Irene Noturna E O Gay Que Não Sonhava
6 Capítulo Seis: Oi, estranho!
Capítulo seis: Oi, Estranho!
Depois da milésima música, Irene Noturna estava cansada de cantar. Já tinham material suficiente, e Miguel já estava cansado de tanto gravar e chorar, e gravava com as mãos trêmulas. Então a mulher de preto e o garoto de tênis Nike decidiram sair do parque à procura de comida. Comeram ali mesmo na Padaria Excelência, em frente ao parque. Era só atravessar a rua.
— Então, é verdade que eu você não consegue me fazer sonhar? – Perguntou o jovem. – Porque... Não sei, acho que eu posso sonhar com suas panquecas agora.
Ela riu.
— É assim que funciona. – Explicou. – Você tem que querer muito, ou apenas querer algo, para que eu possa te fazer sonhar com o que seu inconsciente me mostrar. Talvez você tenha passado muito tempo sem querer nada, depois que, você sabe... – Ela não sabia como tocar naquele assunto. – Depois do que aconteceu.
Miguel pensou em Eduardo.
— Eu queria algo. Queria Eduardo de volta.
— Posso te fazer sonhar com ele, se você quiser muito. – Convidou Noturna.
— Não sei se eu queria, bem, sonhar com ele. – Ponderou. – Eu queria mesmo era ele de volta.
— Desculpa, não posso trazer ninguém dos mortos.
— Eu sei. – Respondeu Miguel, triste.
De volta ao parque, procuraram uma arvore, uma sombra. Irene sentou-se na grama e pediu para que Miguel deitasse com a cabeça em suas pernas. Começou a passar as mãos sobre os cabelos lisos dele, sentindo compaixão pelo garoto. Ele sorriu pra ela, que sorriu de volta, enquanto tocava sua testa e o via adormecer repentinamente.
Ela fechou os olhos e se concentrou. Primeiro, viu escuro, medo. Depois, uma pequena luz escarlate iluminou algo e dançou no ar na frente dos olhos dela, que agora encaravam não o parque, mas a mente dele. Seu inconsciente dizia oi pela primeira vez. Era um rosto. Um garoto de rosto europeu, olhos azuis ou verdes, ela não conseguiu distinguir muito bem, sob aquela luz escarlate que brilhava, mostrando-a um rosto triste.
Depois, o jovem garoto estava sentado à sua escrivaninha, escrevendo uma carta. Ela caminhou até ele, sob a luz daquela cor que agora emanava do abajur. “Interessante”, pensou. “O garoto gostava de luz vermelha”. Encostou-se na mesa para ver o que ele escrevia, em letras muito bem desenhadas.
Eu não sei, então, qual a natureza do pecado. Por que algo que não machuca ninguém, que não faz mal a ninguém, é considerado errado, imoral? Por que será que as pessoas, ao invés de olharem para si mesmas, decidem apontar o dedo para os outros, tentam encontrar a todo custo motivos para julgar os outros? Será que não percebem o mau que causam? Expulsam-nos, expurgam-nos, segregam-nos, nos afastam, enfim, da comunhão que devia ser a sociedade.
Pois não há algo mais certo do que o ditado que diz que, ao apontarmos um de nossos dedos para alguém, o resto está voltado para nós mesmos. E Deus sabe o quanto devíamos olhar para dentro. Somos um mar de tubarões com pernas, com dentes à mostra, prontos para atacar a qualquer sinal de sangue. E bem-aventurados são os “peixes” que conseguem resistir e nadar neste mar. Somos nós, os peixes. São os afastados, os segregados. São aqueles a quem até a própria família mostra os dentes. Porque para seres naturalmente sociáveis, escolher viver, mesmo tendo que se esconder dos outros, é uma demonstração de força.
Eu não tenho essa força. Vocês me mostraram seus dentes de tubarão, e agora eu estou com medo. Medo do futuro, medo de não me encaixar. Eu não quero ser outro tubarão, e sendo assim, peixe, logo vocês irão me engolir.
Me desculpem,
Eduardo Coimbra.
