Inveja e Avareza

9 Ninfas e Demônios


— Só pode ser brincadeira não é? — perguntou Mike indignado.

— Eu pareço estar brincando? — rebateu Christopher com uma cara dura e amarrada.

Não era brincadeira nenhuma. Tudo sobre aquelas criaturas em forma de gente poderia passar como uma brincadeira, doentia talvez, mas era a pura realidade. Cada um deles com sua trama pessoa, sua maldade interior, sem pudor algum de ferir uma pessoa comum. Mike também não teve pudor nenhum de descer ao nível da criatura, e encara-lo perto demais a ponto de sentir sua respiração gelada.

— E eu pareço alguém que entregaria a própria irmã pra um monstro feito você? — Mike inclinou para bem perto do rosto de Christopher — Pode mandar um exercito desses demônios idiotas atrás de mim. Prefiro morrer a ver a Cherry com você.

O silêncio macabro em seguida não foi o bastante para separar um milímetro sequer a posição de Mike. Ele o encarava com extrema confiança no que dizia, e mesmo que os olhos assassinos de Christopher fossem assustadores, ele não recuou.

— Que seja então — disse o Avareza desapontado e com tédio na voz — Essa sua bondade me da náusea. Como você é patético!

Mike soltou uma risada nervosa.

— Sou patético porque me preocupo com o bem estar da minha irmã?

— Não — falou o jovem preso ao chão — Você é patético por não se preocupar com seu próprio traseiro e sim com o dos outros!

TUM

O rosto duro de Christopher virou com violência.

— Já estava querendo bater em um de você há muito tempo! — disse Mike.

Christopher lhe fuzilou com olhos, sedentos por sangue, mas não foi o bastante para derrubar a postura de Mike.

— Como é corajoso — riu ele, o vermelho vivo começara aparecer onde Mike lhe acertara — Batendo em uma pessoa sem condições de se defender!

— MAS QUE PORCARIA ESTA ACONTECENDO AQUI? — berrou Muriel descabelada. A mulher havia despertado de seu sono na cadeira da varanda.

O sol aos poucos entrava pela janela, o tempo passara com rapidez.

— Seu querido aprendiz acaba de perder a oportunidade de livrar o traseiro! — gargalhou Christopher. Muriel rapidamente fuzilou Mike com os olhos.

— Ele queria a Cherry em troca. — acrescentou ele — Bem justo, não?

A velha bufou sem paciência nenhuma, foi para cozinha resmungando.

— Tudo nos leva a crer que nosso hóspede ficará mais tempo conosco — Disse Muriel e Christopher produziu um sorriso.

— Acho que irei gostar de morar aqui, fiquei sabendo que a comida do Mike é muito boa — comentou ele.

Antes que Mike pudesse lhe dar outro soco Muriel continuou falando alto.

— Realmente é! — afirmou Muriel com um sorriso inesperado — De fato, Mike, não se esqueça de preparar a comida em numero dobrado! Segunda feira é dia de receber os órfãos do orfanato Sant Bernadet, como é de costume...

— Ok eu aceito o trato — disse Christopher imediatamente — Me libertem e eu tiro minha maldição do garoto.

Mike não conseguiu esconder a sua surpresa.

— Odeio crianças — resmungou o jovem.

Não resistiu em correr para cozinha, longe dos ouvidos do pecado encarnado.

— Mas o que foi isso? — perguntou incrédulo.

Muriel espiava as panelas que esquentavam tranquilamente no fogão. Liberavam um cheirinho extremamente convidativo, e mesmo estando a horas do almoço era impossível resistir aquilo tudo.

— Moleque eu já convivo com esses pecados há anos — disse sem se virar — Sei muito bem o que a avareza abomina.

— Crianças? — perguntou confuso.

— Sim. Não suportam, sua alegria e a falta de senso de espaço pessoal os deixam loucos!

Ele não conseguia acreditar que existia alguém que não suportava a alegria de crianças órfãs. Muriel sempre resmungava quando mexiam em suas coisas, mas no final ela mesma ria de tudo aquilo.

— Mas Muriel... se você sabia disso por que não o ameaçou antes?

