Inverno
1 "Winter" - Vivaldi
Era uma vez, em uma terra distante, uma jovem florista que vivia em um bosque que parecia encantado. Esse bosque, na primavera, enfeitava-se das mais lindas flores da região e por tal motivo é que a moça, dona de uma pequeníssima e cativante floricultura, preferia morar no local. Ali, a matéria-prima ficava bem ao seu alcance e sua inspiração era constantemente alimentada quando, a cada manhã ensolarada, ela abria as janelas de seu aconchegante chalé e via aquele desfile interminável das bonitas flores primaveris que desabrochavam diante de seus olhos, como se lhe desejassem assim um bom dia.
Sua pequena floricultura ficava em uma vila nos arredores do bosque. Todos os dias, a moça se levantava cedo da cama, tomava um gostoso desjejum e punha-se logo a colher as flores mais interessantes, chamativas e perfumadas que seus olhos descobrissem. Colocava-as com toda a delicadeza em seu cesto de vime e então rumava para sua pequena loja.
Em sua floricultura, dedicava-se à arte de criar belos enfeites com as flores colhidas. Fazia arranjos florais diversos, como buquês, pulseiras, coroas e tudo o mais que lhe encomendassem. Realizava seu trabalho com muito esmero, pois era parte de sua natureza a doçura usada para lidar com seus clientes. Os floridos enfeites nascidos das hábeis mãozinhas eram mais que um mero trabalho; essa era sua forma de dialogar com o mundo. A jovem florista era uma menina muito tímida, que usava sempre de poucas palavras na hora de se comunicar. No entanto, isso não significava que ela fosse uma pessoa fria, que gostasse de se manter isolada. Muito pelo contrário; a mocinha possuía um coração que transbordava de amor, porém ela não sabia como ou para quem direcionar o que sentia.
Por meio das flores, ela encontrava um meio de dar vazão a esse sentimento. A florista ficava sempre muito contente quando recebia um sorriso por seu trabalho. As encomendas eram feitas com muito amor e, quando o cliente vinha buscar o enfeite, a florista compartilhava desse amor que aquele presente representava.
A dona da floricultura era uma mulher pequenina e delicada, mas seu coração era vasto e ansiava por provar desse sentimento que sempre resvalava sua existência, mas nunca a havia atingido em cheio até então. E, pelo modo contido de ser, com os finos e lisos cabelos negros ocultando a face pálida, deixando apenas entrever seus olhos azuis, como se uma fina cortina escondesse os mistérios ali guardados, a moça ia seguindo pela vida passando quase despercebida da maioria das pessoas que viviam ali, naquela vila. Todos a conheciam apenas por ser a "moça das flores" e ninguém jamais teve curiosidade de saber mais a fundo sobre sua vida, sobre quem ela era.
Ao lado da floricultura, havia uma pequena loja de restauração de instrumentos musicais. A florista adorava o momento em que o velho senhor, responsável pelo conserto dos equipamentos confiados a ele, fazia um teste para verificar a afinação dos instrumentos por ele reparados. Nesses momentos, a vida parecia a ela mais leve, mais suave e era como se a convidasse para dançar. Sozinha em sua loja, a mocinha dava alguns rodopios e depois ria de si mesma, achando-se tola. Mesmo assim, não podia evitar e toda vez que a música invadia sua floricultura, ela dançava uma vez mais, consigo mesma.
Dessa maneira, sua vida ia seguindo, sem grandes solavancos. Sempre tão igual, sempre isenta de novidades.
Até que o inverno finalmente chegou.
A estação da neve logo se fez sentir, desde os primeiros dias. O frio intenso vinha carregado por ventos que sopravam com força, tornando o simples ato de caminhar pelas ruelas da vila um grande esforço.
O inverno era uma estação que não costumava ser muito produtiva para a pequena florista. Às vezes, ela conseguia encontrar algumas flores que sobreviviam ao frio e à neve em seu querido bosque, mas isso era a exceção. Não sendo, portanto, atividade das mais lucrativas e considerando que não tinha como objetivo de vida enriquecer, a jovem preferia se abster de trabalhar durante essa estação. Praticamente fechava-se em seu chalé durante esse período e apenas ia até a vila para comprar provisões.
No seu último dia de trabalho, antes de fechar sua lojinha e se enclausurar em sua casinha, a moça sequer se despedia dos vizinhos. Era sempre calada, discreta e por não ser figura muito marcante, sua ausência também não era muito sentida, assim como sua presença.
Naquele dia em especial, os ventos sopravam com uma rigorosidade acima do normal. O vento tão frio anunciava que a neve não demoraria a cair. A florista finalizou seus trabalhos em sua loja, deixou tudo preparado para quando retornasse ao término dessa estação, e partiu.