Ao encerrar a carta, o garoto a amassou, jogou no lixeiro de metal, e tocou fogo. Havia mais alguém no quarto, e esse alguém era Miguel, filmando tudo, sem prestar muita atenção ao que ele escrevera. Mas noturna podia ver em seu inconsciente, com seus poderes. E agora ele também podia. Ela abriu os olhos, viu que lágrimas saiam de seus olhos, ainda fechados. Tentou acordar o garoto, mas não conseguiu. Decidiu deixa-lo sonhar mais, sem se importar em ver quais eram seus outros sonhos. Era dor demais para que ela pudesse digerir em um dia. Então deixou-o dormir, e três horas se passaram. Com toda sua paciência e com a iminência da noite que já chegava, sentiu-se mais leve para apenas observar o sono do menino.
O parque já se enchia de gente depois de um tempo, então ela decidiu esconder-se nas sombras novamente. Não queria que o garoto sofresse preconceito novamente ao ser visto com uma prostituta. E além do mais, tinha outros planos.
— Oi. – Disse ele, acordando. – Por quanto tempo eu dormi?
— Três, quatro horas. – Respondeu ela, indiferente. – Mas isso não importa. O que importa são seus sonhos. Depois da carta, eu não vi mais nada. Vai, me conta tudo!
— A carta! – Ele exclamou. – Como eu não prestei atenção enquanto gravava aquilo? Era a carta de despedida de Eduardo!
— Fez muito mal mesmo, garoto! – Ela o repreendeu.
— Se eu soubesse, não teria deixado que ele fizesse aquilo!
— Será? Minha experiência me diz que quando alguém quer realmente morrer, garoto, não há muito o que se fazer. O que você ia fazer? Amarrá-lo a uma corrente? Ele se enforcaria com ela.
Miguel começou a chorar, e ela abraçou-o. Ao abraça-lo, viu que um cara corria na pista ao lado das arvores onde eles estavam, em sua direção. Ela o soltou num movimento brusco. Esquecera-se que estava escondida nas sombras, e sua nova proposta para o garoto, sociabilidade, não seria possível se o vissem falando sozinho.
— O quê? – Perguntou ele, meio confuso.
— Não fala comigo, eu tô escondida! Só você pode me ver. – Ela o virou pegando-o pelos ombros com ambas as duas mãos finas. – Tá vendo aquele cara? Vai até lá e fala com ele. Se fizer isso te dou um jantar. Você tem que socializar!
Para a sorte de Miguel, ao vê-lo se afastando das arvores e indo em direção à pista de corrida, acendendo um cigarro, o jovem parou de correr e pediu-lhe um.
— Eh, com licença, você poderia me arrumar um cigarro?
Ele entregou-o um cigarro, dizendo “claro”, sorrindo, e depois entregou seu cigarro aceso para que ele acendesse o dele com a ponta. O garoto voltou a correr, com os cabelos platinados pulando no vento, e o cigarro pendurado nos lábios rosados e finos. Miguel olhou para Noturna, que acenava loucamente para que ele fosse atrás do homem que pedira o cigarro, mas ele não teve reação nenhuma. Então ele voltou até Irene com as mãos abanando por conta da falha no “plano sociabilidade”.
— Você tem muito o que aprender, garoto. – Ela o repreendeu. – Anda, vou te pagar uma cerveja só por entregar um cigarro àquele homem.
Miguel teve vontade de perguntar o que ela queria com aquele plano bobo. Substituir o Eduardo? Ele sentia que isso nunca aconteceria. Mesmo assim, a seguiu até o bar chamado Salve Rainha, que ficava ali mesmo no parque. Eles pediram uma cerveja e conversaram.
— Eu acho que ainda tenho aquele vídeo. – Disse Miguel – O do Eduardo, escrevendo a carta. Eu não prestei muita atenção porque estava chateado com ele, mas passei pro computador e ia editar para postar no nosso canal do YouTube. Mas daí, ele morreu e...
Se conteve para não chorar novamente.
— Sabe o que eu acho que deve fazer? Mostrar o vídeo para a mãe dele. – Incentivou a feiticeira. – Ela pode te culpar, Miguel, mas os pais dele são os maiores responsáveis por isso. Eles não o aceitaram, eles o empurraram pra isso. Eles são os tubarões de pernas que o mostraram os dentes. Vocês não tinham como controlar o que sentiam um pelo outro.
