Invictos
1 Prólogo
Prólogo
Ray
O rei se levantou, a fúria evidente em seu olhar. A garota nem se abalou, encarando-o com a mesma frieza de sempre, sem medo algum. Os outros membros do conselho pareciam desconfortáveis e tensos. Eu não os culpava; a fúria do rei Logan era algo terrível e cruel.
Ele apontou o dedo para a menina, de uma forma acusatória.
- O que você fez? – Rosnou.
- O que você nunca teve a competência de fazer. – Ela retrucou. – Reinar com justiça.
- Justiça?- Vociferou Logan. – Libertou um... um...
- Um homem que era inocente. – Dessa vez quem retrucou foi o irmão dela. – Você queria punir com morte um homem que roubou para alimentar sua esposa e filhos. Isso é justiça para você?
- Isso é a justiça do rei! Não deixa de ser ladrão! Se trabalhasse e servisse a coroa, não precisaria roubar.
- Se você fosse um rei digno e alimentasse o povo, ele não precisaria roubar. – A garota rebateu.
Logan ficou roxo, tremendo com tanta fúria. Algo em sua postura me colocou em alerta; estava claro que ele queria voar por cima da mesa e esganar a menina. Albert e Isaac, que estavam sentados um de cada lado do rei, também perceberam o perigo eminente, pois se levantaram e seguraram os braços de Logan.
O gesto apenas o enfureceu.
- Me larguem! – Berrou para seus conselheiros.
Albert segredou-lhe qualquer coisa, tentando acalma-lo. Passaram-se vários minutos antes que o rei enfim se acalmasse e voltasse a se assentar. Soltou os braços em um movimento brusco e arrumou as roupas amassadas, tentando recuperar um pouco de dignidade.
Os dois irmãos permaneceram impassíveis iguais a duas estatuas. Em ambos, os olhos cinzentos eram frios. Sabiam que o rei poderia ordenar um castigo, prende-los ou chicoteá-los. Não se importaram. Aqueles dois eram os jovens que eu conhecia, sem medo algum do que poderia lhes acontecer, contanto que a justiça verdadeira fosse feita.
Olhei para a garota, apenas um ano mais jovem que o garoto. A mesma garota que não se submetia a ditadura do rei, que tinha coragem de enfrenta-lo, e que eu tinha jurado minha lealdade. A lealdade que jamais jurei a Logan, jurei a ela. Pois eu podia ver quem era, de fato, o vilão.
Isaac ofereceu um copo de agua para seu soberano, e este o tomou em um gole só. Alguns dos outros conselheiros sussurravam comentários sobre a cena que presenciaram. O escriba anotava furiosamente em um papel. Me perguntei, vagamente, se ele relataria a briga ou se Logan já o tinha treinado para sempre o fazer parecer o mocinho e esconder sua explosão.
Conhecendo o rei como eu conhecia, era exatamente o que ele teria feito.
Um dos guardas do meu lado se inclinou para mim e murmurou:
- Ele é assustador quando esta com raiva.
- Não é ele que você deve temer. – Respondi em voz baixa.
Porque não era mesmo. A raiva de Logan era terrível, sim. Mas havia alguém cuja raiva era ainda pior. Ela.
- O conselho consente – O rei anunciou – Que o homem de nome Alfred Wesker, residente do reino de Denville, da Ilha Invicta, seja perdoado por seu crime de roubo. Não haverá qualquer punição. E eu, Logan Stilbart, Rei Mor, declaro que, a partir de hoje, todos os seus crimes serão esquecidos.
Como foram amargas aquelas palavras, e como ele devia estar cheio de ódio por dentro. Anunciar a derrota não era algo que ele gostava. Desagradava-o. Senti certa satisfação com seu desgosto e trabalhei em esconder o menor dos sorrisos.
- E enquanto aos nossos magníficos defensores – Continuou venenosamente – vocês já podem se retirar.
O garoto sorriu um sorriso amarelo, mas a menina não esboçou reação.
- O conselho não consente nada. – Ela segredou, mas foi em alto e bom som. – Seus argumentos apenas se esgotaram, e vocês se viram obrigados e abaixar a cabeça e consentir.
O silencio reinou com aquelas palavras. A verdade dói, pensei.
- O que? Não gostam de perder? Ou apenas queriam ver alguém decapitado hoje?