Fechou-se em seu grosso casaco de lã e caminhava olhando para os pequeninos pés, que seguiam em passos curtos, mas rápidos. Por isso, levou um susto quando um pequeno cartaz foi trazido pelo vento de encontro a seu rosto castigado pelo frio.
Com alguma dificuldade, a florista afastou de si o pedaço de papel que parecia abraçar seu rosto, devido à fúria com que o vento o empurrava contra ela. Quando conseguiu enfim retirá-lo de sua face, a imagem estampada no cartaz chamou-lhe rápido a atenção.
Era a figura do príncipe herdeiro do trono daquele reino. A florista já havia escutado uma ou outra notícia a seu respeito, mas sem demonstrar grande interesse, nunca procurou se aprofundar nesse assunto. O cartaz dizia que o príncipe, que normalmente passava a maior parte de seu tempo viajando por outros reinos, em missões diplomáticas, vinha agora para ficar naquele que era o seu lar em definitivo. O rei estava envelhecendo e era importante que seu herdeiro estivesse mais presente na região, agora que seu momento de coroação naturalmente se aproximava.
Esse cartaz era do tipo que ficava afixado em paredes de casas. Muitas pessoas da vila não tinham o hábito de leitura, de modo que livros não faziam parte de suas rotinas. E nem todos compravam jornais, por acreditarem que se tratava de um desperdício de dinheiro gastar com algo considerado por muitos ali como um hábito supérfluo. Por tal motivo, quando uma importante notícia tinha de ser veiculada, cartazes eram afixados pelas ruas, de modo que ficassem bastante expostas para a leitura de todos que por ali passassem.
O cartaz com a imagem do príncipe era desse tipo. Havia muitos outros espalhados pela vila. Era uma notícia importante, afinal.
O vento frio e forte, no entanto, encarregou-se de arrancar não só esse, como vários daqueles cartazes de seus lugares e fazia com que aqueles pedaços de papel dançassem ao sabor de pequenos redemoinhos de vento que se formavam aqui e ali.
A florista encarou por alguns segundos a imagem do príncipe estampada no cartaz. Suas mãos seguravam o papel com força, evitando que o mesmo vento que lhe trouxera aquela figura levasse-a embora.
O príncipe era muito bonito. O rosto másculo denotava confiança, segurança... Os olhos, que na imagem demonstravam ser desbravadores, apontavam para o infinito, como se ele olhasse para além daquela folha de papel. A farda vestida por ele dava-lhe majestosa elegância e tudo se combinava perfeitamente para a formação de um belo e apreciável quadro.
A imagem estava em preto e branco, mas isso não importava. Independente das cores daqueles bonitos cabelos e do poderoso olhar, a florista já havia concluído: era um homem bonito. Talvez o mais bonito que já houvesse visto em sua vida.
Uma rajada mais forte do vento invernal a despertou desse momento quase sublime de admiração em que se via envolvida. De volta à realidade, ela dobrou o cartaz em quatro partes e cuidadosamente o colocou em sua bolsa de couro. Então, voltou a seguir caminho rumo a seu chalé.
Chegando a sua casinha, a florista tratou de logo acender a lareira de sua cabana, preenchendo-a de luminosidade e de um agradável calor. Livrou-se das pesadas roupas que vestia e preparou um pouco de chá para se aquecer.
Já vestida em roupas mais confortáveis, a jovem sentou-se em uma poltrona com sua xícara de chá. A seu lado, sobre uma banqueta, jazia a bolsa de couro, deixada ali não por acaso. Sentindo-se revigorada após um gole da bebida quente, a moça tomou a bolsa em mãos e, de dentro dela, retirou o cartaz dobrado com cautela.
Desdobrou devagar o pedaço de papel, notando apenas agora que ele já estava um pouco castigado pelas intempéries daquele inverno. A folha estava até mesmo bastante amassada e a florista, com toda a delicadeza que lhe era imanente, foi passando sua mãozinha por todo o papel, buscando assim, alisá-lo o máximo possível.
Em seguida, permitiu-se analisar mais a fundo o cartaz. Não se cansava de admirar a beleza do jovem príncipe, mas resolveu enfim ler o restante da notícia que vinha abaixo da imponente imagem do herdeiro do trono.
As letras lhe diziam que um baile seria oferecido em homenagem à chegada do príncipe. Seria uma grande festa. A florista suspirou. Não entendia por que noticiavam sobre assuntos desse tipo em uma vila como aquela. A maioria das pessoas que lá viviam não eram donas de muitas posses e obviamente nunca iriam presenciar um evento como aquele. Haveria um baile, pois sim. Contudo, tal festa estava completamente fora do alcance dos moradores daquele lugar.
A moça das flores, como era conhecida, nunca estivera em um baile, mas sonhava com isso. Ela possuía um único livro, que ganhara uma vez como forma de pagamento pelo seu trabalho. Esse livro contava a história de uma jovem donzela, que conhecia o amor de sua vida em um grandioso baile, num suntuoso castelo, durante uma valsa.