— Simples — falou a velha, mergulhando seu dedo ossudo na panela e provando do molho — Eu queria descobrir o que ele queria. Quais eram seus planos.

Ficou claro então que ela sabia que Mike iria até ele, ou seja, era tudo um plano.

— O livro? — quis saber.

— Foi isso que ele exigiu? — perguntou Muriel, novamente sem se virar.

— Não... Ele pediu a Cherry, mas disse que isso era coisa dele. O objetivo principal era o livro.

Muriel soltou uma gargalhada.

— Como você é bobalhão! — resmungou — É claro que ele queria que pensasse isso. Mesmo que a avareza só pense nela mesma, nunca pode desobedecer as ordens de seu criador. Nenhum deles pode!

Ele piscou um segundo ou dois.

— Então o objetivo era a Cherry?

As panelas borbulhavam e espirravam. A nuvem de fumaça cheirosa subiu até o teto e encontrou uma saída pela janela.

— Provavelmente — disse ela remexendo no conteúdo de dentro da panela — Mas realmente eu não entendo sobre esse enorme interesse na garota. Tenho teorias é claro, mas só passam disso.

— Você conhece a Cherry, acha que eu seria capaz de fazer com que ela gostasse desse cara?

— Mas é aí que você subestima os planos de minha irmã Mike — agora ela olhava fixamente para o jovem — E se foi de propósito? E se ela quisesse que eu capturasse o moleque para deixá-lo envenenar sua mente para que deixasse avisado que têm muito interesse em sua irmã, e que ela corre perigo.

Os músculos de Mike se enrijeceram, mas ele tentou se acalmar. Muriel o analisava.

— Creio que exista outra coisa por trás disso. Algo que ainda não percebi e sua avó sim... — Muriel começou a procurar por seus cigarros — Algo que ela saiba e nós não... Alguma coisa importante.

— Já não parou pra pensar que talvez você esteja criando muito caso? — disparou Mike — Olhe só o que você acabou de dize! Essas conspirações, não parecem muito lógico!

A mulher estava de olhos arregalados.

— Mike, creio que ela esteja te atacando de alguma maneira — concluiu Muriel, compreendendo alguma coisa — É assim que ela faz Mike, por meios que você jamais acreditaria... Sempre indiretamente. Os pecados são mestres nisso.

— Você está louca! — falou — Esta imaginando coisas! Não esta acontecendo nada de errado comigo, a não ser minha maré incomum de azar... mas isso será resolvido.

Ela balançou a cabeça desanimada, mas soltou um sorrisinho quando encontrou sua caixa de cigarros em cima da geladeira.

— Não falo disso Mike — explicou­ — E sim de outra coisa... algo que não sabemos.

Mike bufou passando a mão em seu rosto nervosamente.

— Algo que você quer que exista, porque você é malu..

ARG!

Muriel lhe golpeara com força com a colher de madeira.

— Garoto impossível! —vociferou.

Mesmo a encarando zangado ela não deu a mínima importância.

— E acha que o Avareza vai cumprir a palavra? — quis saber.

— Não — respondeu imediatamente, ele mais uma vez ficou confuso — Provavelmente vai ser algo temporário, mas será o bastante para que eu pense em algo. Uma vez que esses demônios são dispensados leva algum certo tempo para chamá-los de volta.

Era quase possível ver fagulhas de um cérebro confuso saírem da cabeça de Mike. Achava estranho discutir sobre aquelas coisas como se fossem completamente normais, ao menos da maneira como Muriel os tratava tronava-os assim.

— Não sei se deveríamos libertá-lo — disse Mike — É muito perigoso.

O sol agora entrava forte na casa. Como sempre acontecia, a luz refletia nos vários objetos cristalinos que Muriel pendurava pela casa. Era bem bonito de se ver, mas Mike estava tão cansado que não ligava para mais nada.

— E o que você faria com ele Mike, se deixasse aqui preso? — atacou ela com delicadeza — Teria coragem de lhe tirar a vida?

A idéia tirou o fôlego do garoto deixando sua garganta seca. Não teria coragem e sabia disso, mas Muriel teria? Já teve?

— Acredite... você não iria querer essa lembrança assombrando sua mente para o resto da vida — falou a velha, respondendo imediatamente sua pergunta.

