Notas iniciais
Segundo capítulo, siga descobrindo as peripécias de Irene!

Miguel era a personificação da apatia. Andava sempre olhando para baixo, desinteressado, monótono. Não se importava com nada nem com ninguém. Não gostava das pessoas, não lia mais seus livros, não conseguia ver filmes inteiros, nem acompanhar suas séries favoritas. Basicamente comia (pouco), dormia e frequentava a faculdade de Direito (obrigado pelo pai). E se cortar. Comprava lâminas no mercadinho próximo a sua casa, se trancava em seu banheiro e se cortava nas pernas, onde ninguém pudesse ver. Por isso só usava bermudas ou calças.

Talvez – ou com certeza – isso fosse culpa do bullying que sofrera na escola quando mais novo, ou do pai que traía a mãe e batia no garoto por motivos torpes quando ele era mais novo, talvez ele tivesse algum distúrbio imunológico, ou hormonal que lhe desse aquele tom apático e o levasse à depressão. Irene pensava em todas essas possibilidades enquanto espiava o sono do jovem menino deitado em sua cama.

— Pobre garoto – disse, baixinho.

Decidiu ir até a sala, novamente consultar os búzios. Faria uma reza das fortes e se concentraria no futuro daquele rapaz. Abriu a porta devagar para não incomodar o sono dele. O pai esperava em pé, contente. Ela desligou a música para se concentrar.

— Então? – indagou Márcio, esperançoso – Tirou a virgindade do moleque?

— O que você acha? – perguntou, desconfiada – Não ouviu meus gemidos? E o pau dele é maior que o seu, Mácio. – Mentiu. – Agora silêncio. Deixe o garoto sonhar. Está sonhando com o diploma, a formatura ou algo do tipo.

O ego daquele homem inflou tanto que ela pôde perceber seu peito se enchendo de ar. A mulher não sabia se sentia dó ou nojo dele.

— Agora preciso ler os búzios pro seu menino – Disse Irene.

— O quê? Por quê? – Perguntou ele, exasperado. – Tem alguma coisa que eu não sei? – Ele já esperava o pior, e o pior, para ele, era que seu filho fosse gay.

— Eu não posso querer ver o futuro do seu filho? Sente-se. – Ela indicou uma cadeira à mesa. – Não quer saber também?

A Noturna pegou os búzios em mãos, e fez suas melhores preces. Esperou. Se concentrou. Segurou-os bem perto do rosto, como geralmente fazia, e então os jogou.

Medo. Nada de esperança. Agora, como antes, ela só via medo cercando o garoto. Sentiu as vibrações negativas provenientes dos cortes nas pernas dele, sentiu a raiva que ele sentia de si mesmo. E viu a morte em seu futuro, como via no futuro de muitos, mas naquele caso era diferente. A única vontade que ele tinha, era proveniente de uma falta enorme de vontades. A vontade de deixar de viver. “Talvez por culpa da depressão”, ela pensou.

— Seu filho tem depressão. – Ela disse, consternada. – Cuide bem do moleque, ou então...

— O quê? – Ele a interrompeu.

Irene suspirou profundamente. Não sabia como dizer aquilo.

— Bem, preste mais atenção nele! – Exclamou. – Você tem um filho, não um robô.

— Mas o que você viu? – Perguntou Marcio.

— Depressão. E... – ela parou, pensou melhor – Bem, o futuro dele é incerto. Preciso conversar com ele.

Ela entrou novamente no quarto e fechou a porta na chave. Passou a mão de leve na testa de Miguel até que ele acordasse. Ele acordou desconcertado.

— Eu dormi? – Perguntou, meio embaraçado.

— Eu te coloquei pra dormir. – Ela respondeu – Olha, eu sei que você não acredita nessas coisas, mas eu vi os búzios e sei que você não está nada bem.

— Como? Que droga você usou em mim?

— Não me insulte, garoto! Não tem droga nenhuma. Tem meus poderes.

Ele riu.

— Agora, além de meretriz, você é o quê, uma bruxa? – Perguntou, sarcástico e cético.

Ela subiu os shorts dele e passou a mão em suas cicatrizes. Ele se encolheu, assustado, sentindo uma vibração e uma leve queimação na pele.

— Eu posso fazer as pessoas sonharem com o que elas mais gostam. Carros, fama, dinheiro, mulheres... Todos os meus clientes vêm aqui por isso. Seu pai não te avisou?

— Eu não me lembro de sonho nenhum – respondeu, ainda meio cético.

Irene suspirou e revirou os olhos.

— Exatamente por isso que eu fui consultar os búzios! Você não sonha com nada! – Exclamou, exasperada. – O que você tem, depressão? Devia consultar um psicólogo, ou um psiquiatra.

Miguel olhou para baixo, envergonhado.

— Meu pai não deixaria. Ele acha que é coisa de louco. – Respondeu, com um tom decepcionado.

A essa altura Irene Noturna estava meio cansada de sentir dó do garoto. Sentia que precisava fazer algo. Mas o que faria? Decidiu naquele momento que faria o que estivesse ao seu alcance. Mesmo que lhe custasse algumas noites de trabalho. Trocaria o dia pela noite. Sim o dia pela noite, e não a noite pelo dia. Ela dormia de manhã e acordava à noitinha.

— Não importa o que o seu pai acha, garoto! Acorda! Você precisa se tratar!

— Eu não quero, bruxa!

Ela sentiu-se insultada. Não gostava de ser chamada de bruxa. Gostava mais do nome Noturna. Porque ela tinha poderes noturnos. Como fazer as pessoas dormirem, ou se esconder nas sombras. Ver o futuro era algo noturno, pois a noite é o oposto do dia, quando as coisas acontecem. A noite era o momento quando o sol continuava a vida em outro lugar do planeta, e ali estava o futuro, perseguindo a luz do sol. O futuro estava nos sonhos das pessoas, que se realizariam ou não, dependendo de suas escolhas. Decidiu mandar o menino e seu pai embora.

— Chega por esta noite. Depois eu continuo com você.

— Não vai continuar nada! – Exclamou o garoto, quase que implorando para que ninguém mais se metesse em sua vida miserável. – Me deixe em paz! – E saiu.

Notas finais
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