Notas iniciais
Espero que gostem!!!

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Só abro meus olhos depois de sentir um cheiro de queimado. Amon me olha parecendo não ter culpa nenhuma, mesmo estando com a frigideira na mão e o fogo bem alto. Ele coloca alguma coisa queimada em um prato e começa a comer. Obrigada por fazer algo para mim. Levanto me sentindo bem acabada e um pouco tonta. Chego perto do fogão ainda aceso e preparo omelete com presunto e queijo. Não é tão gostoso, mas é comestivel e não parece carvão.

— Seu celular tocou durante a noite. Não consegui dormir direito por isso. – Amon enfia outro pedaço chamuscado de gema e aponta para o meu relógio de parede. – Você estava um pouco fria e também parecia estar em um pesadelo. Preferi não te acordar.

Se eu estava passando por um momento difícil não seria melhor me acordar?

Pego o celular e confirmo que é o mesmo número que Tom usou para me ligar. Vou ao banheiro e troco de roupa. Entrego o casaco a Amon e lembro que no primeiro dia foi com outra roupa dele que eu sai daquela casa.

— Ah! Obrigada, por aquele dia. – Entrego o segundo casaco. – Eu só não tive opostunidade de colocar nenhum dos dois para lavar e...

— É... Eu consigo sentir o cheiro. – Ele aponta para o próprio nariz. – Sua casa é infestiada de odor do seu Shinigami. Isso me faz sentir vontade de sair.

Pego o seu prato e o lavo. O meu não está muito sujo, então é rápido. Ponho tudo no canto e abro a porta.

— Ok. – O que mais dizer? Ou eu sou fria ou ele é.

— Menina, eu sabia que tinha algum barulho vindo do seu apartamento.

Ao meu lado está o meu vizinho. O Senhor Octávio já está perto dos oitenta anos, é bem mais velho do que meus pais chegaram a ser. Eu o tratei durante esses anos como da família, já que estava sem a minha. Também sentia sua falta.

— Bom dia, senhor. – Sorrio e seguro a sua mão. – Teve uma boa noite?

— Estou indo passear no parque agora. Bem que eu queria ter algum cachorro para me fazer compania, mas acontece que sou alérgico. É de família. – Ele dá de ombros. Espirra e então olha para o homem perto de mim. – Estou sentindo um cheiro de cachorro molhado...

Acho que essa é a minha deixa. Não sinto cheiro nenhum, mas deve ser Amon.

— Eu tenho que ir para a faculdade, Senhor Octávio. Até outro dia. – Aceno e desço as escadas o mais rápido possível. Ele não pode perceber o que Amon é. Ou pode?

Caminho rápido até o metrô, mas antes de entrar no vagão o homem segura o meu ombro.

— Não disse que estava indo para a faculdade?

— É... Mas preciso ver como o Tom está. Então, primeiro vou para a sua casa. Se a Prime estiver na sala, você pode me ligar avisando? – Entro e antes de fechar a porta, levanto a mão. – Obrigada. Por tudo.

Não consigo escutar a sua resposta, mas vejo a sua boca se mexendo. Assim que saio do metrô vejo o mesmo menino fantasma que está procurando o cachorro. Dessa vez eu vou para a outra calçada e evito que ele me veja. Não são muitas quadras até a casa de Billy, mas quando chego já estou bem cansada. Mais que o comum. São onze horas da manhã, mas Tom disse que não vai a escola, então isso quer dizer que ele deve estar aqui.

Abro a porta principal com a chave que meu irmão me deu ontem de manhã e assim que chego na sala, o vejo escrevendo no computador. Ele nem está olhando para mim. Como de costume, Billy está preso em alguma história que está criando. Subo as escadas e ando rápido pelo corredor para chegar logo no quarto.

A porta do armário está aberta e Tom está sentado na cama encarando no escuro.

— Cassie... Tem alguma coisa bem errada acontecendo. – Sua voz é infantil, diferente do normal. Ele está todo coberto como se o ovo pudesse o atacar.

Entro no quarto e fecho a porta. Vou até o armário e acho que dou um passo para trás por surpresa. Sem dúvida tem algo errado aqui. Não é mais um ovinho que dá para segurar com uma mão. Deve ter no mínimo uns trinta centímetros. Tenho certeza que o maior ovo de ave seria o de avestruz. E acho ter lido que têm no máximo vinte centímetros. Toco no objeto estranho aquecido pela lampada e eu consigo sentir alguma vida dentro dele.