Por várias vezes, sonhara acordada com essa história. Como gostaria de encontrar um amor dessa mesma maneira! Acreditava que seria até mesmo mágico, quando os olhares dos amantes se cruzassem durante a dança e, entre um rodopio e outro, os corações passassem a bater no mesmo ritmo, compassadamente, como se pertencessem a um mesmo peito.
Quando a música proveniente da loja ao lado invadia sua floricultura e alcançava seus ouvidos, a menina rodopiava, imaginando que dançava em um baile, onde conheceria seu grande amor. Ela não sabia valsar, mas isso não importava. Pelo que tinha lido, era uma dança cheia de rodopios e isso lhe bastava. Gostava da sensação de dar voltas em torno de si mesma, chegando a ficar zonza após tanto girar. Era, todavia, uma sensação agradável, uma espécie de torpor que lhe deixava extasiada.
Ficou imaginando como haveria de ser o baile em homenagem ao príncipe. Começou a sonhar com todas as luzes e músicas que existiriam num lugar como aquele. E olhava com ardor para a figura do príncipe, tão entretida que demorou a perceber que começava a nevar lá fora. Só se deu conta desse fato quando sua janela, que não estava firmemente fechada, abriu-se por conta do vento e permitiu que entrassem na sala alguns flocos brancos de neve. A florista correu para cerrar as folhas de madeira, que se agitavam loucamente por causa do vento, fazendo ranger as velhas dobradiças da janela.
Entretanto, segundos antes de conseguir fechar a passagem de vento, a imagem que vira lá fora tinha sido encantadora. O vento fazia os flocos de neve rodopiarem rapidamente, subindo e descendo em espiral, como se dançassem.
Parecia-lhe um convite.
A jovem olhou para o cartaz sobre sua poltrona. A imagem do príncipe atraiu-lhe de modo que foi até ela, tomou o pedaço de papel em suas mãozinhas finas e sorriu. Era um convite então.
Sem nem ao menos se preocupar em vestir roupas mais quentes, a florista deixou sua cabana e, segurando o cartaz com as duas mãos, começou a rodopiar em meio aos flocos de neve que pareciam dançar junto dela.
Ela dançava enquanto a neve caía e dava voltas e mais voltas sem tirar seus olhos dos olhos profundos do príncipe.
Parou somente quando se sentiu zonza o bastante. Devido à tontura que lhe acometeu, perdeu o equilíbrio e terminou por cair. Felizmente, o chão estava já bem recoberto de uma grossa e fofa camada de neve, o que a impediu de se machucar. A moça riu muito, ainda se divertindo com a sensação entorpecente de ver o mundo girar ao seu redor. Quando finalmente resolveu se levantar, sentiu uma dor a picar-lhe o dedo. Tinha se apoiado no chão e não vira uma bonita rosa vermelha que a neve escondera e que lhe feriu com um espinho.
Seu dedo começou a sangrar, mas não era nada grave. A florista ficou então observando o filete de sangue que escorria, sem pressa de estancá-lo. Viu como uma gota de sangue caiu sobre a neve muito branca e achou bonito aquele contraste do branco tão frio com o vermelho tão quente.
Por estar muito ocupada fitando seu próprio sangue sobre a neve, a moça não notou que outra gota escarlate descia-lhe pelo dedo e pingava agora em cima do cartaz que a outra mão segurava. Quando percebeu, uma gota tinha caído sobre o peitoral forte do príncipe em um formato que lembrava um coração.
O frio começou a se fazer notar propriamente e a florista compreendeu que era hora de retornar à sua cabana. Fez uma mesura, como se agradecesse aos flocos de neve pela dança oferecida e, dentro de seu chalé, sorriu gentil para a imagem do príncipe, como se também lhe fosse grata por ele tê-la acompanhado nessa dança.
Nesse instante, ela poderia jurar. A imagem do príncipe parecia ter-lhe sorrido de volta.
Sacudiu a cabeça. Estava imaginando coisas? Olhou novamente para a figura do garboso príncipe. Seu olhar continuava direcionado para o infinito e o rosto, sério e galante como sempre esteve.
A garota riu; estava certamente cansada e tendo visões nada apropriadas. Encaminhou-se para seu quarto e preparou-se para dormir. Antes de se deitar, colocou o cartaz sobre o criado-mudo, para que a última imagem que seus olhos azuis vissem antes de se fecharem fosse a figura do príncipe.
