Inveja e Avareza

8 Tramas e Mudanças


Foi estranho sonhar com o passado. Cherry já não tinha aquele tipo de sonho ha tempos, e desejava continuar assim. O sonho foi bem nostálgico, mas lembrar dos seus onze anos não era nada agradável.

Voltava da escola na chuva. Sentia-se estranha o dia inteiro, até que teve seu “pequeno acidente”.

— Querida você esta virando uma mocinha. — disse sua mãe, como se falasse com um bebê.

A frase que toda mãe diz para a filha não a confortou nem um pouco. Cherry não gostava de mudanças, preferia que as coisas permanecessem como estavam para todo o sempre.

Aquilo mudaria sua vida e ela não gostava disso.

Naquele dia seu pai arrumou uma desculpa para se ausentar, não saberia como lidar com a situação, mas Cherry suspeitara que fosse melhor do que com sua mãe, que lhe encheu de chás esquisitos com fins de diminuir o desconforto.

Mike tentou se aventurar a espiar o que estava havendo de errado e levou um pontapé no traseiro. “Malditos garotos que não tem que passar por isso!”, amaldiçoou ela.

— Agora vá se deitar um pouco querida. — aconselhou Daniele — Vou levar um lanchinho pra você mais tarde!

Cherry assentiu desanimada. Foi para seu quarto e se encolheu na cama, mas não conseguiu fechar os olhos. Ficou ali durante um bom tempo fitando o nada.

Sua mãe trouxera bastante comida e um jarro com flores, pois acreditava que aquilo iria alegrá-la.

— Sua amiga também esta aqui! — disse, em um segundo Rebecca surgiu com sua animação costumeira.

Naquela época seus cabelos negros não tinham as mechas rosa, mas ainda tinham um visual bem excêntrico. Não tinha vergonha alguma de abrir um largo sorriso e mostrar seu aparelho violeta gritante.

— Relaxa, depois passa! —falou a amiga aterrissando na cama ao seu lado. — Já bolou algum visual novo pra essa semana?

Cherry riu. Rebecca era sempre animada e despreocupada. Toda semana as duas planejavam um visual diferente para ir pra escola, uma tentativa de chamar a atenção de todos sempre, e coitado de quem fosse mexer com elas.

Deixou seus olhos vagarem pelo quarto, até ter uma idéia.

— O vaso de flores. — ordenou Cherry. — Tenho uma idéia!

A mãe depois de um tempo voltou ao quarto, em passos silenciosos. Com a brecha aberta da porta ela pode ver as duas garotas se divertindo pintando as flores que havia deixado no quarto. Cherry colocou a flor roxa, anteriormente branca, atrás da orelha da amiga.

— Você vai ficar com o azul! — disse Rebecca apanhando a rosa que ela havia pintando.

— Gosto de azul, é bonito. —confessou Cherry, arrumando uma maneira de prender a flor em sua blusa.

As duas ficaram de pé olhando o espelho do quarto. Deram algumas voltas para admirar o seu visual e ficaram bastante satisfeitas.

— Ficou bom. — A jovem já se sentia um pouco melhor. — Mãe, eu estou te vendo...

Daniele riu envergonhada e entrou no quarto. As três acabaram dançando ao som dos CD’s esotéricos da mãe.

Cherry levantou da cama muito antes de Christine entrar no quarto para chamá-la. Sentia-se estranha, anestesiada de tudo, e nem o banho gelado serviu para desperta-la. Vestindo o uniforme, reparou em como ela se vestia por um segundo. Não havia nada de errado, haveria?

A batida na porta veio como um susto e uma decepção.

— O que você quer? — perguntou de cara fechada. Lara, a filha da criada Christine, estava parada de pé a sua frente.

Carregava um sorriso maldoso e as mãos postas na cintura. Lara tinha os cabelos escuros presos em um rabo de cavalo, de forma que puxados para trás deixavam sua testa a mostra, destacando as sobrancelhas dispostas como se estivesse eternamente zangada.

— Só vim me certificar se os boatos são verdadeiros. — falou a garota.

Cherry achava incrível o fato de Lara sempre soltar frases que pareciam ter saído direto de uma série adolescente. Para ela o mundo girava em torno de popularidades e status, coisa que Cherry nunca dera o mínimo de importância.

Como Cherry não demonstrou nenhuma reação Lara continuou.

— Então é verdade? O casalzinho mais querido e invejado de San’t Marrie realmente se separou? — riu com vontade. — Sabe Cherry, você se acha a rainha das rainhas com sua pose de durona, mas...