— Então vamos simplesmente libertá-lo? — perguntou ainda indignado.

— Já o fiz. — disse — Ele recolheu seus monstrinhos e eu o libertei.

Mike correu para sala e constatou ser verdade. Mas como?

— Como?

— Posso fazer isso de onde eu quiser... — disse ela dando de ombros— Mas a sua duvida provavelmente é “porque ele não nos atacou”, não é?

Depois de pensar um pouco ele concordou, mas não era a sua única dúvida.

— Seus poderes não funcionam aqui. Minha casa é santa — explicou ela

— Santa? — disse desnorteado — Tipo terra santa?

— Mais ou menos isso. Sem seus poderes é só um jovem comum e creio que ele teme enfrentar um brutamonte feito você em uma luta de verdade.

“Brutamontes” não lhe ofendeu, mas acreditava que faltava muito para atingir esse nível, ao menos ele pensava assim.

— E ele cumpriu? Os demônios do azar se foram?

— Por algum tempo, sim — Muriel parecia estar de saída, mais uma vez ele se assustou com sua total falta de atenção nos acontecimentos. “O que raios esta acontecendo aqui?”

— Preciso encontrar algumas pessoas e passar na igreja, guarde a comida! — ordenou ela — E você trate de dormir um pouco porque esta com uma cara horrível!

Mike sentia seu corpo pesado e cansado. Percebia que poderia desabar em qualquer lugar e dormir por um longo tempo. O sofá estava extremamente convidativo. Em segundos ele estava deitado no sofá completamente adormecido.

O lugar onde Mike estava agora não tinha uma consistência, parecia irreal demais, então não foi difícil concluir que estava sonhando. Não conseguia enxergar os detalhes ao seu arredor porque não passava de um borrão envolto ao protagonista, um garotinho.

Vestia uma espécie de roupinha de marinheiro azul, com direto a chapéu branco para completar. Seus cabelos caramelo brilhavam tanto com a luz do sol que escapava da janela que aparentava ser loiro. O pequeno Mike adorava sapatear no assoalho de madeira, pois o barulho ecoava pela casa inteira. Seu pai berrava em algum canto para que ele parasse, enquanto sua mãe ria tranquilamente.

Estava em seu quarto. De alguma forma ele sabia disso, e se sentia bem por ter essa certeza.

— Dinossauros... — disse o pequeno, tentando pronunciar corretamente o desenho dos dinossaurinhos que se divertiam no tapete do cômodo.

Bem no meio dele havia uma pequena bola azul. Seu contorno esférico refletia a luz do sol se tornando extremamente brilhante.

Mike abriu um sorriso. E com passos pequenos iguais a seu tamanho, ele foi em direção à bola. Antes de alcançá-la conseguiu ver a janela aberta, que exibia um clarão incomum de um dia extremamente ensolarado. Por trás de tanta luz havia um campo verde infinito, e mais á frente existia uma imensidão azul de um mar precioso.

Suas mãozinhas seguraram a pequena bola, seus olhos admirados com o brinquedo. Sabendo exatamente o que ela fazia, ele a deixou cair no chão para que pudesse retornar de onde partiu.

Os barulhos que a bolinha azul proporcionava eram hipnotizantes. Seu pai berrava de um jeito engraçado para que ele parasse de uma vez, mas ele nunca fazia mais do que aquilo.

Ele resolveu deixá-la quicar com mais força no chão para ver o que acontecia. Mas ela retornou com mais força do que esperava, batendo no teto e em outros lugares. Até escapulir pela janela.

Tudo ficou branco imediatamente e Mike despertou. Já era hora do almoço e sua mãe ligara dos Estados Unidos.

— Tive esse sonho estranho...

— Qual? — perguntou a mãe carinhosa — É normal na sua idade ter alguns sonhos esquisitos meu querido..

— Não é isso mãe! — corrigiu o filho tentando não rir — Sonhei que estava em uma casa vestido de marinheiro... eu era criança.

A mãe soltou um gritinho.

— Oh, eu adorava essa sua roupinha de marinheiro! Você ficava uma gracinha!

Mike piscou pensativo.

— Então, é uma lembrança?

— Provavelmente. Mas porque foi estranho?

