Invertidos
2 Capítulo 2 - O sono é o purgatório das mentes confusas.
Notas iniciais
Se não fosse pelo grande e infernal trânsito eu teria pego o voo das 17:45, mas como na cidade de São Paulo tudo é extremamente difícil, inclusive se locomover por entre os carros nas longas rodovias, a verdade é que eu tive que me contentar em voltar para casa rezando para que Levi virasse a noite no laboratório de pesquisas, arrumar minha mochila e esperar até a manhã do dia seguinte, quando sairá o próximo voo para Flórida.
Cheguei em casa depois de duas horas no trânsito, estava cansada e decidi tomar um banho antes de começar a arrumar minha mala, que não passaria de 10 peças e olhe lá.
Adentrei o banheiro e liguei o chuveiro. Enquanto a água caia, escovei meus dentes e depilei as pernas. Eu sempre fazia isso, porque, pelo menos pra mim, os primeiros jatos de água no chuveiro pareciam lavas de vulcão. Eram muito quentes.
Liguei meu pequeno aparelho portátil de som que ficava em uma das prateleiras do banheiro, apertei o play quando a tela indicou a música número dois. A música tema do filme ''Jennifer's Body'' começou a tocar. Entrei no chuveiro e enquanto cantarolava senti uma súbita vontade de desmaiar. Flashs da noite anterior passavam pela minha cabeça. Droga, de novo isso. Não sei oque significam.
FLASHBACK ON:
''Por favor, não faça isso ... Eu preciso de um tempo.'' Um homem moreno gritou enquanto se debatia numa parede de pedras marrons. Ele parecia estar morrendo.
Uma garota de olhos claros e lábios carnudos se aproximou dele, o foco estava apenas em seu rosto, talvez eu a conhecesse. Ela gritou alto e afinado fazendo o homem colocar a mão na cabeça. Ela parecia querer assustá-lo, estava fora de si e enfiou uma faca no braço esquerdo do homem que agora se encontrava sentado no chão chorando. A garota se abaixou e enfiou lhe outra vez a faca, dessa vez no coração. Ele deu um suspiro alto. A garota sorriu vitoriosa. Ele finalmente estava... morto.
FLASHBACK OFF.
A música parou e eu percebi que estava a tempo demais debaixo d'água. Aqueles pensamentos confusos voltaram. Eu sempre tinha esse tipo de lembranças, de coisas que não vivi. Eu não as entendiam, estava farta delas, ela me deixavam estranhamente louca.
Saí do banheiro molhada, deixando meu rastro por todo carpete. Já no quarto me enxuguei e vesti um roupão. Conferi meus documentos e arrumei a mochila, mesmo que meu cérebro só conseguisse ecoar o grito desesperador daquele homem.
Peguei o telefone e disquei o número de Ian, ele era meu melhor amigo desde sempre. Sempre tentava me ajudar sobre essas lembranças e até mesmo tinha teorias sobre elas.
– Ian? — sussurrei assim que ele disse ''alô''.
– Sim Jess. Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou rápido, atropelando as palavras.
– Preciso que você vá comigo até a Flórida. — respondi.
– Ah, então quer dizer que você ainda não.. Olha, preciso que você ligue sua TV. Canal 87. — ele respondeu seguido de um suspiro quase que de dor.
Fiz oque ele mandou. Apertei o botão vermelho no controle e logo pude ver a Jornalista cercada de policiais e bombeiros. Um desastre havia acontecido, com certeza.
A voz dela começou a ecooar pelo quarto [..]
'' A vítima tinha cerca de 38 anos, ele foi agredido, e morto a facadas. Após isso, o assassino o esquartejou e arrancou-lhe a pele do corpo. A polícia investiga com bastante atenção o caso porque este não é o primeiro assassinato assim nos últimos messes. Achamos que se trata de um Serial Killer. — A câmera focou num saco preto onde deveria estar o corpo. — Volto a qualquer momento com mais informações. — Concretizou a jornalista enquanto se despedia. ''
Processei as palavras e desliguei a TV. Tive vontade de vomitar, eu não estava bem. Só então percebi que Ian me chamava do outro lado da linha.
– Ian, você acha que aconteceu de novo? — perguntei num fio de voz.
– Andrea nos responderá sobre isso em breve. Te vejo na flórida Jess. — ele respondeu e terminou a ligação.
Me joguei na cama tentando eliminar tudo o que vi e ouvi durante aquele dia. Acabei adormecendo.
Com certeza me arrependerei disso após acordar, afinal, o sono é o purgatório das mentes confusas.
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