Notas iniciais
Boa leitura!

Kaizer foca o seu olhar no horizonte, o céu azul se estende infinitamente acima enquanto uma plataforma de nuvens o suporta. Uma leve brisa de vento balança os seus cabelos:

—Parece que estamos no paraíso... -Pensa ele em voz alta. -Quem é você para conseguir fazer esse tipo de coisa?

—Aprecio a tua curiosidade, mas lembre-se que eu te trouxe aqui para responder às minhas perguntas. -Comenta a mulher de cabelos brancos com um sorriso no seu rosto. -Infelizmente, é cedo demais para fazer as perguntas que realmente importam.

—O que você quer dizer com isso?

—É algo que você entenderá com o tempo. A tua mana tem uma característica diferente de tudo o que eu já vi, mas nem você parece entender isso. Por enquanto vamos apenas falar sobre as bases. Me diga, Kaiser, porque você se responsabiliza pelo caos do mundo?

—Eu acho que é o dever do forte proteger o fraco.

—A tua motivação é realmente tão nobre assim?

—Eu tento agir de forma responsável e pensar nas consequências das minhas ações...mas para ser sincero...eu me envolvo em todo o tipo de problema porque tenho curiosidade. Porque quero saber mais sobre o mundo, sobre as pessoas e sobre mim mesmo. Quero conhecer lugares novos, aprender coisas novas e procurar o limite do meu potencial. Acho que no fundo sou só uma criança.

—Foi uma ótima resposta, você parece entender bem as suas limitações, mas não deixa isso te impedir de ser feliz. Espero que esse momento tenha sido tão elucidante para você quanto foi para mim.

—Ah, espera, eu ainda queria te perguntar sobre-

Kaiser abre os seus olhos e se vê de volta na realidade:

—Quanto tempo passou? -Pergunta ele.

—A partir do tempo que vocês pararam de falar? -Pergunta Lizzy um pouco confusa. -Apenas alguns segundos.

—Uau, o tempo passa de forma diferente naquele lugar...agora eu fiquei ainda mais curioso...

—Naquele lugar? Do que você está falando?

—A senhora consegue levar a tua mente para outro lugar. -Responde Kaiser.

—Sério? Eu nem consigo imaginar como isso é possível... -Comenta Lizzy chocada. -Mas porque eu fui a única até agora que não viu isso?

—O que eu queria te perguntar carregava mais valor se fosse dito num lugar mais exposto. -Responde ela. -Apenas uma forma sútil de testar a tua confiança e honestidade.

—Okay, faz sentido.

Sasesu e Takeda aproximam-se arrastando Kurokawa:

—Eu não quero falar com essa mulher!!!! -Grita ele enquanto esperneia. -Me deixem ir embora!!!!

—Muito obrigado pela vossa assistência, chegou a tua vez, Kurokawa.

—Nãã-

Antes de terminar a sua frase, Kurokawa abre os seus olhos e avista um cenário completamente diferente:

—O que está acontecendo?

—Você parece ter um grande problema em se expressar então achei que uma conversa a sós seria mais produtiva. -Diz aquela figura sentada na sua frente.

—Ann? Eu não tenho problema nenhum em me expressar, só não queria falar com você porque você é estranha e chata.

—Essa é a primeira vez que me insultam, eu sabia que teríamos uma conversa interessante.

—Você acabou de ficar feliz com o meu insulto...eu...eu já nem sei o que pensar...

—Você pode pensar na resposta para a minha pergunta, porque é tão difícil para você admitir a importância dos teus amigos?

Kurokawa levanta-se irritado:

—Eles não são amigos, são pessoas que me ajudam a ficar mais forte.

—Você pode usar um termo diferente, mas no fim acaba por ser a mesma coisa.

—Claro que não, eu não me importo com nenhum deles. Qualquer um deles podia cair morto a qualquer momento e nada na minha vida mudaria.

—Não há porque mentir para mim.

—Eu não estou mentindo!!! Ah!!!! Isso é tão irritante!!! Me deixa ir embora logo!!!

—Então você não vai me dar uma resposta?