No dia seguinte, a manhã era fria e tudo ao redor do chalé estava coberto de neve. Havia parado de nevar, mas sair de casa seria uma verdadeira epopeia. Não tendo por que sair de sua cabana e já sendo de seu hábito permanecer em clausura durante o inverno, a florista não se importou com o fato de estar basicamente ilhada e deixou-se estar em seu confinamento. Não era a primeira vez que se via em uma situação do tipo, mas era a primeira em que se sentia acompanhada. A imagem do príncipe era-lhe tão real quanto uma companhia verdadeira, quanto uma pessoa de carne e osso. Fazia-lhe feliz. E ela descobria assim como a felicidade poderia brotar de pequenos detalhes.
Passou alguns dias fechada em casa, mas bastante ocupada em entreter-se com aquele a quem ela chamava de seu "convidado". Servia chá para si e para ele, colocava o cartaz na mesa sobre o lado oposto ao que se sentava, conversava com ele sobre todos os pequenos assuntos que lhe interessavam. Falava sobre suas flores, sobre os enfeites mais bonitos que fizera. Comentava sobre os bailes que o príncipe certamente frequentava e perguntava a ele se gostava de dançar neles. Imaginava sempre as respostas que ele lhe daria, ria às vezes com algum comentário que ele fizesse, dizendo que nenhuma garota já vista por ele em algum baile poderia ser comparada a ela, tão superior a todas as outras. A jovem dava risadinhas tímidas e chegava a enrubescer. Depois, sentava sobre sua poltrona e carregava o cartaz consigo. Lia então, em voz alta, os trechos preferidos do seu querido livro, como se quisesse que o príncipe lhe escutasse. Em seguida, conversava com o cartaz, indagando à imagem qual sua passagem preferida e imaginando as respostas que o príncipe lhe daria.
À noite, gostava de dançar, especialmente se estivesse nevando. Adorava rodopiar em meio aos flocos de neve que caíam, sempre segurando o cartaz em suas mãos, com um olhar apaixonado direcionado a ele.
Foi, entretanto, após uma semana que a jovem florista criou coragem e finalmente fez algo que, por mais ingênuo que pudesse parecer, exigiu da moça força de vontade suficiente para vencer sua timidez. Seu coraçãozinho já experimentava o amor, um amor casto e inocente, mas nem por isso menos forte. Era um amor platônico, mas muito mais real do que tantos outros sentimentos que já experimentara em sua pacata vida.
Estava rodopiando na neve, com um olhar ardente para o príncipe. Via como aquele olhar era forte e profundo e desejava tanto que ele olhasse para si! Isso, porém, não acontecia, já que a imagem eternizara aquele olhar direcionado para o infinito.
Subitamente, a moça tomou um susto. Assim como o ocorrido na primeira noite, ela pôde jurar que os olhos do príncipe voltaram-se para ela! Não era possível, mas parecia tão real! Ele olhava para ela, não poderia ter dúvidas. Sentiu aquele olhar queimar-lhe a pele, com olhos tão densos e penetrantes que pareceram invadir-lhe a alma. Era como se sua existência fosse-lhe arrebatada assim. O olhar, poderoso e magnético, era também demandante e a jovem nada pôde fazer, a não ser obedecer ao que seu coração lhe ordenava. Trouxe, timidamente, o cartaz para junto de seu rosto e delicadamente deitou um beijo doce nos lábios do príncipe.
Era seu primeiro beijo.
Era seu primeiro amor.
Voltou para seu chalé um pouco sem-graça, quase sem coragem de encarar a imagem novamente. Contudo, quando o fez, teve certeza de que a figura lhe encarava amorosamente. E aqueles lábios, testemunhas únicas do beijo que concretizara, sorriam para ela. Tinha certeza.
Dormiu aquela noite sentindo-se leve, como nunca antes. Sentia-se plena, sentia-se feliz.
A vida, no entanto, é cheia de reviravoltas. No dia seguinte, nada em sua rotina havia mudado. A única diferença é que se permitia olhar para a imagem do príncipe como se ele fosse seu amante. E assim prosseguiu ao longo daquele dia, alegre, apaixonada.
Quando a tarde começou a morrer, um vento mais intenso indicava que uma forte tempestade se aproximava. A florista tomou o cuidado de fechar portas e janelas muito bem e pediu desculpas ao seu príncipe, pois naquela noite não poderiam sair para dançar.
A tempestade de neve veio arrasadora. Parecia que um manto branco se estendera sobre a terra. Não era possível enxergar um palmo à frente do nariz e a florista, entediada de tentar enxergar algo lá fora através da sua janela, fechou a cortina e voltou-se para o cartaz, dizendo para seu príncipe que não sabia se o tempo estaria bom no dia seguinte. Talvez não pudessem dançar também na próxima noite...
A mocinha estava entretida conversando com a figura do cartaz, enquanto preparava um chá para se aquecer naquela noite fria, quando ouviu, de repente, baterem em sua porta.
A jovem assustou-se. Àquela hora da noite, em meio a uma tempestade como aquela, no meio de um bosque tão isolado... Quem poderia ser?
