Invisible Play - Cursed City
6 Não Sacrifique Nada e Perda Tudo
Notas iniciais
Kurokawa corre num ritmo acelerado sem se preocupar em investigar as áreas por onde passa:
—Eu realmente não me importo com esse fragmento do mapa. -Pensa ele. -Tudo o que eu tenho de fazer é passar por todas as áreas do mapa de Masteam e dizer que não encontrei o fragmento! Assim vamos ser forçados a entrar nos calabouços da cidade! O meu plano é genial!
Um pouco longe dali, Lizzy caminha sem pressa. Apesar de Masteam ser considerada uma cidade, Lizzy se perguntava se o termo era apropriado. O ar era pesado e carregava um cheiro ácido. Mesmo durante o dia, grandes nuvens de poeira e chuva tóxica pairavam o céu e escureciam a cidade. Existiam destroços de edifícios de concreto até onde os seus olhos alcançavam. A fúria de deus parecia ter caído sobre alguns dos lugares por onde ela passava. Enquanto explorava com cautela, Lizzy pensava no que seria necessário para sobreviver ali.
Ela avista vários pedaços de pedra e madeira empilhados com algo a formar um teto por cima. A textura daquilo lembrava o couro de algum animal. Lizzy percebe que aquela estrutura era um abrigo da chuva e sente duas presenças: uma dentro do abrigo e outra escondida atrás de destroços à sua direita. Ela finge não perceber a presença escondida enquanto se aproxima. Uma velha vestida em trapos caminha lentamente com a ajuda de uma bengala para fora do abrigo:
—Quem é você? -Pergunta a senhora observando o rosto e roupas de Lizzy. -Nunca te vi antes.
—Meu nome é Lizzy, eu estou aqui para fazer uma missão. -Responde ela.
—Entendo, você devia tomar cuidado, as pessoas que moram aqui percebem de imediato que você não é da área. -Fala aquela mulher. -E em Masteam visitantes não são bem tratados.
—Tudo bem, vou ter isso em mente. -Sorri Lizzy seguindo em frente.
A velha caminha de volta para dentro do seu abrigo, mas começa a tossir até que deixa a sua bengala cair e os seus joelhos tocarem o chão. Lizzy rapidamente corre na sua direção e impede que ela se machuque:
—Está tudo bem?
—O teto da minha casa está velho... -Responde ela ainda tossindo. -Quando chove, uma parte daquele veneno consegue me atingir e isso está prejudicando a minha saúde...
—Existe algo que eu possa fazer para te ajudar? -Pergunta Lizzy preocupada.
—Sim... -Responde a senhora pausadamente.
Lizzy percebe que a figura escondida rapidamente se aproxima:
—Essa capa de proteção que você tem... -Comenta a velha. -Seria bastante útil...
Um vulto vestindo uma longa capa com capuz em péssimas condições aparece atrás de Lizzy e tenta acertá-la com uma espada quebrada. Lizzy já tendo previsto o ataque consegue se esquivar sem muitos problemas. Ela pula para se afastar enquanto tira adagas do seu inventário ainda no ar:
—Vocês realmente querem fazer isso? -Pergunta ela pousando.
Ela observa a figura vestindo o capuz e vê o rosto de uma mulher uma década mais velha do que ela. Suja, cansada, com sinais de desnutrição e pequenas feridas. O olhar no seu rosto transmitia a imagem de um animal selvagem encurralado. Assustada, porém preparada para lutar até o fim:
—Não existe outra alternativa. -Responde a senhora tentando conter a sua tosse. -Somos nós ou você. Eu te disse que visitantes não são bem tratados aqui.
—Eu não posso te dar a capa de proteção que estou usando, mas poderia ajudar vocês de outra forma. -Sugere Lizzy.
—Ajudar? As pessoas que acabaram de te atacar? -Grita a mulher de capa apontando a sua arma na direção de Lizzy. -Você deve achar que somos estúpidas! Ninguém acreditaria numa mentira dessas!
Lizzy pensa em como desarmar a situação, em como conseguir a confiança de alguém que não tem o luxo de poder cometer erros. Ela guarda as suas adagas de volta no seu inventário e levanta as suas mãos:
—Eu não quero machucar vocês, deve existir outra forma de resolvermos isso.
A mulher de pé na sua frente não hesita, ela aproveita a vulnerabilidade de Lizzy e dispara. Lizzy percebendo que o confronto era inevitável tenta entender como deveria reagir:
—Podia nocauteá-la usando os meus punhos, mas isso não mudaria nada...
