Invisível aos olhos
27 Capítulo 27
Notas iniciais
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— Cassie! Cassie! – Tom entra no quarto correndo e pula no meu pescoço quando me vê parada perto da janela. – Papai convenceu a mamãe! Ele conseguiu! – Percebendo que não estou entendendo, o menino completa: — Então eu vou começar o Jardim da infância!
Tento me equilibrar, com ele em cima de mim e sorrio, passando a mão em seu cabelo.
— Isso é ótimo, mas por que isso de repente?
— Por sua causa, é óbvio! – Tom me deixa animada com sua expontanedade. – Pelo o que consegui escutar atrás da porta, mamãe te acha bem inteligente. Eu ouvi que é por que você estuda desde muito nova. Mamãe não quer que eu fique atrasado! E também tem o fato do zoológico.
— Que fato?
— Você querer me levar para sair! Mesmo sabendo do meu... Probleminha. – De ser um Banshee? Eu diria que é mais do que um problema. — E se uma garota que acabou de invadir nossas vidas, e entrar no mundo sobrenatural, está dizendo que é uma boa idéia um menino com cicatrizes profundas comece laços com humanos, por que não? Foram as palavras da minha mãe.
Acho que isso está mais para uma ofensa, Tommy. Não sei bem como ela concordou, se acha isso tudo de mim... E eu achando que ela era uma mulher animada e descente. Talvez meu pré-conceito foi correto...
— Você não é inteligente demais para ir para o Jardim?
— É claro que sou! Mas não vou mostrar isso! Eu quero amigos, não inimigos. – Ele se solta e percebe a minha mão. – O que houve? Por que não pediu a Matt para te curar?
— Isso ela aguenta sozinha, não tem problema. – A voz de Gaelle assusta Tom, que a percebe na cama dele lendo um dos livros para maiores de idade que tinha na estante.
— Meu Deus... – Tom parece tremendamente assustado e fica trocando a atenção entre nós duas. – Cass... Se eu a amar também, eu estarei te traindo? – Ele coloca a mão na cabeça, nervoso.
Sorrio e coloco a mão no ombro dele.
— O que você acha que nós dois temos, Tommy?
— Ah... Quando eu crescer, quero que você se case comigo! – Ele sorri realmente feliz, mas depois volta a estar confuso olhando para Gaelle na cama. – Mas não acho que eu aguentaria duas de você...
— Não se preocupe com isso, querido. Gae não pode se apaixonar, ela é um dragão.
— Que mentira! É claro que posso! – Ela me interrompe e abaixa o livro, para me olhar. – Sua mente ocupa quase todo o espaço aqui dentro. Tecnicamente, eu posso amar qualquer coisa que você amaria. – A garota fecha os olhos por alguns segundos e parece mergulhada em pensamentos. – Como sorvete... Mataria por um.
— Você também vai com a gente para o Canadá? – Tom se aproxima dela e se apoia na cama, a fazendo balançar.
— Claro que sim. Eu não preciso ficar vinte e quatro horas com a Cass, mas algo tão distante... Nem pensar! Tenho que a proteger. – Gaelle se senta e cruza as pernas, puxando Tom para o seu colo. – Mas eu tenho um segredo para você, menininho. Cass é sincera com os sentimentos relacionados a você, então, você não precisa se preocupar comigo.
Tom me olha sem parecer entender direito, mas sorri e eu retribuo. Acho que ela está querendo dizer que eu não tenho nada sobre ele no meu subconciente... Isso é bom, certo?
— Está certo, voltando à história de você poder fazer amigos... – Subo na cama e fico de frente para a minha cópia. – Quando começa as aulas?
— Amanhã! Estou tão ancioso! Papai falou que todos já têm as suas funções e tarefas nessa casa. Menos você. – Ele olha para o próprio pé e fica mexendo os dedos. – Por isso, você tem que me levar e buscar da aula...
O menino fecha os olhos e parece rezar. Sua voz diminui a cada palavra e ele parece bem medroso no momento. Como se eu fosse ignorar ou negar um pedido tão simples como esse. Amanhã é quarta feira, um dos dias mais chatos da faculdade. Não tenho aula com Prime e por isso vou ter que procurá-la nos horários livres. Porém, isso não me impede de cuidar de Tom. Seguro a sua mão e ele abre os olhos para me encarar.
— Tommy, você está superfeliz por que vai fazer amigos. Acha que eu estragaria a sua alegria? – Seguro o seu queixo e beijo sua testa. – Só não vai ter insônia por causa de amanhã.
— Tudo bem! – Ele diz feliz e engatinha até conseguir segurar no meu pescoço. – Prometo que quando tiver muitos amigos e for popular com as garotas, você ainda será a número um, para mim. – Tom sorri, mas parece estar bem invergonhado com o que falou. – Quero dizer... É... Você entendeu.
