Notas iniciais
Espero que gostem!!

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— Porque deixou alguém te tocar daquele jeito? Quem foi? O que exatamente fizeram? Foi contra a sua vontade? Por que se foi...

Gaelle está em cima da minha cama de braços cruzados e parece um pouco mais alta. Ela parece zangada e ao mesmo tempo com vergonhada. Assim que cheguei em casa, fui direto para o quarto de Tom, sem nem mesmo falar com meu irmão que estava na sala.

— Do que você está falando, Gae? – Tento pensar em um jeito mais respeitoso de me dirigir a ela, pois colocá-la em minhas mãos ou me ajoelhar para ficar na altura dela, parece algo desrespeitoso.

— Pouco depois que você saiu do quarto, a mini Cass começou a... – Tom fica vermelho, parecendo pensar em uma frase melhor. – Sentir coisas. Ela falou que estava com muito calor e pediu para que eu ligasse o ventilador. Depois colocou a mão na boca e... Disse que o corpo dela estava queimando. Pensei que estava virando um dragão e quando abri a porta para fugir do meu próprio quarto, me deparei com uma menina entrando no quarto de Matt e então me escondi e foi isso.

Isso quer dizer que Gaelle sente as mesmas coisas do que eu. Talvez tenha a ver com o fato de compartilharmos a mesma alma. Eu não sei se isso é bom ou ruim. Porém do jeito que as coisas estão, não deve ser algo possitivo. Sento na cama, encostada na parede e olho para a menina-lobo. Eu a acho muito fofa. Suas orelinhas mexendo, o rabo felpudo. Os olhos azuis. Mas as atitudes dela são um pouco... Familiares. O jeito como desconfia de tudo me lembra a como eu era a cinco anos atrás. Isso significa que ela é uma parte de mim? Eu preciso saber mais sobre o que é um familiar... Urgentemente.

Vejo a janela do quarto de Tom ficar nublada, de um jeito estranho e então Said aparece. Sem Chander. O vento ao seu redor faz as mechas roxas ficarem desarumadas, seu rosto está sério, e vejo que seus músculos estão contraidos. Ele me olha de uma forma intimidadora e anda em minha direção.

— Por que eu sinto que você fez merda nesse pouco tempo que estive longe, Cass? – Inclinar a cabeça para cima e encarar os olhos azuis brilhantes de Said é uma tarefa difícil.

— Eu... Sou eu quem está irritada aqui! Você estava onde? Eu tive problemas e você não estava lá. – Instantaneamente lembro-me de Fred e dele me perseguindo a noite. As imagens passam rápidas em minha mente. – Por que você não esteve por aqui?

Said me olha sério, como se não estivesse apenas vendo minha frustação e, sim, muito mais. Depois se vira em direção a Gaelle e abre os olhos de espanto. Se voltando para mim, parece mais preocupado do que com raiva.

— Você sabe o que você fez? – Ele aponta na direção dela. – Ter um familiar é algo muito raro, Cass. Qual o seu nome? – Said se agacha e a olha de perto.

— Cê? É você? – A menina não responde, mas parece feliz, e pula no pescoço dele. – Eu estava sentindo tanto sua falta! Quando a minha tia me levou de volta para o Canadá, não tinha idéia o que estava planejando. Eu me senti tão sozinha.

Essa era a minha voz. Minha antiga voz. Uma voz mais infantil e pura.

— Pelo visto você é um pedaço do subconciente da Cass. – O homem segura a menina, no ombro, como se fosse uma criança. – Cass. Eu acho que preciso te dar algumas respostas. Mas aqui não. Vamos para um lugar mais... Seguro e irrastreável.

— Não precisa. Caleb me deu esse cordão que foi enfeitiçado para não me encontrarem. – Levanto o colar e o mostro. – É bem bonito e resistente. Ele não consegue sair do meu corpo.

— Cass, eu te achei. Não percebeu? A diferença é que não foi por sua causa. Foi por causa dela. – Said aponta para Gaelle em seu pescoço. – O cheiro da sua alma misturado com a dela é um pouco diferente, mas o seu é mais forte. Chama mais atenção.