—Claro que não, que tipo de pergunta estúpida foi aquela? Talvez você esteja se sentindo sozinha por não ter amigos, mas eu gostaria que você não me envolvesse nesse tipo de problema.

—Parabéns, você foi a primeira pessoa a conseguir me ofender. Ó pobre criança perdida, você passou tanto tempo mentindo para si mesmo que começou a acreditar nas tuas mentiras. Mas o teu orgulho te impede de perceber as tuas falhas, te falta muita humildade.

—Quem é você para falar de humildade? Está se achando porque salva a vida de pessoas sem sorte?

—Aceite esse presente e tente se tornar alguém melhor, espero que esse momento tenha sido tão elucidante para você quanto foi para mim.

—Ei, o que você está colocando em mim...

Kurokawa abre os seus olhos ainda sem entender o que aconteceu:

—Essa parece uma conclusão satisfatória. Vou providenciar-vos o item que permite repelir a chuva de Masteam. -Fala aquela mulher oferecendo cinco capas de proteção.

—Ei, você ainda não me explicou o que fez comigo. -Reclama Kurokawa irritado.

—Desejo-vos sorte na vossa aventura. -Sorri ela.

—Espera, o que você está fazendo? -Continua Kurokawa.

Ela concentra uma grande quantidade de mana ao redor da sua tenda. Um brilho branco é emitido durante alguns segundos até que aquela mulher e a tenda subitamente desaparecem:

—Ela...teve a audácia de ir embora sem me responder!!!! -Grita Kurokawa.

—Calma, já conseguimos os itens que precisávamos, porque você está tão irritado? -Pergunta Takeda.

—Ela fez alguma coisa com o meu corpo, mas eu ainda não consegui entender o que é.

—Estranho, ela não deveria fazer nada depois de você ter respondido à pergunta.

—Ann? Porque eu teria respondido à pergunta daquela velha louca?

O resto do grupo observa Kurokawa com alguma decepção:

—Você viu que ela era forte o suficiente para transportar mentes de pessoas sem muito esforço e mesmo assim decidiu não colaborar? -Pergunta Sasesu surpreso. -Eu pensava que você fosse um pouco menos estupido do que isso.

—Ninguém manda em mim! Eu faço o que eu quiser! Ela pode ser boa a manipular mana, mas eu tenho certeza que venceria num duelo.

—Deixando isso de lado por enquanto, agora que já temos as capas de proteção devíamos explorar Masteam. -Interfere Lizzy. -Mas a cidade é muito grande...nem sei por onde começar a procurar o fragmento do mapa...

—Não!!! Não mudem de assunto, prestem atenção no que eu estava dizendo!!!

—Não temos tempo para isso, você nunca diz nada útil de qualquer forma. -Brinca Sasesu.

—Me machuca ouvir os meus amigos falarem assim de mim...

Takeda, Sasesu, Lizzy e Kaiser permanecem em silêncio enquanto observam uns aos outros. O vento devia estar especialmente forte. Eles provavelmente estavam cansados depois de toda aquela conversa com a curandeira viajante. Ou Kurokawa tinha pronunciado algumas palavras de forma estranha. De qualquer maneira, a conclusão ao que grupo chegou foi que eles tinham ouvido mal o que Kurokawa disse. Essa era a única alternativa plausível:

—Calma, o que eu acabei de dizer? -Pergunta Kurokawa confuso.

—Não entendi. -Responde Takeda ignorando a realidade.

—Eu não escutei bem... -Diz Lizzy ainda incrédula.

—Posso estar errado... -Fala Kaiser sendo honesto. -Mas acho que foi alguma coisa sobre “amigos”...

Kurokawa pensa:

—Amigos? Porque eu estaria falando sobre amigos quando nem sequer considero vocês os meus amigos?

Mas diz algo complemente diferente:

—Amigos? Eu estava falando sobre vocês então.

O grupo novamente se cala enquanto tentam entender o que está acontecendo:

—Okay, tem alguma coisa muito errada com o Kurokawa... -Sussurra Sasesu.

—Eu consigo te ouvir! -Retruca ele. -Eu disse que aquela velha tinha feito algo comigo!!!! Eu estou pensando numa coisa, mas a minha boca está dizendo outra! É como se...

