Invisível aos olhos
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Escuto um barulho lá embaixo e o menino se levanta. Olha para mim e depois para o armário.
— Vou mostrar à mamãe as fotos do parque! Assim ela pode fingir que foi por isso que ela agiu estranhamente hoje de manhã. Também vou pedir panquecas. Chan disse que você adora panquecas com mel!
Ele corre até a porta e sorri antes de sair.
Adorável sem dúvida. A porta se fecha e eu consigo o escutar gritando “mãe”. Ao menos ele sempre me diz que tem a informação pelo meu irmão fantasma que me vigiava sem eu saber. Se não fosse por isso, teria medo de como Tom sabe tanto. O quarto fica muito vazio sem o menino. Não sei exatamente por que me sinto dessa forma, mas é incontestável que amo essa criança. Acho que é por ver Billy, nele. Talvez fosse assim que meu irmão era. Eu poderia pensar que sinto isso por que somos ligados por sangue, mas não é bem assim...
Antes mesmo deu aprender a andar, mamãe já falava que minha outra mãe era adorável. Normalmente os pais escondem do filho até ele ter idade de entender. Mamãe não era como as outras mães. Talvez minha família nunca tenha sido realmente normal. Eu lembro vagamente daquela época. Isso pode ser pelo fato de eu ter vivido vendo Aquele Mundo, e por isso não consigo lembrar. Em minhas memórias, apenas meus pais e Billy estão. E depois o mundo pareceu crescer.
No Canadá, tudo era tão diferente. Mas, talvez pelo mesmo motivo, não tenho muitas lembranças de quando eu cheguei. Contudo, a cinco anos atrás eu sei que já tinha meus amigos, meus colegas de sala e até tive um animal de estimação. Um cachorro razoavelmente brigão e raivoso. Gael foi o nome escolhido pela minha tia. O nome Gael, segundo tia Nyx, na verdade, está muito próximo de ga’al, que quer dizer “redimir” ou “proteger”. Isso quer dizer que ele deveria ser meu cão protetor ou algo do gênero. Mas ele já existia antes deu o conhecer e morreu de velhice.
Por isso ter esse passarinho seria importante para mim, mas Billy não conheceu a minha vida do Canadá e pelo que me lembro, nunca teve um animal de estimação. Ele não saberá o que eu senti. Vou até a janela e olho para o lado de fora da casa. A vista à noite é bem diferente. Consigo ver alguns... Seres voando pelo céu noturno. É algo assustador. Só de pensar que eles sempre estiveram ali... Nem todos eles têm uma forma normal. Quero dizer... Não consigo entender o que a maioria é. Alguns parecem pterodáctilo com um rabo longo. Outros elefantes com pernas de girafas. Sem contar os que só se parecem com bolas com olhos. Isso é tão pertubador.
Já são nove horas. É mais ou menos nesse horário que almoçam por aqui. Mas eu estou tão cansada.
Alguém bate à porta.
— Pode entrar.
Primeiro vejo seu cabelo preto e depois seu rosto. Matthew parece estar em dúvida se fica desconfortavel ou indiferente. Ele abre a porta e aponta com a cabeça para o quarto dele. Sessão cura? Sem nem falar nada, o vejo passar pela porta. Isso quer dizer que eu tenho que ir para lá... Eu estou passando a odiar esse garoto. Desencosto do vidro da janela e o sigo para dentro de seu quarto.
— Sente-se. – Ele está em pé com uma garafinha na mão. O liquido dentro dela tem uma aparência lilás, ou algo assim.
Faço como ele diz, mas não olho em seu rosto. Se o verdadeiro Matthew é assim, eu só quero distância. Será que não existe uma medicina humana para me ajudar?
— Eu preciso que você tire a blusa e se sente mais no meio da cama.
Não retruco. Não vale a pena. Sento de perna de chinês no centro da cama e espero. Ele para na minha frente e diz algumas palavras em voz baixa enquanto passa dois dedos pelo meu corpo. O toque é frio, por conta do líquido, e onde me toca eu sinto arder. Como se eu estivesse segurando gelo, frio e ardente.
