Invisível

1 Medidas desesperadas


Uma densa garoa caía sobre a cidade de Karakura, apesar de não ser uma tempestade, os becos eram iluminados pelos raios que rasgavam o céu. As luzes, que eram escassas, não tinham a capacidade de iluminar aquele bairro pobre e tomado pela criminalidade.

Passos eram ouvidos ao longo de uma área dominada por uma perigosa gangue, as poças d’água são espalhadas pelos pequenos pés de uma jovem agarrada a um embrulho de velhas cobertas, a correr. Desesperada, ela foge de seus perseguidores, que não desistem de tentar alcançá-la, ela então se coloca em uma estreita brecha, entre uma grande caçamba de lixo e uma parede velha e descascada, sussurrando:

_Nós estamos quase lá, não chore.

Quando percebe que os marginais continuaram a caçada sem percebê-la, se levanta calmamente e continua seu caminho entre lágrimas. A dificuldade de deixar tudo o que tinha, a sua família, era realmente de rasgar o coração da pobre moça, mas não tinha escolha, se sua vida continuasse como estava, não durariam muito. O mundo não recebe com um bom coração aqueles que não têm nada, ser perseguida constantemente poderia resultar na morte das duas, algo tinha que ser feito.

Os passos cessaram, estava completamente molhada, muito em virtude do chuvisqueiro, mas seus olhos vermelhos denunciavam que seu rosto estava realmente banhado em lágrimas. A placa diante daquele velho prédio, que aparentava a muito desprovido de cuidados, informava que era ali um orfanato. Delicadamente adentrou em uma área coberta em frente ao local, retirou a camada de cobertas que estava encharcada, abaixou-se, e não podendo mais controlar o pranto, que agora já era acompanhado de soluços, a pobre Hisana depositou em frente da porta a sua pequena irmã, ainda bebê, dizendo:

_Eu vou voltar... Eu vou consertar a nossa vida e voltarei para te buscar. Eu sempre vou te amar, minha garotinha.

Terminando essa frase, deu um terno beijo na pequena testa de sua irmã, percebendo que suas lágrimas começavam a molhar o rosto da criança, se levantou, apertou a campainha e se foi, sumindo na penumbra, esperando um dia ter a oportunidade de retornar, e assim reconstruir sua vida ao lado de sua única família.

A pequena foi encontrada logo a seguir por uma das funcionárias do orfanato, logo de cara todas se apaixonaram, nunca tinham visto um bebê tão lindo, pele clara, lindos cabelos negros e um maravilhoso par de olhos violetas. Com ela havia um bilhete informando suas condições e um único nome foi deixado, o da criança: Rukia.

Rukia cresceu ali no orfanato, não era uma garota muito delicada, as doces moças que a receberam quando bebê, acabaram sendo substituídas por monitoras rígidas e sobrecarregadas pelo excesso de crianças, com o tratamento cruel, Rukia acabou sendo levada a ser forte, porém tinha traços de quem perdeu toda a delicadeza.

Com toda a sua molequice, não se adaptava em rodinhas de garotas, optou por estar com os meninos, e não deixava que ninguém ficasse folgando nela, tinha a força suficiente para botar qualquer garoto pra correr, e dentre os garotos de sua “gangue”, o que mais era próximo dela se chamava Abarai Renji. Um garoto com o qual ela se identificou de imediato, ele tinha longos cabelos ruivos, que viviam presos em um rabo de cavalo, sendo tão próximos que estavam sempre a se proteger.

Os castigos que levavam por sempre estarem metidos em confusão eram difíceis de suportar, desde longos castigos a trabalhos pesados, muitas vezes ficavam horas na lavanderia cuidando das roupas de todos os internos, o que era muito chato, mas eles acabavam sempre encontrando uma forma de se divertir.

Aquele seria mais um dia em que somente parariam para comer, pois estariam no posto da limpeza da cozinha, que era um dos mais terríveis castigos, lavando os enormes fogões industriais, os caldeirões onde as refeições eram feitas e o chão que era horrivelmente engordurado, eles até suspiraram ao ver a tremenda sujeira que enfrentariam, mas aquele seria o dia em que tudo mudaria, pois em meio à limpeza eles decidiram pensar em uma forma de escapar daquele terrível lugar.

_Chega dessa vida! Nós temos que dar um jeito de sumir daqui! – Disse Rukia injuriada.

_Mas isso é impossível! Você ficou louca? Se tentarmos e não conseguirmos, seremos castigados para sempre. – Respondeu Renji apavorado.

_Você é um banana mesmo! Se quiser ficar aqui, pode continuar a ser esculachado, eu vou embora desse lugar e vou seguir com a minha vida. – Disse ela chutando o balde.

_Pense bem Rukia... A gente não duraria muito fora desses portões, somos crianças, acorde! – Replicou Renji tentando fazê-la desistir.

_Amanhã mesmo eu vou estar fora daqui, se quiser, pode vir comigo e ser livre. – Completou ela, dando um tapa no ombro do pequeno ruivo.

Durante a noite, Rukia traçou todo um plano em sua mente, ela não conseguia dormir, pois estava ansiosa pelo dia seguinte, a grande fuga tinha tudo para dar certo, jamais seria pega por aquelas bruxas velhas, sua inteligência e agilidade era tudo o que precisava, nada podia dar errado.

Renji estava igualmente ansioso, mas por motivos bem diferentes, temia que Rukia tentasse alguma loucura, como era um hábito comum da garota encrenqueira, ele pensava que se ela ficasse sozinha nas ruas, alguém poderia machucá-la ou até mesmo sequestrá-la. Se tinha algo que ele tinha certeza, era que ele não poderia deixá-la partir sozinha, sua decisão estava tomada: Ele a acompanharia mesmo que se metesse em infinitas confusões.

O dia amanhecia e, depois de confirmar a presença de Renji, o plano de fuga iria começar a ser posto em prática...