Eu não sei se estou entendendo direito...

— Eu quero ir! – Said olha para o menino ao meu lado, notando sua presença só agora. – Eu não quero ficar longe da Cass. Posso ir, não é?

Tom segura na minha mão e aperta, chamando a minha atenção.

— Tommy, eu volto logo. Sua mãe não te deixa sair de casa, e eu não quero ter problemas com ela. Espera-me aqui, está bem? – Seu rostinho parece magoado, mas ele concorda com a cabeça.

Said segura na minha mão, enquanto a menina-loba está se equilibrando em seu pescoço. Ele toca na parede com a mão livre e me puxa para aquela passagem temporal que me deixou surpersa da última vez. Minha outra mão se solta vagarosamente da de Tom e eu noto os seus olhos negros me vendo partir. As cores passam rapidamente, e minha cabeça começa a doer. Eu devia ter terminado de me curar com o Matt.

Quando enfim saimos desse túnel estranho, chegamos a um quarto masculino. Bem maior do que a minha verdadeira casa, com uma cama de casal, videogames, estantes de livros, puff. Um quarto maneiro para qualquer um. Esse é o quarto dele? E ele ficava dormindo na minha cama enquanto eu estava fora? Que idiota.

— Você perguntou por onde andei. Estive aqui na casa da minha avó. Tive assuntos urgentes para conversar com ela. Você não deve se lembrar, mas ela é a única da minha família que ainda está viva. – Said coloca a Gaelle em cima da cama, e o tamanho dela está ainda maior do que quando saiu do quarto de Tom. Em pé, sua altura termina no meu umbigo, apesar disso ainda aparenta doze anos. Said nota que estou olhando para a mini Cass e interrompe sua narrativa. – A passagem pelo portal faz com que ela evolua mais rápido. Não se preocupe, ela parará quando estiver igual a você. Voltando ao assunto, minha avó me proibiu de ir te ver. Ela é a chefe do conselho dos Shinigamis e me contou que outro foi mandado a procura de sua alma. Por isso, você fez merda em ter um familiar.

— Eu estou aqui para proteger a Cass. Bobão. – Gaelle parece incomodada de Said estar falando assim dela. – Eu sou um dragão, não sou qualquer familiar.

— Dragão? Onde você arranjou um dragão, Cass? – Said cruza os braços e parece impressionado. – Os dragões estão extintos a tanto tempo... Onde a encontrou?

— Dentro de um tijolo, no meu prédio... Perto da piscina. – Eu não sei o que pensar. — Gae estava lá abandonada e eu apenas a trouxe para casa para cuidar dela. Não foi planejado, só aconteceu.

— Ao dividir sua alma, e não protegê-la, te deixou mais fraca. Sim. Um familiar é um ajudante, de bruxas, Cass. Você não é uma bruxa. Ele não deveria aparecer para você. – Said coça a cabeça e se joga na cama. – É como se te disponibilizar a visão, tivesse mudado quem você é. Mas Cass continua sendo a Cass.

— O que exatamente está acontecendo? Você parece saber muito mais do que diz. Me conte mais sobre o que acha estar errado entre mim e Gaelle.

— Ele é um Estratos. Não tem nome e é apenas isso. Estratos é uma classe rara de shinigami. Além dele existem outros seis por vez e então cada um fica em um continente. Até a Antartica tem seu próprio Estratos, principalmente por lá terem mais almas perdidas do que pinguins. O da América do Norte, infelizmente, é um dos melhores caçadores de almas perdidas... Vovó disse que já que você não foi encontrada, será ele a te procurar. Meu quarto é seguro, mas fora dele, não. Pelo o que entendi, a Gaelle tem misturado em suas memórias, desejos e sentimentos que deveriam ser seus. Parece que tudo que foi esquecido por você, está na mente dela agora. Como eu. – Said parece decepcionado e um pouco triste. – Familiares são seres encantados que servem, protegem e ajudam bruxas. Pelo nome que você deu, imagino que você estivesse pensando em Gael, o seu antigo cão. Ele era o espírito protetor que Nyx envocou para você. Diferente do que você via, Gael era um unicórnio. Como você só podia ver elementos naturais dessa terra, ele se parecia com um cão.