— Vira o seu rosto para mim e abra os olhos.
Eu levanto o olhar e me deparo com duas pupilas negras. Seu olhar é bem concentrado nos traços que faz em meu rosto e nas palavras que diz. Isso parece um ritual indigena. Mordo a boca quando minha cabeça começa a doer por conta de tudo estar ardendo.
— Isso não é para curar o seu corpo. – Matthew se afasta um pouco e guarda a garafinha dentro de uma das gavetas. – Isso foi um encantamento para que sua alma não resolva sair do corpo.
— Resolva sair? – Ele olha por cima do ombro e concorda. – Isso não faz sentido. Eu estou bem e...
— Se eu fiz um feitiço contra isso, é por que faz. Não faço nada que não tenha sentido. – Estando falando sério ou não, isso passa uma mensagem ruim para mim. – Eu te vi no corredor ontem a noite. Você estava voando. Acredito que não tenha aprendido a voar em sua faculdade mundana.
Eu não consigo me lembrar disso. Eu tinha certeza que depois do beijo de Dylan eu dormi imediatamente.
— Isso deve ter acontecido por que meu irmão de deu muita carga quando você não estava precisando daquilo. – Ele estica a mão para mim e eu me levanto. – Cada um cura como sabe. Acontece que Incubos não são feitos para salvarem vidas e sim para tomá-las a força. Ele passou para você Chi roubado de outra pessoa. É como se ele tivesse alimentado um cavalo dando carne. Não combina.
Matthew coloca a mão segurando meu pescoço e me puxa de encontra a si. Paro o procedimento com um passo para trás.
— Eu entendi que cada um cura do jeito que consegue, mas não acha meio errado?
Ele enclina a cabeça para o lado, como se não tivesse entendido a minha pergunta.
— Se você começar com aquela história de tia de novo...
— Não é isso que estou querendo dizer. – O interrompo e ele continua parecendo confuso. – O Caleb havia tido algo sobre a sua namorada. Então você me curar dessa forma é meio...
— Ela não vem ao caso. Esse é o único modo de controlar completamente a água do seu corpo e fazer com que aceite o fato que ainda está viva. Sei que você não queria a minha ajuda e você sabe que eu não queria te ajudar. Mas você estar respirando é responsabilidade minha.
Eu não tenho tempo para responder.
Sua mão direita passa pela minha cintura e cola o meu corpo no dele. A outra mão segura a minha cabeça e encaixa nossos lábios. Um beijo com ele não serve só encostas a boca uma na outra. Já que o importante nisso é que controle seja lá o que. Sua lingua me invade e o beijo calmo que poderia ser, vira um beijo mais violenta e expressivo. É como se ele lutasse contra algo interno. Mas no interior dele. E eu sou usada como boneco de teste.
Sua mão sai da minha cintura e sobe as minhas costas derretendo tudo o que eu pensei estar congelado. Eu sei que estou com calor, e sinto que minha pele está escorregadia por conta da posão, mas a forma que sua mão passa na minha pele não é normal. É natural demais para ser nomal. Eu não consigo raciocinar direito e é como se ele quisesse tirar a minha blusa. Só que eu já estou sem! Ele pega a minha mão que está pronta para empurrá-lo e me puxa para mais perto. Fazendo com que inves de o afastar eu o abrace.
— Isso não tem sentido, Matt. – Encosto a minha testa da dele e enfim consigo respirar.
— Milagres são irracionais por natureza.
—⟰-
Não consegui dormir a noite inteira. Tom ficou em cima de mim, e só faltava babar de tão confortável. Contudo, eu não consegui parar de pensar em Matthew. Não diria de uma forma romantica. Ele é inteligente, tanto que eu não consigo acompanhar seu raciocinio. Não paro de ouvir aquela frase. Milagres. Eu estar viva é realmente algo confuso. Mas eu tinha certeza que fadas eram boazinhas e não chegavam tão perto de humanos. Não que minha mãe tenha contado história para dormir, pois não contou. Digo isso por que nunca li um livro que falava que era assim que fadas usavam seus poderes.
