Irene Noturna E O Gay Que Não Sonhava

3 Capítulo três: Hollywood e Maconha


Notas iniciais
Oooooi que bom que você chegou até aqui. Aviso: prepare os lencinhos. Beija!

Miguel nem sempre foi um cara sem sonhos. Antes da faculdade de Direito, sonhava com o cinema. Gostava das grandes obras de Hollywood, como The Godfather, e os filmes de Kubrick. Sonhava com seu primeiro curta, história que ele mesmo escrevera, baseado em um de seus sonhos mais psicodélicos. Ao entrar na faculdade de Direito, se deparou com as primeiras, e maravilhosas matérias: antropologia, sociologia, psicologia, e todos os "ias" que tanto adorava.

Se não estudasse Direito, se não tivesse que realizar o sonho dos pais… Sentia essa necessidade. Sentia que tinha alguma obrigação com os pais, mesmo que o sonho não fosse o dele. Era o sonho dos pais, formar o filho em Direito, ter um filho Delegado, Juiz, Promotor, ou qualquer outra coisa que tivesse uma remuneração acima dos dez mil cifrões.

Tinha um melhor amigo no ensino médio, que compartilhava de seus sonhos. Eduardo tinha uma câmera DLSR, na qual gravavam pequenos curtas e editavam no computador de Miguel. Uma cena de Miguel – que se sentia péssimo ator – abrindo uma caixa que haviam deixado na porta de sua casa e se surpreendendo. O objetivo daquele curta era dar a sensação de que havia algo de errado com o que havia na caixa, ou deixar a dúvida de se era algo bom ou ruim. Mas ele acreditava não ter conseguido. Mesmo assim, continuavam criando histórias, buscando atores que pudessem estrelar seus curtas.

Foi assim que conheceram Michele e Rafael, os dois ótimos atores. Miguel ficou muito feliz com a nova conquista. Escreveu um pequeno curta de suspense, em que Michele era perseguida por Rafael num parque da cidade. Eduardo e ele gravaram e editaram com maestria. Eduardo era mesmo especial. Ele conseguia ver as coisas de pontos de vista que Miguel não enxergava, e todo dia descobria uma forma de editar algo diferente, mais requintada.

Certo dia, enquanto estavam tendo problemas para editar o curta chamado “Luzes”, sobre um homem que enxergava os órgãos afetados por alguma doença nas pessoas e se apaixonava por Michele, uma garota sem nenhuma doença, o que no curta era raro, Eduardo se declarou para Miguel.

— Miguel... – começou

— Hmm? – Miguel estava fazendo sua parte, que eram basicamente cortes rápidos e colagem de uma cena na outra.

— Eu gosto de você. – Soltou, meio que resfolegando.

— Eu também gosto de você, Eduardo. – Miguel sorriu. – Você é meu melhor amigo! – E ele não estava mentindo.

Isso derrubou Eduardo. Ele não estava falando de amizade, mas Miguel não parecia ter entendido. Então ele decidiu fazer o que mais tinha vontade. Puxou o rosto de Miguel – que estava concentrado no computador – com ambas as mãos e o beijou. O beijo foi longo e intenso. Miguel retribuiu, pois agora havia entendido a forma de gostar de Eduardo e ficou feliz pois sentia o mesmo. Foi quando a mãe de Miguel abriu a porta do quarto. E logo que viu o que estava acontecendo, fechou-a rapidamente.

— E agora? – Perguntou Eduardo, com medo, quase chorando.

— Não sei... – Respondeu Miguel, sinceramente.

— Acha que ela vai brigar com você? – Indagou Eduardo. – Talvez ela conte pro seu pai! Talvez você seja expulso de casa e a culpa é toda minha!

Miguel ficou tocado que Eduardo se preocupasse mais com o bem estar dele do que com seu próprio. E se ela conversasse com os pais de Eduardo, que agora chorava copiosamente? Decidiu resolver aquele assunto ali mesmo. Foi até a cozinha e chamou sua mãe até o quarto. Eduardo se desculpou, ainda chorando, tremendo, com medo. Miguel disse que ele não precisava se desculpar com ela nem com ninguém, que não havia nada de errado naquilo. Sua mãe também começou a chorar um pouco.

— Eu já esperava isso de você, Miguel, mas não queria acreditar! – Soltou, com as mãos trêmulas. – Vamos manter isso em segredo, só entre nós três.

Miguel não queria isso, ele queria gritar para o mundo que pela primeira vez, estava amando alguém. Mas, pensando no bem-estar de Eduardo, decidiu que manter segredo seria realmente a melhor opção. Sua mãe se desculpou com Eduardo e o mandou ir embora. E que não voltasse por enquanto, até que ela se acostumasse com a ideia. O garoto agradeceu, embasbacado com a facilidade de compreensão da mãe de seu amado, e fez o que ela pediu o mais rápido que pôde.

Na parada de ônibus, só o que conseguia pensar era sobre o beijo, e em como Miguel havia agido para protege-lo. Queria voltar, queria perguntar para o amigo se ele tinha gostado, se poderiam então ser namorados. Sonhava com um futuro de parceria dos dois, talvez na faculdade de Cinema, ou Artes Visuais. Sua cabeça estava a mil. A adrenalina ainda corria um pouco em seu sangue, mas ele estava feliz. Um pouco assustado, mas feliz.

