Inverno [PAUSADA]
3 Elsa
Eu odiava que me prendessem.
Simplesmente passei tempo de mais presa e afastada do mundo para aceitar que um ninguém como Jack Frost me trancasse. Por esse motivo, usei minha magia para me libertar e acabei destruindo a carruagem – o que não estava em meus planos.
– Haha! – riu uma voz familiar. – Aí está ela!
Hans estava ali, como suspeitei. Aquela ameaça contra Arendelle não me deixou dúvidas e agora, vendo-o com meus próprios olhos, a raiva começou a borbulhar dentro de mim. Como ele ousava voltar aos meus domínios depois de tudo que fez contra Anna e contra mim?
– O que faz aqui? – esbravejei para Hans, cerrando as mãos em punhos. Gelo começava a esfriar meus dedos.
Hans fez uma reverência debochada.
– Não fazia ideia de que vossa majestade sentia tanto a minha falta – ronronou ele.
– Vá embora, príncipe Hans – rosnei. — Deixe Arendelle e terei misericórdia do senhor!
– Misericórdia? – ele riu, sacudindo a cabeça. Então sua expressão se fechou numa carranca. – Não preciso de misericórdia, rainha Elsa. Quero justiça.
Franzi a testa.
– Justiça? – Jack Frost perguntou, ao meu lado. Eu mal havia notado sua presença.
– Sim – assentiu Hans, aproximando-se -, justiça para o povo desse reino, que não merece um monstro como governante!
Investi contra ele usando minha magia. Antes que ela pudesse atingir Hans, um clarão me cegou e eu recuei, cobrindo os olhos.
– Mas o que...?! – exclamou Jack, boquiaberto.
Abri os olhos e olhei para Hans, esperando encontrá-lo congelado feito um iceberg.
Mas não.
Ele sorria, vitorioso. E labaredas de um fogo vermelho dançavam entre seus dedos.
Arquejei, pega completamente de surpresa. Hans tinha magia. Hans tinha magia! Como isso era possível?
– Não... – sussurrei.
Hans juntou as mãos e mais fogo brotou de seus dedos. Encolhi-me quando ele correu em minha direção e me preparei para a dor que aquelas chamas causariam em minha pele. No entanto, algo interferiu. Ou melhor, alguém.
– Você não irá machucá-la! – bradou Jack, interceptando Hans e apontando para ele seu cajado mágico. Seus cabelos brancos e bagunçados pareciam ter luz própria e seus olhos faiscavam em fúria.
– Não fique em meu caminho! – gritou Hans, lançando suas chamas contra Jack.
Eu gritei e cobri os olhos.
– O quê?! – ouvi Hans exclamar com raiva. – Você... você também?
Um som estrondoso me sobressaltou. Meu coração disparou quando olhei para o que acontecia e vi que Jack havia criado uma espessa parede de gelo que nos separava de Hans e estava caído de joelhos no chão, sem fôlego. Corri até ele e toquei seu ombro.
– Oh, céus, você está bem? – perguntei.
Ele levou alguns segundos para responder.
– Eu... eu estou. Tudo bem.
Ajoelhei-me ao seu lado.
– Obrigada. Você... salvou a minha vida.
Jack olhou para mim e fiquei presa em seu olhar por não sei quanto tempo. A intensidade com que seus olhos me encaravam me deixou arrepiada e eu quase perdi a noção do que estava acontecendo. Até Hans começar a derreter a parede de gelo.
– Você não vai escapar, rainha!
Jack arregalou os olhos e me puxou contra ele pela cintura.
– Confia em mim? – ele me perguntou com urgência.
Minha resposta foi um soluço:
– Sim.
Jack me segurou com força e girou seu cajado. E então estávamos no ar, pairando pelo bosque como folhas ao vento. Pude ouvir Hans praguejando lá embaixo, mas logo sua voz desapareceu. Estávamos voando. Voando de verdade! Anna não acreditaria quando eu lhe contasse!
– Jack! – arfei, o rosto bem perto do rosto dele. – Estamos voando! Isso é real?
Ele gargalhou.
– Sim, majestade.
Passei os braços ao redor de seu pescoço e olhei para baixo, fascinada. Percorremos todo o bosque e sobrevoamos o vilarejo numa velocidade deliciosa. Aquilo era mais do que incrível, era surreal. Era a verdadeira liberdade. Eu não queria que acabasse nunca.
Cedo demais, estávamos de volta ao castelo, de volta à sacada de meu quarto. Jack me colocou no chão e apoiou-se contra o parapeito, trêmulo.
– Ele me viu – sussurrou, parecendo fraco.
– O quê? – perguntei.
– Aquele príncipe. Ele me viu também. Falou comigo.
Eu não compreendi.
– E isso é algo ruim?
Jack me encarou, cansado.
– Eu não sei – admitiu ele.
Cruzei os braços, meio sem saber o que fazer.
– Preciso ir, majestade – Jack arfou.
– Elsa – assenti para ele.
Jack sorriu.
– Preciso ir, Elsa.
Juntei toda a minha coragem e segurei sua mão, meio desajeitada. Estava tão grata pelo que ele havia feito!
– Obrigada, Jack. De verdade. Eu não sei o que faria se você não...
Ele soltou minha mão e afagou levemente meu rosto.
– Não precisa agradecer.
E então seu semblante se fechou, cheio de preocupação.
– Ele voltará, não é? – perguntou e eu nem precisei adivinhar de quem ele falava.
Engoli em seco.
– Sim, vai. Ele é persistente.
– Por que ele quer tirá-la do trono?
– Príncipe Hans é muito ganancioso. Tem doze irmãos mais velhos e é o último na linha de sucessão do trono das Ilhas Do Sul. O que ele mais quer é ser rei, não importa o que tenha que arriscar ou quantas vidas precise sacrificar...
Jack franziu a testa.
– Vidas?
– Há mais ou menos um ano, ele esteve aqui. Foi durante minha coroação, quando ninguém em Arendelle sabia sobre minha magia. Hans seduziu minha irmã para que aceitasse se casar com ele.
– E ela aceitou? – surpreendeu-se Jack.
– Anna é um pouco precipitada às vezes – dei de ombros. – As coisas ficaram confusas quando meu segredo foi revelado. Eu fugi de Arendelle e Anna decidiu me trazer de volta. Mas eu... eu a machuquei – encolhi os ombros, envergonhada. — Hans abandonou Anna para que morresse sozinha e tentou me tirar de seu caminho, se é que você me entende. Felizmente, minha irmã me salvou.
Doía muito falar sobre aquele assunto, mas eu queria que Jack soubesse o que aconteceu. Queria dividir as dores do meu passado com alguém e ele parecia tão receptivo... Era bom ter alguém com quem desabafar depois de tanto tempo.
Ele ficou sem dizer nada por algum tempo.
– Então esse Hans irá tentar um golpe outra vez – Jack concluiu finalmente.
Mordi o lábio.
– Sim, ele irá. Mas Anna e eu não permitiremos, não se preocupe – sorri. – Com ela ao meu lado, sei que consigo controlar minha magia perfeitamente bem para defender meu reino.
Jack pareceu atormentado.
– Mas não posso deixar você se defender sozinha. Não quando posso ajudar.
Senti meu coração se agitar.
– Não deixe o castelo até que eu volte, Elsa.
Franzi a testa. Eu não gostava de receber esse tipo de ordem.
– Ficarei bem, Jack...
– Não – ele interrompeu. – Deixe-me ajudá-la. Sei exatamente o que fazer para deter Hans.
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