Inveja e Avareza

6 Fim e Recomeço


Petrificada em sua cama, graças ao longo dia, a Cherry só encontrara forças para pegar um caderno e escrever palavras soltas, mas que carregavam um grande significado por tudo o que ela passara nas ultimas horas.

“Desabafando”

Na cozinha, mãe e filha dividiam o silencio do andar de baixo. Um cenário perfeito para as duas revelarem planos e segredos.

Daniele escutava atenta.

— Você tinha razão — disse Cherry suspirando — Mike acabou descobrindo sobre Muriel.

A mulher sentada na cadeira sorria vitoriosa.

— Imaginei que ele acabaria descobrindo sobre ela. Não sei dizer, mas os dois têm bastante coisa em comum. — acrescentou a mãe. — Não seria nenhuma surpresa se você me dissesse que ele saiu correndo atrás dela.

Fora exatamente o que aconteceu, pensou Cherry. Mike estava morando com Muriel agora, e seus pais já haviam sido informados disso.

— Provavelmente há essa hora ele esteja do lado dela. Não sei bem o que ela tem em mente, ou o que esteja tramando — confessou Cherry.

— E sua avó? — perguntou Daniele séria.

Mais uma vez a garota suspirou.

— Você tinha razão. Ela está envolvida em alguma coisa. Eu a segui, e acompanhei todos os seus horários como você me pediu. Tenho quase certeza que ela está envolvida no desvio de dinheiro da empresa onde vocês trabalhavam.

Houve alguns segundos de silêncio para que pudessem arrumar um pouco as novas informações em suas cabeças. Daniele repousava sua visão na pia limpa de torneira gotejante.

— Entendo. Mike suspeitou de alguma coisa nesse tempo?

— Não! — negou Cherry um tanto elétrica. — Ainda não consigo entender, por que tive que esconder tudo isso dele?

Cherry se referia ao fato de sempre estar a par do envolvimento de sua avó na prisão dos pais e a existência de uma irmã gêmea.

— Mike não pôde saber de nada, pois é muito instável e não controlaria suas emoções. Arruinaria o nosso plano. —explicou séria — E sua avó desconfia?

— Acho que não, fiz tudo o que ela me pedia. Participei de todos os eventos que ela realizou… acho que ganhei sua confiança.

— Sua avó sempre teve grande interesse em você Cherry, e isso pode nos ajudar de alguma forma.

— Ela me dá arrepios!

— Você precisa manter o disfarce. — pressionou a mãe. — Seu pai quer usar os métodos dele para a investigação, e nós usaremos o nosso. Eu não o culpo por não querer suspeitar da própria mãe…

Aquilo deu uma sensação ruim no estômago de Cherry. Que situação horrível. Investigar as escondidas a mãe de seu próprio pai… Parecia errado.

— E mais importante de tudo… Não entre na guerrinha pessoal delas, não vale à pena. Essas duas brigam por sei lá o que, durante anos!

Cherry sabia por que brigavam, mas isso teria que omitir. Ainda não estava pronta para contar para sua mãe sobre Alphonse e os outros pecados. A recordação de antes de irem para Newcastle veio em sua mente.

Mike repousava no sofá com a cara amarrada escutando um rock barulhento.

— Cherry querida, poderia vir aqui um momento, por favor? — chamou a mãe.

A garota estava na janela junto á porta da entrada. Admirava a rua e as casas por uma última vez. Ela fechou os olhos devagar imaginando o que a esperava.

Nem se quer bateu na porta.

— Oi querida — falou a mãe.

Daniele usava um rabo de cavalo com uma fita prendendo seus dourados e castanhos cabelos. Cherry não respondeu.

— E então, pensou no que eu te pedi?

Cherry não havia feito mais nada nas ultimas horas. Só conseguia pensar constantemente no que a mãe a pedira. Espionar a própria avó! Tudo soava tão absurdo. Como uma senhora que morava na Inglaterra poderia estar envolvida naquilo tudo?

— Pensei sim. Não sei se posso fazer isso Daniele…

— Entendo — suspirou a mãe imediatamente — Receio ter que pedir para o Mike então. Não queria envolvê-lo nisso, pois considerava que você seria a pessoa certa. Que poderia lidar com isso tudo. Mas tenho certeza que Mike dará conta.

“Que golpe baixo!”, pensou. É claro que Mike aceitaria quase que imediatamente tudo o que a mãe pedisse, ele tinha esse forte apego a ela. Mas Cherry sabia que ele não seria forte o bastante. Talvez a palavra certa fosse “frio” o bastante. Era muito sincero e fácil de ser enganado. E ainda tinha aquela forte sensação de proteção que brotou no peito de Cherry.

“Droga. Não quero que ele faça isso!”, pensou Cherry.

— Ok. Eu faço! — disse derrotada.

A mãe riu baixinho.

— Eu confio em você querida. Confio mesmo.

— Vou ter que esconder isso de todos?

— Sim. — respondeu. — Do seu pai, do Mike e de qualquer outra pessoa! Isso é muito importante, entendeu?

— OK. — concordou mais uma vez.

Daniele analisou a expressão facial da filha. Pensativa e preocupada.

— Cristine é um amor de pessoa. É uma das várias pessoas que trabalha na casa de sua avó. Conquistando sua confiança você poderá descobrir qualquer coisa. Aquela mulher trabalha lá há anos!

A garota concordou com um aceno de cabeça.

— Mais alguma coisa? — perguntou. Estava prestes a deixar seus pais por tempo indeterminado e tudo o que sua mãe pensava era em tramas.

Daniele levantou as mãos e cuidadosamente retirou seu laço do cabelo. Era uma longa fita vermelha. Enrolou em sua mão com carinho.

