Invokers
1 Capítulo 1 - Requiém
“Eu não quero morrer, não, eu não quero morrer, não posso morrer” — Era tudo que eu conseguia pensar, como em uma oração que ressoava mil vezes na minha mente em uma fração de segundo.
Para todo lugar que eu olhava era só desolação, todo o reino tinha caído. O rei foi assassinado e nunca mais governará.
“Ventur!” – Desesperadamente pensei enquanto um imenso vazio tomava conta do meu coração.
Olhei para o lado e vi meu irmão caído no chão. Não era meu irmão de sangue mas sentia seu espírito tão próximo a mim como se fôssemos companheiros de muitas vidas. Ele estava desacordado, e todo seu sangue pintava o chão em um réquiem sombrio.
— Levante Will! – Pensei ter gritado, quando me dei conta que fora mais baixo que um sussurro.
Havia uma grande ferida em meu abdômen, meu braço estava quebrado, e sentia um peso muito grande sobre minha cabeça. Eu sentia, eu estava morrendo. Consegui dar alguns passados em sua direção, e invonlutariamente cai de joelhos sobre o seu corpo.
— Will, acorde! Levante Will! – Tentei reanimá-lo, porém, sem sucesso.
Muito ferido, seu coração quase não batia.
Eu sabia que minhas forças se esgotariam, porém eu tinha que salvá-lo. Com muito esforço levantei, e usei seu próprio sangue desenhando no chão o símbolo de Ahaist. Era uma oração proibida, e uma invocação perigosa, mas apesar de cruel, Ahaist era um espírito justo e um grande protetor dos guerreiros. Eu não podia exitar nem por um segundo.
O universo era divido em 5 planos. Toda a Sociedade tinha conhecimento apenas do Plano Etéreo e o Plano Verum – o qual eu e toda Sociedade pertencemos. Ahaist pertence ao plano Etéreo, do qual temos pouco conhecimento, mas que sabemos que é a casa de muitos espíritos. Esses espíritos têm sua própria organização e suas próprias raças. Porém, alguns seres da Sociedade podem invocá-los e usá-los como quiserem, e eu pertenço a essa raça. Somos conhecidos por Invokers. Ahaist, por outro lado, faz parte do que chamamos de “Invicta”. Invicta é uma natureza de espíritos que são indomáveis, e apenas os pertencentes do mais alto grau da raça dos Invokers poderiam dominá-los, entretanto, há mais de mil anos não surge ninguém capaz de transcender o último laço da invocação, que é conhecido por Mortem.
Apenas aqueles que são capazes de conhecer sua essência e abrir mão de sua verdadeira existência é que poderiam alcançar o último estágio e dominar os Invicta. Muitos tentaram, todos morreram. E agora minha única chance é tentar invocar o mais poderoso dos Invicta, aquele que pode dar a vida, e também aquele que pode tirar.
“Espero que funcione, tem que funcionar!” — Como se eu repetisse mentalmente pudesse mudar o fato que faz apenas 2 meses que invoquei meu primeiro espírito bebê.
— Ahaist, no terno e misterioso Iguin você habita, a onde nenhum guerreiro é digno de entrar, conclamo ao poderoso Ahaist, atenda a minha prece e venha me servir.
Senti minha boca queimar, e coloquei minha mão no símbolo de Ahaist, e conclui o ritual profano.
— Eteos gnos heist Ahaist, demo!
Estávamos no castelo do rei, também conhecido como o Castelo Eterno, a grandiosa construção tinha quase o tamanho de uma cidade pequena, centenas de quartos e cômodos. As paredes foram construídas com pedras da montanha Edil – pedras que eram tão duras quanto o aço – e o interior fora decorado com grandes tecidos vermelhos e cômodos rústicos. Havia imensas luminárias por todo o castelo, cada uma com centenas de cristais. Tudo era muito majestoso... Mas agora só restavam escombros. Estávamos no cômodo central, de onde o rei governava, era a parte mais alta do castelo, e era possível ver toda a cidade de Lemx de lá. Apenas o cômodo era do tamanho de um pequeno castelo, podia abrigar toda a corte do Reino.
