Invisible

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Obrigada por lerem ^^ O desafio dessa fanfic foi escrever sobre um personagem secundário, então escolhi a murta que geme, e pesquisei bastante antes de postar! Obrigada.

1941
Hogwarts – Salão Principal


– Corvinal!

A voz do chapéu seletor ecoou pelas paredes do grande salão, fazendo a garota que o usava sobressaltar-se. Os alunos da mesa do canto direito aplaudiram enquanto ela se dirigia timidamente até eles . Não conversou com ninguém e logo todos se esqueceram de sua presença na mesa. Ouviam os próximos nomes sendo seguidos por aplausos das outras mesas.

– Hornby, Olivia!

– Sonserina! – O chapéu disse quase instantaneamente.

A garota que fora selecionada para a Corvinal ergueu a cabeça. Por que Olivia havia sido selecionada tão rápido e ela teve que esperar uma eternidade sob o olhar avaliativo dos outros alunos? E logo para a Sonserina! Ouvira algumas conversas dos outros alunos novos no trem e era óbvio para ela que nenhum deles queria ser selecionado para a Sonserina. A casa tinha a má fama de só produzir bruxos das trevas.

Olivia Hornby saltitava pelo salão, sentando-se com seus colegas Sonserinos. Seu cabelo loiro balançava majestosamente, brilhando como o cabelo da Corvina nunca brilharia. Ao se sentar, seus olhares encontraram-se, e, antes que a garota reagisse, Olivia mostrou-lhe a língua, rindo maldosamente.

“O que eu fiz?”, a Corvina pensou abaixando a cabeça, corando. Seus óculos escorregaram para a ponta do nariz.

Finalmente a seleção terminou e o diretor ergueu-se, dando boas-vindas aos alunos novos e desejando uma boa volta para os velhos. Depois de algumas palavras de incentivo ele estalou os dedos e pratos com todo o tipo de comida surgiram na mesa. Os alunos começaram a se servir e a conversar entre si.

Ninguém prestou atenção na garota nova. Ninguém nunca prestava. Era como se ela fosse invisível. Somente mais uma no meio da multidão.

1942
Dormitório Feminino da Corvinal

– Nós não deveríamos chamar a Myrtle?

– Quem?

– Oh, Isabel. – a outra revirou os olhos. — nossa colega de quarto, sua anta!

– É claro que não, está louca? Quer que nossa reputação seja arruinada?- Isabel perguntou.

As outras garotas concordaram. Que deixassem Myrtle dormir mais um pouco. Saíram do quarto, tagarelando sobre as aulas, sem nem perceber que a dita cuja já estava bem acordada. Uma única lágrima escorregou até a ponta de seu nariz, caindo no travesseiro.

Agora ela estava um ano mais velha. Continuava tão invisível quanto antes – e por vezes, visível demais. – como se fosse um fantasma. As pessoas passavam por ela sem sequer lhe notar e confessavam segredos mesmo em sua presença. Afinal, para quem ela contaria? Essa era a parte boa de ser quase invisível. Myrtle nunca pensaria tais coisas de seus colegas até ouvir os próprios dizerem. Mas ela queria ter alguém para fofocar e dividir segredos também. Poucos sabiam seu nome de verdade, mas se a apontassem no corredor todos saberiam de quem estavam falando. A garota feia, gorda e chorona. E tudo por causa de Olivia.

O que Myrtle havia feito para merecer?

Ao terminar de realizar sua higiene matinal, olhou-se no espelho e odiou o que viu. Óculos de aro bem grande, rosto marcado por espinhas e cabelo armado, castanho e sem brilho. Nada do que fizesse a deixaria igual à perfeita Olive. Ninguém conseguia ver alem da aparência de Myrtle, graças aquela Sonserina idiota.

Seu sonho era um dia ser igual a inimiga. Radiante, poderosa, prepotente e bela. Olive tinha tudo isso e mais um pouco. E ainda conseguia caçoar dos inferiores, como Myrtle, se safando todas as vezes.

Qual era o segredo de Olive?

1943 – Aproximadamente dia 13 de Junho
Corredores de Hogwarts

Myrtle estava decidida. Aquele ano seria diferente. Estivera pensando nisso desde que embarcara no trem de Hogwarts pela terceira vez, alguns messes antes. Não aceitaria as provocações de Olive e faria novos amigos custasse o que custasse. Assim que suas colegas de quarto saíram, ela se levantou e foi até o banheiro. Encarando sua imagem no espelho, colocou seu plano em pratica. Primeiro um simples feitiço, não muito duradouro, para sumir com as inúmeras espinhas. Depois o cabelo. Myrtle estava com medo de fazer algum feitiço e só piorar a situação, então apenas o escovou e fez uma longa trança. Os olhos castanhos brilhavam de excitação. Ela queria mostrar para todos que podia ser bonita e divertida.