— Sei que nunca fomos muito unidas, mas seria pedir demais que você ficasse com isso? Para se lembrar de mim…

Cherry apanhou a fita curiosa.

— Seu pai te encheu de presentes, mas espero que aceite essa fita para que se lembre que sua família esta com você, sempre!

A garota se odiou por não conseguir impedir que seus olhos umedecessem. A mãe percebeu, mas Cherry abandonara o quarto imediatamente. Levando consigo a fita, e a lembrança.

Aquela fita serviu para que ela se lembrasse todos os dias do seu dever.

— Tem uma coisa curiosa… — falou a garota de volta ao presente.

— O que foi?

— Quando estava no castelo eu encontrei isso! — Cherry buscou em seu bolso o baralho antigo.

Daniele olhou de relance e perdeu o interesse rapidamente.

— Tarô do Éden.

A garota se espantou.

— Você já conhecia?

— Sim. Como o conseguiu?

Cherry teve que distorcer a verdade. Ela havia encontrado no chão de uma das varias salas do castelo, escondido de baixo de uma taboa. Mas não poderia contar que estivera lá graças a Alphonse.

— Humm… — concordou, depois que escutou a versão da história — Então tinha seu nome escrito?

— Sim, o mais estranho é que parecia já estar naquele lugar há anos!

A mulher limpou a garganta.

— Muriel… Anna Belle. Qualquer uma das duas pode ter deixado isso pra você encontrar.

— Mas como isso é possível? Como elas poderiam saber que eu encontraria em um lugar daqueles?

Um suspiro veio de Daniele.

— Eu não sei… Sinceramente estou com tantas teorias na cabeça que é realmente difícil considerar uma só!

Cherry ficou interessada.

— Teorias?

— É… bem, são apenas isso, teorias. Mas uma coisa que me intriga é: Será que sua avó não teve outra intenção ao nos colocar como bode expiatório dessas acusações?

A garota entendeu que a mãe já considerava a avó a culpada de tudo.

— Como assim?

— Querida. E se sua avó quisesse que vocês dois fossem para Newcastle?

Cherry travou seus movimentos. A mãe continuou.

— Se sua intenção fosse desde o começo separá-los de mim e de seu pai.

— Mas por quê? — quis entender ela.

— Não sei… Sinceramente esperava que você tivesse esta resposta! Não consegue pensar em nada querida?

A cabeça de Cherry girava. Pensar em algum motivo para que Anna Belle quisesse os dois lá em Newcastle? Sua avó tinha um envolvimento direto com os pecados encarnados da cidade. Mas por que ela ou Mike seriam de alguma importância?

Algo a dizia que tinha alguma coisa haver com os pecados.

— De início eu cheguei a pensar que fosse para mantê-los como uma espécie de reféns, no caso de alguém descobrisse algo relacionado á ela.

Cherry engoliu em seco.

— É claro, eu não descartei essa possibilidade. — disse Daniele refletindo. — Mas você consegue pensar em algum motivo Cherry querida?

— Não — mentiu.

Ela não considerou uma total mentira, pois também não fazia muita ideia do que sua avó estava tramando, mas a forte sensação que era algo obscuro martelava em sua cabeça. Há algum tempo atrás algo a incomodava, já havia esquecido, mas agora veio à tona.

Antes de ir para festa de Alphonse, no dia em que Lara, a filha de da empregada Cristine, a empurrou na sala repleta de jovens descamisados. Eles disseram que Cherry precisava ser violada, como se já estivesse tudo planejado. A mando de alguém.

Não poderia ser Lara, ela não tinha essa influência toda. Deveria ser alguém poderoso. Uma pessoa que permitiria a entrada daqueles jovens no castelo. O próprio dono talvez?

Mas por quê?

Daniele fechou os olhos por um momento. Em seguida abriu um sorriso derrotado.

— Pode ir querida, depois conversamos mais.

Cherry concordou.

— Cherry — chamou antes que a garota desaparecesse pela porta.

— O que?

Daniele sorriu mais uma vez.

— Talvez seja necessário que a “velha Cherry” retorne.

A garota bufou.

— Não me peça isso, por favor. Ela não existe mais! — e dizendo assim ela bateu a porta de leve.

“Sonhando”

As janelas permitiam que as luzes dos postes da rua entrassem na casa escura. Já era noite, Cherry subiu as escadas sentindo que carregava toneladas nos ombros. O corredor que dava para os primeiros quartos estava um pouco iluminado. O banheiro soltava uma leve fumaça de água quente, aquilo trazia recordações para ela. Era estranho, pois seis meses fora daquele lugar pareciam décadas.

Seu quarto, a primeira porta da esquerda, estava com as luzes acesas.

— Bisbilhotando muito? — perguntou quando viu Rebecca olhando com cara de besta as velhas fotos.

— Velhos tempos… — disse avoada.

— Eu sei, parece que faz séculos! — exclamou Cherry, mas sem olhar para as velhas fotos.

Rebecca estava agora deitada na cama, seus longos cabelos espalhados por todo o lençol. Admirava pensativa o teto do quarto, que tinha estrelinhas que brilhavam no escuro. Cherry deitou-se ao seu lado.

— Você pode dormir aqui no meu quarto, sabe que não ligo. — disse a garota olhando para o lado.

— E dispensar o quarto de hospedes com uma cama de casal só pra mim? Nem pensar!

As duas riram. Dessa vez foi Rebecca que olhou para a amiga, seus rostos posicionados um de frente para o outro.

— O que foi? — perguntou Cherry.

— Nada — deu de ombros. Ela colocou sua mão quente no rosto macio de Cherry — Você esta tão bonita Cherry. Nunca te vi assim…

A garota corou.

