Invisible Play - Cursed City
1 Presa e Predador
Notas iniciais
Mesmo com a presença de várias árvores ao redor das tendas, a força do vento ainda era audível, rugindo como se fosse uma criatura. Lizzy e Sasesu encontram conforto no calor um do outro enquanto na outra tenda Kurokawa abre os seus olhos. Alguma coisa perturba o seu sono: passos silenciosos, um cheiro pútrido trazido pelo vento e sede de sangue. Ele sai da sua tenda e avista uma figura coberta em trapos a alguns metros de distância. Os seus olhos se encontram e Kurokawa se questiona se está realmente observando um ser humano. As suas pupilas pareciam não ter brilho, como se consumissem toda a luz que absorviam.
Aquele homem usa a sua mão para abaixar o pano que cobre o seu rosto e revela a sua boca. Kurokawa observa as várias cicatrizes que ele possui até a sua voz áspera soar:
—Você tem bons olhos, criança.
—O que você quer? -Pergunta Kurokawa observando-o atentamente.
—O mesmo que você: Um pouco de diversão. Algo para passar o tempo. Com sorte alguma mercadoria para conseguir sobreviver mais uma semana.
Kurokawa percebe que aquela figura não está sozinha:
—Quatro...não, cinco pessoas. -Pensa ele tirando Eclipse do seu inventário.
—Não precisamos fazer isso, rapaz. -Continua aquele ser. -Você está claramente do lado errado, abandone as pessoas dentro da tenda e venha connosco. Nós podemos te dar algo que eles não podem: liberdade! Não se deixe ser restringido por moralidade ou o que as outras pessoas pensam, faça o que o teu coração te implora para fazer.
—O que o meu coração me implora para fazer? -Pergunta Kurokawa curioso.
—Sim, eu consigo ver a chama que queima nos teus olhos. Você não é alguém que pode ser saciado facilmente. Brutalidade é a tua única forma de se expressar, tão natural quanto respirar.
Aquelas palavras agitam algo no interior de Kurokawa, os seus olhos relaxados rapidamente arregalam-se e o seu olhar torna-se intenso:
—Sim, você está certo. -Responde ele. -É só no meio de uma batalha que eu não tenho dúvidas.
Aquele homem sorri:
—Eu sabia que você ia entender. Venha connosco, juntos empilharemos montanhas de corpos! Iremos tingir rios de vermelho! Não deixar uma única pedra de pé no nosso caminho!
Kurokawa começa a espalhar marcas brancas e pretas pelos seus braços:
—Parece que você entendeu alguma coisa errada, não vou me juntar a vocês...até porque vocês são os primeiros corpos da pilha!
Ele avança e faz um ataque rápido com Eclipse. Aquela figura recua e percebe que teve o seu peito superficialmente cortado:
—Achava que você fosse mais inteligente do que isso, pirralho.
Aquele grupo de inimigos rapidamente sacam as suas armas:
—Opa, não é cedo demais para vocês estarem trabalhando? Isso é o quê? Hora extra, Abutres? -Brinca Takeda saindo da tenda.
Aquele ser parece desconfortável:
—Quem é você?
—Só alguém de passagem, mas como vai ser? -Continua Takeda. -Não sei se conseguiríamos ganhar contra toda a vossa organização, mas te garanto que pelo menos vocês não vão sair daqui vivos se lutarmos.
Ele percebe a confiança na voz de Takeda e decide ir recuar. Aquelas figuras desaparecem na névoa:
—Você estava falando sério sobre matá-lo? -Pergunta Kurokawa.
—Claro que não, era só para intimidá-los.
—Mesmo assim, não entendo porque você os deixou irem embora. Eles vão voltar de certeza.
—Estou apenas adiando problemas, eles são como baratas. Se você matar cinco, não demora para dez aparecerem. Enquanto eles não souberem o quão forte nós somos, eles não vão atacar precipitadamente.
—Você chamou-os de “Abutres”, o que eles são?
—Lixo humano. -Responde Takeda. -Um grupo de pessoas perturbadas que faz qualquer coisa para conseguir dinheiro. Matar, roubar, vender escravos ou órgãos humanos são coisas que eles fazem diariamente.
—Você realmente sabe bastante... -Diz Kurokawa aproximando-se de Takeda.
—Não comece, Kurokawa. Se eu quisesse machucar algum de vocês, eu já teria o feito muito tempo atrás.
—E qual é a tua desculpa por conhecer tão bem essa área?
—Estou no mundo de IP há muitos anos, existe pouca coisa que eu não conheço.