—Você não conseguisse mentir? -Sorri Takeda.

—Não tem nada a ver com isso! -Pensa Kurokawa.

—Eu acho que você está certo! -Diz Kurokawa.

Ele deixa os seus joelhos tocarem o chão enquanto entra em desespero:

—Não! Por favor, não!!!!! Eu sei que mereço isso!!! Mas mesmo assim!!!! Eu não consigo nem sofrer em paz...

—O Kurokawa não consegue mentir porque não respondeu à pergunta daquela mulher, é isso que está acontecendo? -Pergunta Kaiser.

—Não! -Pensa Kurokawa.

—Sim. -Diz Kurokawa imediatamente se arrependendo. -Isso é uma maldição!!!! Porque eu????

—Mas isso significa que ele estava sendo honesto quando estava nos chamando de amigos antes, certo? -Sorri Sasesu.

Kurokawa se contorce no chão enquanto utiliza toda a sua capacidade cerebral para resistir à vontade de responder Sasesu:

—Olha ele, que fofo... -Continua Sasesu se divertindo com a situação. -Sabe que vai só piorar tudo se falar então está tentando ficar calado...

—Cala a boca!!! -Grita Kurokawa sem paciência. -Eu vou...eu vou...

Kurokawa não deseja realmente ferir Sasesu e por isso não consegue ameaçá-lo. Sem sequer conseguir responder à humilhação que passa, ele começa a chorar:

—Uau, você conseguiu quebrar o Kurokawa. -Comenta Takeda surpreso.

Lizzy aproxima-se de Kurokawa enquanto afaga os seus cabelos:

—Vai ficar tudo bem, Kurokawa. Vamos encontrar vários monstros e pessoas fortes em Masteam.

Kurokawa limpa as suas lágrimas:

—Vamos mesmo?

—Sim, provavelmente vamos ter que visitar vários calabouços e outros lugares perigosos. Obviamente vamos precisar da tua ajuda.

—Isso parece divertido...

—Tudo bem, vamos pensar no nosso próximo objetivo então. -Sorri Lizzy ajudando Kurokawa a levantar. -E Sasesu, não seja tão mal para o Kurokawa.

Sasesu suspira sabendo que está perdendo uma grande oportunidade para atormentar Kurokawa, mas cede:

—Tudo bem...

Takeda, Lizzy e Sasesu discutem o que fazer daqui em diante enquanto Kaiser não consegue controlar a sua curiosidade sobre a condição que afeta Kurokawa:

—Eu tenho uma proposta para fazer, Kurokawa. -Diz ele se aproximando com um sorriso.

—Eu não gosto de você, não quero saber de nada que você tenha para propor.

—Por cada frase que você pronunciar para mim, eu vou te dar um caramelo! — Explica Kaiser.

—Isso parece uma boa proposta, eu aceito.

—Tudo bem, vamos começar com “dois mais dois são cinco”. Diga isso, por favor.

—Dois mais dois são quatro. -Responde Kurokawa.

—Você não consegue dizer?

—Não, eu penso na resposta certa e sou forçado a dizê-la. Agora me dá o meu caramelo.

Kaiser joga um caramelo para Kurokawa e se concentra no próximo teste:

—Você sabe quem um senhor chamado Shen é?

—Não, vai logo, me diz qual é a próxima frase.

—A frase é “Shen é um morador de Kepler”.

—Shen é um morador de Kepler. Caramelo.

Kaiser joga mais um caramelo enquanto sorri:

—Que interessante. Tudo bem. Shen é o meu mestre, ele na verdade mora em Euler.

—Eu não quero saber, qual é a próxima frase?

—”Shen não é um morador de Kepler”.

—Shen não é um morador de Kepler.

Kaizer joga um último caramelo enquanto pensa nos resultados:

—Kurokawa vai sempre dizer o que ele acredita que seja a verdade. Quando ele não tem informação sobre algo ser verdadeiro ou falso, ele pode dizer qualquer coisa. E por último, se Kurokawa receber informação incorreta e acreditar nessa informação, ele vai dizê-la como se fosse verdade. Meu mestre Shen mora em Kepler, mas porque Kurokawa acreditou em mim quando eu disse que ele morava em Euler, para ele, Shen não ser um morador de Kepler é a verdade. Ou seja, contanto que Kurokawa acredite no que está dizendo ele não deve ter muitos problemas. Mas por outro lado, caso ele esteja escondendo os seus verdadeiros pensamentos...a sua capacidade de comunicar vai ser fortemente restringida...