— Mas Nyx era bruxa? Se fosse, isso significaria que bruxas existem... E eu poderia ser geneticamente uma. – E a namorada de Matt também.

— Bruxas existem, mas Nyx não era uma. Pensando bem, ela sabia sobre o Outro Lado e tudo mais. No entanto, ela era contra a coexistencia. Isso não significa que ela não usava os seres ingenuos. Gael era o familiar de um bruxo, que sua tia eliminou.

— Quando você diz eliminou, você está querendo dizer que minha tia avó matou um cara? – Said concorda com a cabeça. – Isso é impossível! Não tem como uma velinha daquelas lutar!

— Você só consegue o impossível fazendo o impensável, Cass. O que eu estava tentando dizer é que o maior objetivo de ter um familiar é para que ela te ajude de todas as formas possíveis. São servisais mágicos, por assim dizer. – Sento-me ao lado dele, e vejo Gaelle andando devagar em minha direção e sentando sobre a minha perna. Seu rabo faz cosquinha em minha pele e suas orelhas me dão vontade de rir.

— Mas Gael morreu de velhice... Ele não era mágico.

— Não foi por velhice. – Sua voz é fria e quase cruél. – Em todos os lugares há quem quer machucar. Gaelle será diferente. Ela continuará a te proteger.

— Mas se ela está tão vunerável por eu ser procurada... E tem esse cara, que você falou, atrás de mim. O que acontece se ele a encontrar? – Faço carinho em seu cabelo, e ela olha para cima.

— Com sorte, ele a confunde com você.

— Sorte? Como isso vai ser sorte?

— Sua alma e a dela estão interligadas. O que você faz, pensa ou sente altera o corpo e mente de Gaelle. E a via é quase totalmente de mão dupla. O que ela pensar, vai para a sua mente também. Com isso, talvez você recupere as memórias... Mas se ela sofrer qualquer dano, será um pouco menor em você. A idéia que um familiar não possa machucar o mestre. Ainda assim você sentiria... Eu disse sorte por que isso nos daria tempo para fugir.

— Eu não deixaria nada acontecer com ela por eu estar com medo de morrer, e Gae sabe disso. Se for para fugir que seja junto dela. Nós não somos gêmeas, Said. Somos quase a mesma pessoa. Mas... O que faço em relação ao rastreamento? Eu não posso ficar aqui para sempre, por que eu ainda não estou curada e Matthew precisa terminar o tratamento.

— Você não pode deixá-la aqui, também. Por que um familiar tem que estar sempre com o seu mestre. Para protegê-lo. Eu sou seu guardião, mas fui eu mesmo que me coloquei nessa situação. Não é algo obrigatório, apenas não me sinto bem longe de você.

— Por quê? Eu fiz alguma coisa que nos ligasse ou algo assim? Nós temos um vínculo como eu tenho com a Gaelle? Como eu tenho com Chander?

— Boba, ele te ama. Esqueceu? Tudo o que ele fez até hoje. Toda a barra que ele aguentou. Todos os anos ao seu lado sem você ver. Todas as vezes que teve que te ver chorar, sem poder chegar mais perto. “Sofrer” é uma palavra muito pequena para dizer o que ele passou. Isso só mostra o quanto Cê te ama. Ele até disse isso uma vez... Quando estávamos prestes a esquecer de tudo. Ele invadiu o templo e tentou te tirar do ritual, mas foi tudo tão rápido... – Gaelle olha para ele, e eu vejo o amor em seus olhos. Um amor que eu nunca senti. Ao menos não me lembro de sentir. Se o que ela diz for verdade, ele, um shinigami de idade desconhecida, se apaixonou por uma menina humana de seis anos. Não teria algo mais bizarro do que isso.