— Você quer dizer que eu era feia antes?

— Não. Você sempre foi linda, mas agora é diferente…

Cherry sentou.

— Diferente como?

Rebecca sentou-se também, se esforçando para olhar o rosto da amiga, que o escondia com seus enormes cabelos.

— Você esta mais madura… Mais mulher! — concluiu em surpresa. Cherry se assustou com o que viria a seguir — Cherry amiga! Não me diga que você já…?

Ela mexeu seus dedos em uma frenesi engaçada.

— Não, Rebecca! — falou Cherry — Tenho dezesseis anos ainda, se lembra?

— Arg, você tem a mente de uma velha! “Tenho dezesseis anos”. Isso é tão normal hoje em dia que você se assustaria! Eu tenho umas estórias ótimas…

Cherry mudou sua expressão para de completa surpresa. Pegou um bocado de almofadas e atacou à amiga.

— Mas que amiga vaca eu tenho! — riu enquanto a atacava.

Rebecca fez o mesmo.

— Que amiga freira eu tenho!

As duas deram boas gargalhadas, como sempre fora.

— Você tem que me contar tudo sobre esse tal de Alphonse! —pediu a garota alegre — Pensei que você não curtia o tipo de cara “Ei olhem pra mim, sou forte!”.

— Eu também pensei que não gostasse, mas… aconteceu.

— Aconteceu? — perguntou Rebecca surpresa — O que aconteceu? Você esta falando de…

Cherry bateu na amiga novamente.

— Não estou falando disso! — disse — No começo eu o detestava, mas de alguma maneira a insistência dele surtiu efeito. Eu tenho uma afeição...

— Afeição nós temos por gatinhos e cachorrinhos, quero saber desse amor que você sente por ele — Ela apanhou a mão da amiga — Nunca te vi assim Cherry! Você está perdidamente apaixonada igual às mulheres dramáticas dos filmes!

Mas Cherry não queria falar sobre aquilo. Soltou a mãos da amiga e balançou a cabeça nervosamente.

— Eu não sei o que aconteceu, ok? — ela deu de ombros envergonhada — Não estou apaixonada...

Ela tinha a impressão que mesmo se tentasse muito não conseguiria, explicar como tudo acontecera. Nem conseguiria admitir o que realmente sentia.

— Falando nisso… onde ele está? — perguntou Cherry curiosa— No banho.

Mas assim que Rebecca informou a Cherry onde Alphonse estava à porta do banheiro abriu lentamente. Era possível escutar o pingar do chuveiro. As duas correram para porta para espirar.

Cherry suspeitou da pressa de Rebecca, que chegou primeiro que ela na porta.

— Ai meu Deus do céu! — exclamou a garota baixinho.

A porta aberta pela metade exibia a fumaça do banho fervente, mas era possível ver Alphonse de costas para a porta, enxugando com cuidado seu precioso cabelo negro que escorria para trás. É claro que de longe esse foi o ponto de foco das duas.

Alphonse enxugava seu cabelo com uma enorme toalha, o restante de seu corpo molhado estava nu. Sem ter conhecimento da platéia que o assistia ele continuou distraído sem se virar, deixando a mostra seu corpo perfeitamente trabalhado em cada ponto. O caminho da água que escorria de seu cabelo molhado fazia uma trilha provocante entre os contornos musculares de suas costas.

Um caminho que se aventurava em meio a músculos contraídos e perigosos, de acordo com seus movimentos, até finalmente alcançar...

— Que traseiro é esse? — gemeu Rebecca abobada.

Em circunstâncias normais Cherry se irritaria, mas como poderia Se ela mesma estava hipnotizada por aquela visão. Procurou seu fôlego. Sua respiração saía quente demais. Era como uma tontura em êxtase. “Meu”, pensou, e se surpreendeu em pensar assim.

Alphonse finalmente amarrou a toalha na cintura, um tanto baixo demais, e se virou. Cherry e Rebecca foram pegas de surpresa.

— Cherry querida! — exclamou ele a sua frase favorita — O banho estava ótimo!

— Pelo tempo que você gastou eu imagino que sim — falou Cherry voltando aos poucos à normalidade.

Rebecca não teve a mesma recuperação, a garota se abanava freneticamente

— O que foi? — perguntou Alphonse quando se aproximou. — O que ela tem?

— Estou com um pouco de calor, só isso! — Se desculpou ela.

Cherry a fuzilava com os olhos.

— É verdade, aqui na América faz muito calor! — disse ele — Eu tive que tomar um banho, pois não agüentava mais!

— Você fica bem à-vontade na casa dos outros. —disparou Cherry.

— “Casa dos outros”? — perguntou sem entender — É a sua casa meu amor. A casa da minha doce cereja!

As duas reviraram os olhos.

— Vai trocar de roupa Alphonse — pediu ela — Hoje é a segunda vez que eu mando você fazer isso, parece até que eu sou a mãe de alguém!

— Hum, você seria uma mãe deliciosa!

Rebecca abriu a boca escandalizada, mas Cherry bufou, muito acostumada com aquilo tudo.

— Anda, vai pro seu quarto! — mandou ela.

O jovem virou de costas para as duas. A mão de Cherry ganhou vida própria e avançou direto no traseiro de Alphonse em um tapa abafado.

“O QUE ESTÁ HAVENDO COMIGO?” gritou em sua cabeça. Ele lançou seu sorriso safado costumeiro e seguiu no corredor até seu quarto. Cherry fechou a porta e se virou para Rebecca que ainda se abanava.

— Eu sei! — se entregou para amiga. E com suas mãos tentou diminuir sua temperatura também, enquanto deslizava pela porta até o chão.