Cherry não escutou nem a metade da afronta, bateu a porta sem olhar para trás. Deu alguns passos para longe da porta fechada, mas parou quando houve um último comentário.

— Você se acha muito superior, não é? Saiba que agora que vocês terminaram você não vai ser ninguém! — continuava Lara — Não creio que tenha feito muita diferença na vida dele...

Agora ela prestava total atenção.

— Fiquei sabendo que Alphonse tem levado verdadeiros grupos de garotas para seu castelo, pra mim parece que ele já superou tudo muito rápido, não acha?

Cherry não respondeu é claro, mas se aproximou cada vez mais da porta fechada. Aquele nome... Ela o diria novamente? Tanta coisa viera em sua mente, aquele mês que se passou em que não tivera notícia alguma agora lhe provocava calafrio. Teria ele já se esquecido dela?

Talvez sim, pensou. Faria sentido já que todo esse tempo Alphonse não ficara sozinho. Quando ela finalmente resolveu abrir a porta Lara já não estava mais lá. Voltou ao seu quarto silencioso. Já estava pronta para descer e ir pra escola, mas algo a incomodava.

Seu reflexo no espelho mostrava a garota de cabelos castanho claro, arrumada de um jeito que lembrava muito uma boneca. Tirou o uniforme imediatamente e correu para seu armário de roupas. Ainda estava lá!

Há algum tempo atrás Jenny havia lhe mandando uma serie de roupas caras, por mero prazer, e Cherry jamais as usou. A escola obrigava o uso do uniforme para todos os alunos. Para as meninas então, a saia xadrez e o conjunto de blusa e jaqueta escolar. Mas Jenny conseguiu encontrar uma brecha nas regras, ou melhor, ela provocou essa brecha.

Alegando possuir um tipo de alergia ao tecido do uniforme adotado pela escola, a loira conseguiu uma permissão para o uso de um segundo uniforme. Com modelo e tecidos diferentes dos normais, só que o preço era absurdamente mais caro.

O resultado disso foi que somente Jenny e pouquíssimas pessoas puderam adquirir esse uniforme diferente. Ele tinha um tom mais sutil que o original. A saia não era xadrez e o tecido era bem trabalhado, e mais curto. Todo o conjunto da peça não lembrava em nada um uniforme.

Com a roupa nas mãos ela olhava mais uma vez seu reflexo no espelho. Com um movimento ela puxou seu laço habitual de sua cabeça, e o guardou na gaveta.

Lara já estava terminando seu café. Demorara mais do que de costume, pois desejava arrancar alguma informação de Cherry, ou ao menos alguma reação. Mas a garota demorou demais para descer e o motorista já estava a sua espera.

“Ela se acha a princesinha desse castelo!”, pensou com ódio. Sua mãe Christine aparece apressada, carregando uma espécie de lanche para viajem.

— Cherry irá no próximo carro querida, por favor se apresse! —pediu a mulher lhe entregando o lanchinho.

— Eu não quero essa porcaria! — disse Lara, levantando de seu lugar e se dirigindo para fora do castelo.

Com passos pesados finalmente chegara à limusine. O motorista lhe deu bom dia, mas não houve resposta alguma. Entrou no veiculo arremessando suas coisas para longe.

— Olá Lara. — disse uma voz assombrosa na escuridão do carro.

Quase saltara com o susto. Christopher estava sentado na poltrona á sua frente, de pernas cruzadas com sua indiferença de sempre.

— Oi... Christopher. — gaguejou — O que você quer?

Ele deu uma risadinha falsa.

— Isso são modos? — disparou com seu olhar cinzento — É de se esperar da filha da criadagem.

Ela assentiu temerosa. O carro ligou e percorreu seu caminho normalmente.

— Estou aqui para saber como anda a pequena tarefa que eu lhe passei?

Lara prendeu a respiração.

— Estou tentando fazer o que você me pediu... já até contei sobre o Alphonse para ela!

Christopher cruzou os dedos e inclinou-se interessado.

— E ela? — perguntou.

— Não... não pude ver sua reação, ela ficou em seu quarto.

O Avareza desviou os olhos completamente decepcionado. Olhava para estrada que passava pela janela.

— Me responda uma coisa Lara... você quer mesmo ser recompensada?

Foi rápida em responder.

— Cla-claro que sim! Foi o nosso trato não foi? — perguntou desesperada.

— Sim, mas você tem cumprido a sua parte? — indagou repleto de malicia. Alisava o vidro da limusine com os olhos tortos olhando diretamente para garota aflita. — Como espera que eu te dê o que você quer se nem ao menos tive uma resposta positiva da sua parte...assim a sua popularidade fica sendo algo tão distante de acontecer.