— É... Obrigado, Gaelle, por contar algo que eu queria deixar apenas nas minhas memórias. – Said parece estar com vergonha, e esconde o rosto, mesmo estando no outro pedaço da cama. Said não é homem de sentir vergonha. Pelo menos, eu acho. Said se parece mais com um guerreiro, e pela forma que luta... É como se fosse um daqueles nobres cavaleiros. – Eu te amo, Cass. Mas não precisa ficar assustada. Até os seres mais perversos com o amor são mais ternos. É a primeira vez que você me escuta dizer algo assim, e também é a primeira vez que um homem é verdadeiro como estou sendo. Sem contar o seu pai, ele era um homem bom. Eu não vou tentar nada com você, por que o que sinto por ti... Eu não posso descrever... Este sentimento de "amor" transbordando por algum lugar é inevitável, e ao mesmo tempo eu consigo controlar. Ao menos, posso tentar controlar o que chega até você. Devido às circunstâncias, o que eu sinto por você é inacessível. Mas, uma vez que você se dá conta deste sentimento, é esmagador.

Eu não falo nada. Apenas fico encarando aqueles olhos azuis brilhantes e o jeito como Said diz isso sem nenhuma dificuldade.

Será que é assim que guerreiros são? Said é tão honroso que até falando de amor, parece citar uma poesia antiga? No entanto... Quem escreve bem, quem consegue coordenar sua mente tão bem e tão lúcida, pode amar? Já tive que fazer uma redação sobre isso no semestre passado. É real ou não? Esse amor puro que o homem, forte e viril, a minha frente, mostra?

Eu já desconfiava que fosse possível ele gostar de mim, pois o modo como age é um tanto suspeito. Protetor demais. Intimo demais. Contido demais. Nossas mentes são um pouco ligadas e nisso acreditei de cara. E essas coisas que passam na minha mente me dão certo arrepio. Como se eu não pudesse pensar em nada, pois ele saberia. Por outro lado, na minha cabeça tão conturbada, ter uma relação com ele é diferente do preconceito que eu tenho por ter algo extra com meus subrinhos, já que não tenho essa ligação familiar estranha com Said. Ele é bonito, forte, amável, gentil e diferente. Um diferente bom. Um diferente difícil de descrever... Como se o seu mistério não apenas me cativasse, mas também me acorrentasse a luz que seus olhos emanam. E isso me faz ficar ainda mais chocada.

— Ei, Cass? Eu já falei que eu te amo. – Seu brilho, e suas palavras, me faz calar. É como se aquele azul fosse mesmo hipnotizante. Não é a cor do céu, nem do oceano. Não é como uma canetinha de criança. Sua tonalidade é como se tivesse eletricidade por trás. Acho que o objeto humano mais próximo é o neon. — E você? Ainda me ama?

Da forma que ele diz isso, me faz perceber que talvez, mesmo aos seis anos, eu pudesse ter o amado e isso o fez continuar comigo. E se isso for realmente o que aconteceu, quer dizer que Said não desistiu de mim, mesmo eu não tendo como voltar a vê-lo e a me lembrar dele. Mesmo eu me esquecendo do meu amor. Mesmo eu continuando a minha vida sem olhar para trás. Ao mesmo tempo que isso é lindo, é tão doloroso. Eu não sei se eu consegueria fazer algo assim por alguém. Não sei quanto tempo consegueria sofrer por amor.

— Eu não sei o que é o amor... – Meus olhos estão pressos ao seus, e eu tenho total capacidade de notar que meu coração está acelerado de uma forma estranha. Como se o sentimento não fosse legitimo, mas estivesse ali.

— Não tem problema. Eu te ensino.

Isso é mesmo real? Said é um ceifador, um anjo da morte. Em outras palavras, um shinigami. Estou recentemente aprendendo isso tudo, mas seria possível? Por que, levando em consideração que genética não define o amor, Said deve ter uma diferença avassaladora de idade. E isso apenas me mostra que enquanto eu nem sei se estarei viva amanhã, ele viverá mais séculos e séculos.

— Eu já disse antes. Não vou lhe cobrar o amor. Mas posso te mostrar o que é. – Ele olha de mim para Gaelle e mexe a cabeça positivamente.

Notas finais
Comentários são bem vindos!!