Minutos se passaram e não demorou muito para que Alphonse batesse em sua porta, agora com roupas.

— Sozinha? — perguntou ele com seu tom sensual e entrando sem ser convidado.

— Rebecca esta tomando banho, gelado. — resmungou a garota em sua cama. Não conseguira se levantar ainda, sentia-se tão pesada.

— Que bom. — dizendo assim Cherry levantou de sua cama em um salto.

— Por quê? — quis saber.

Alphonse olhava a cama da jovem com certo interesse. Logo não demorou muito para seus olhos passarem por todo quarto.

—Então, você dormia aqui?

A pergunta foi bem estranha.

— Sim.

Ele deu um salto de onde estava e aterrissou na cama de Cherry.

— Ficou louco? — Mas ele não lhe deu atenção, rolava pela cama como um cachorro, cheirando constantemente cada parte e cada travesseiro.

Sua mão alisava a superfície como se fosse um ser vivo.

— Tem o seu cheiro aqui! — exclamou louco. — Tem cheirinho de Cherry de dezesseis, quinze, quatorze até mesmo dez anos!

Ele soltou um gemido abafado pelo travesseiro.

— Deus, isso é tão gostoso! — gemeu

Cherry não disse nada, não conseguia, estava muito espantada com a reação de Alphonse. Ha essa altura ela pensara estar acostumada com todas as suas manias loucas, mas ele sempre encontrava um jeito de surpreendê-la.

— Então você veio até aqui para cheirar a minha cama?

Alphonse riu.

— Não. Eu vim te entregar uma coisa! — Então ele se pôs de pé.

Com um movimento rápido, girou a garota com seus enormes braços. Buscou em um de seus bolsos alguma coisa. Cherry gelou quando viu o que era.

Alphonse segurava uma pequenina caixinha preta almofadada.

— Cherry White… — começou a falar.

A garota saiu de foco. Tudo girava ao seu redor; seu estômago se contraia engraçado. “Ai meu deus!”

— Cherry White… — repetiu ele com um sorriso enorme no rosto.

Ela perdera todo ar que sobrara em seu corpo. Alphonse em menos de uma hora conseguira sufocá-la duas vezes, “Isso é homicídio!”.

— Cherry White… — O sangue fugira de seu rosto agora; estava pálida e a repetição irritante só a matava mais e mais. “Ele vai mesmo fazer isso!”, pensou enlouquecida.

Ele abriu lentamente a bela caixinha, mas Cherry estava petrificada olhando para o rosto radiante do garoto. Um dos motivos que a impediu de perceber que sua mão lentamente se ergueu a espera de algo.

— Cherry White… — repetiu, agora ele estava de joelhos.

Cherry ainda olhava para onde antes Alphonse estava de pé. Ela era uma estatua assustada.

— Cherry White… — disse com decisão na voz. O coração da jovem parou de bater para escutar, mas não importava, pois ela estava voando longe. — Isso não é uma aliança de casamento!

Puff! Ela aterrissou de seu vôo.

— Mas você tinha que ter visto a sua cara! — engasgou de tanto rir, ajoelhado no chão, vermelho e em lagrimas.

A mão estendia de Cherry agora recebeu uma companheira. As duas prontas para esganar aquele pescoço. Mas antes que ela pudesse assassiná-lo Alphonse puxou uma de suas pernas e ela tombou com força na cama soltando um gritinho.

— Não Cherry White, Isso não é uma aliança de noivado! — falou ele com dentes cerrados e um sorriso louco. Fez um movimento com a mão livre, pois a outra segurava a perna da garota. Ele abriu a caixinha. — E sim uma aliança de namoro!

Ela se esforçou para ver, mas ele a forçava contra a cama. Um pequenino anel brilhava maravilhosamente na mão do rapaz. Ele de joelhos admirava os dedos do pé de Cherry. Levantou-se lentamente, trazendo consigo a perna dela, estendida a sua atura quase tocando o seu rosto.

Beijou delicadamente cada dedo, segurava firme a perna, mas de uma forma agradável. Deslizou sua mão acariciando o tornozelo da jovem, que tremia enquanto sua mão ganhava maior liberdade. Ela podia sentir o anel ir junto com a mão dele. Percorreu todo o caminho de volta aos dedos do pé. E com simplicidade e carinho ele pôs em um de seus pequeninos dedos.

Cherry imediatamente se sentou para admirar o anel. Havia algo escrito.

“Seu mundo é meu”

Os olhos da garota não demoraram a se encherem de água. Ainda tremendo muito, e esquecendo completamente a raiva e ódio, ela se jogou nos braços incrivelmente fortes de Alphonse.

— Obrigado Al! — gemeu chorando muito. — É lindo! É perfeito!

Seu rosto esmagando em seu peitoral rígido, tão quente e caloroso.

— Eu também estou usando, olhe! — Ele mexeu seus dedos do pé. Lá estava um anel também.

Ela permaneceu olhando para o anel dele, não poderia suportar olhar para o rosto de Alphonse e ele entendeu e abraçou mais forte. Nunca poderia olhá-lo, resistir beijá-lo naquele momento era difícil demais.

Agora suas lagrimas se intensificaram, era a velha dor do esquecimento.

— Ai! — gemeu. — Até quando Alphonse… até quando? — chorava compulsivamente, sua voz saindo enrolada.

Alphonse também tremia muito, poderia esmagá-la com seu abraço. Cherry soluçava dolorosamente.

— Dói muito. — grunhiu em prantos. — Alphonse dói demais!