A moça das flores hesitou. Teria mesmo ouvido algo? Às vezes, achava que a solidão poderia acabar afetando seu bom julgamento — se é que isso já não estivesse acontecendo. Ela tinha plena consciência de que conversar com um pedaço de papel não era algo muito sensato, mas lhe trazia alguma alegria e por isso relevava esse fato. Porém, uma batida em sua porta, num momento como aquele, era estranho demais. Estaria perdendo o juízo.
Novamente, a batida se fez ouvir. Mais vigorosa, não dava margem a qualquer dúvida. Havia alguém ali fora e o desespero era notado nas batidas que começaram a se repetir, mais fortes.
Não pensou mais, a situação demonstrava urgência e a garota correu até sua porta, abrindo-a de uma vez. Tão logo a porta foi aberta, um corpo caiu em sua sala. Um homem, que, pelo visto, apoiava-se na porta de madeira, perdera já os sentidos e desmaiou assim que a florista abriu passagem para ele entrar.
Fechou a porta, cessando a ventania que adentrara sua casa. O homem tinha o corpo coberto de neve e estava muito frio. Ele era maior que ela e a pobre garota não teve forças para levantá-lo ou carregá-lo a qualquer outro canto. Concluiu que teria de aquecê-lo ali mesmo.
Reforçou a lareira, jogando mais achas de madeira ali. Trouxe vários cobertores para a sala e buscou fazer uma espécie de ninho ao redor do homem. Começou a retirar o casaco que ele vestia, tão esbranquiçado pela neve que seria impossível adivinhar sua verdadeira cor agora.
A retirada do casaco foi difícil, mas necessária. Ela precisava afastar a neve do corpo daquele homem o quanto pudesse, do contrário, ele não sobreviveria. Para realizar essa tarefa, ela precisou girar o corpo dele, que estava de bruços até o momento. Colocou-o então em deitado sobre as costas e só aí é que a florista pôde ver o rosto do visitante inesperado. Foi nesse preciso instante que ela levou um susto tão grande que quase se esqueceu de continuar respirando.
O homem, esse homem, desmaiado no meio de sua saleta, era... O príncipe.
O príncipe do seu cartaz. O príncipe com quem trocara platonicamente seu primeiro beijo. O príncipe que era seu primeiro amor. Seu confidente, seu amigo, seu companheiro, seu amante.
Que estranha a situação de se ver diante de um homem cuja imagem era-lhe já tão familiar, sendo que nunca estivera assim, em frente a ele. Não sabia exatamente o que sentia. Um turbilhão de sentimentos se agitava dentro dela. Porém, essa não era a hora mais adequada para investigar o que se passava consigo. A vida do príncipe corria perigo. O mais importante agora era salvá-lo.
Com uma toalha, ela secou os cabelos cobertos de neve. Pôde assim, finalmente, descobrir-lhes a cor. Eram castanhos e a florista apenas concluiu que aquele tom combinava perfeitamente com as feições que tão bem já conhecia.
Trouxe-lhe um pouco de seu chá e esforçou-se para fazer o líquido quente entrar por aqueles lábios pálidos. Após algumas primeiras tentativas frustradas, ela conseguiu. Mais que isso, a florista foi capaz de fazer o príncipe despertar, apesar de fraco.
O rapaz ficou bastante perdido inicialmente, mas o sorriso que a moça das flores lhe apresentou foi reconfortante. Ele quis dizer algo, mas não conseguiu. Seu corpo pedia por descanso. A garota compreendeu a intenção, e disse que ele não se preocupasse. Ela cuidaria de tudo.
E assim o fez. Embora a fraqueza se apoderasse de seu corpo, o príncipe conseguiu, com ajuda da menina, erguer-se e ir para o sofá. Deitou-se lá, tomou o chá, foi enrolado por diversas cobertas e repousou. Quando enfim despertou, a florista tinha lhe preparado uma sopa quente. Com as forças começando a retornar, o príncipe foi capaz de explicar que vinha com a comitiva real para o castelo de seu pai, mas que foram surpreendidos pela forte tempestade de neve no caminho. Ele não sabia o que tinha ocorrido com os homens que o acompanhavam; recordava-se apenas de andar a esmo, sem conseguir enxergar qualquer coisa à frente, perdido de todos os outros, que provavelmente enfrentavam a mesma dificuldade que ele. Não imaginava quanto tempo esteve assim, andando sem rumo, mas se lembrava bem de ter achado o chalé em meio àquela tempestade e de ter acreditado, em um primeiro momento, que se tratasse de uma miragem.
Contudo, ele via agora que era real. O chalé e sua dona. E ele era extremamente grato por tudo o que ela fizera.
A florista mal conseguiu responder. Estava perdida naquele olhar. Sob a luz tênue daquela manhã, tinha enfim conseguido descobrir que os olhos do príncipe eram verdes, de um tom escuro e profundo, que logo a hipnotizaram. As palavras dele também a deixaram enfeitiçada e a garota não sabia como reagir.
