Invisível
1 Por que acontece?
Notas iniciais
Bom... Isto não é bem uma história, apenas alguns sentimentos que precisava colocar em algum lugar. Meu nome é Yukiio, uma garota comum, bem, não tão comum... Ao menos me diferencio das demais, eu tenho... Ah, realmente importa dizer minha idade? Vamos deixar isso de lado ok?
Recomeçando, eu não sou uma garota tão comum, gosto de coisas que poucas gostam e o que elas gostam eu não gosto, prefiro ficar em casa, lendo, jogando ou qualquer coisa pra matar o tempo, dormir também conta. Não sou muito notada, nem destacada, as pessoas frequentemente se esquecem da minha existência ou da minha presença e o mais irônico disso tudo é que muitos dizem (os que me conhecem) que eu sou muito bonita, sou gentil, talentosa e que é um desperdício eu não fazer nada com os atributos que me foram concedidos. Muito irônico não acham?
Vocês devem estar pensando que talentos eu tenho não é? Bom... Eu toco teclado, desenho, não diria que eu sei cantar... Mas muitos elogiaram minha voz e eu acho que são loucos, sou inteligente ou pelo menos mais que a maioria e... Eu escrevo. Não me gabo e nem acho nada de mais em tudo isso.
Mas enfim, não é sobre mim que eu decidi escrever mas sobre uma reflexão que eu tive por minha existência ser solitária como é.
Era um dia comum. Eu havia saído para comprar pão num posto de serviços perto de casa e como o caminho é um pouco longo fico só eu com meus demônios até chegar nele.
Durante o caminho comecei a pensar no por que de haver tantas histórias com meninas consideradas estranhas, esquecidas ou inúteis tendo uma reviravolta que muda sua vida; Ela vira vampiro, ela conhece um cara, ela cai num buraco ultra-dimensional e tantas outras coisas que fazem com que sua vida pacata não seja mais a mesma. E então vi que na verdade isso nunca acontece ou acontecerá na vida real. Talvez essas histórias existam apenas para nos iludir com a possibilidade da nossa vida mudar, da vida de meninas inúteis ou esquecidas por todos, como eu me considero, ter algum valor ou compensação por tudo o que passam de poder ter alguma experiência fantástica que mude seu pequeno mundo, que prove que ela é especial de alguma forma.
Essas histórias só nos fazem ver como somos esquecidas, ainda mais, como nunca teremos nada do que acontece nelas, como nossa vida vai continuar sendo a mesma até o fim. Você se vê sozinha... Em um mundo onde você não parece pertencer, em um lugar onde você não é aceita, um lugar... Onde você parece ou realmente não existe. Você deseja, anseia pela existência de carinho, de conforto, de algo que faça você sentir que pertence a algo e que sua existência não é em vão. Você deseja que sua vida mude... Que seja uma vida mais fantástica, uma vida a qual compense sua solidão anterior. Pensa e sonha com o aparecimento de um homem que vai te amar da forma que é, que vai te dar a atenção que não tinha antes, que vai te considerar especial e provar que você é especial, contradizendo o que todos faziam e consideravam por você. Quer um futuro que mostre seu potencial, um futuro que mostre aos demais que você não é e nem era um “nada”... Mas por mais que pensemos nessas possibilidades e nessas fantasias... Sabemos bem que não passam mesmo de fantasias. O “nosso mundo” parece fazer de tudo para que elas nunca se concretizem.
Então eu me pego pensando... Se os autores e autoras desses livros e histórias os escrevem com a intenção de criar outra realidade, de querer mudar o que acontece. Se eles se sentem tão solitários como nós, como eu, a ponto de fazer um outro mundo pra se afastar do real. É bem cruel, eu acho, da parte deles... Pois acabamos acreditando em suas histórias.
Porém em contraponto, se elas existirem para nos garantir que tudo pode mudar e que algo de especial espera por nós, por mim, então... Eu gostaria que acontecesse logo, antes que eu suma completamente desse mundo.
Se você for ver, nós só existimos como indivíduo dentro da nossa casa e para quem nos conhece. Para todo o restante nós somos estranhos, uma pessoa como qualquer outra das bilhões que existem por ai, não somos ninguém, não temos identidade, não temos personalidade, não sabem o que sentimos e nem sabem o que somos. Se existimos apenas para as pessoas que nos conhecem, que são poucas, e dentre essas poucas não há quase ninguém que te note, então... Nós existimos mesmo ou somos algum ser que perambula por ai?
Continuei andando o caminho de volta para a minha casa, o sol já se punha tornando ainda mais deprimente meus pensamentos, minha caminhada, minha existência ali naquela calçada.
Finalmente cheguei em casa, nenhuma recepção, nenhum agradecimento por ter ido pegar o pão, passei em frente a televisão que minha mãe assistia e nem mover os olhos a mesma fez. Huh, novamente me dei conta... De quanto sou invisível e de quantas pessoas iguais a mim devem existir por ai. É triste, é solitário e... Será que algum dia seremos compensados por isso?
Ri novamente por dentro, de meus próprios pensamentos, me dirigi até o quarto e entrei em meu pequeno mundo novamente.
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