Ele cedeu á lamentação da jovem. Apoiou o queixo na cabeça da garota, os olhos fechados com força tentando conter aquela sensação horrível. O controle que Alphonse sempre manteve de seus sentimentos eletromagnéticos, se rompeu. Cherry sentiu a intensidade alucinante de sua dor.

O dobro de sofrimento.

— Ai! — se contorceu ela. — Alphonse pare!

As pernas cederam e ela caiu no chão. Ele não fora rápido o bastante para segura-la.

— Me desculpe! —disse desesperado. — Me perdoe Cherry!

A garota enxugou o rosto e se separou dele.

— Vamos dormir ok? — disse fungando muito.

— Me desculpe Cherry! — persistiu.

— Está tudo bem Al. Calma! — Ela precisava de um lenço. — Relaxa. Vamos dormir que isso passa ok?

Alphonse concordou finalmente.

— Boa noite, Cherry querida — despediu-se, mas Cherry não disse nada de volta.

“Foi melhor assim…” — Pensou ela.

“Reclamando”

Ela não conseguia dormir; chorou a maior parte do tempo. Tentou abrir a janela em busca de ar, mas a noite lá fora exibia nuvens feias e carregava um ar gélido. Tal clima insistia em persegui-la aonde quer que fosse.

Não se surpreenderia se sua cabeça explodisse naquele exato momento. Era tudo tão complicado.

— Complicado demais… — sussurrou baixinho, encostada na janela.

Uma faixa de luz entrou em seu quarto por debaixo da porta. Alguém acendera a luz do corredor. Cherry se aproximou devagar para tentar escutar quem era, “Há essa hora?”, pensou.

Os passos passaram direto por sua porta, um perfume forte invadiu o seu quarto. Uma fragrância conhecida. Ela resolveu abrir a porta com muito cuidado. Pode ver de relance a silhueta de Alphonse descer as escadas. Imediatamente ela o seguiu, correndo um pouco.

Ele já estava abrindo a porta da frente quando a garota saltava os degraus da casa.

— Alphonse! —disse, quase berrando.

O garoto estava do lado de fora da casa, arrumado demais para ser um sonâmbulo.

— Aonde você vai? — perguntou ela alcançando o rapaz.

Alphonse suspirou quando a viu chegando e isso a irritou.

— Tenho uma festa pra ir. — explicou preocupado.

Ela piscou confusa.

— Festa? Que festa?

Ele entortou a boca meio perdido.

— Albert… meu amigo, não se lembra?

Cherry buscou em sua memória. Sim. O outro garoto Luxúria iria dar uma de suas “festinhas” em um navio ou coisa parecida.

— Mas há essa hora? — E o mais importante de tudo. — Saindo escondido desse jeito?

As inseguranças começaram a voltar aos poucos, envenenando sua mente. “Saindo escondido …”.

— Cherry… pensei que você estivesse dormindo, não quis acordá-la.

Aquilo soou extremamente falso para ela. Um frio doentio tomou o seu corpo.

— O que te impediu de me avisar antes? — disparou — Ficamos o dia inteiro juntos!

Alphonse não respondeu.

— E nem cogitou a ideia de me levar? — indagou novamente.

— Você não iria gostar desse tipo de festa…

Não era o bastante, e soava falso demais para ela. “O que esta havendo?”

— Alphonse me conte a verdade. — Ela o encarou, tentava ler seus olhos, que desviavam envergonhados.

— Eu já te disse Cherry querida — persistiu.

O medo a tomou. As palavras de Verônica martelavam sua cabeça.

— Eu também vou! — disse de repente. Antes que ele pudesse reclamar ela continuou — Se eu não for, você nem precisa voltar!

Alphonse arregalou os olhos assustado.

— Você esta exagerando meu amor…

— Não Alphonse — falou determinada — Estou falando muito sério!

Ele bufou. Olhou para o céu nublado e em seguida para seu relógio caro de pulso.

— Ok. Vamos. — rendeu-se.

Cherry sorriu satisfeita.

— Só me dê um minuto ou dois para trocar de roupa!

Alphonse gemeu insatisfeito.

— Não precisa! Você esta ótima assim!

Ela estava de camisola.

— Nem pense em fugir Al, eu já volto em um instante!

A garota correu para dentro da casa. Procurou não fazer nenhum barulho e tentou evitar a imagem mental de seu pai acordando no meio da noite, percebendo que o quarto da filha estava vazio.

Meia hora depois Cherry apareceu no jardim. Alphonse estava sentado na grama com sua cara emburrada.

— Um minuto ou dois? — resmungou.

— Ah cale essa boca!

Ela usava uma blusa azul de ceda que descia em ondulações. Seus ombros ficavam a amostra pela enorme abertura que a blusa tinha. E o jeans que cobria até pouco mais do joelho completava sua roupa de sair.

— Ao menos você esta encantadora. — resmungou mais uma vez, fazendo um biquinho esquisitíssimo — Vem, segura na minha mão.

Cherry concluiu que não usariam nenhum transporte comum para ir a essa festa. Estendeu sua mão para que Alphonse pudesse tocá-la. A onda de energia passou por todo o seu corpo e a levou para as nuvens em segundos.

Seu estomago se revirou com a estranheza. Ela não conseguia enxergar seus membros, era apenas uma presença ambulante. Conseguia apenas sentir que Alphonse a segurava bem forte.

Seus pés tocaram o chão.

— Você esta bem? — perguntou.

— Acho que sim — mentiu.

Ela olhou para onde estava. Era à frente de um enorme hospital. Ela já estivera ali algumas vezes. “University of Maryland MEDICAL CENTER”.

— Porque estamos aqui? — perguntou ela — A festa vai ser em um hospital?