Ao proferir a última palavra da prece todo o cômodo escureceu, não era possível nem mesmo ver a janela por onde os raios de luzes entravam. Surgiu em chamas flamejantes uma enorme figura, não parecia com nenhuma raça que eu conhecia, nem com nenhuma figura animal. Seu semblante era incrivelmente assustador, no lugar dos olhos havia uma faixa branca enrolada e sua boca costurada com grandes linhas negras, a textura da pele era como um emanharado de fios de costura, não possuía braços, apenas pernas, e um gigante par de asas que brilhavam como ouro e que se você reparasse com cuidado, cada pena era uma lâmina. Tinha no mínimo dois metros e meio de altura, e exalava um cheiro muito característico, que parecia como grama molhada.
— Você acha que pode invocar-me e sair com vida, jovem Eru, filho de Enden?
— Conheceu meu pai? – Respondi atônito; meu pai morreu quando eu era muito jovem, tudo que me restou dele foi o seu diário.
— Não foi para perguntar sobre o seu pai que você me chamou, não é mesmo? – Retrucou em um tom arrogante.
A sua voz era profunda e potente, ao mesmo tempo hipnotizante, como as melodias das fadas que habitavam a antiga floresta.
— Você tem razão. Meu irmão está morrendo, te invoquei para que pudesse salvá-lo. Em troca, você pode levar o que quiser.
Ahaist não fazia nada de graça, e sua misteriosa existência era envolta a inúmeras lendas.
Lembro do meu pai contando as histórias de suas aventuras e das coisas que ele conhecia. Costumava me amedrontar com um conto que me impressionava e enchia meu coração de medo.
O rei Gamble, do século sangrento, invocou Ahaist e pediu a ele todo o controle do Império de Houls – era o maior império que existia antes do grande cataclismo que devastou toda a Ordem cerca de 300 anos atrás -, em troca Ahaist tomou a alma de seus 3 filhos e os transformou em cães demoníacos para guardar as portas de seu próprio reino no plano etéreo, mesmo depois de séculos ainda há a crença de que seus 3 filhos estão lá, aguardando a volta de seu pai para salvá-los e levá-los pra casa, enquanto são obrigados a caçar e destruir todos aqueles que ousam desafiar Ahaist.
Hoje em dia o Império de Houls, amaldiçoado pela ganância de seu caído Rei, não passa de uma sombra do que foi no passado e todos os seus habitantes pagam o preço da arrogância de seu governante. Acredita-se que o rei ainda habita suas terras, como uma alma perdida, solitária, e arrependida, porém nunca nenhum guerreiro voltou das terras de Houls para contar a verdade que assola o império.
Ninguém é capaz de entrar, ninguém é capaz de sair.
“Pensando bem, talvez a vida do meu irmão não valha esse esforço, podia estar aqui pedindo para ser rei do Reino, mas não, estou aqui arriscando minha vida por esse palhaço.” – Pensei rindo comigo mesmo depois de me lembrar dessas histórias.
— Eru, eu tenho uma grande dívida com o seu pai. Irei atender a sua prece, e quem sabe, finalmente, poderei retribuí-lo dignamente.
Confesso que esperava qualquer coisa naquele momento, cães voadores, borboletas falantes, até um duende vestido de bruxa má... Mas isso? Isso eu não esperava. Me pegou de surpresa que nem um anão ao poder entrar nas tavernas da terra dos gigantes do Norte.
— Vamos logo com isso, não tenho o tempo todo. – Continuou a simpática figura com a boca costurada antes que eu pudesse questionar qualquer coisa.
Bem, ele tinha razão. Tenho outras prioridades no momento, melhor deixar pra depois.
— Sim, por favor. – Respondi, saindo da frente de Will, como se o estivesse convidando para que iniciasse o que talvez, fosse o mais profano dos rituais.
Tudo no universo é um, e um é tudo. Esse é o primeiro mandamento. O que Will terá que dar em troca de sua vida? – Me questionei.
Um grito agonizante e estridente ecoou por todo o cômodo. Começou.
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