— Isso é mágico. – Eu poderia ter perguntado, mas não tenho dúvida. Seja lá de quem for esse ovo, é com certeza do Outro Lado.

— So pode ser, e isso significa que teremos que contar para os outros. – Tom parece aterrorizado em ver o ovo gigante.

— Mas o que vai nascer? – Assim que pergunto o ovo começa a tremer e eu me aproximo. Será que me escutou e decidiu fazer isso agora? Tom não se mexe e eu fico ainda mais perto do ovo. – A casca está quebrando, Tommy. Vem ver!

— Nem pensar! – Ele sussurra, ainda na cama.

Assim que há um buraco no ovo, uma luz muito forte emana dele, e eu não consigo enxergar por alguns segundos e me apoio em algum bichinho de pelucia de Tom. Quando meus olhos voltam a focar o que eu vejo é uma pessoinha. Uma menina? Ela está pelada e sentada com as pernas para o lado, um pouco encolhida. Assim que olha para mim percebo que é muito estranho. Seu cabelo é cinza e seus olhos são azuis, ela tem orelha de cachorro e um rabo branco e cinza.

— Ela é uma mini Cassie? – Tom se agacha e fica ao meu lado olhando para a pequena menina.

Não é como se fosse parecida comigo bebê. Ela se parece um pouco comigo e tem mais ou menos o meu corpo de doze anos. Ela é pequena e assim que se levanta para me olhar, percebo que é um pouco menor que o ovo. Isso significa que é um Cassandra de vinte centimetros de altura. Tampo os olhos de Tom e o empurro para trás, ficando entre eles dois.

— Ela está pelada Tom! – Ele fica vermelho e tenta voltar para perto, com os olhos fechados. Ele tateia dentro do armário e pega um urso com uma camisa.

— Acho que isso vai virar um vestido para você. Quero dizer, a mini você. – Tom estica a mão e me dá a blusa.

Visto a menina e ela sorri para mim. Segurando o meu dedo perto dala, consigo sentir os pelos do seu rabo e ver com mais facilidade que suas orelhas são reais.

— Por que ela se parece comigo?

— Isso é um dragão. – Tom diz se ajoelhando na frente do armário, ao meu lado. – Não sei muito a respeito, mas já li que os recêm nascidos virão a imagem do primeiro que o viu nascer. Acho que quando ela nasceu, viu você. E o meu lobo. – Ele aponta com a cabeça para o bicho de pelucia que comprou no zoológico. – E quando isso acontece, ela rouba um pouco da sua alma e se liga a você. Agora, Cassie, você tem um familiar.

Tento entender tudo o que o menino de cinco anos diz, mas não é algo muito fácil. Olho para a mini Cass, e tento entender. Dragão... Não era assim que eu pensava ser um ser mistico.

— Ela precisa de um nome. – Tom me faz parar de pensar, e desvio o olhar para ele. – Quero dizer... É como um recém nascido. Precisa de um nome. No caso de um dragão, ao ser nomeado, ele finalmente termina o laço.

Não sei bem o que significa ter um laço com um dragão.

— E que nome eu dou? – Olho para a menina e sua bochecha está rosada e parece estar se divertindo com o vestido.

— Se não me engano, você é a única que pode escolher.

Bem... Eu sei que era para se parecer comigo, mas assim que a vejo, lembro-me de Gael. Ele era o meu cão protetor e Tom disse que ela seria minha familiar. Então, acho que se eu der um nome semelhante a ela... Talvez signifique algo semelhante.

— Gaelle. – A menina estica a mão para a minha mão e eu deixo. – Gosta de Gaelle?

— Não poderia dar um nome normal, não? – Tom puxa o vestido dela para baixo e a menina o chuta. – Ei! Eu não fiz nada!

— Eu achei que Gaelle pudesse ser tanto para uma menina loba, quanto para um dragão. Não acha bonita? – A menina sobe na minha mão e eu consigo sentir o seu peso. É como segurar um esquilo pequeno, eu acho. É pesado, mas leve ao mesmo tempo.

— Ela é linda, mas o nome... – Os olhos de Tom estão brilhando. Não é como antes. Não parece mais ter medo e sim admirado.

— Gaelle. – A menina segura no meu cabelo e tenta escalar meu corpo subindo no meu peito. – Gaelle.