Fofo. Tom não fala, nem age, do jeito que sua idade manda, e isso é engraçado. Acho que os meninos dessa idade costumam dizer que meninas são nojentas ou algo assim. Ou será que é aos oito anos? Se o que Gae falou for verdade, sobre a mentalidade dele, do outro Ele, isso faria certo sentido. Não acredito que eu falei que algo nessa loucura faz sentido.
— Então, como prêmio por você ter se esforçado no treinamento. – Aponto para Gaelle. – E você ter entrado para a escola. – Olho para o menino, que está tão perto de mim. – Irei comprar sorvete para nós três.
Levanto da cama e os dois me seguem até a porta. Olho para trás e sinto que virei um pouco a cabeça, e meu desentendimento ficou explicito.
— É... Eu vou sozinha! Gae não pode sair por ai, e alguém tem que tomar conta dela. – Abro a porta e sorrio para os dois. – Não se preocupe. Tem um mini-mercado aqui perto. Não devo demorar. Estarei chegando às oito.
Os dois parecem magoados. Como se o fato de não irem comigo é por serem despensáveis ou algo assim. Acontece que eu não estou acostumada a ter alguém por perto sempre e essa é, apenas, a primeira semana. Respiro fundo e me alongo enquanto ando pelo corredor. O corte da minha mão está ardendo, mas a dor já passou, por causa de Amon. Odeio a idéia de ele me ajudar... Quando eu paro de sentir dor, ela não some. Só muda de hospedeiro.
Desço as escadas e vejo meu irmão escrevendo em seu computador, sentado na poltrona da sala. Levanto uma nota de vinte reais e ele olha em minha direção.
— Vou ao mercadinho. Quer alguma coisa?
— Batatas! – Pam grita, abrindo a porta do quarto dela. Sua roupa está um pouco suja e parecia que ela estava mexendo com carvão. – E quiabo! Esses meninos estão precisando se alimentar melhor! – Me entrega mais umas notas dobradas, Pam parece mais simpática do que nos primeiros dias. E muito mais amigavel do que a conversa que Tom ouviu. – Enquanto estiver por aqui, a comida é por nossa conta. Mas, não vá achando que você não terá que pagar. Sua função nessa casa é cuidar de Tomas.
Ando até a minha cunhada e tento entender melhor o que ela está me falando. Afinal, é ela que é a mãe dele...
— Sendo sincera, Cassandra. Preciso dar mais atenção aos meus meninos. Mas isso não significa que eu consiga tempo e oportunidade. Eles sabem disso, mas Tomas é muito novo e aqui dentro não tem outra mulher além de mim. Não tinha, até agora.
— Minha querida, você é um ótimo exemplo de mulher para eles terem em mente. – Diz meu irmão do outro lado da sala. – Não se preocupe tanto.
— Bem, menina. Você entendeu? Em troca, eu não vigiarei a sua vida. – Da forma em que Pam fala, parece que ela costumava fazer isso. Com os poderes.
— Está bem, mas não precisa dizer isso tudo. Eu não ligo de ter Tom por perto. Eu gosto dele. – Dou de ombros e vou até a porta principal.
— Você pode gostar de meus filhos, Cassandra. – Ela diz às minhas costas. – Contudo, não se esqueça de que o destino tem sua hora e local. As coisas não acontecem atoa.
— Realmente acredita que tudo acontece por algum motivo?
Ainda segurando na maçaneta, viro o meu rosto a ponto de vê-la com a visão periférica.
— Há mais coisas no céu e terra, Horácio, do que foram sonhadas na sua filosofia.
— Não sou Horácio. Além disso, acho que não precisa citar Hamlet em uma hora dessas... – Abro a porta, mas Pam interrompe empurrandoa porta ainda fechada.
— Cassandra, você é estudante de literatura e com certeza sabe o que Shakespeare quis dizer com isso. Embora a filosofia e a racionalidade sejam necessárias para o ser humano, nem uma, nem outra responde a tudo. Existe muito mais no mundo. Coisas que a razão não consegue explicar. Por isso, não se deve comcluir todas as soluções da existência ao nosso limitado cérebro. – Sua mão para em meu ombro, até me soltar enquando falava baixo. — A cada segundo só será mais torturante, se você continuar negando a si mesma que há algum motivo para você está nesse lado do mundo.
Deve ser ironia que a razão não possa ser definida pela lógica. Saio da casa do meu irmão, levando apenas o meu dinheiro, o celular e a chave. Não preciso mais do que isso a essa hora da noite. Amon devia ter me deixado treinar mais... Eu não aprendi nada hoje... Que dia inútil.
O menino fantasma não está nessa quadra hoje. Que estranho. Pego um atalho por uma das ruas desertas a direita e paro quando vejo um vulto.
— O que? Eu não quero, Cal... Você está se encontrando com muitas garotas! Isso não é nada legal!
Na verdade, aquele era Dylan com uma garota qualquer. Ele está agachado com ela na grama entre algumas árvores. Esses gêmeos... Eu já vi Caleb em ação, mas é a primeira vez vendo esse ruivo em questão.
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