Não puderam conversar muito, porque o príncipe necessitava de descanso para se recuperar. Durante os dois dias em que esteve no chalé, ele mais dormiu que qualquer outra coisa. A florista olhava para ele enamorada, mas confidenciava seus sentimentos à imagem no cartaz. Dizia à figura do príncipe que não sabia como se comportar diante de sua versão real. Falava que ele era tão bonito pessoalmente, que gostaria de se fazer adequada frente a ele, mas não conseguia. Nas poucas horas em que ele ficava desperto, quando ela o alimentava, trocavam alguns olhares e sorrisos, mas quase nenhuma palavra.
Por tudo isso, ela se lamentava para seu cartaz, como se o príncipe de papel fosse agora um amigo que lhe pudesse confortar.
Dois dias depois, quando a tempestade havia cessado inteiramente, bateram novamente à porta da moça. Era muito cedo, o sol nem havia nascido ainda.
Quando a jovem abriu a porta, viu vários homens vestidos como a guarda real. Não foi difícil deduzir que estavam ali por causa do príncipe perdido.
Foi tudo muito rápido a partir daí. Aqueles homens entraram em sua casa sem se preocupar em serem ordeiros. Levaram o príncipe para uma elegante carruagem que aguardava do lado de fora do chalé. Não deram à jovem grandes explicações, nem ela pediu por isso. O príncipe, ainda convalescente, não pôde dizer ou fazer muito. Apenas agradeceu à moça, apertando sua mão calorosamente.
Tão abrupta quanto foi sua chegada, foi também sua partida. A florista nem conseguia ainda compreender tudo o que havia acontecido. Passou o restante do dia sentada em uma cadeira, olhando fixo para fora, através de sua janela.
Naquele dia, deixou de lado até mesmo o seu querido cartaz, que antes a acompanhava aonde quer que fosse.
À noite, não saiu para dançar em meio à fina neve que caía. Continuou ali, onde estava, deprimida, sem entender ao certo o que sentia.
Por alguns dias, esteve nesse estado. Não se interessava por qualquer coisa e o cartaz com a figura do príncipe continuava abandonado. A jovem somente ficava sentada ao pé da janela, como se esperasse a chegada de algo ou alguém.
Finalmente, depois de alguns dias assim, ela viu a mesma elegante carruagem que levara o príncipe dali se aproximando de sua cabana. Sentiu o coração aos pulos, quase não conseguiu conter a euforia que jorrava de si. Abriu a porta do chalé tentando não demonstrar grande comoção, mas não foi capaz de evitar um grito emocionado quando um mensageiro lhe disse que, por ordem do príncipe, vinha até ali para pedir a mão da camponesa em casamento.
A florista aceitou, animada, como se um novo sopro de vida acalentasse sua existência. Era claro que havia uma pequena frustração, porque o pedido não viera diretamente do príncipe, mas a moça não quis se importar demais com o que julgava ser apenas um detalhe. Correu para arrumar suas coisas, porque o mensageiro disse que, em caso de resposta positiva, tinha recebido instruções de levar a garota para o castelo. Ela não possuía muitas roupas e não havia muito ali que ela necessitasse carregar consigo. Na verdade, tinha somente dois objetos que sentia grande necessidade de carregar com ela: o livro que trazia a apaixonante história com que sonhara por tanto tempo e o cartaz. Era engraçado, mas ela sentia que não poderia deixar aquele pedaço de papel para trás. Mesmo estando prestes a se casar com o príncipe em pessoa, aquela imagem era muito querida para ela. Portanto, com um cálido sorriso, dobrou o cartaz em quatro partes e o guardou dentro do livro, que colocou dentro do baú onde levava suas poucas vestimentas apresentáveis.
Durante o trajeto até o castelo, sonhou com tudo o que lhe aguardava. Imaginava-se sendo recepcionada pelo príncipe. Imaginava como seria quando se casassem. Haveria um baile? Dançaria com ele? Seria como em seus sonhos? Ela não sabia, mas mal podia esperar para descobrir.
Infelizmente, ela se arrependeu de ter tanta pressa para saber como seria sua vida dali em diante. Teria sido melhor continuar sonhando. A realidade fora bem diferente de suas expectativas.
O príncipe a recebera quando ela chegara ao castelo, mas não ficara muito tempo com a moça. Dissera-lhe apenas que agradecia por ela ter aceitado seu pedido e que, com isso, fazia o certo pelo reino. Ele precisava de uma esposa, uma futura rainha, que fosse boa, generosa, altruísta, como ela provara ser. Todo o reino aprovava a escolha dessa noiva, a jovem que salvara a vida do príncipe herdeiro. Era perfeito assim.
