Inverno da Alma
1 Capítulo Único
O inverno havia chego cedo naquele ano. Ela já havia se cansado de esperar, queria deixar-se consumir pelos demônios interiores, pois já estava saturada. A estação chegara tão cedo que sentia como se ainda estivesse no outono, vendo as folhas secas caírem das árvores e o dia desfalecer pela janela do quarto.
Sentia falta da companhia dele, do calor de seu corpo e daquele olhar doce ao acordar ao seu lado, dividindo o mesmo travesseiro. Como se pode ficar tão distante, mesmo estando tão perto? Mas apesar de todo aquele martírio, seu orgulho era forte o bastante para obrigá-la a não se redimir.
“Ele que se desculpe!” – pensava enquanto se sentavam à mesa para tomar o café da manhã. Ela nem mesmo prestava atenção se comia alguma coisa ou não, pois mantinha os olhos fixos nos dele, esperando uma reação qualquer que não fosse toda aquela indiferença. Porém o olhar dele era vazio… atravessava-a como uma faca, perfurando dolorosamente sua alma.
Perante a toda aquela indiferença, passou boa parte das tardes de inverno sentada no balanço, nem se importando com o frio ou com a neve alva e límpida, numa tonalidade tão ofuscante quanto bela. A velha árvore do balanço guardava suas próprias lembranças sobre as tardes de outono em que se sentavam sob sua sombra delicada ao pôr do sol, banhando-se numa chuva de folhas secas. Naqueles momentos em que ele lia alguma poesia para os dois, ela não conseguia tirar os olhos de seus lábios, cada contorno e cada marca de expressão, era como viajar por um território conhecido e familiar. Porém agora, tudo o que ela conseguia ver era que o tempo a deixara para trás, abandonando-a naquelas lembranças.
Os dias se arrastaram por semanas silenciosas, onde não se ouvia nenhuma palavra dele. Àquela altura da situação, seu orgulho já havia sido estilhaçado pela dor que dilacerava seu peito, algo que começava lentamente a levá-la ao desespero. Como ele conseguia? Ela já havia tentado gritar, falar e chorar e mesmo assim, ele parecia não a enxergar. Em seu rosto, a mesma expressão dura e impassível dividia espaço com o olhar frio e distante.
Pensou diversas vezes em deixá-lo, mas sentia que não podia. Era como se uma parede invisível a impedisse de sair, pois, por pior que fosse a situação, seu amor por ele ainda era mais forte. Ela respirava por aquele homem, sorria, vivia e morreria se preciso. Ele era a única razão pela qual ela sempre se manteve estável e intacta. Sem ele, sentia que quebraria a qualquer instante. Não podia perdê-lo daquela forma, não aguentava vê-lo desaparecer no vazio daquele silêncio, nas sombras da pessoa sorridente e feliz que ele era.
O inverno demorou mais do que o normal para passar.
“Ninguém deveria ficar sozinho neste frio…” – pensava ela, vendo a manhã gelada escapar pela janela. Adormeceu, mas não pelo cansaço e quando acordou, sentiu que já havia se passado tanto tempo, que não mais deveria ser inverno. Porém, o ar frio e a manhã acinzentada preencheram seus pensamentos ao se aproximar da janela, os embranqueceram. Andou descalça pela casa, tocando de leve os móveis e as paredes com a ponta dos dedos enquanto caminhava, onde cada lugar, cada canto daquela casa guardava seus sentimentos, seus desejos e memórias. Pela porta, pode vê-lo no balanço, segurando algo que seus olhos não conseguiam se fixar. Avançou descalça pela neve fofa e parou atrás dele, abraçando-o pelas costas.
"Por que você está tão longe? Por que foge de mim?" – disse ela, encostando o rosto em seus cabelos. Contudo não obteve resposta, como já esperava.
"Você não pode fugir de mim para sempre, você não pode fugir da sua alma gêmea… lembra-se? Mesmo esse silêncio não é o bastante para me afastar de você, nada vai me fazer te perder, nem mesmo esse inverno sem fim do qual nos prendemos." – Desta vez sua resposta veio em lágrimas, acompanhadas de um choro baixo e sufocado. O que havia acontecido?
– Por que você fez isso? – sussurrou ele, olhando perdidamente para algum ponto inexistente na pureza da neve – Você sempre foi tudo para mim, sua presença iluminava os meus dias! Você guiava minha alma no escuro, mas agora... você me tirou tudo isso.
“Eu ainda estou aqui, por você e para você! Eu te amo, e sempre vou te amar… por favor esqueça o passado, esqueça esse mundo de caos, de agonia e de morte…. Por que nada pode ser como antes? Quando éramos felizes só nos dois?”
– Você não cumpriu sua promessa, você a despedaçou. Assim como despedaçou minha confiança. Nesses últimos dias, sinto como se tivesse você, mas na verdade não tenho e sei que nunca mais terei... — sua voz sumia cada vez mais, desaparecendo em meio ao choro. Levantou-se de repente derrubando uma pequena caixa que segurava – Por que você tinha que ter feito aquilo, justo naquela noite?
"Eu sei que estraguei tudo e que por isso estamos aqui, no meio do nada. Mas tivemos momentos tão felizes nesta casa. É o nosso lugar, perdido de tudo e de todos, só meu e seu! Então não fuja de mim... mesmo que meu erro tenha feito você perder muito, você ainda tem a mim! Sabe, eu nem me machuquei naquele dia, mas me dói muito cada vez que você me olha desse jeito…com esse olhar frio… "
– Sinto muito se foi por minha culpa, sinto muito por não ter dito nada a você! Que o silêncio seja meu castigo, minha eterna punição por não ter dito o quanto te amava, o quanto você era importante para mim…
"Não se preocupe, estou aqui para você! Estou..." — suas palavras se perderam em sua boca. No chão, estava uma pequena caixa de papel aberta. Dela caíam, cartas, fotos e uma aliança, a mesma que ela jurava usar naquele instante. A mesma que foi passada de gerações pela sua família. Naquele momento, ela percebeu, havia entendido tudo. A neve, o inverno sem fim, o silêncio.
Ele abaixou-se para apanhar o conteúdo da caixa, mas tropeçou e caiu de joelhos.
– Por que você me deixou? Por que você foi embora e me deixou nesse mundo vazio? Por que não importa em que estação estamos, sem você…para mim será sempre inverno…
Ela ajoelhou-se junto a ele e o abraçou forte. Naquele momento desejou mais do que nunca que ele soubesse que ela estava ali, que sempre esteve e sempre estaria ao seu lado, pois era sua alma gêmea. O corpo poderia morrer e até mesmo a mente poderia se apagar, mas o amor de uma alma é eterno.
Não importava mais o quanto aquele inverno durasse, ela ainda estaria ali ao seu lado, esperando aquele frio acabar.
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