Isso não tem mesmo como fazer sentido.
Em um momento ele me odeia. É grosso e age como se eu fosse a última coisa que ele quer ver na vida e em outro é como se nada importasse. Já entendi que o mundo gira em torno de uma lógica. Acho que poderia dizer que a Lógica foi quebrada quando ele fez algo que não devia. Mas se tudo acontece por um motivo e é assim que tem que ser, a Lógica está errada e o certo é reviver os mortos? Ou só se pode me reviver? Eles disseram que dessa vez foi diferente de quando eu era bebê, mas pelo o que Chan disse, foi ele quem me fez virar e tirar o rosto do pano. Então, isso não quer dizer que o mundo sobrenatural já estava incorreto antes? Por que dessa vez é diferente?
— Cassie? Você está deixando o café entornar.
Olho para baixo e percebo que a bandeja inteira está com café agora. Pensar em horário de trabalho sempre dá errado. Entrego tudo para Elisa que me repreende com o olhar. Coloco de novo duas xicaras de café e uma fatia do bolo de banana. Ela dá um sorriso encentivador e eu passo pelas portas, de volta a cafeteria.
Queria que ao menos Prime tivesse ido a aula hoje. Depois que encontrei o senhor Stuart no refeitório na hora do almoço, ele me disse que minha amiga esteve de ressaca desde sabado. Com esse início de conversa, surgiu o “você saiu com ela?”, “sabe que ela é má influencia para você, não é?”, “não diga que não te avisei”. E um pouco antes deu sair de perto o senhor Stuart me perguntou se eu já havia visto o estrago que estava a biblioteca. Suspeita de delinquentes. Foi o que ele me disse.
— O que gostaria de pedir, Senhor?
Minha educação como garçonete é impecável. Algo tinha que compensar os meus erros de equilíbrio. O homem sorri e pede alguns pães doces especiais da cozinheira. Apesar de nunca ter perguntado, eu sei que o nome desse cliente é Fred. Ao menos é assim que ele me pede para chamá-lo toda vez. “Cliente de sempre” não parece um bom codinome, mas é isso ai. Não sei a quanto tempo ele frequenta essa cafeteria, mas desde que sou garçonete cuido dessa área específica. Aqui somos separadas por setores, e o senhor não gosta de trocar de mesa.
— Obrigado, Cassie. – Ele sorri e começa a comer um dos pães.
Pergunto-me como esse homem consegue ser magro. Mais ou menos. Ele é visivelmente forte, e costuma estar com algum terno importado. Não é o tipo de cliente que eu esperava ter. Minnie fala que eu tenho que agir como ela. Se cliente pede ovo frito, ela faz ovo frito. Não faria sentido fazer um ovo mexido. Não entendo muito bem a mente dela, mas acho que ela quis dizer “atenda adequadamente”.
Escuto o sininho preso a porta e logo vou atender mais clientes.
— Seja bem vindo. Mesa para quantas pessoas? – Me viro para o armário de cardápios e espero a resposta.
— Porque você não falou “mestre”? Achei que era assim que se dirigiam aos clientes.
Congelo. Não esperava por essa.
— O que está fazendo aqui, Billy?
Minha mão começa a sua e eu olho para o peito de meu irmão, não para o rosto. Escuto um riso e vejo que é Tom ao lado dele.
— Tomas ficou me pertubando para saber onde você estava, mas você não atendeu o celular. – Ele dá de ombros. – Rastreei você até aqui. Foi uma coisinha que aprendi recentimente.
Meu irmão parece estar brincando, mas quando, finalmente, olho em seus olhos vejo apenas decepção.