Ela concentra mana nas suas mãos e corre no sentido da sua adversária. Aquela mulher desfere outro ataque com a sua arma quebrada e Lizzy utiliza as suas mãos para pará-lo. Mesmo usando mana, a força tinha sido considerável o suficiente para lacerar as suas mãos:
—O que você está fazendo? -Pergunta o seu inimigo confuso. -Solte a minha espada!
Lizzy afasta a mulher com uma das suas pernas enquanto tira a espada das suas mãos. Ela, percebendo que havia perdido a sua arma, começa a observar os seus arredores. Não encontrando nada que pudesse usar, ela decide agarrar aquela velha e tentar fugir:
—Espera! -Grita Lizzy tentando ignorar a dor dos seus ferimentos e deixando a espada cair no chão. -Eu já disse que não estou tentando machucar vocês!
A senhora segura o braço da mulher que tenta levá-la para longe e pede ajuda para caminhar até Lizzy:
—Me deixe ver as tuas mãos. -Pede ela se aproximando.
—Mãe! O que você está fazendo? -Pergunta a mulher de capuz irritada. -Ela é perigosa!
—Cale a boca! -Retruca a velha.
Lizzy mostra a palma das suas mãos. A sua carne está cortada, sangue escorre e os seus dedos tremem. A idosa tira uma pequena quantidade de um gel verde do seu inventário e aplica gentilmente nos machucados de Lizzy. Lizzy tenta não reclamar, mas a dor não é suave:
—Isso vai pelo menos evitar que a ferida infeccione. É o melhor que posso fazer.
—Não se preocupe, a ferida não é muito funda, se eu me concentrar devo conseguir curá-la em algumas horas. -Responde Lizzy.
Enquanto observa a mão de Lizzy, aquela mulher se pergunta onde as coisas deram errado. Dedos menores do que os da sua filha, pele lisa e macia junto de um sorriso gentil:
—Quando atacar sem hesitar uma pessoa tão inocente assim se tornou normal? -Pensava ela reconsiderando as suas ações. -Se esses são os pecados que eu tenho de cometer para permanecer viva então talvez a minha vida devesse ter acabado há muito tempo.
Ela olha Lizzy nos olhos e diz:
—Me desculpe, mas é assim que as pessoas aqui são. Não é uma questão de atacar ou não atacar, apenas de quem vai ser a pessoa a atacar primeiro.
A senhora se levanta e começa a caminhar de volta para o seu abrigo:
—Deixe-a ir, Daniela. Não vale a pena. -Diz ela para a mulher de capuz.
—Mas eu não quero ir! -Interfere Lizzy um pouco irritada. -Deve ter algo que eu possa fazer por vocês.
—Você não tem motivos para nos ajudar, apenas siga o seu caminho, não queremos te causar mais problemas.
—Eu não preciso de motivos para ajudar pessoas que precisem de ajuda! E outra, vocês trataram das minhas feridas, o mínimo que eu posso fazer é retribuir o favor!
—Você realmente quer estar com pessoas que acabaram de tentar te matar?
—Vocês não são más pessoas, eu provavelmente teria que fazer o mesmo se vivesse aqui.
—Não fale como se nos conhecesse! -Resmunga Daniela com uma postura agressiva.
—Retribuir o favor por tratar das suas feridas... -Ri a idosa com a absurdidade das coisas que Lizzy dizia. -Se você realmente insiste em fazer um favor para essa velha quase morta...
—Mãe! Isso não é uma boa ideia! Ela pode nos trair a qualquer momento!
—E você não está aqui para impedir que isso aconteça? -Provoca aquela senhora. -Ou vai dizer que está com medo de uma única menina magra?
—Não é tão simples assim...ela sabe manipular mana.
—As opções que temos são pedir a ajuda dela ou ficar lentamente esperando a morte. Você tem alguma ideia melhor?
—Podíamos...ir atrás de outras pessoas. Ou pedir ajuda aos Abutres-
—Daniela, pare. Existe um limite para quão baixo uma pessoa pode descer e ainda permanecer humano. Os Abutres já ultrapassaram esse limite há muitos anos. Prefiro morrer do que depender deles.
—Mãe, não fale assim.
—Ao invés de ficar me enchendo o saco, você devia me deixar explicar o favor para a menina!
—Tudo bem então! -Retruca Daniela nervosa. -Depois não reclame se as coisas não derem certo!
—Isso significa que vocês aceitaram a minha ajuda? -Aproxima-se Lizzy sorrindo.
—Sim, ignore a minha filha. Ela se preocupa comigo, mas às vezes não sabe expressar isso bem.
—Eu tenho um amigo que é assim então já estou acostumada.