— Eu vou tentar mais! — suplicou. — Vou fazer o máximo que puder e você vai ficar satisfeito!

Aquilo não comovia nem um pouco o jovem. Ele a olhava com desprezo como se Lara fosse um inseto barulhento que ele não via a hora de esmagá-lo.

— Verônica me contou que você é uma das garotas esquecidas do Luxúria. — sorriu. — Você ficou muito magoada?

Aquilo mexeu com seu interior, como um ódio subindo para sua cabeça. Cada dia de sua vida Lara lembrava de como foi horrível perceber que Alphonse havia se esquecido dela completamente.

— Fiquei sabendo que você foi capturado pela velha maluca! — rebateu ela com raiva.

Christopher riu mais alto.

— Seu ódio é delicioso. — disse sorridente — Sim, mas alguém de berço tão pobre como você nunca entenderia meus verdadeiros planos. É por isso que gente como você acaba sempre sendo os peões descartáveis do jogo!

Agora foi Lara quem riu.

— Você é um cachorro obediente assim como eu. Estamos no mesmo barco. Você ficou lá todo esse tempo como prisioneiro, e o que mais me intriga é o que você disse a Mike que foi o bastante para garantir sua liberdade?

Agora sua face se fechou completamente.

— Você é uma rata que sonha alto, só isso. Não é da sua conta o que eu fiz para me libertar, preocupe-se com sua tarefa!

Mas a garota não mudou sua posição ofensiva.

— Pois eu acho que você esta traindo Ana Belle! É um traidorzinho nojento que deu com a língua nos dentes para se safar, seu covarde!

Christopher, pois sua mão ligeira no vidro do automóvel. Imediatamente ele se transformou em uma fina camada de gelo.

— Nunca se esqueça com quem você esta falando sua cadela. — Agora estava com uma voz monstruosa.

Lara se calou aterrorizada. E assim foi até chegar à escola.

O garoto não demonstrou incomodar-se com o fato de Lara chorar o caminho inteiro. Ela tinha raiva da vida que tinha, queria mais do que aquilo, ter que obedecer aquela pessoa...

O carro que trazia Cherry estava logo atrás, e isso a irritava mais ainda. Teria que fazer algo o mais rápido possível, seu medo de morrer no anonimato a assombrava a cada segundo.

— Vou fazer o melhor que puder, você vai ver. — repetiu a garota abrindo a porta do carro.

Suas amigas, as poucas que não deixaram a escola, vieram a eu encontro.

— Oi Lara! — acenou uma delas, ela retribuiu uma a uma com um sorrisinho.

Sua atenção estava no carro que trazia Cherry. Seus pensamentos eram malévolos quanto ao destino do veiculo, ‘”adoraria o ver subir em chamas”, pensou.

Quando a porta do carro se abriu, a princípio, todos conversavam sem se preocupar com quem saía do carro. Mas foi só Cherry deixar o veiculo que tudo mudou.

Não era algo comum daquele lugar se impressionar com coisas caras espalhafatosas. Os alunos de San’t Marrie em sua maioria faziam parte de famílias com bastante dinheiro, e não se impressionavam facilmente. Mas a garota de cabelos castanhos conseguiu prender suas atenções.

Com um penteado mais provocante e um andar totalmente novo ela já se destacava das demais. Mas seu novo uniforme gritava por destaque, e conseguia.

Não existia mais a velha saia xadrez adotada. No lugar estava uma milimétrica e estratégica saia caqui. Conseguia ser perigosa e sutil ao mesmo tempo, dando uma liberdade tranqüila para a garota exibir suas pernas atraentes, que agora usavam uma segunda pele com um tom levemente prateado, escondendo qualquer imperfeição.

O conjunto de jaqueta e blusa era um deleite de moda para as mais informadas, mas também era um irresistível atrativo visual para os desejosos. O busto de Cherry ganhou um destaque totalmente novo, a abertura comportada dava o toque final.

Isso é claro se fosse ignorar a bolsa que ela carregava consigo, ainda nem lançada no mercado. Tudo cortesia de Jenny.

As amigas de Lara exclamavam deslumbradas com o que viam, não só elas. O restante dos alunos acompanhava a garota entrar na escola. Cherry pôde respirar quando finalmente entrou. Tentou ao máximo demonstrar confiança, mas a verdade é que estava apavorada, jamais se acostumou com tanta atenção.

— Que preciosidade. — disse alguém. — Quem diria que a garota carrancuda tem algum senso de moda.