—Continua suspeito para mim.
—Para alguém que não tem a capacidade de falar sobre o próprio passado, você parece bastante interessado no meu. -Responde Takeda num tom mais agressivo.
—Que seja, eu vou voltar a dormir. -Diz Kurokawa entrando na tenda.
Takeda senta-se no chão do lado de fora e pensa sobre o que acabou de acontecer:
—Ainda estamos longe de Masteam, como os Abutres conseguiram passar pelas sentinelas? Alguma coisa estranha está acontecendo...
Algumas horas se passam e Lizzy abre os seus olhos. Ela vê o rosto de Sasesu não muito distante do seu:
—Bom dia. -Sorri ele.
—Bom-
—Bom dia!? Boa tarde você quis dizer, né, Sasu? -Grita Kurokawa do lado de fora balançando a tenda. -Já passou do meio-dia, quando vocês pretendem levantar?
—Para de ser chato, Kurokawa. -Retruca Takeda. -Não é culpa deles você ter ficado empolgado demais e não ter conseguido voltar a dormir.
—Alguém precisa pôr Kurokawa no lugar dele... -Comenta Sasesu irritado.
—Mas talvez ele tenha razão, devíamos comer alguma coisa e seguir viagem. -Sugere Lizzy se levantando e colocando a cabeça para fora da tenda. -O que nós ainda temos de comida?
—Caramelos. -Responde Kurokawa.
—Eu tenho algumas frutas. -Diz Sasesu.
—Tudo bem, isso serve.
O grupo faz uma pausa para comer, arrumam as tendas e prosseguem a viagem. Após algumas horas de caminhada através de planícies e florestas, eles avistam um aglomerado de nuvens negras no horizonte:
—Será que vai chover? -Pergunta Lizzy.
—Sim, mas não é chuva normal, aquelas nuvens estão sempre por cima de Masteam. O miasma do Rei Demónio se junta na atmosfera e as forma. -Responde Takeda.
—Bem medonho...
—O que acontece se formos atingidos por aquela chuva? -Pergunta Sasesu.
—Ela é tóxica e corrosiva, não sei se quero explicar o que acontece.
—Vamos precisar de alguma espécie de proteção para continuar seguindo em frente então? -Diz Lizzy.
—Por enquanto não, aquela chuva só atinge Masteam e os seus arredores, mas quando chegarmos lá vamos ter que usar mana para nos proteger ou arranjar roupas de proteção.
—Ei, Takeda, eu sei que você gosta de exibir o teu conhecimento, mas tem uma coisa perigosa vindo na nossa direção. -Interrompe Kurokawa.
—Então elas realmente ainda existem... -Responde Takeda.
O grupo olha na direção onde Kurokawa está apontando e começam a sentir pequenas vibrações no solo. Passados alguns segundos, eles percebem a presença de um grande golem metálico se aproximando:
—Wow! Wow! O que é aquilo?! -Grita Sasesu.
—Uma sentinela, eles são monstros que controlam a entrada e saída de pessoas de Masteam. -Explica Takeda. -Mas elas possuem algum nível de inteligência, podemos tentar conversar e ver se conseguimos passar.
O grupo caminha na direção daquela criatura e vê-se na sombra de um ser de mais de dez metros de altura:
—Boa tarde! -Grita Takeda para ser ouvido. -Nós estamos numa missão e precisamos explorar a área próxima a Masteam!
—O acesso não é permitido sem a aprovação do conselho. -Responde a sentinela.
—”sem a aprovação do conselho”. -Pensa Takeda tentando entender a situação.
Ele decide extrair o máximo possível de informação antes do fim dessa conversa:
—Tudo bem! Você sabe se alguma sentinela foi atacada nas últimas vinte e quatro horas?
—Meus registos informam que não. Agora, por favor, afastam-se daqui ou serei forçado a expulsá-los.
—E agora, Takeda? -Pergunta Kurokawa. -Qual é o plano?
—Parece que não temos opções, vamos ter que destruir essa sentinela.
Kurokawa sorri enquanto Lizzy não tem certeza se essa é a decisão correta:
—Mas não vamos causar problemas se fizermos isso?
—Não. -Responde Takeda. -Existem dezenas de sentinela à volta de Masteam. Tenho certeza que ninguém vai sentir a falta de uma...
Kurokawa saca a sua espada, dispara na direção do golem e desfere um ataque. Eclipse choca-se contra a perna do monstro e além de não conseguir causar nenhum dano, a espada fica presa:
—Hostilidade detectada. Iniciando combate.