—Bem, a história sobre o teto da minha casa estar velho e isso estar afetando a minha saúde é verdade. Existe um monstro que toma a forma de um homem sem cabeça andando de cavalo nos arredores de Masteam. O couro do cavalo desse monstro tem a capacidade de repelir a chuva tóxica. Vou pedir à Daniela para te mostrar o caminho, se você conseguir esse couro para mim eu tenho como consertar o teto da minha casa.
—Mas e se você for atacada enquanto isso, mãe? Não posso te deixar sozinha.
—Você não esteve a minha vida toda ao meu lado me protegendo. -Retruca a velha. -Não me subestime, eu sei me virar.
—Você pode me dizer a posição no mapa e eu vou sozinha. -Sugere Lizzy.
—Isso daria certo, mas eu não tenho certeza se você consegue lidar com o monstro sozinha. -Explica a senhora.
—Eu até podia pedir ajuda ao resto do grupo... -Pensa Lizzy. -Mas isso parece errado. Eu já pedi ajuda para completar a minha missão e agora quero envolver eles em mais problemas por causo do meu senso moral. Tenho que fazer isso sozinha.
Ela abre o seu inventário e tira uma espada longa em ótimas condições:
—Daniela era o teu nome, certo? -Diz Lizzy oferecendo a espada. -Também tenho outros tipos de armas se você preferir.
Daniela não sabe como reagir, ela aceita a espada, mas não esconde o seu desgosto por Lizzy:
—Eu não te dei educação, menina?! -Reclama aquela velha batendo a sua bengala no pé de Daniela.
—Obrigada... -Diz Daniela frustrada.
—De qualquer forma, vocês deviam se apressar, não sabemos quando vai começar a chover. -Sugere a senhora.
—Me segue. -Ordena Daniela começando a correr.
Lizzy acompanha-a movendo-se ao seu lado:
—A essa distância e com o tamanho da espada que tenho em mãos duvido que ela conseguiria desviar de um ataque... -Pensa Daniela. -E mesmo assim ela está tão próxima de mim...que menina descuidada...
Elas movimentam-se durante vários minutos, passando múltiplas paisagens destruídas, mas nunca encontrando outros seres humanos. Finalmente uma parte das muralhas de Masteam surge no campo de visão delas. Daniela estende o seu braço e sinaliza para Lizzy parar. As duas escondem-se atrás de um pedaço da muralha enquanto fazem silêncio:
—Você consegue ver as marcas dos cascos do cavalo dele? -Sussurra Daniela.
—Sim, consigo.
—Aqui é o lugar onde ele renasce depois de ser morto. -Explica ela. -Temos de seguir as marcas para encontrá-lo.
—Tudo bem.
Elas movem-se com cautela enquanto seguem as pegadas no chão:
—Você já lutou contra esse monstro antes? -Pergunta Lizzy.
—Sim, vários meses atrás com um grupo de quatro pessoas... -Responde Daniela com um olhar vazio. -Eu fui a única que sobrevivi.
—Me desculpa...eu não sabia... -Diz Lizzy se sentindo culpada em ter feito a pergunta.
—Não tem nada a ver com você, você não precisa pedir desculpa.
—Eu só queria saber que tipo de ataques ele pode usar...
—O cavaleiro consegue soltar rajadas de fogo do seu pescoço e ataca com um chicote de ossos enquanto o cavalo vai tentar te derrubar, morder ou acertar coices.
—Muito obrigado pela informação.
A paisagem repleta de areia e destroços lentamente começa a ser substituída por um ambiente onde ossos crescem no chão como árvores:
—Em pensar que ele viria para a floresta de ossos... -Suspira Daniela.
—Tem algo de errado com este lugar?
—É mais fácil de se esconder de monstros aqui do que na planície que estávamos antes, mas a floresta de ossos é habitada por incontáveis esqueletos...
—Temos apenas que derrotar o cavaleiro e dar o fora sem sermos vistos por outros monstros.
—É mais fácil falar do que fazer.
Os ossos que surgem do solo se tornam mais grossos, gerando aberrações contorcidas com vários metros de altura conforme elas adentram a floresta. As pegadas no solo subitamente deixam de ter continuidade:
—Para onde ele pode ter ido? -Pergunta Lizzy confusa.
Daniela observa os seus arredores com ansiedade tentando entender o que está acontecendo. Quando a verdade finalmente se forma no seu cérebro já é tarde demais. Ela pula para longe puxando Lizzy junto e no segundo seguinte algo pesado cai do céu. Uma figura grotesca vestindo uma armadura negra com adornos prateados. Do seu pescoço surgem chamas espectrais e ele está montado num grande cavalo negro de olhos vermelhos:
—Ele percebeu que está sendo seguido e nos atraiu para uma armadilha... -Explica Daniela. -Precisámos sair daqui o mais rápido possível.
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