Ira
1 Capítulo 1
Fome
Era difícil se concentrar com aqueles olhos verdes pregados em você, mas eu já havia a muito me acostumado com as esquisitices do amigo. Nós estavam jantando no salão em um silencio amigável, observando os estudantes que permaneceram no castelo brincarem e fazerem barulho. Rowena observava tudo com seus olhos afiados, pronta para intervir caso houvesse algum problema; Helga estava absorta em um volume que eu suspeitava ser sobre Herbologia; eu tentava comer e Salazar, que havia ficado trancado em suas masmorras por quase uma semana, devorava tudo que aparecia em sua frente sem tirar os olhos de mim. Aquilo começava a me irritar e, querendo me livrar da tensão crescente entre nós, eu tomei do prato dele uma coxa de frango e, finalmente, fazendo contato visual, eu dei uma mordida.
Foi o começo de uma briga que teve que ser apartada pelas duas mulheres, cinco elfos domésticos e um aluno.
2. Sede
Não era segredo que eu e Salazar tínhamos atritos quase diários: ele era cauteloso onde eu partia para a ação e eu tentava salvar o mundo todo quando ele preferia manter a neutralidade na maioria dos casos. Nós também éramos melhores amigos: o que Helga e Rowena sussurravam entre si durante as refeições, nós gritávamos na taverna, suando álcool e rindo, sempre rindo, de um feito meu, de uma experiência dele, de alguém tolo o bastante para desafiar qualquer um dos dois; nós encontramos um meio termo no álcool.
Salazar sempre bebia mais que eu e ficava menos bêbado. A sede daquele homem era insaciável, quanto mais ele bebia, mais ele queria, chegando ao ponto em que nós brigávamos por cada caneca de hidromel, rindo e brigando. Sempre brigando.
Várias vezes eu o pegava me olhando nesses dias. Na época eu não tinha ideia por que.
3. Combate
Ver Salazar lutar com alguém era uma oportunidade única de alguém desvendar o caráter do meu amigo. Salazar normalmente era frio, sarcástico, absurdamente ambicioso e dissimulado. Salazar lutando era tudo isso, mas com um acréscimo vital: era honesto. Em seu rosto ficavam expressos mil e um sentimentos que normalmente ficariam escondidos atrás daquela máscara de apatia que ele usava. Ali, no calor da luta, fosse usando uma espada ou a varinha, ele se deixava grunhir, rosnar, resmungar e até mesmo sorrir aquele sorriso maníaco dele.
Nós lutávamos constantemente.
4. Sono
Outro momento vulnerável de Salazar era quando ele dormia. Eu só havia visto ele dormir duas vezes, já que ele era totalmente reservado e paranoico mesmo entre amigos. Na primeira vez, eu tinha ido visita-lo na Ala Hospitalar, após uma explosão em suas masmorras. Ele estava tão pálido e macilento, e ele dormia tão imóvel que, por alguns instantes aterrorizantes, eu achei que ele estava morto. A imagem me deixou tão abalado (porque se tinha alguém cuja ideia de morte não era compatível era Salazar: o homem discutiria com Ela até que fosse deixado viver) que eu deixe o hospital correndo e não o vi até que ele tivesse se recuperado. A segunda vez foi durante uma caçada que nós e mais alguns alunos havíamos organizado. Era o final da temporada de lebres e nós queríamos algumas luvas novas. Aquele dia nós dormimos a céu aberto e, como ele havia deitado perto de mim, eu pude notar que Salazar era mais novo do que parecia, porém tinha mais linhas no rosto que qualquer um de nós, graças a sua expressão franzida constante e que, quando saudável, ele tinha o sono inquieto de uma mente inventiva. Ele chutava e resmungava, como se estivesse discutindo com alguém. Foi a primeira vez que eu coloquei o adjetivo ‘bonito’ junto com o nome dele
5. Sexo
Até fazendo sexo, Salazar e eu brigávamos. Era uma discussão muda que ocorria ali, com ele me mordendo e me arranhando e eu segurando nele com força suficiente para deixar marcas. Como ele desprezava a minha franqueza (que ele chamava de vulnerabilidade), Salazar mantinha a expressão apática do dia a dia durante o sexo, numa tentativa de me humilhar. Eu, muitas vezes magoado e com raiva, gemia o mais alto possível e as vezes gritava, para que ninguém tivesse duvidas do que nós estávamos fazendo ali. Raramente havia algum tipo de carinho entre nós: ele não apreciava e meu orgulho não aceitava qualquer tentativa dele de ser amável comigo por pena. Nós éramos muito guerreiros e pouco amantes para isso.
Afinal, nossa intimidade era a luta.
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