—Ei, Takeda, como é suposto derrotarmos isso? -Grita Kurokawa tentando retirar Eclipse da pele do golem.
—Lizzy e Sasesu, precisamos que vocês distraiam a sentinela. Enquanto isso eu e Kurokawa vamos dar um jeito de cortá-la.
A sentinela balança a sua perna para trás trazendo Kurokawa junto e se preparando para arremessá-lo:
—Kurokawa, você tem que soltar a espada! -Grita Lizzy.
—Calma, eu estou quase tirando, só tenho que-
Aquele monstro impulsiona a sua perna para frente e arremessa Kurokawa junto de Eclipse centenas de metros para longe.
—Mudança de planos! -Diz Takeda. -Temos que nos reunir com Kurokawa para vencermos!
O grupo começa a correr na direção de Kurokawa enquanto Sasesu percebe que os olhos da criatura estão ficando rapidamente cada vez mais vermelhos:
—Ei, Takeda, aquilo é normal?
—Ah, não...
—”Ah, não...”? -Repetem Lizzy e Sasesu assustados.
Takeda pula em cima de Sasesu e Lizzy forçando-os em direção ao chão. No segundo seguinte um raio de mana vermelha é disparado dos olhos da sentinela, derretendo uma parte da paisagem:
—Eu acabei de ver a minha vida passando na frente dos meus olhos!! -Grita Sasesu observando o rastro de destruição deixado pelo ataque do monstro.
—Isso está ficando perigoso demais, vamos dar o fora daqui! -Diz Lizzy segurando em Takeda e Sasesu. -Arte Ninja – Passos Ocultos.
Apesar de estar carregando duas pessoas, Lizzy ainda é capaz de mover-se rápido o suficiente para desviar do próximo ataque:
—Se continuarmos correndo... -Diz ela ofegante. -Vamos sair do campo de visão dela...
A sentinela aponta a sua mão na direção de Lizzy e dispara dezenas de pequenos projéteis:
—Isso não vai funcionar. -Diz Takeda. -As sentinelas possuem olhos capazes de detectar mana e calor a mais de dez quilómetros!
Lizzy olha para trás e percebe que está sendo seguido por várias bolas de energia:
—O que é aquilo? -Pergunta ela.
—Projéteis teleguiados explosivos. -Responde Takeda.
A distância entre eles e o ataque da sentinela diminui. Lizzy salta. Alguns dos projéteis colidem com o chão abaixo dos seus pés e explodem. Ela corre em zigue-zague tentando evitá-los, mas percebe que não será capaz. Sasesu tira o seu martelo do seu inventário:
—Arremesso!
O seu martelo bate contra alguns projéteis e causa várias explosões:
—Retorne!
O martelo de Sasesu começa a mover-se na direção contrária enquanto Takeda dispara bolas de mana contra os projéteis da sentinela:
—Quase lá! -Grita Takeda.
Lizzy foca toda a força que tem em correr o mais rápido possível achando que os seus companheiros tomariam conta dos projéteis. Mas o grupo é pego de surpresa quando uma das bolas atiradas pela sentinela sai do chão na frente de Lizzy. Ela não consegue evitar a explosão, perde o equilíbrio e os três caem no chão. Eles rolam durante alguns metros até, perderem velocidade e pararem:
—Você está bem, Lizzy? -Pergunta Sasesu preocupado.
—Minha perna...está um pouco machucada... -Responde ela se sentindo atordoada.
—Imagina como eu estou então! Aquele golem de merda me chutou com tanta força que eu achei que fosse sair da atmosfera! -Resmunga Kurokawa.
Takeda aproxima-se de Lizzy e utiliza algumas poções de cura nos seus ferimentos:
—Ei, eu também estou machucado. -Interfere Kurokawa.
—Você vai ficar bem. -Diz Takeda. -Acha que consegue andar, Lizzy?
—Não perfeitamente, mas consigo.
—Fique perto de mim, eu vou te ajudar. -Fala Sasesu. -Vamos voltar ao plano inicial, certo, Takeda?
—Sim.
A sentinela caminha com passos largos e pesados na direção do grupo:
—Vocês realmente acham que vão conseguir cortar aquela monstruosidade? -Pergunta Sasesu.
—Não existe nada que eu não consiga cortar! -Sorri Kurokawa.
—Mas...você acabou de tentar...e não conseguiu... -Continua Sasesu.
—Vai dar tudo certo! -Diz Takeda tentando ser positivo. -Talvez...
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