— Não. Demoramos demais. — reclamou — A tempestade já passou aqui.

Era verdade, o céu estava aos poucos perdendo as nuvens.

— Vou precisar fazer uma ligação, fique aqui na frente do hospital!

Ela não estava gostando nem um pouco do tom de voz que ele estava usando. Seria porque ela estragou seus planos? A nuvem de incerteza tomou conta de sua cabeça mais uma vez.

— Cherry? — chamou alguém. Ela imediatamente se virou para ver quem era.

— Sophie! — disse ela reconhecendo quem era.

As duas se cumprimentaram.

— O que você esta fazendo aqui?

— Plantão — explicou a jovem, parecendo ligeiramente cansada —Minha universidade arranjou esse “programa de verão” para alguns alunos. Esse hospital é ótimo, estou aprendendo tanto!

Ela sabia que Sophie já estava na faculdade. A garota de longos cabelos negros usava o uniforme médico dando certo ar de profissional. Ela ajudara Mike há um tempo.

— Mas e você? —perguntou preocupada — Não esta com nenhum problema, esta?

— Estou bem. — falou Cherry — Estou esperando Alphonse voltar. Vamos para algum tipo de festa maluca…

Sophie suspirou.

— Que inveja. Já nem me lembro da ultima vez que sai para me divertir. — A garota estava avoada. — Tenho trabalhado tanto que não sobra tempo para mais nada!

— E você e o Richard?

— Ele tem viajado muito, para esfriar a cabeça, sabe? — Ela olhou para o céu. — Espero que ele esteja bem.

Cherry não conseguia sentir a mesma preocupação. Da ultima vez ela acertara o rapaz com um ferro na cabeça.

— Nós duas estamos em situações semelhantes, creio eu. — sussurrou Sophie com um sorriso — Nossos namorados são diferentes.

Antes que Cherry pudesse dizer qualquer coisa o “bipe” de Sophie apitou.

— Preciso ir! —disse cansada. — E seu irmão Mike? Esta tudo bem com ele?

— Não tenho falado muito com ele ultimamente. Desde que ele resolveu ficar em Newcastle com a namorada dele.

Sophie não pareceu entender muito bem.

— Mande um abraço se o vir, até mais! — E assim ela entrou no hospital.

Cherry sentiu uma pontada de admiração por aquela garota. Tão determinada no que faz. Forte e incansável. “Gostaria de ter só um pouquinho da coragem dela”, desejou em seus pensamentos.

Alphonse retornou com uma expressão um pouco melhor no rosto.

— Albert vai mandar alguém nos buscar. — Cherry sorriu brevemente, agora começando a sentir o peso do sono.

Os dois ficaram em silêncio por bastante tempo. Os olhos da jovem se fecharam por um instante, mas imediatamente ela os abriu quando percebeu que Alphonse estava olhando.

— Você é muito teimosa! — disse. Ela o ignorou.

— Não acredito que você ia a essa festa sem ao menos avisar. — falou finalmente.

Alphonse deu um longo suspiro e passou os dedos nos cabelos desajeitados.

— OK Cherry, você quer a verdade?

— Sim, é exatamente isso que eu quero! — Ela duvidou de suas próprias palavras.

O jovem olhou para frente com seriedade rara.

— Isso não é normal aos olhos deles — soltou.

Ela não entendeu.

— O que não é normal? De quem esta falando?

— Nós Cherry! — disse impaciente. — Nossa relação! Meu amigo Albert...

Não houve comentário da parte dela, queria escutar tudo.

— Isso não existe na Luxúria. Ter uma relação prolongada… Se apaixonar!

— Quer dizer que vocês nunca se apaixonam? — perguntou incrédula. Não que ela já não tivesse concluído aquilo antes, mas agora que o assunto viera à tona teria que discuti-lo. Encontrar uma brecha talvez?

— E como poderíamos? Você sabe o que acontece no dia seguinte…

Cherry resistiu certo tempo.

— Mas você me prometeu que encontraríamos um meio!

— E vamos encontrar meu amor! Mas para eles é impossível. É estranho demais! — Ele continuou a sua conclusão. — Se me virem com você o tempo todo… irão estranhar. Começarão a fazer perguntas!

— Que se dane o que eles pensarem, não? —perguntou incerta.

— Não é bem assim. Eu tenho uma imagem lembra? Sou a Luxúria Européia! — explicou — Se perceberem que eu me apaixonei por você irão encarar esse ato como uma fraqueza, uma renuncia ao meu pecado. Ao meu poder!

Ele pegou a mão de Cherry com força.

— Podem tentar me matar. Todos juntos — Ele a olhou nos olhos. — Ou pior. Tentarem te ferir…

— Mas e seu “irmão’”? — perguntou aflita — Vai ficar sentada assistindo? Ele não te apoiaria?

— “Ficar sentado assistindo” é exatamente o que ele faria Cherry! — indignou-se. — Ele não teria escolha! São as regras de vivência pecaminosa. Receio que ele até me atacaria se chegasse realmente a esse ponto.

Cherry gelou com a ideia.

— O que vai fazer então? Ignorar-me a festa inteira?

— Se você quiser realmente ir, infelizmente sim.

Ela sem lembrou da atitude fria que ele adotara no avião quando Albert aparecera. Seria como aquilo só que prolongado?

O que Alphonse não sabia é que a insegurança na mente da garota era mais forte do que tudo. Aquilo a permitia se sujeitar a dor de ser ignorada por ele. O sentimento doentio de incerteza falava por ela. Cherry era só uma garotinha assustada no fundo da sala assistindo tudo.

— Não importa, eu vou! — disse.