— Acho que ela gostou. – Ando devagar até a cama, onde ela se joga e quica. – Eu me chamo Cass, esse é o Tom.

— Caston? – Gaelle entorta a cabeça como se não entendesse.

— Não, não. Cass. – Eu aponto para mim. – Tom. – Aponto para ele.

A menina senta de joelho e fica me encarando. Depois de alguns segundos, ela concorda com a cabeça.

— Cass. Tom. – Aponta corretamente para cada um, e depois para com a mão no peito. – Gaella.

Ela faz uma cara feia e se dobra. Tom me olha preocupado e eu dou de ombros.

— Talvez esteja com fome...

— Vou buscar alguma coisa. – Ele se levanta e vai correndo para a cozinha.

Me deixando sozinha com a menina que saiu do ovo.

— Vou ser sincera... Eu não sei o que fazer com você... – Eu a coloco em cima de uma almofada, que parece uma cama para ela. – Será que terei que te ensinar a falar e tudo mais? Terei que te dar banho? Você é tão pequena... E fofa. Em algum momento você vai entender? Isso teria acontecido se eu não visse o Outro Lado? Será que você tem mãe te procurando? Será como ter um filho? Não sei...

A menina nega com a cabeça e depois aponta para a barriga.

Talvez esteja com fome. – Gaella repete o que eu havia falado. – É tão pequena. Fofa. – Ela aponta para o vestido. – Algum momento. Vai entender. – Ela aponta para o peito. – Mãe? Procurando? Não sei.

A menina para de falar, como se todas as palavras que decorou não fossem o suficiente. Será que... Pego um livro da estante de Tom e dou para ela. Gaelle folheia por um tempo e concorda com a cabeça.

Eu sou sua. – Ela aponta para a frase. – Faça o que quiser comigo.

Que tipo de livro Tom anda lendo? Tiro o livro de baixo dela, e vejo a capa. “A sedução”. Como meu irmão o deixa ler um livro desse tipo? A pequena garota puxa da minha mão e continua folheando.

Eu já sei de tudo. – Aponta para uma frase. – Mas não me lembro de nada. — Então seus olhos azuis como o do lobo, param em mim e ela dá de ombros. – Mas sei quem. Sou.

— Bem... Isso é ótimo. Por que eu não sei nada. E apesar de estar um pouco assustada, eu gostei de você. Você é como o Tom. São de outro mundo, mas me encantam.

— Eu gostei de você. — Ela repete, mas dessa vez parece que Gaelle não está mais se concentrando em aprender a falar. Parece mais... Normal?

— Cassie... Eu esbarrei com o papai na cozinha. Ele disse que não sabia que você estava em casa e que estava vindo falar com você. – O meu nome saiu lento da boca de Tom, mas todo o resto foi muito apressado.

Olho para Gaelle e tento decedir: Conto a verdade, ou não?

— Eu vou ter que te esconder por alguns minutos, está bem? – Ela concorda com a cabeça, e a coloco dentro do armário de Tom, em cima do lobo. Temos que jogar o ovo fora, antes que alguém perceba. Fecho o armário e a porta do quarto se abre. – Oi, irmão. Tom falou que você queria conversar.

— Onde você estava? Eu estive preocupado e Pam falou que você tinha que ter falado com Matt ontem de novo. – Meu irmão se aproxima de mim e toca a minha testa. – Você está congelando! Não notou isso, filho? – Tom dá de ombros. Não é exatamente isso que estávamos na cabeça. — Eu vou ligar agora mesmo para o Matt. É terça feira e nesse horário ele deve estar no clube de matemática. Mas se o que Pam falou for verdade, ele tem que voltar agora.

— Calma, Billy. O que ela falou? – Interrompo meu irmão, levantando a mão.

— Ela falou que você estava perdendo um pouco da sua alma e... – Ele para de falar quando percebe que Tom está me olhando. – O que foi? Está vendo algo que não consigo?

Tom sabe que para o nascimento de Gaelle, ela pegou um pedaço da minha alma. Apesar deu não saber muito bem como isso funciona. Tom, por favor. Fica quieto.

— É que nunca reparei o quanto a Cassie é bonita. – Ele sorriu para o pai e pareceu um pouco envergonhado.

Meu irmão balançou a cabeça e colocou a mão na frente dos olhos.