— Tem razão. Mas com que cara eu vou chegar lá, depois disso tudo? E além do mais, eles estão errados, mas precisam de conforto, de carinho pela perda do filho, não de um bilhete suicida.
— Pense nisso como seu ticket para a aproximação. A mãe dele não disse que você lembrava o filho dela, ou algo assim? É sua chance de fazer uma boa ação.
— É, ela gostava muito de mim antes de tudo acontecer. Assim como minha mãe também adorava o Eduardo. – Falou, entre a fumaça do cigarro.
Nesse momento, Miguel não viu, pois estava de costas, mas o cara do cabelo platinado que pedira o cigarro vinha em sua direção. A intuição das sombras avisou a Irene para se esconder e assim ela o fez, levando também a latinha de cerveja.
— Não olha agora, mas lá vem aquele cara.
Miguel estremeceu.
— Você está escondida? – Ele agora só conseguia vê-la como um vulto, um fantasma flutuando na cadeira.
O homem se aproximou da mesa, e disse:
— Oi, estranho! Eu não cheguei a perguntar seu nome, cheguei? – Então passou a mão por seus cabelos lisos e platinados, e sorriu com seus lábios finos. Estendeu a mão para cumprimenta-lo.
— Meu nome é Pedro. Prazer!
— Oi! – Miguel respondeu, meio empolgado, meio bobo, estranhando aquela aproximação repentina. – Me chamo Miguel! – E apertou sua mão macia.
— Posso me sentar com você, ou você já tem companhia?
— Não, claro que pode.
— Então, você é fotógrafo? – Pedro perguntou, apontando para a câmera.
— Ah, não, não... Eu prefiro cinema. Costumava fazer pequenos curtas.
— Costumava? – Ele sorriu, e aquele sorriso era de iluminar qualquer um. – Por que parou?
Miguel não queria falar sobre Eduardo, por mais que simpatizasse com o cara. Só não parecia assunto para aquela conversa.
— Longa história. – Assim respondeu.
— Promete que me conta depois, se não for incômodo? – Ele sorriu novamente, e aquele sorriso derreteu Miguel.
— Prometo.
— Então, o que você faz por aqui, com essa câmera?
— Tirando fotos da paisagem. É um lugar muito bonito. – Mentiu Miguel.
— Então você é fotógrafo! – Brincou Pedro, mexendo no cabelo.
Aquele cabelo...
Para Miguel, era um sinal de coragem. Pintar o cabelo daquela cor, nessa cidade, significava um belo “não tô nem ai pro que vocês pensam”. Então ele decidiu testar suas habilidades de socialização e perguntou sobre:
— Como você pintou seu cabelo dessa cor? Está maravilhoso. – Elogiou.
— Bem, eu tive que descolorir algumas vezes, e isso acabou com ele. – Explicou. – Mas é só cuidar bem que dá certo.
Miguel assentiu.
— E você, o que faz? – Perguntou.
— Faço teatro. Posso ser ator nos seus curtas, se você voltar a produzi-los?
— Claro! – Miguel adorou a ideia. Pedro era bonito, e parecia ser bom ator.
De longe, Irene observava-os, fantasmagoricamente. Ela estava muito feliz pelo garoto, que conversava sem nem ao menos piscar, de olhos vidrados no homem. Eles eram lindos juntos, o que a fez sentir boas vibrações. Seu plano estava dando certo.
— Bem, eu preciso ir. – Disse Pedro. – Foi um prazer!
Ao ver o homem do cabelo platinado se preparando para levantar e sair, a feiticeira começou a acenar loucamente para Miguel, fazendo um sinal de telefone com a mão no ouvido.
— O que você está olhando? – Perguntou Pedro, olhando na mesma direção que ele, sem ver nada.
— Nada! Às vezes eu olho pro vazio, assim mesmo. – Mentiu Miguel. – Antes de ir, você pode me dar seu número?
— Pensei que você não fosse pedir. – Pedro iluminou Miguel com seu sorriso. – Então pediu um guardanapo e uma caneta no caixa do bar, e entregou a Miguel seu número.
“Ao fotógrafo que não é fotógrafo, é diretor de cinema. Pedro”. Era o que estava escrito, logo abaixo do número.
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