Invisível aos olhos
16 Capítulo 16
Notas iniciais
— O que você quis dizer com enfeitiçado? – Pergunto assim que Tom entra em casa e sobe para guardar as lembranças.
— Matt o enfeitiçou para que você não seja encontrada por ninguém. Sabe que ele tem os poderes de fada, não é? – Concordo com a cabeça.
— Mas, por quê? Eu preciso ser escondida de quem?
— Ah... Então, eu não te contei? – Nego. – Na primeira vez que você foi para o Outro Lado, o Olhos Azuis te encontrou. Ele faria o certo e te levaria para o lago do fim da vida. Onde você renasceria em outro corpo, como os velhos costumam fazer. Mas então, você voltou a respirar, sem intervensão. Logo, o serviço dele terminou. No entanto, quando você morreu a algumas noites, você deveria ser guiada por outro Shinigami. Mas Matt fez você voltar a vida. Então, quer dizer, que ele reviveu um morto e foi contra a lógica da vida. Era para você estar morta e não está.
— Acho que entendi. Mas qual o problema disso? Eu estou viva, isso não é bom?
— Cass, isso significa que tem um Shinigami procurando por sua alma no mundo dos humanos. E quando te encontrar, irá te matar. – Caleb passa pela porta da sala e vira o rosto para mim. – Pelo menos é a minha teoria.
— Então, você não tem certeza? – Pergunto, percebendo o medo em minha voz. – Só está supondo, não é?
— Não somos muito ligados ao mundo de lá, no entanto, há coisas que ninguém pode mexer. E Matt passou dos limites.
— Quem sabe disso? Por que ninguém me contou? – Seguro seu pulso e o forço a virar para mim. – Como isso pode estar acontecendo?
— Apenas eu e Matt. E Dylan. Provavelmente, foi por isso que ele te visitou ontem a noite. Sem cura, você vai apodrecer e morrer. Matt mentiu sobre a quantidade de tempo... É impossível prever. Se ele conseguir fazer você não ser mais uma fantasma-viva, significa que o Shinigami vai parar de procurar a sua alma. – Caleb toca em meu ombro e abaixa o rosto, fazendo com que seus olhos verdes fiquem na altura dos meus. – E passará a procurar o seu corpo. E quando isso acontecer, não será um mero encantamento que o fará ficar longe de você.
Escuto passos e vejo que são Dylan e Matt descendo as escadas e vindo até onde estou.
— E ai, irmão? Se divertiu com os animais? – O gêmeo bate nas costas de Caleb.
— E como me diverti! – Ele levanta a foto e eu o empurro para o canto. Fazendo com que apenas Dylan veja. – Da próxima vez que roubar alguma coisa, não esquece que eu também gosto.
Os gêmeos sorriem um para o outro, mas não parecem mais satisfeitos ou animados. É como se eu pudesse ver raios saindo por seus olhos. Incubos não fazem isso. Ou fazem?
— O que você fez? – Matt pergunta, de costas para mim, não deixando os outros perceberem que nos falamos.
— Dylan invadiu meu quarto a noite, para me curar... Já que você não terminou o serviço. Então Caleb descobriu e viu que eu ainda estava com os cortes, então tentou me curar também. – Puxo a gola da blusa e mostro que a pele está lisa. – Então, acho que não precisará cuidar de mim hoje. Sorte sua.
Matt passa a ver o cordão e então fala baixo:
— Graças a isso aí, eu estou cuidando de você o tempo inteiro. Então, agora será ainda mais difícil para mim, me concentrar para as provas. Além do fato que toda noite vou ter que fazer um check up para ver se seus orgãos internos não estão se diluindo.
— Do jeito que você fala, parece que eu estou morrendo, só por existir.
O garoto vira o rosto para mim, mas não diz nada.
— E sobre concentração, eu posso te ajudar a estudar. Apesar de ter dezesseis anos, você está no primeiro ano ainda, não é? Eu era ótima aluna nessa época e...
— Não preciso da sua ajuda para estudar. – Ele me interrompe e vira o seu corpo para mim. – Você não entende, Cass? Você é apenas uma intrusa na nossa família. Sempre trouxe problemas para mim, e agora ainda mais. Pela sua cara, enquanto conversava com Cal, você já sabe o porquê vai usar o cordão. Entende que assim que eu te curar, a minha situação vai ser pior? Sabe que o simples fato de estar viva acaba comigo? E você ainda dorme no quarto ao lado do meu, come ao meu lado, vive na minha casa. Eu não consigo parar de achar que nos conhecer foi a pior coisa. Tanto para você, quanto para a minha família.
Certo. Então, esse é o verdadeiro Matthew. Esse é quem ele é e o que ele pensa de mim. Beleza.
— Eu não queria a sua ajuda. Ter morrido significa que teria acabado. Que eu não passaria mal todas as noites, que eu não ficaria fria como meu irmão fantasma, que eu não viraria um morto-vivo. Se com aquela porrada eu tivesse morrido, não iria saber o que vocês são. Não teria motivo para ter medo de adolescentes. – Toco em seu peito com o indicador e o empurro. – Se você não tivesse se metido, eu não seria um problema. Eu não seria um estorvo a ninguém. Se você não estivesse ali, eu estaria bem. Said iria me salvar no Outro Lado e ninguém iria me procurar. – O empurro de novo. – Se você não bancasse o herói e soubesse exatamente o que estava fazendo, eu poderia simplesmente estar viva desde o início.
Matthew me olha feio, como se realmente pudesse fazer tudo voltar e me deixar morrer. Ele veio para cima de mim, e eu fui para a dele, no mesmo instante com os outros dois garotos se meteram.
— Ei, vocês dois. – Cada gêmeo ficou de um lado, nos segurando. – Não precisam se matar. Se não gosta dela, é só você passar para a gente a função de curandeiro. – Dylan passa a lingua no lábio e olha para mim. – Podemos não ter tanto poder para restaurar a energia de alguém, quanto você, mas somos dois.
— É Matt, por que não vai ficar com a sua namoradinha bruxa? E para de brigar com a Cass. Ela é mais bem vinda nessa casa que você. – Caleb me coloca a trás dele e sorri para o irmão mais novo.
Vocês não deviam falar assim. Ele devia ser amigo de vocês.
Tom surge no corredor do segundo andar e me chama.
— Ainda são seis horas! A mamãe ainda não chegou, podíamos sair de novo!
— Sim, Tom! Pega uma muda de roupa e uma sunga. – Grito para ele e vou para a cozinha.
É melhor eu fazer alguma comida para gente. Se minha mãe estivesse aqui mandaria que eu passasse protetor solar, mesmo estando na piscina coberta do meu prédio.
— Aonde vamos? – Caleb pergunta do outro lado da bancada.
— Já te aluguei tempo demais. – Digo, terminando de fazer um misto.
— Então, eu. – Dylan surge ao meu lado.
— Não. Eu decidi uma coisa com essa discussão. – Olho para os gêmeos. – O único que deixarei entrar em minha vida é o Tom. Então, parem com isso de ficar perto de mim. Entendeu, Caleb? Dylan? — Olho para cada um quando digo seus nomes.
—⟰-
Fale com o autor