— Quando falei para meu filhinho que você trabalhava em um restaurante, não esperava que era vestida dessa forma.
Tom sai de trás de Billy e me dá um abraço rápido. Assim que me vê fica com o rosto corado e olha para o chão.
— Você está engraçada.
Definitivamente não esperava por essa.
— Mesa para dois? – Olho para meu irmão, já segurando dois cardápios. – Ou veio apenas checar se estou viva?
— Pois é... Eu soube que seu guardião está ausente. Eu pensei que eram unha e carne. Que bom que me enganei. – Billy parece uma pessoa diferente de quando está em casa. Longe de Pamela, é assim que meu irmão age. — Será apenas nós dois, sim.
O encaminho até uma mesa fora da minha zona. Sorrio e falo que outra garçonete já irá atendê-los. Tom parece ficar chateado, mas logo que minha substituta chega, o menino volta a ficar corado.
— Sei que ainda faltam dez minutos, mas poderia me liberar mais cedo?
A cozinha está cheia e Elisa apenas concorda com a cabeça. Não sou de pedir nada por aqui, mas ela não costuma encrencar quando preciso. Vou até o armário e troco de roupa. Meu celular realmente tem algumas ligações. Todas de Billy. Há também duas mensagens.
“Eu estou sem crédito para te mandar mensagem então atende o celular – Seu irmão”
“Esse número não é meu, então não responda a mensagem – Eu”
É Billy sabe ser gentil. Coloco o celular na bolsa e a coloco no ombro. São quase oito horas. É sempre perigoso sair a noite por aqui, mas o lado bom é que as ruas são vazias. Eu vou precisar pegar o metrô para chegar em casa. Como eu preferiria o meu próprio apartamento...
Como o esperado, as ruas estão escuras e não passam muitos carros. Para cortar caminho escolho ruas mais finas, onde não se passa automóvel. Que sensação horrível. É como se alguém estivesse me seguindo. Viro a cabeça devagar, mas nada. Não tem ninguém além dos postes de luz. Volto a andar. Assim que escuto passos, tento ver com o canto dos olhos.
É aquele homem.
Eu começo a dar passos maiores, para aumentar a distância entre nós. Viro a primeira rua que vejo a direita. Fred também vira. Ando um pouco mais rápido e consigo escutar seus passos apressados. Volto a esquerda e encontro uma loja de conveniencia. Entro e vou até uma das plateleiras. Olho por cima delas e o homem está lá. Parado. Olhando em volta. Ele não me perdeu. Ele sabe que estou aqui. Pego meu celular e vejo a lista de contatos. Não posso ligar para Said. Eu não tenho o número dele. Acho que fantasmas também não têm celular. Vejo o nome de Billy e clico.
— O número está fora de área ou desligado.
Eu estou com medo. Por que logo hoje meu suposto guardião não está aqui? Para onde Said foi? Eles disseram que nunca saiam de perto de mim... Eu estou com tanto medo. “Esse número não é meu” foi o que Billy falou naquela mensagem. Eu não tenho mais para quem ligar... Clico.
A pessoa atende, mas não fala nada.
— Alô?
— Cassandra?
Eu não reconheço a voz, está muito distante do celular.
— Por favor, me ajude. – Eu já estou quase chorando. Eu não conseguiria bater em alguém como o Fred. Ele é grande demais. Forte demais.
— Onde você está? O que aconteceu?
É o Amon?
— Eu estou em uma loja de conveniencia e tem um cara me seguindo desde o trabalho. Meu irmão não atende e eu não tenho mais para quem ligar. Billy me mandou mensagem desse número e...
— Não precisa explicar agora. Eu estou indo. Onde é?
— Eu-eu não sei... Eu segui meio desesperada. É... Eu acho que andei apenas oito quadras do meu trabalho até aqui então... Estou na Lorain Rd. Não sei muito mais que isso.
Não escuto nenhuma resposta no outro lado da linha.
— Por favor, venha logo.
— Não saia daí. Estou chegando.
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