O terceiro ano do ensino médio passou, e com ele foram embora seus sonhos. Miguel explicou como se sentia obrigado a fazer o curso de Direito, como queria realizar o sonho dos pais. E logo Miguel entrou na faculdade. Eduardo não conseguiu passar no vestibular aquele ano. Queria cursar Artes Visuais na Universidade Federal do Piauí. E os dois se distanciaram assim. Sem mais nenhuma menção àquele beijo, sem mais abraços carinhosos, sem nenhum contato que fosse estritamente profissional. O medo dos dois de alguém descobrir era maior que a vontade de fazer todas aquelas coisas. Mesmo que tivessem muito tempo juntos e sozinhos, não queriam arriscar.

Então aconteceu. Eduardo parou de o visitar, não respondia as mensagens, não atendia às ligações. Por isso Miguel decidiu ir até sua casa, mas ao chegar próximo, percebeu uma movimentação de gente desconhecida, alguns do lado de fora, outros entrando, alguns saindo...

— Oi. – Ele disse para uma senhora na porta. – Onde está a senhora Barbosa? Estou procurando pelo Eduardo.

A senhora o abraçou e chorou em seu ombro.

— Meus pêsames.

PÊSAMES? Pelo quê? Havia a senhora Barbosa morrido? Mas logo ele viu a senhora Barbosa vindo em sua direção, bufando e chorando ao mesmo tempo. Eduardo. Era Eduardo que havia morrido. Ela chegou perto dele e o esbofeteou na cara.

— MEU FILHO ESTÁ MORTO POR SUA CAUSA!

— O quê? Como assim?

— Ele contou tudo pra mim e pro pai dele! Nós não aceitamos. Ele deixou uma carta, disse que preferia morrer a viver num mundo onde seus próprios pais não o aceitavam como ele era.

Então ela o abraçou. E chorou mais ainda. E passaram-se minutos, até que alguém viesse e a fizesse larga-lo.

— Ele me lembra meu filho! – Protestou ela.

Miguel não entendeu bem se ela o culpava ou sentia compaixão por ele. Mas foi embora mesmo assim, chorando. Não queria ver o corpo de seu amado morto. Não queria ter aquela visão em sua mente pra sempre. Queria lembrar-se de Eduardo vivo, brincalhão, inteligente, criativo. Do mesmo Eduardo que o beijou naquele dia. O Eduardo que ele amava.

***

Na faculdade, primeiro foi apresentado ao cigarro. Estava matando aula com alguns de seus colegas que, como ele, haviam iniciado aquele curso por pressão dos pais, e com os “amigos” do quinto período. Foram os “amigos” do quinto período que ofereceram os cigarros para os outros, que os aceitaram sem nenhuma intenção de recusa, pensou Miguel. Já ele, ficou calado e recusou de primeira. Mas enquanto todos se divertiam soltando fumaça por suas bocas sorridentes, ele se sentiu excluído.

De primeira, tossiu como um cachorro doente. Não conseguiu entender como podiam achar legal ou interessante, ou até mesmo calmante, aquela sensação ruim de fumaça esquentando a laringe, entrando pela garganta abaixo, enforcando o pulmão. Mas logo pediu outro. E então foi se acostumando com aquela sensação ruim. Pediu mais outro. Agora achava legal o modo como um dos meninos do quinto período soltava a fumaça para cima, virando os lábios carnudos naquela direção. Achou charmoso e decidiu fazer o mesmo. Sua pressão baixou, ele se acalmou.

Logo, os garotos estavam todos fumando maconha. Algo que eles chamavam de chá, ou de “Perna de Grilo”, que era o codinome para um cigarro bem fino, maconha enrolada em papel seda. Mas isso foi antes da morte de Eduardo.

Quando Eduardo morreu, sua mãe o deixou passar um dia de luto em casa. Mas ele não quis. Queria fugir de tudo o que o lembrasse dele. Foi para a faculdade. Matou aula com os garotos mais velhos que ele, e ele sabia que encontraria com eles o que ele procurava. Perna de Grilo.

— Rapá, que história de perna de grilo, mano. – Disse o garoto, drogado – Aqui nóis trabalha é com beck grande. Tu vai querer que eu enrole pra ti?

— Sim, por favor. – Pediu Miguel.

— Vinte conto. – Respondeu o garoto.

Miguel pegou o dinheiro no bolso, amarrotado, e o pagou. E fumaram. Logo chegaram mais jovens drogados, e se juntaram ao grupo. Começaram a rir do nada, mas Miguel não deu nenhum sorriso. Não havia motivos para sorrir. A vida estava cinza como aquela fumaça. A maconha não conseguiu lhe trazer felicidade, no máximo um pequeno alívio da dor. E como doía... Saber que Eduardo o abondara por causa dos pais. Que raiva ele sentia dos pais de Eduardo. Que raiva ele sentia do mundo. Foi ali, naquele momento, cercado pela fumaça da maconha, que Miguel deixou de sonhar.

Esqueceu os curtas, esqueceu os amigos Michele e Rafael, esqueceu a vida. Nada mais lhe interessava.

Talvez, como a Eduardo, lhe interessasse a morte.

Notas finais
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