“Atrapalhando”

A rua escura e solitária finalmente foi surpreendida pelos faróis do carro luxuoso. O céu continuava limpo e sem sinais de nuvens tempestuosas, para o azar de Alphonse.

O carro os levaria para o mais próximo possível da tempestade.

— Olá “parceiro”! — acenou o jovem de cabelos arrepiados — Deu azar também?

Alphonse riu desconcertado como se fosse um ultraje ele ter um azar daqueles. Cherry se divertiu por um segundo.

— Estamos muito atrasados? — perguntou ele, empurrando Cherry para dentro do carro.

— Não muito — deu de ombros — Três horas da manhã é uma hora boa!

— As estrelas chegam por ultimo, não é verdade? — disse Alphonse rindo.

O jovem motorista soltou uma gargalhada e concordou. Com um movimento rápido ele percebeu que havia uma garota no banco de trás.

— Ah cara! — resmungou alto. — Não fui avisado que era pra levar alguém!

Alphonse se quer olhou para Cherry.

—Quando notei que estava atrasado eu quis me garantir— explicou sorrindo.

A garota botou seu cérebro para maquinar.

O rapaz ao volante provavelmente era um “Luxúria”. Alphonse teria que agir com frieza na sua presença, pois não queria passar a impressão que Cherry era uma preferência dele.

— Droga! Deveria ter pensado nisso! — disse o rapaz batendo no volante. — Papai disse que teria centenas de garotas disponíveis!

“Papai?”, pensou Cherry alto em sua cabeça. Alphonse magicamente percebeu sua duvida repentina.

— Albert gosta de exagerar, você sabe… — Alphonse quase conseguia se passar por um americano com sua capacidade de se adequar a um ambiente.

Cherry concluiu que o jovem ao volante era um dos “filhos” de Albert. Garotos transformados no pecado Luxúria.

— Caso eu fique sem ninguém você dividiria ela comigo? — O garoto carente tirou os olhos da direção para ouvir uma resposta.

— Claro cara! Somos todos irmãos, não? — Não havia verdade nenhuma naquelas palavras, ela sabia, mas dessa vez a tentativa de soar americano saiu meio forçado.

Cherry já o conhecia bem o bastante para saber quando ele mentia descaradamente, e de propósito. Ficou tranqüila e tentou sorrir um pouco para manter o teatro.

— Olhos na estrada amigo, quero chegar vivo na festa — Alphonse disse aquilo com um sorriso. O rapaz estava admirando Cherry e não notara a direção.

— Não acredito que estou na presença de outro original! — Exclamou animado. — Aqui a gente só conhece o papai!

Era extremamente estranho ver aquele jovem, que aparentava ter uns dezessete, chamar outro de idade semelhante de “papai”. Ela tentou se distrair olhando para estrada. Em poucos minutos deixaram Baltimore e estavam na autoestrada.

— E então? Ele te transformou á pouco tempo? — perguntou Cherry de repente.

Alphonse levou um susto e arregalou os olhos. Ele foi rápido em abrir um sorriso gargalhar baixinho, o rapaz motorista fez o mesmo.

— Ela fala cara? — gargalhou. — Nunca deixo que elas falem muito, me atrapalha às vezes.

Alphonse riu em resposta. Parecia muito tenso. Cherry não acreditou no que acabara de ouvir.

— Acabei me esqueci de apagar a memória dela — falou dando de ombros.

Mas rapaz motorista não riu dessa vez.

— Como assim cara? — perguntou confuso — Há quanto tempo ela esta com você?

Houve um silêncio mortal. Cherry percebera a burrada que acabara de fazer e Alphonse não encontrara mais desculpas.

— E você acha que ele é meu único pecadinho? — riu ela desdenhosa — Sou praticamente viciada em vocês!

O jovem fez uma careta paralisada. Em seguida uivou alegre com um cão.

— Essa é das minhas! —gritou animado. — Albert sempre tem uma dessas perto dele! Do tipo que curti ficar com a gente por vontade própria!

Alphonse sorria eternamente em seu canto, era quase macabro. Cherry tentava parecer sensual, porém como isso seria possível se o rapaz insistia em tirar os olhos da estrada.

— Pena que são raras. —comentou meio desapontado. — Adoraria saber que sabor vocês tem…

“Adoraria meter um soco na sua cara se você não dirigir direito!” pensou ela desesperada.

— Eu só gosto de comida fina! Não sairia com qualquer uma — ele passou os dedos nos lábios analisando Cherry — Já passei dessa época de obrigar!

Os dois jovens riram como se falassem de “bons tempos”, mas Cherry soltou uma risadinha sarcástica se lembrando de meses atrás quando Alphonse a obrigara a ficar com ele e recebera um belo tapa em troca. Ele percebeu logo e se calou.

Passou meia hora. O carro em completa escuridão avançava loucamente na estrada vazia. Ela se aconchegou em seu próprio canto, abraçando a si mesma. Era tão frio.

— Estamos chegando. Posso sentir o cheiro da umidade! — Disse Alphonse. Ela não sabia que aquilo foi para acalmá-la ou para apressar mais o carro que já estava indo rápido demais.

Cherry deu uma espiada na janela. O tempo estava mudando aos poucos e era possível ver alguns clarões no céu ao longe.

— Essa é nossa deixa, muito obrigado, er...qual é seu nome? — perguntou Alphonse.

— Meu nome é Carl! — sorriu o rapaz — Mas não me diga que você já consegue sumir a essa distancia?

Alphonse riu todo cheio de si.

— Você tem muito que aprender ainda — E dizendo assim ele agarrou o braço da jovem e desapareceu.