Lá estava Julius com sua leveza espiritual de sempre. O Vaidade passava pelo corredor seguido de alguns jovens, igualmente atraentes. Era bem alto e de corpo perfeitamente moldado para a admiração e devoção das garotas. Seus cabelos castanhos ondulados lembravam atores de filmes sobre a Grécia e derivados. “Era um deus, realmente”, pensou.

— Obrigada. — respondeu.

Fazia certo tempo desde a última vez que Cherry conversara com alguns dos “sete”.

— Algum motivo em especial para essa mudança repentina? — perguntou indiferente, mas com um tom de felicidade.

Ela deu de ombros.

— Sem motivo. — soltou — Resolvi mudar um pouco e só.

Julius deixou escapar uma risadinha seca e extremamente sensual.

— Mas é claro que sim. Aliás, fiquei muito triste quando soube da separação do nosso “casal dos sonhos”!

Agora ela não se conteve em exibir uma expressão confusa, que mais parecia uma careta.

— Casal dos sonhos? — perguntou.

— Não sabe? — indagou perplexo. — É como todos têm os chamado nesses últimos meses... pensei que soubesse.

— Quem são todos?

— Todo mundo... — ele suspirou cansado — A essa altura você já deve saber que Alphonse é uma pessoa famosa, então é normal que sua vida se torne constantemente algo público.

Era verdade. Cherry havia se esquecido desse pequenino fato. Alphonse era uma celebridade. Então a notícia já se espalhara por toda a parte, mas aquilo a assombrava. Não gostava que sua vida se tornasse publica.

Rapidamente se sentiu ridícula vestida daquele jeito, parecia implorar por atenção.

— Eu, particularmente, era da torcida “Cherryphonse”! — disse meio desapontado.

— O que? — Sua cabeça girava com coisas que ela não entendia. E que principalmente a colocavam no meio.

— Muita gente apostava em vocês dois. Entenda... Alphonse nunca foi de ficar com uma pessoa só, e quando o relacionamento de vocês dois se tornou publico criou-se uma espécie de torcida para que desse certo...

Aquilo a apunhalou bem fundo. A lembrança de que tudo acabara e que não estavam mais juntos retornou com força. Saberiam que foi ela que dera um fim na relação?

— Torcida? Que coisa mais louca. — resmungou, tentando se acalmar um pouco.

— Alphonse tem muitos fãs no mundo todo. E não é só porque ele é um “ídolo teen”, mas por ser decidido e persistente. O jovem mais promissor do mercado e extremamente carismático, atraente, depois de mim é claro.

Cherry não riu, ficou encarando o jovem quase dizendo “fale-me mais sobre ele”.

— De qualquer modo... Sinto muito por vocês dois. — concluiu sincero. — Espero sinceramente o melhor.

— Credo! — gritou Cherry — Falando desse jeito parece até que alguém morreu! Não, estamos bem. Fiquei sabendo que ele até anda por ai com uma caravana de garotas.

— E você então resolveu se produzir toda para dar o troco...

— Não! — interrompeu zangada. — Eu resolvi me produzir porque estava afim!

Mais uma vez a risada provocante de Julius

— Preciso ir. — disse — Foi bom te ver...

Cherry não se despediu, só se retirou com elegância. Subindo escadas e virando corredores, a garota praticamente desfilava entre alunos surpresos com o visual maravilhoso. Quando finalmente encontrou a porta da sala, havia alguém bloqueando a porta.

— Oi Cherry! — disse David com seu sorriso torto.

A garota engasgou com a surpresa. Quanto tempo ela não via David?

— Ei David, quanto tempo. — falou, recobrando as lembranças de como era fácil conversar com aquelas pessoas maravilhosas.

— Muito tempo mesmo! Estava quase obrigando seu irmão a me levar para te ver no castelo... mas não teria uma roupa decente para usar. — comentou, olhando para a roupa de Cherry.

— Cala Boca — resmungou rindo. — Sabe que podia ter me visitado a qualquer hora, eu teria adorado! Principalmente agora que somos primos, não é?

A expressão de David deixou claro que ele não esperava que ela soubesse disso. Talvez houvesse guardado uma hora certa para contar, uma surpresa talvez?

— Ah cara, eu queria fazer surpresa. — riu. — Mas não é demais?

Era o David de sempre. Alto e atlético, graças ao seu vicio por futebol. Tinha o cabelo castanho que se rebelavam em um penteado bagunçado, um estilo novo que ele adotara, mas que não cumpria o objetivo de passar a idéia de rebeldia.