Ele mordeu os lábios.

— Pensei que a vida toda eu havia morado em Baltimore, mas a casa que sonhei era diferente... ficava perto do mar.

Houve um estranho silencio da parte de sua mãe. Mike teve que falar alguma coisa.

— Mãe? — chamou.

A voz retornou.

— Você sempre quis morar perto do mar... talvez seja isso querido, eu realmente não sei — A voz da mulher parecia um tanto apreçada — Preciso desligar amor, seu pai e eu vamos resolver algumas coisas. Beijos!

E foi assim que sua mãe escapou de mais perguntas, por enquanto. Mike já estava cansado de segredos e não tinha certeza se estava preparado para mais um. Encontrou seu celular enquanto ligava novamente o fogão e se deparou com algumas mensagens e ligações perdidas, todas de Sarah.

— Hoje não. — disse ele arremessando o aparelho para o sofá amarrotado. Não era dia de visitar os ciganos, mas ele iria mesmo assim, precisava se desculpar pelo seu comportamento ridículo de antes.

Esperava que a comida que preparou fosse um pedido de desculpas razoável.

— Mike meu velho! — disse alguém entrando na cozinha pela janela e levantando o garoto em alguns segundos.

— Oi David — disse ele sem muita paciência — Tão cedo e já esta no pique?

David sorriu, já mastigando alguma coisa que apanhara na cozinha.

— Eu sempre estou meu amigo, mas hoje é um dia especial! — falou ele, mal controlando sua animação — Ontem eu conheci uma garota incrível!

Mike revirou os olhos desinteressados. David sorria em seu lugar, lembrando de alguma coisa.

— Já vi essa cara — bufou em resposta.

— Você tem que conhecê-la cara, ela é... tão!

Mike queria fugir daquilo dando alguns passos para longe, mas David o perseguia para onde fosse.

— Eu só a conheci há um dia e já penso seriamente em pedi-la em namoro!

Aquilo não seria surpresa. David era conhecido pelo grupo de amigos por se apaixonar fácil, muito fácil. Ele agradecia por não ter dado muito certo entre ele e sua irmã, “Cherry o deixaria em pedaços se aquilo continuasse”, pensou.

— Você tem problemas na cabeça, isso sim — resmungou Mike lavando a louça.

— Meu coração fala mais alto Mike, você deve sentir o mesmo pela Sarah não é?

Aquela pergunta inesperada fez suas ações serem interrompidas. Parado de costas para o primo, ele não sabia dizer que reposta seria sincera.

— Claro — disse depois de um tempo. Mas David não parecia ter se importado com a demora, estava muito longe dali para ligar para uma mentira.

Já na estrada, Mike se lembrava de como foi ridículo sair correndo do acampamento cigano. Odiava aquelas situações embaraçosas que lhe faziam lembrar e lembrar a todo o momento. Dessa vez teve a oportunidade de estacionar perto do parque. Estava consideravelmente cheio.

— Bom dia! — disse uma mulher lhe entregando panfletos sobre eventos comunitários.

Ele procurava por algum caminho em que pudesse percorrer tranquilamente, mas havia crianças correndo e jovens andando de bicicleta. Era tudo muito divertido, mas Mike queria chegar logo no acampamento cigano.

As folhas caíram em grande quantidade, e o cheiro de terra molhada era muito forte. Ignorou o fato de que hoje fora o primeiro dia de volta ás aulas. Muriel não tinha conhecimento de seus dias letivos e quando retornariam as aulas, então nem se preocupou em acordar o rapaz que estava desmaiado no sofá.

Deixara seu celular em casa, pois não queria problemas em sua cabeça. Sarah não gostaria nada disso, mas ele estranhamente parecia não se importar muito.

— Grandão! — gritou uma voz.

Mike olhou para cima, de onde vinha à voz estridente. Uma criança estava pendurada pelos pés e o encarava de cabeça para baixo.

— O que tem de bom nessa mochila? — perguntou curioso, enquanto balançava.

— Cabeça de águia? — perguntou Mike, incerto do apelido da criança.

— Sim — concordou — Mas para os amigos eu sou Luca!