Alguns piscaram, outros ficaram com expressões de raiva.
Pela primeira vez em semanas, vi um sorriso se formar nos lábios dela. Um sorriso cruel, de satisfação e de desprezo.
- Se nem sabem o porquê de querer aquele homem morto, então vocês não são nada, senão desprezíveis.
E, dizendo isso, ela se virou e foi para as grandes portas de carvalho, sua longa trança loira balançando atrás de si. Seu irmão a seguiu. Os guardas abriram as portas para deixa-los passar, fechando-as assim que saíram.
Pelo que pareceu serem horas ninguém disse uma palavra. Todos perdidos em pensamentos.
- Raymond. – Logan me chamou.
Meus pés se mexeram sozinhos, indo em direção à mesa.
- Vossa Majestade? – Perguntei.
- Mande uma mensagem para os reis de Reo e Wldon, convocando-os a uma reunião para daqui a dois dias. Diga-lhes que é urgente. Não precisam trazer suas rainhas ou filhos. Mas que tragam seus conselheiros. – Ordenou.
- Sim, meu rei. – Murmurei respeitosamente.
Estava passando pelas portas quando o ouvi dizer:
- Aquela garota tem que aprender uma lição. Saber quem é que manda.
Pude me permitir fazer uma careta, já que estava de costa para o conselho. Era assim que ele governava. Do céu choveria fogo antes que ele tocasse em um só foi do cabelo dela.
***
- Então, quer dizer que ele me ameaçou? – Ela perguntou, sorrindo friamente.
Bufei, uma liberdade que tinha com ela.
- Também pensei a mesma coisa quando o ouvi.
Estávamos em seu quarto. Usei o pretexto de trazer-lhe uma bandeja de chá para poder subir e contar-lhe. Era um cômodo grande, com estantes do chão ao teto abarrotadas de livros, uma cama simples de casal, uma escrivaninha e, ao canto, um suporte cheio de armas: adagas e punhais, chicotes e uma bela e longa espada de aço, com uma opala de fogo no cabo forjado em forma de asas de dragão. Pelo que eu sabia, foi ela própria quem a forjou.
- Logan devia perder mais tempo aprendendo a ser um rei descente, ao invés de tentar armar para cima de mim. – Comentou.
- Acha que ele tentará alguma coisa? – Não gostei daquilo.
- Sem duvida tentará. Em breve, provavelmente.
- E estará pronta para se defender?
Ela me encarou, inexpressiva. Era quando me olhava daquele jeito que eu entendia porque tantos a temiam. Não só por ser quem era, e nem só pelo que fazia. Mas porque era firme e inteligente até demais. E fria. Este era o seu maior defeito; ser tão fria. Não como uma Invicta, e certamente não como uma humana, e sim como um robô. Feito para não mostrar sentimentos, apenas movimentos.
Eu me lembrava com perfeita clareza o dia do seu nascimento, anos atrás. Sua mãe gritando, as parteiras correndo com panos úmidos, a surpresa ao verem que o bebe era menina. Foi difícil vê-la sendo arrancada dos braços da mãe e não poder fazer nada. Os guardas com capuzes cobrindo-lhes o rosto, sem se apiedar com as súplicas da mulher, tirando a criança recém-nascida e levando-a para um mundo cruel, onde ela seria ensinada e ser igual a eles.
A mulher nunca mais foi à mesma; andava pelos corredores como um fantasma parasita, os olhos mortos. Uma pessoa incapaz de dar amor ao filho mais velho, pois achava injusto com a filha que nunca teria seus braços para se confortar. E com isso perdeu ambos os filhos, que nem sequer a chamavam de mãe.
- Ray.
Sacudi a cabeça, saindo do meu devaneio.
- Sim?
- Não se perca em pensamentos, isso é perigoso. – Disse-me.
Sorri-lhe.
- A mente é algo perigoso. – Respondi.
Ela inclinou a cabeça.
- Sem duvida é. – Concordou. – E respondendo a sua pergunta, estarei preparada para qualquer artimanha de Logan. Impaciente do jeito que é, vai armar qualquer coisa mal articulada.
- Acha?
- Tenho certeza. – Disse com firmeza.
- Deve ter. – Falei.
Porque, afinal, quem poderia conhecer Logan melhor do que sua própria filha?
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