresina e região, chamado – sempre com um risinho na boca das pessoas – de “Cabaré da Beth Cuscuz”. Mas sua fama foi tanta, que ela pôde, depois de um tempo, mudar-se para sua própria casa. Era ainda humilde, herança de sua cultura pobre, mas era bem organizada.

Irene não era apenas meretriz, ela tinha suas peculiaridades. Havia aprendido o ofício de cartomante e a ler búzios ainda quando pequena com sua avó, antes que ela morresse e a pobre menina fosse parar no bordel. Ela só atendia à noite, e seus clientes ficavam com ela por duas ou três horas, ou até mais, dependendo dos sonhos. Os sonhos eram parte da culpa de Irene ser tão famosa. Dizia-se que ela era capaz de fazer com que os homens sonhassem com as maiores maravilhas já imaginadas pela mente humana. Os clientes pagavam não apenas pelo coito, mas também pelo sono, “que era o melhor e mais confortável de suas vidas miseráveis”, ela pensava.

Na sala de estar tocava Remonta, de Liniker. A dama gostava de boas canções. A campainha tocou. Estava na hora do primeiro atendimento da noite. Ela abriu a porta, e o velho entrou ainda cheirando a seu cigarro mentolado. Ela uma vez havia o feito sonhar com todas as carteiras de cigarro mentolado que o dinheiro pudesse comprar, de todas as marcas e intensidades de nicotina possíveis. Mas esta noite ela queria ensiná-lo algo. Algo sobre a preciosidade do casamento. Apesar de ser uma mulher da vida, ela sonhava com seu casamento.

Começaram com o de sempre. O velho gostava de um dedo amigo na próstata. Mas ele não era gay. E não, não é sobre ele que essa história se trata. Depois, o sexo seguiu seu caminho usual, e foi no final, quando chegaram ao ápice, que Irene Noturna fez o que ela gostava de fazer. Colocou o senhor Carlos para dormir, segurando de leve em sua cabeça, passando os dedos pela testa, ativando os pontos de seu corpo que clamavam pelo sono. Ele deitou-se ao seu lado e adormeceu.

O sonho começou com sua filha. Ela tinha sete anos e corria, linda, na praia. Corria para os braços de seu pai.

— Eu vou fazer pudim! – Gritava sorridente, enquanto dava saltos por todos os lados, mas de repente algo parecia errado. A garota estacou, arfante, no meio do caminho. E então caiu. Seu pai então a pegou nos braços, desesperado, pensando que a menina estivesse tendo algum ataque asmático. A noturna então ficou preocupada com o rumo que aquele sonho estava tomando. Nem todas as vezes ela decidia o que aconteceria. Seu objetivo com aquela imagem era o de mostrar para aquele homem o que ele tinha de mais precioso, sua família. Mas algo não aconteceu como ela esperava.

Então a menina apareceu deitada num leito de hospital. Tubos de oxigênio saíam de seu nariz em direção a máquinas que Irene não conhecia, e nem queria conhecer. Às vezes ela conseguia, com ajuda de seus poderes, revelar o que estava escondido no inconsciente do “paciente”, e se impressionava de vez em quando. Os sonhos são mesmo assustadoramente reveladores.

Aquele senhor, Carlos, passava dias no leito de hospital de sua filha. O casamento estava por um fio, isso é óbvio, dado que ele visitava uma meretriz frequentemente, mas ele continuava ao lado da esposa apenas para ver o sorriso no rosto da pequena, nas poucas vezes em que ela estava acordada.

Certo dia algo deu errado e Carlos chamou os médicos, não sabia o que era, mas as máquinas não paravam de apitar. Um médico seguido de dois enfermeiros entrou, começou a aplicar uma injeção no soro, enquanto um dos enfermeiros fazia massagem cardíaca no peito da menina, e o outro segurava e apertava um ambu de ventilação mecânica sem parar em seu rosto.

Irene abriu os olhos, assustada. O homem continuava adormecido ao seu lado. Então a menina tinha câncer no pulmão... A mulher começou a chorar baixinho, para não acordar Carlos, que roncava. Ela decidiu tentar ver o futuro daquele senhor nos búzios. Sentou-se à mesa na sala, pegou os búzios na mão, fez suas preces, os segurou bem perto do rosto, e os jogou. A Noturna não viu nada de muito esperançoso. Morte, talvez. E próxima. Ouviu um barulho no quarto. O velho tinha acordado. Decidiu voltar para o quarto e fazê-lo dormir outra vez, e dessa vez daria a ele a visão que ele merecia. Uma ceia de natal com sua filha em casa. Depois a menina abrindo seu presente enorme, uma bicicleta. Sua primeira bicicleta. Terminando com imagens dele a empurrando para sua primeira queda de bicicleta. Não muito feliz, mas real. Era disso que ele precisava. De sua filha na realidade.