Dessa vez ele não estava pintado como um indígena. O garotinho de cabelos castanhos aparentava ter uns cinco ou seis anos de idade. Havia alguns traços nele que Mike não conseguia reconhecer, como se ele fosse uma mistura de etnias.

Ele abriu rapidamente sua mochila e apanhou um “Pringles”.

— Ta servido? — perguntou.

Os olhos do pequeno Luca se arregalaram com a surpresa.

— Pringles! — exclamou animado, dando um perigoso mortal até aterrissar no chão de pé.

— Isso foi perigoso — disse Mike assustado

Luca sorriu e apanhou a lata de Pringles da mão de Mike. Com a boca cheia ele disse:

— Procurando alguém?

— Nadya, você a conhece? — perguntou esperançoso, pensando no trabalho que teria para procurá-la naquele lugar gigantesco.

— Claro que conheço! — disse Luca, empanturrando-se de batatas — Eu te levo até ela, vamos!

Mike teve que tentar acompanhar o pequenino, que corria com suas perninhas finas, pulando galhos e raízes.

— Bom dia gente! — disse a criança em deparada, em quanto passavam por um grupo de ciganas fazendo algum tipo de artesanato.

E assim foi durante um bom pedaço do enorme parque. Até que ele resolveu parar, quando viu algo interessante.

— O que foi? — perguntou Luca, voltando muito tempo depois.

Mike admirava maravilhado um homem dando varias seções de chutes aéreos sem cessar, todos muito bem executados. Porém o mais impressionante foi que assim que ele parou, rapidamente outro estilo de luta foi adotado, com extrema precisão.

A essa altura ele reconhecera ao menos cinco estilos diferentes de artes marciais, e o homem não parecia querer parar por ai. Ele dava socos em um adversário invisível, entortando suas mãos para algum tipo de técnica, e em seguida mudava para uma ginga hipnótica que Mike reconhecera por ser “capoeira”, um tipo de luta inventada no Brasil.

— Quem é esse cara? — perguntou espantado.

Luca olhou para homem mostrando suas habilidades e balançou os ombros.

— É só o Carlos, por quê? — perguntou o garoto indiferente

Mike não conseguia acreditar que aquela criança não via aquilo como algo incrível.

— Tá brincando né?

Luca não entendeu.

— Esse cara é demais! Olha só pra isso! — indicou para o homem que acabara de executar um mortal para traz.

De braço estendido, Mike esperou alguma reação de Luka.

— Ele faz isso o dia inteiro, nunca quer brincar com agente. — resmungou o garoto.

Mike riu. Era só uma criança afinal de contas. Já deveria estar cansado de ver aquilo todos os dias e sua prioridade era brincar e se divertir. Não tinha nada com que se preocupar, nem precisava se preparar para brigar com nenhum pecado enlouquecido.

Naquele momento ele o invejava.

— Vamos, quer ver a Nadya ou não? —perguntou impaciente.

Voltaram a correr, ele ainda podia ver alguns movimentos rápidos e incríveis antes de entrarem floresta a dentro. O tempo parou.

As folhas caiam agora lentamente e de forma graciosa. O próprio vento se demorava a soprar, seus passos não produziam som algum. Sua visão se estreitava a um foco, o responsável por toda aquela magia poderosa. Nadya...

Lá estava ela. A ninfa da floresta encantada, a deusa de cabelos vermelhos vivos. Sentada em uma pedra, que parecia ter sido deixada lá por alguma entidade divida só para que Nadya pudesse descansar suas pernas preciosas.

Sua pele era de tom rosado, pincelada com um tom laranja, ele não saberia definir, nem se apegar a um detalhe. Isso seria impossível. Sentada na pedra, amaciando seus tornozelos, a jovem respirava com tranquilidade. A sensação que passava era que estava em forte ligação com tudo aquilo a sua volta, em uma meditação divina.

Ao ouvir os passos dos dois, Nadya abriu lentamente seus olhos na direção de onde vinha o som. Aquilo foi o bastante para fazer Mike gelar, pois eram olhos desprovidos de visão, mas de um verde tão vivo e incrível, que pareciam perdidos olhando para o nada.

— Oi Nadya! — gritou Luca, acenando inutilmente para a jovem.

Nadya sorriu.