—Tudo bem. -Aproxima-se Lizzy trazendo Sasesu e Takeda. -Vamos explorar Masteam toda, começando pelas zonas mais fáceis de acessar até as mais difíceis. O nosso primeiro objetivo apesar de ser o mais fácil, também é o mais demorado. Temos que atravessar as muralhas e ver se o fragmento do mapa está algures dentro da parte principal de Masteam.

—Parte principal? -Pergunta Kaiser.

—Masteam é composta por três partes: a parte principal, onde grande parte da população que resta reside, nesta área normalmente não existem monstros; a parte dos calabouços, quatro calabouços com diferentes níveis de dificuldade, todos infestados com monstros; e por último, a parte escondida, que só pode ser acessada depois de completar o calabouço mais difícil de Masteam. -Responde Takeda.

—Se tivermos sorte, vamos encontrar o fragmento na parte principal e não vamos precisar explorar os calabouços. -Comenta Lizzy.

—Se tivermos azar você quis dizer, né? -Interfere Kurokawa. -Não fiz uma viagem de vários dias para ficar andando numa cidade meia morta.

—Você quase morreu duas vezes no caminho, isso não chega? -Pergunta Sasesu.

—Não! Eu quero lutar com monstros ainda mais fortes!!!

—Escutar isso sabendo que você não consegue mentir me dá um pouco de medo... -Diz Lizzy. -Mas pelo menos um de nós está animado com a possibilidade de termos de seguir o caminho mais difícil.

—Acho que faz sentido nos dividirmos para cobrirmos mais espaço, apesar de ser um pouco perigoso. -Sugere Sasesu.

—Por mim está tudo bem, podemos nos encontrar aqui no fim do dia para montarmos as tendas. -Responde Lizzy.

—Apenas tomem cuidado, as pessoas aqui não são de confiança e por favor não entrem nos calabouços sozinhos. -Aconselha Takeda.

—Caça ao tesouro!!! -Grita Kurokawa saindo correndo.

Kaiser se sente bastante animado em estar explorando um lugar novo e se deixa levar pela atmosfera desleixada de Kurokawa:

—Quem achar primeiro ganha!! -Ri ele enquanto corre em outra direção.

—Passar tempo com Kurokawa não está fazendo bem a Kaizer. -Comenta Takeda.

—Passar tempo com Kurokawa não faz bem a ninguém... -Acrescenta Sasesu.

—Acho que devíamos ir também...ainda vamos demorar alguns dias para explorar Masteam inteira...

—Bem, boa sorte a vocês! -Sorri Takeda escolhendo uma direção e se afastando.

Sasesu gostaria de poder estar com Lizzy, mas a estratégia proposta era a mais eficiente. Deixando os seus impulsos de lado, ele se foca no objetivo dessa jornada:

—Eu sei que você vai ficar bem, mas grite o meu nome se precisar de ajuda! -Diz ele caminhando para longe. -Eu vou te achar independentemente de onde você estiver!!!

—Tudo bem, mas se você estiver em perigo, grite o meu nome e eu vou te salvar!! -Responde ela.

Já longe demais para conseguir enxergar Lizzy, Sasesu reflete um pouco:

—Talvez o “vou te achar independentemente de onde você estiver!” tenha sido um pouco exagerado...queria expressar a minha preocupação, mas não consegui achar as palavras certas. De qualquer forma, podia ser pior. Eu podia ser o Kurokawa e ser incapaz de mentir nesse momento. Que tipo de pessoa consegue ser amaldiçoada pela “curandeira viajante”? -Ri ele.

Notas finais
Kurokawa é chato demais...espero que agora que ele não pode mentir ele melhore...mas e vocês? Acham que Kurokawa mereceu ser amaldiçoado? Empolgados para ver o que Masteam trará de surpresas?