— Sabe, Cass. Eu posso ser humano, mas percebi como meus filhos te olham. Sei que nossa família é estranha, mas você não devia seduzi-los dessa forma. Tom pode pensar como um adolescente, mas ele ainda só tem cinco anos! Sei que existem relacionamentos com diferença de doze anos, mas...

— Billy! Para. Pelo amor de Deus! Você não disse que ia chamar o Matt?

— Sim. Sim. – Meu irmão se lembra do motivo de vir ao quarto, e sai pela porta pegando o celular.

— Ah... Ele já me odeia. E agora ainda vou tirá-lo da aula. Pelo menos é no quarto dele que vamos ficar, não aqui.

Não consigo entender o garoto-fada, ele é tão inconstante.

— Verdade... Se não ele poderia perceber o seu dragão. – Tom abre a porta do armário, mas não consegue segurar a menina. – Era assim que você era a cinco anos atrás? Não mudou muito...

Isso não é um elogio, Tom. Olho para a menina fugindo, no meio dos bichos de pelucia e sorrio. Se eu estivesse em um mundo com pessoas tão maiores do que eu, também não deixaria chegarem perto. Estico a mão e ela pula até mim. Escala meu braço e sobe até meu ombro, puxando meu cabelo e parece estar apertando a barriga.

— Ah, é! Tom, e a comida?

— Consegui roubar esse biscoito... Mais que isso, papai iria notar. – Ele tira o pacote de detrás das costas e sorri animado. – Não acredito que meu primeiro animal de estimação é um dragão.

— Não sou. – Gaelle bate no meu ombro. – Sou. Dela. Cass. É minha dona.

— Ah... Pelo visto ela entende e consegue falar depois de lembrar quais sãos as palavras. Emprestei um livro da sua estante para a Gaelle e eu fiquei horrorizada com o tipo de livro que você lê. Sempre pensei em você como um menino mais... Puro.

Tom entrega um pedaço do biscoito para a menina lobo, e ela come contente. Depois me olha.

— Um menino. Puro. Tom. Não é. – Parece que frases completas não são tão faceis de se fazer. Gaelle enrola uma mecha do meu cabelo e acaricia. – Consigo ver. Tom. Não é.

— Como assim, Gae? Ele tem cinco anos... Isso significa que ele só pensa em video games e outros jogos. Apesar dos livros, Tom não faz nada de estranho. Ele é meigo e gentil. – Tento vê-la, mas meu cabelo tampa a minha visão.

— Pois é, dragão. Eu não faço nada errado.

— Então, conta pra. Cass. Que você é. Do. Outro mundo. E por isso, o seu eu. Do. Outro mundo. Já tinha outra. Mentalidade.

Olho para Tom que apenas nega com a cabeça.

— Eu não sei o que você está falando, mini Cass. Eu sou mais desse lado do que do outro.

— Já está quase na hora do almoço... Tommy, eu não vou mais a aula hoje, mas amanhã tenho que ir. Hoje tenho aquele trabalho... Então, tem como você cuidar da Gaelle enquanto eu estiver fora? Eu também pretendo pesquisar o que é um familiar e como funciona... Você sabe...

— Isso não tem na internet, Cass. Talvez Matt possa te responder. – É... Eu não esperava que tivesse... Ele dá de ombros. – Falando nisso, meu irmão já deve estar chegando. A escola dele é perto daqui.

Escuto o barulho da porta antes de entender a frase inteira. Num impulso, coloco meu cabelo na frente de Gaelle e fico imóvel enquanto a porta é novamente aberta. Havia algo naquele olhar que mexeu comigo. É possível que tenha sido o drástrico contraste entre meu medo e minha excitação. Sem parar para pensar no motivo, eu percebi que estava fazendo papel de boba. Não interessa de ele sabe sobre Gaelle ou não, eu resolvi cuidar dela assim como resolvi confiar apenas no Tom. Não importa se eu pertenço ou não a esse mundo idiota. Eu nem queria está aqui.

Mas...

— Cass. Meu quarto. Agora. – Matthew parece bem mais sério. Eu realmente o irritei. Ele não fica no quarto de Tom me esperando.

Ponho o meu familiar na cama e faço um sinal que representa silêncio.

— Ninguém pode saber de sua presença, está bem? Apenas Tom. – Gaelle concorda com a cabeça e olha para o menino, meio desconfiada.

Notas finais
Comentários são sempre bem vindos!