— Luca, estava andando sozinho pelo parque de novo? — perguntou serena.

— Não, o grandão estava comigo! — ele bateu na perna de Mike.

Ela parecia confusa.

— Grandão?

Mike tossiu envergonhado.

— Sou eu — disse.

— Oh, Mike! — exclamou animada se levantando — Que bom que voltou!

Ele se sentiu extremamente envergonhado. Fora a estupidez de ter saído correndo daquela maneira, não tinha certeza se conseguiria encarar o rosto encantador da garota novamente.

— Fiquei preocupada, você saiu tão rápido que não pude te explicar! — disse carinhosamente, partindo o peito de Mike em pedaços dolorosos.

— Não se preocupe, estou sabendo de tudo... eu os vi. — explicou Mike

Ela desfez o sorriso lentamente.

— Deve te sido uma coisa bem desagradável, mas vejo que se livrou deles — suspirou ela — Por isso não notei você chegar, você parece estar mais leve, bem diferente de antes.

— É, pode se dizer que estou — concordou sorrindo, mas por outros motivos.

— Vou nessa! — anunciou Luca, correndo de volta as folhagens, antes que Mike pudesse dizer qualquer coisa.

Ele olhou para Nadya de pé, acompanhando o som dos passos de Luca se distanciarem com o tempo.

— Uau, que lugar legal esse aqui... — comentou acanhado — É seu lugar secreto?

Nadya estendeu a mão e o sol a encheu de luz. Ela se guiou de volta a pedra onde estava sentada antes, Mike foi em sua direção.

— Não é meu, pertence á todos que desejarem se aproximar — falou a garota.

Mike ajoelhou na grama ao seu lado, observando o olhar de Nadya repousar em algum canto do lugar.

— Não gostaria de ter um lugar só seu e de mais ninguém?

A ninfa riu baixinho.

— Os ciganos não tem nada disso. Não temos um lugar fixo para chamar de nosso, muito menos pertences pessoais. Compartilhamos tudo! Nosso conceito de propriedade é diferente do de vocês.

— Você fala sobre roubar as coisas? — arriscou temeroso.

Ela sorriu para ele.

— Sim. O seu povo é muito fechado e não gosta de dividir as coisas, isso não existe na nossa cultura. Então, para eles os ciganos são ladrões.

Tinha que admitir que não conseguia engolir muito aquela historia. Cada pessoa tem direito de ter seu pertence, só seu e de mais ninguém. Reparou muito nisso nas suas vindas ao acampamento. A maioria pegava uma coisa do outro sem pedir permissão e não havia uma sequer reclamação quanto a isso. Era tudo de todos.

Isso pra ele não funcionaria em uma sociedade normal.

— Esse estilo de vida é bem diferente do nosso. Acho que nunca seria aceito nas cidades — riu abobado, novamente sentido a estranha sensação de liberdade que ninguém havia lhe dado.

— Mike, nós não somos aceito em sua sociedade, mas vocês são aceitos na nossa — ela sorriu­ — Sempre que desejarem.

Não conseguia acreditar como poderia existir uma pessoa tão fantástica. Parecia um ser literário, uma presença encantada em sua vida que não poderia ser real. Tão bondosa e acolhedora.

— Eu sou aceito aqui? No seu... mundo? — perguntou, elaborando o que realmente achava sobre aquele lugar. Um mundo diferente do que ele estava acostumado.

Nadya curvou alguns sentimentos na direção do jovem.

— Claro que sim. Qualquer um pode ser um cigano Mike — explicou ela — Você não precisa se vestir, falar, ou andar como nós. Mas apenas entender nossa cultura.

Ele pensou por um momento.

— Não sei se entendo...

— Você respeita, e isso já é uma das nossas crenças mais poderosas.

— O respeito?

— Sim — ela acariciou seus cabelos ruivos — Por décadas nosso povo foi perseguido e vítima do preconceito infame, mas mesmo assim ainda respeitamos todo tipo de povo. Não importa muito em que acreditemos, nós respeitamos e não permitimos que isso seja algo que nos enfureça e nos impeça de continuar nossa eterna viajem.

Mike entrelaçou seus dedos, dedilhando seus pensamentos.