Cherry se perguntou se era hora de voltar a pensar em David. Depois de dispensá-lo de forma inesperada, não acreditava que ele sentisse qualquer coisa por ela. Mesmo que seus olhos de homem não conseguiam resistir a olhar para seu corpo, não esperava que o sentimento de antes retornasse.

— Cherry... — chamava a voz doce de David.

Lembrava-se das horas gastas no telefone conversando juntos. Tão divertido e aconchegante, mesmo que o coitado ficasse de pé no corredor frio até altas horas da noite. Ele era um anjo para ela, em todos os aspectos.

— Cherry... — chamou novamente.

E como poderia prestar atenção se ela agora estava presa no passado. Um lugar onde ainda havia felicidade e segurança. Desejava muito poder voltar no tempo e não ter terminado com David. O garoto que a entendia perfeitamente.

— Cherry! — dessa vez o tom era levemente mais alto, despertando-a.

— Sim?

— Cherry, essa aqui é a Pollyanna. — disse ele apontando para uma garota loira de tranças educadas. — Minha namorada.

A garota abriu um largo sorriso e cumprimentou Cherry.

— Pode me chamar de Polly se quiser, David me falou de você! Disse que é uma pessoa maravilhosa!

Não existia reação alguma da parte de Cherry. A jovem estava simplesmente paralisada, e quando se deu conta disso tentou encontrar palavras e foi extremamente desconcertante.

David percebeu o constrangimento de Cherry e tentou salvá-la.

— A Polly também canta muito bem, você deveria escutá-la qualquer dia desses! — apressou-se.

— Eu adoraria! — mentiu ela simulando um sorriso.

Polly lançou um sorriso em resposta e apanhou a mão de David.

— Amor, você vai comigo até a minha sala? Estou meio perdida nesse colégio, é muito grande.

— Claro! — concordou David dando um beijo na testa da garota — Cherry, até daqui a pouco?

— Ok. — disse, ainda desconcertada.

Cherry ficou ali olhando o casal desaparecer no corredor. Tão felizes um com o outro. Alguma coisa despertara em seu peito enquanto observava aquela cena. Sentiu um desejo estranho de ter aquilo para ela também. Seria ciúme?

Quando entrou na sala não reconheceu nenhum dos alunos. Era uma classe totalmente nova, provavelmente porque todos deixaram a escola nas férias, algo muito comum em Sant Marrie.

Os olhares a acompanharam até sua carteira à frente.

— Olá! — chamou um grupo de garotas iguais, admiradas com o visual de Cherry.

— Olá... — Em um primeiro momento Cherry pensou em questionar como aquelas pessoas sabiam o seu nome, mas realidade é que ela não tinha interesse algum nisso.

Sentou-se perto do grupo, ficando a mercê de todos os comentários e assuntos que aquelas garotas tinham para falar. Quando deu por si estava conversando sobre coisas que nunca deu à mínima e com o tipo gente que nunca se importou.

— Nossa, você mora em um castelo? Que demais! — exclamo uma garota de sotaque irritante. — Hoje eu escutei uma coisa muito idiota, você vai rir!

“Mais idiota que Cherryphonse?” pensou distraída.

Sentia-se sufocada. Desejava espaço, mas as jovens praticamente estavam em cima dela, enchendo-a com perguntas aleatórias. O professor digitava em seu computador tranquilamente, como se não houvesse aula alguma.

Minutos depois David entrara na sala, ninguém lhe deu a igual atenção como a que foi dada a Cherry.

— Preciso ter esse uniforme que você esta usando com urgência! — comentou uma jovem com muita maquiagem no rosto.

Naquele momento Cherry sentia vontade de tirar o uniforme e enfiar na boca da garota, mas seus olhares estavam em David, que sentara muito longe dela. Parecia tão feliz com sigo mesmo mexendo em seu celular, provavelmente trocando mensagens com sua namorada.

Apertava os botões de seu celular com um sorriso bobo, provavelmente se comunicando com a namorada. Um gosto estranho invadiu a boca de Cherry, com se fosse um veneno mortal. Desejava ter o seu anjo de volta, queria aquela felicidade também.

Um nervosismo estranho tomava o seu corpo enquanto observava o jovem rir em seu canto. Sentia como se estivesse perdendo alguma coisa. “Não... O David não!”, pensou aflita. Ficaria sozinha naquele colégio idiota, ficaria sem chão novamente. David olhava para os lados tentando conter a risada apaixonada, mas voltando sua atenção para o aparelho celular. Cherry estreitou os olhos e de repente teve uma ideia.

— Meninas, vocês me ajudariam em uma pequena missão?