A florista gostou de ouvir a palavra "perfeito", porque também ela sempre imaginou que sua relação com o príncipe seria perfeita. Entretanto, não tardou para que a jovem descobrisse que o herdeiro do trono a via como a mulher perfeita para se enquadrar no papel de esposa e rainha, mas não em sua vida. Ele não a tratava mal, mas era muito ausente, tanto física quanto emocionalmente.
Na noite de seu casamento, houve um baile. A pobre florista tinha tantas expectativas em relação àquela noite, mas nada do que imaginava ocorreu. Sua principal frustração aconteceu no momento da valsa em que dançariam, pela primeira vez, como marido e mulher. O príncipe tinha lhe perguntado antecipadamente se ela gostaria de dançar no baile e ela respondera que sim, que ansiava muito por isso.
Provavelmente por conta dessa afirmativa tão incisiva, o príncipe tivesse achado que a jovem soubesse valsar. Foi descobrir que não era bem assim apenas no momento em que a valsa teve início. A florista começou a rodopiar pelo salão fora do ritmo da música, parecendo seguir um ritmo próprio e, definitivamente, o que ela fazia ali não era valsar. A família real demonstrou-se constrangida diante dessa cena e o príncipe, atônito, não soube como reagir. A florista só percebeu a situação quando começou a ouvir os risinhos abafados dos membros da Corte, que observavam a tudo aquilo com sorrisos sarcásticos e cruéis.
Percebendo que se via em um momento bastante embaraçoso, a moça buscou com o olhar os olhos verdes do príncipe, na esperança de que eles a amparassem. Em lugar disso, o príncipe baixou seus olhos, mostrando-se envergonhado.
A partir de então, a florista, que já era naturalmente tímida, passou a viver reclusa. Quase não saía de seus aposentos e parecia que a própria família real preferia assim.
O príncipe não a destratara, embora houvesse se sentido constrangido naquela noite. Entretanto, ele quase não ficava no castelo. Apesar de seu pai, o velho rei, pedir que ele estivesse mais presente em seu próprio reino, o rapaz alegava ser de suma importância a criação de laços diplomáticos fortes com outros reinos, sendo esse um fator crucial para um bom governo futuro.
Desse modo, a agora princesa se encontrava mais isolada do que nunca. Quando a primavera chegou, viu as flores do jardim real desabrocharem, mas sem sair de seu quarto, apenas através da janela. Não queria cruzar com ninguém, não queria falar com qualquer pessoa, não queria ser vista por quem quer que fosse.
Assim, um ano se passou. E a vida da antiga florista não melhorou. Havia uma grande pressão para que o príncipe tivesse filhos. Ele era filho único e tanto o rei quanto a rainha alegavam que uma das partes mais importantes do casamento eram os filhos. Cobravam, sempre que possível, um neto da pobre moça. No entanto, a vida não quis brindar a jovem com essa trégua, de forma que, por todo esse tempo, a garota não conseguiu engravidar. E, quanto mais tensa ficava, mais lhe parecia que essa possibilidade se afastava.
Finalmente, o inverno chegou. Foi quando a nostalgia se apossou inteiramente da antiga florista. O inverno passado tinha sido marcado por um período muito feliz para ela. As recordações de sentimentos que nunca mais experimentara deixaram a moça fragilizada. Ela não queria se alimentar direito, encontrava-se deprimida demais para isso. Quase não saía da cama, ficava prostrada em seu leito. Sabia muito bem que isso dava o que falar entre os membros da Corte, que não se cansavam de fofocar sobre sua vida. Todavia, já não se importava mais. Sentia, no final das contas, que sua vida nem mesmo lhe pertencia mais. Então, que lhe importava o que falassem.
O inverno, nesse ano, estava ainda mais rigoroso que o do ano passado. O frio intenso tinha já levado muitas pessoas do reino a adoecerem. Mesmo assim, a princesa não se importou com as recomendações sobre os cuidados a se ter nessa estação e, na primeira noite em que nevou, ela abriu as janelas de seus aposentos reais.
Estava sozinha, pois o príncipe estava viajando. Viu os primeiros flocos de neve descendo e sorriu. Aquela imagem trouxe-lhe boas recordações. Respirou fundo o ar frio daquela noite, como se assim pudesse sentir com mais intensidade as memórias despertadas. E então sentiu uma necessidade gigantesca de rever seu antigo cartaz.
Chamou um criado e perguntou de seu baú para ele. O criado não soube dizer onde ele estaria. Desde que chegara ao castelo, a antiga florista não vira mais seu baú. A família real julgou que todas aquelas roupas que ela trouxera eram muito velhas e feias, indignas de uma princesa. E o baú foi assim carregado para sabe-se lá onde.