— O que você quiser de mim é seu — disse ele de repente, impressionado com suas palavras, mas sem a capacidade de conte-las — Eu divido o que quiser com você...

— Mas você já me deu Mike — Nadya sentou ao seu lado, deixando seu longo cabelo despencar graciosamente — O seu respeito, lembra? E agora você esta me dando seu tempo.

Mike deveria estar na escola, com Sarah, mas havia largado tudo para se desculpar com Nadya. Coisa que não fizera até aquele momento, mas de alguma maneira se sentia desculpado mesmo sem precisar que nenhum dos dois tocasse no assunto.

Os olhos esmeralda estavam bem abertos em sua direção. Havia ali outro mundo.

— Você nos deu algo e agora tem direito de pedir algo em troca, sinta-se livre para pegar o que quiser — Nadya fez aquele convite para o jovem, como se com uma simples frase fosse capaz de pular toda uma série de diálogos que resultariam naquele exato momento.

A respiração de Mike se foi imediatamente, mas não a sua fala, que parecia movida por uma força inexistente.

— Isso é fácil — disse engasgando — Um beijo.

Não houve resposta alguma, Nadya permanecia silenciosa.

Então a mão da garota ganhou vida, se estendendo no ar com lentidão, os dedos a procura da presença de Mike. Ele estava nervoso, como se estivesse em algum tipo de hipotermia psicológica. Quando Nadya tocou sua testa o jovem sentiu o seu explodindo em resposta á aquela sensação. Seu coração acelerou absurdamente com o ato, seu peito se contraía com a dificuldade respiratória.

Tudo aquilo com apenas um toque de Nadya.

Ela deixou os dedos deslizarem pelo rosto de Mike até alcançar os seus. O jovem os fechou imediatamente, imaginando que naquele momento Nadya estaria fazendo um desenho em sua mente de coo o rapaz deveria ser. Sentia um calor percorrer a sua face, imaginou se suas bochechas estariam coradas. Não conseguiu evitar deixar seus lábios abertos, deixando claro que estava difícil de respirar.

Não conseguia ver nada, estava cego igual à Nadya. Procurou deixar que a jovem continuasse a tocá-lo, queria apenas deixar que ela fizesse o que quiser. Então a deusa da floresta se inclinou para frente, Mike pode sentir a respiração terna e tão próxima, seu peito se comprimiu violentamente até que os lábios vermelhos tocaram os dele. Dessa vez a explosão corporal fora mais avassaladora e dolorosa.

Mas era uma dor maravilhosa que ele suplicaria por mais se Nadya se atrevesse a parar. Seus lábios ganharam finalmente vida própria e o controle para responder, comprimindo os da ninfa com total vontade. Sem ar algum, Mike morreria ali mesmo se fosse necessário, não importava.

Produzia suspiros de uma agonia que ele não conseguia explicar. Talvez fosse à mesma lamentação de um homem que passara semanas em um deserto sem água e quando finalmente a encontra sentia dor pelo gosto tão delicioso e que saciaria sua sede. Os lábios preciosos de Nadya causavam a satisfação máxima, e deixavam todo o corpo clamando por mais e mais, e não foi novidade que suas mãos apanharam o pescoço delicado da jovem, pressionando mais os lábios. Não houve reclamação alguma, mas a mão dela continuava no mesmo lugar, privando-o da visão.

De que valia a visão agora? Mike conseguia enxergá-la perfeitamente, e isso era incrível. Seus lábios dançavam com os dela, sentindo toda raridade daquela boca, se perguntando se estaria tomando o ar dela. Ela se importaria?

Quando Nadya finalmente retirou sua mão, afastando-se seus lábios de Mike, uma lagrima escorrera ardente no rosto do jovem. O mesmo acontecia quando se descia a uma montanha russa, mas ele sabia que aquilo fora uma experiência maior, ele visitara outro planeta em alguns segundos.

Nadya estava diante dele e seu cérebro começou a trabalhar na situação. Mike se sentia como na primeira vez que conhecera Sarah. Não queria mais sair daquele lugar, ou deixar de olhar para aquela jovem. Foi algum feitiço? Não poderia estar acontecendo tudo tão rápido. Mas a paixão nos seus olhos estava clara.