Inverno
1 único
Nós duas de mãos dadas, deitadas na cama e sua gata aquecendo minha barriga. As testas coladas na outra, seu peito subindo enquanto dorme e Tempo Perdido tocava ao fundo.
Bitucas de cigarros na mesa de cabeceira, meus óculos ao lado, sapatos virados pra baixo, garrafas vazias no chão e meias listradas nos pés.
Foi o que restou de nossa festa particular. Você ligou desesperada para mim, dizendo que se sentia só.
E eu me lembrei que antes de conhecê-la me sentia muito só. Eu até mesmo te chamei de "minha luz", aquela que iluminaria tudo no breu dos meus pensamentos sabotadores.
Seu sorriso era a primeira coisa a aparecer e a última a ir embora, marcava como ferro em brasa na pele e na alma, dispersava como brumas no oceano. Gostava de me imaginar despida numa floresta e você como vaga-lumes; brilhando forte, grudando, e virando um belo vestido fluorescente em meu corpo.
Mas eu não sabia que você se sentia só. Até mesmo me vendo todos os dias. Talvez não te conhecesse esse tempo todo, talvez não fosse o suficiente para ti.
Talvez sou daquelas românticas que assistem doramas.
Talvez só pense em mim mesma, quando eu acho que só penso em ti.
Penso tanto e dou voltas, chego na conclusão que o que sinto é superficial. Ao menos para você.
Seus lábios estão próximos aos meus, mas não são atraentes. Incitam o que há de mais triste em mim e eu a beijo porque não fará diferença.
Não aquecerá ninguém.
Fale com o autor