A princesa nunca demandava coisa alguma, mas, dessa vez, ela soube fazer valer sua vontade. Exigiu que encontrassem seu baú. Não lhe interessava como, nem o que tivesse de ser feito para tanto. Reclamava seu baú com tanto ardor que o que começou como um pedido caprichoso, acabou por se tornar uma busca necessária. A moça, que estava muito vulnerável, adoeceu gravemente. E, mesmo nesse estado, não parava de pedir por seu baú. A família real julgou que essa era uma prioridade e mandou que os criados fossem atrás do baú com presteza. Imaginavam que isso pudesse acalmar o coração da jovem princesa, até que seu príncipe regressasse de mais uma viagem. Acreditavam que o retorno do herdeiro do trono poderia ajudá-la a melhorar.
Com tantos envolvidos em uma busca levada realmente a sério, o baú terminou sendo encontrado onde havia sido abandonado: em uma parte antiga e pouco acessada do castelo, lugar em que ficavam guardadas tantas outras velharias. Assim que foi achado, o baú foi imediatamente levado para os aposentos da princesa. A moça não conteve sua alegria e derramou lágrimas ao rever seu baú. Suas lágrimas não foram compreendidas pelos criados, que então se retiraram do quarto, deixando a jovem a sós com suas antigas posses.
A princesa não estava interessada em suas roupas velhas. O que ela buscava ali era seu livro, ou melhor, o cartaz dentro do livro. Ao encontrar aquele pedaço de papel, que tão familiar se fez ao contato de seus dedos, a antiga florista abriu um bonito sorriso. Olhou para a imagem do príncipe no papel e percebeu, pela primeira vez, como este era tão distinto do príncipe real. Para ela, os dois pareciam agora pessoas inteiramente diferentes.
Fez uma carícia naquela imagem, antigamente tão acalentada por ela. E, ao fixar seus olhos azuis nos olhos de seu príncipe, achou que eles estavam tristes. No papel, os olhos não eram verdes, mas, para ela, eram olhos mais verdadeiros. Ela sentia que conseguia ler esses olhos como jamais conseguira fazer com seu marido, a quem não se sentia realmente capaz de entender. Quando muito, ele era um estranho que compartilhava de sua cama em algumas noites.
Já o príncipe do cartaz era mais real para ela. E, olhando em seus olhos, a antiga florista sentia que reencontrava um velho conhecido, um amigo, ou melhor, um amor.
Seu primeiro amor.
Notou mais atentamente a expressão do príncipe naquela velha imagem do cartaz. Alisava os contornos da figura enquanto encarava a expressão daquele rosto de papel, que ela conhecia tão bem. E concluiu que estava diferente. Sim, o príncipe de seu cartaz estava mudado. Ela já o havia visto sorrir, embora toda a lógica do mundo apontasse esse fato como sendo loucura. Não se importava, ela sabia que ele sorrira para ela, do mesmo jeito que agora ela sabia: ele estava triste.
Sentiu-se mal. Quis reparar o dano causado. Afinal, ela tinha certeza. Aquela expressão entristecida era por culpa sua.
Já havia anoitecido. A princesa olhou pela janela e viu que começava a nevar. Ela sorriu.
Deixou seu quarto, vestindo apenas sua camisola branca. Carregava consigo somente o cartaz, o qual abraçava com força junto ao peito, que sofria com as tosses cada vez mais frequentes da moça.
Conseguiu alcançar o jardim real sem ser vista por ninguém. Ali, viu como a neve caía devagar, formando um belíssimo cenário. A antiga florista então se permitiu fazer algo que nunca mais ousara realizar na frente de qualquer pessoa. Ela começou a rodopiar, dançando como fazia antigamente, em frente à sua cabana. Dançava em meio aos flocos de neve.
Dançava com o seu príncipe.
Rodopiou por incontáveis vezes, até perder as forças completamente. Quando isso aconteceu, a neve já forrava inteiramente a grama do jardim. Caiu sobre a neve, sentindo-se fraca e quase sem sentidos. Mantinha o cartaz preso à sua mão. Com o pouco da força que lhe restava, levou o cartaz para diante de seus olhos. Com satisfação, percebeu que a imagem sorria. Sim, ela tinha certeza... Ele lhe sorria.
Tossiu uma vez mais. E, dessa vez, seus lábios finos expulsaram sangue. Gotas rubras atingiram o cartaz e a florista, não resistindo mais, cerrou os olhos em definitivo.
Seu corpo foi encontrado algum tempo depois. Demorou para que percebessem sua ausência. Quando enfim a encontraram, sua pele estava tão branca quanto a neve que a encobria quase que completamente. O cartaz jazia ao seu lado, inerte. Sobre ele, as gotas vermelhas acabaram tomando o formato de flores e assemelhando-se a rosas, dando àquele velho cartaz o aspecto de um quadro florido cheio de vida, fazendo contrastar com aquela imensidão branca e fria a cor vermelha e quente que desabrochava ali.
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