Mas ao sair do salão comunal, notou que este seria um daqueles dias. Quando todos pareciam estar falando dela e olhares seguiam-na por onde fosse. Talvez Olive estivesse por trás disso...

– Hey, você!

Por falar no diabo. Myrtle respirou fundo e se virou, encarando Olive. As pessoas ao redor assistiam a cena, cochichando entre si. Era a primeira vez que Myrtle resolvia revidar.

– O que você quer?!

Olive abriu um sorrisinho de escárnio. Myrtle hesitou. Por que ela não estava surpresa?

– Você acha que se você simplesmente fizer um feitiço para arrumar essa cara feia e dar uma penteada nessa juba que você chama de cabelo pode falar assim comigo?

– E-eu...

Olive e as amigas riam do embaraço de Myrtle. Ela não esperava que estivesse tão obvio que havia tentado se arrumar. Odiava o som da risada de Olive, odiava suas amigas idiotas e principalmente, odiava a si mesma.

Foi sem pensar que deu um empurrão em Olive.

– Mas o que...

Uma das amigas a ajudou a se levantar. Olive estava vermelha, olhando com ódio para Myrtle.

– Você vai se arrepender amargamente, sua quatro olhos! – Olive disse, empurrando-a de volta.

Logo um grupinho havia se formado ao redor das duas, sedentos por briga. Myrtle olhou para os lados, desesperada, mas ninguém iria ajudá-la. Não havia nenhum professor por perto e ninguém se dignaria a arruinar sua reputação indo ao seu socorro. Ela estava sozinha.

– Está com medo, olho de vidro? – Olive zombou, sorrindo. – Você deve ser totalmente cega sem esse fundo de garrafa que você usa na cara. Vamos ver como você se sai um dia inteiro sem eles?

Myrtle ficou branca. Os óculos . Sem eles ela não era nada, não conseguiria enxergar nem um palmo a sua frente.

Foi por isso que ela decidiu correr. Já chega. Estava cansada de Olive, dos alunos, de tudo. Ela preferia ser uma trouxa comum a aturar aquilo.

Entrou no banheiro mais próximo e se trancou em uma das cabines. Lá suas lagrimas podiam correr livremente sem medo de ser caçoada pelos outros. Myrtle não sabia a quanto tempo estava no banheiro e nem se Olive e suas comparsas já haviam parado de procurá-la. Será que era seguro sair? Ela voltaria a ser invisível?

A porta do banheiro foi aberta. Myrtle engoliu um soluço, ficando em silencio completo. Ela havia sido encontrada e agora era apenas questão de tempo até que Olive tomasse seus óculos. Mas ela começou a ouvir uma voz. Quem quer que fosse estava dizendo coisas incompreensíveis, quase sibilos. Parecia ser um garoto. Um garoto! No banheiro feminino!

Com raiva por ser interrompida em seu momento de auto-piedade, Myrtle abriu a porta para mandar o garoto ir embora.

A ultima coisa que viu foram dois olhos grandes e amarelos.

Em algum lugar além desse mundo

Finalmente a paz?

Não, espere, ela não queria isso! Não estava pronta para morrer!

Mas morrer seria mais fácil... O mundo só trazia dor e sofrimento às pessoas em que nele estavam. Por que não deixar tudo isso para trás?

Ela poderia dar um jeito. Talvez mudar de escola. Mas não podia morrer. Tinha apenas treze anos, não havia visto nada ainda. Precisava de mais tempo.

Haviam duas escolhas. Morrer era inaceitável.

Banheiro Feminino do Segundo Andar

Myrtle acordou no mesmo lugar. Sua visão estava embaçada pelas lagrimas, mas pelo menos ela podia ver. Não estava morta. Teria sido aquilo um sonho? Ela olhou ao redor. O banheiro estava vazio. Talvez o garoto tenha sido um sonho também. Talvez ela tivesse apenas escorregado e batido a cabeça com força no chão. Talvez...

Ao se sentar, percebeu algo com o canto do olho. Gritou, achando que fosse o tal garoto, mas ao olhar direito percebeu que era o próprio reflexo no espelho. Ela não havia se reconhecido. Talvez ninguém mais fosse reconhecê-la.

A pele estava quase transparente e uma luz emanava de seu ser. Ela mesma havia feito essa escolha. Era a única forma de continuar no mundo dos mortais. Ela não achava que faria diferença.

Afinal, Myrtle era um fantasma antes mesmo de se tornar um.

Notas finais
Trágico :P
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!