Ela então acordou Carlos e o mandou embora. Estava quase no horário do próximo cliente. Decidiu tocar Los Hermanos na sala, enquanto esperava fumando um cigarro — herança de seus tempos no Cabaré Da Beth Cuscuz.

O segundo cliente tocou a campainha. Ela abriu a porta e viu um senhor e um jovem, o homem segurando os ombros do garoto com um sorriso pretensioso nos lábios.

— Eu não fico com menores de idade. Espere seu filho crescer, Márcio! – Exclamou. Ela tinha lá seus princípios, isso ninguém podia negar.

O homem tirou um papel do bolso do paletó e quase o esfregou na cara de Irene.

— Ele tem 18 anos! – Exclamou, mostrando a identidade do menino. O garoto revirou os olhos, estressado com toda a babaquice de seu pai. – Ele completou hoje!

— Sendo assim... – Irene respondeu – Quais seus maiores sonhos, garoto? Aposto que ele bate uma punheta todo dia para a menina mais popular da escola! – Dito isso, deu uma gargalhada espalhafatosa.

O jovem estava inexpressivo, apático. Mas não parecia estar gostando muito da situação. Seu pai riu com a mulher, e empurrou o filho para dentro. Ficou esperando na sala de estar e decidiu trocar a música enquanto os dois entravam para o quarto. Ele gostava de forró, sertanejo. Não essas músicas de gente brega.

Miguel tinha acabado de completar 18 anos e não queria nada de presente, mas seu pai decidiu leva-lo à Irene. “Ela vai te fazer sonhar”, ele dissera. E ele não estava falando no sentido figurado, mas o jovem não sabia. Ele teve medo. Além de completar mais um ano de vida, uma vida a qual ele odiava, agora precisava comer uma puta para agradar seu pai.

Ao entrar no quarto tirou sua camisinha do bolso. Ele mesmo tinha ido compra-la. Não confiava em ninguém, muito menos em seu pai.

— Não precisa, eu tenho um monte! – Disse Irene Noturna, abrindo uma gaveta repleta de camisinhas. O garoto fez que não com a cabeça. – Tudo bem, se prefere usar a sua. Ela esquenta? Eu gosto! – E gargalhou novamente.

Do lado de fora do quarto o pai esperava, orgulhoso.

Os dois sentaram-se na cama e começaram a se beijar. Até aí tudo bem, mas foi quando a mulher começou a pegar em sua perna, em direção à virilha, que o jovem estacou.

— Calma. – Disse Irene, tocando em sou rosto, tentando acalmá-lo. – A primeira vez é sempre assim. Então ela começou a tirar a roupa.

Primeiro tirou a camisola. Depois pediu ao jovem para ajudá-la com o sutiã, usando de toda sua sensualidade nesse momento. Depois virou-se e tirou a calcinha. Começou a se tocar lentamente, olhando-o nos olhos com o olhar mais sensual que conseguia fazer. E ela conseguia. Sentou-se novamente na cama, beijou o garoto, e dessa vez tocou-o diretamente na virilha. Ela já desconfiava. Nada de ereção.

— Eu... – ele começou – pre-pre-ci-isso dizer...

— Shhhh – Ela o interrompeu. – Eu já sei. Não deixe seu pai ouvir!

Noturna começou a gemer baixinho, olhando pra cima, sentada na cama ao lado do garoto. Ele parecia muito embaraçado com toda aquela situação. E a situação era, no mínimo, embaraçosa. Ela segurou a mão de Miguel e disse bem baixinho:

— Quer que eu leia as cartas pra você? Ou jogue os búzios?

Ele fez que não com a cabeça. Não acreditava nessas coisas.

Então Irene decidiu fazer o que fazia de melhor. Tocou de leve a testa do garoto e o colocou para dormir. Ele fechou os olhos e lentamente deitou-se na cama. Ela deitou-se ao seu lado e se concentrou. Queria fazê-lo sonhar com o homem mais másculo, mais gentil, mais doce, mais sexy. Queria dá-lo sua primeira vez com um homem nos sonhos. O pobrezinho com certeza acordaria com a cueca toda molhada. Ela fechou os olhos e se concentrou mais.

Porém, inconvenientemente, tudo o que Irene via era escuridão. Procurou mais fundo em seu inconsciente. Impossível! Todo mundo sonha com algo! Escuridão. Foi só o que viu.

Notas finais
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