Cherry estava de volta às nuvens. Estava mais frio e assustador do que antes, como se houvesse um nervosismo na tempestade. Talvez por um breve segundo tenha conseguido ver o carro na estrada, agora conseguia abrir os olhos quando viajava com Alphonse daquela maneira. Com um puxão, os dois desceram.

Imediatamente Alphonse soltou a mão da garota.

— Fique atenta! — disse ele baixinho.

Cherry olhou ao seu redor. Era um enorme campo perto de um penhasco sinistro. Carros, muitos carros, se encontravam espalhados por toda parte. As portas abertas deixavam o som sair em alto e bom som. Havia uma fogueira no centro.

Enquanto caminhava para acompanhar Alphonse, ela pode ver as pessoas que estavam ali fazendo tanto barulho. Todos os jovens tinham garrafas em uma mão e uma garota na outra, riam e gritavam alegres.

Perto da fogueira, Cherry reconheceu dois jovens sentados em cadeiras de praia. Albert e Zahara pareciam o centro de toda a festa.

— Cherry! — cochichou Alphonse baixinho ele.

— O que?

— Você poderia amarrar seu cabelo? — pediu preocupado — Faça um rabo de cavalo ou algo diferente!

Ela o encarou, completamente confusa.

— O que tem de errado com meu cabelo?

Ele bufou impaciente para explicações.

— Nada! Você precisa parecer diferente da ultima vez que Albert te viu!

— E um rabo de cavalo vai enganá-lo? — Ele riu da teimosia eterna de Cherry.

— Esqueceu meu amor? Nós temos a memória muito curta, qualquer mudança na aparência faz com que nos esqueçamos do rosto antigo. Encaramos como uma pessoa nova!

Cherry achou aquela explicação absurda.

— Mas Alphonse — começou a dizer — Eu já amarrei tantas vezes o meu cabelo, e já me vesti e me maquiei diferente… E você ainda se lembra de mim, não?

Era uma pergunta idiota que ela sabia a resposta. Mas sabia que a queria mesmo assim.

— É diferente! — Ele suspirou impaciente, percebendo que teria que explicar.

A jovem cruzou os braços esperando respostas. Por sorte ainda estavam distantes dos outros e ninguém parecia se importar com nada.

— Cherry… — Ele procurou as palavras. — Nós, o pecado da luxúria, enxergamos diferente das pessoas comuns. Como eu havia explicado antes, eu posso ver as ondas eletromagnéticas do seu lindo cérebro, lembra?

Aquilo foi estranho de ouvir novamente.

— Lembro — confirmou.

— Esse tipo de visão não é possível de conseguir normalmente… — Agora ele procurava ser esclarecedor, mas estava quase perdendo as palavras. — Nosso tipo de visão comum é como uma… Casca de ovo!

Ela fez uma careta com a comparação.

— Sim, casca de ovo é a comparação certa! — disse azedo — Enxergamos somente o exterior! Existem ovos que são mais escuros e mais claros. Isso pode ser um diferencial para as pessoas comuns, masnão para nós!

Cherry não conseguia entender absolutamente nada daquela explicação.

— Para nós, os ovos são todos iguais. Lindos e atraentes — continuou. — Se eu deixo um ovo em cima da mesa e vou embora por um instante, eu sei que ele ainda vai estar lá, porém se eu voltar e o ovo estiver com uma mancha ou uma rachadura pequenina… eu não vou reconhece-lo!

— Mas isso é ridículo! — disparou — Como uma coisa tão insignificante pode alterar toda a pessoa de sua memória?

— Pode parecer ridículo, e talvez seja, mas é assim que funciona nossa visão! — explicou — Uma pequena alteração em algo que já vimos torna aquilo inédito para nós!

— Mas e quanto a mim?

— Certo. Eu lhe contei dessa visão da casca do ovo que temos — ele passou a mão no cabelo nervosamente— A segunda visão seria a interior, que corresponde às ondas eletromagnéticas, ou a “gema” — Ele parou por um instante para procurar seus argumentos. — Esse tipo de visão só é possível graças ao toque constante. Sem um contato com a pessoa é quase impossível decifrar o código eletromagnético, ou mesmo enxergá-lo. Lembre-se que cada pessoa tem um código diferente!

— Entendi… graças a isso você se lembra de mim, da Jenny e de outras pessoas, não é? Porque são próximos de você?

— Exatamente! — exclamou triunfante. — Sabia que entenderia!

Agora fazia completo sentido para ela. Todas as vezes que ele a tocara e ela sentira uma forte onda eletromagnética viajando por seu corpo. Aquilo era o Alphonse memorizando a garota. A conexão era tão forte que Cherry já podia senti-lo de longe.

Quem sabe a primeira vez que ele a memorizou foi naquele especifico chá da tarde, em que sua avó chamou diversas pessoas e Alphonse estava lá. Tentou agarrá-la e quase conseguiu, devido ao seu toque paralisante. Ela estava gravada na mente dele…

— Al… se você memorizou meu código, então… — disse ela baixinho.

Alphonse lançou um olhar triste. Não queria que ela sentisse falsas esperanças.

— Nesse caso as coisas funcionam de maneira diferente...

Cherry ficou muda.

— Eu não sei explicar muito bem o porquê disso acontecer… Albert sempre foi melhor nessas explicações. — Ele suspirou uma última vez. — Agora vamos à festa!

Uma música começou a tocar dando um ar extremamente sinistro a festa. Cherry reconhecera o som “Cry little sister”.

— ALPHONSE! — berrou uma voz.

Albert saltara de sua cadeira de praia e correra para os braços do amigo.

— Droga Al! Chegar tarde sempre foi seu estilo, mas dessa vez você exagerou! Já estávamos prestes a começar as iniciações…

— Sem mim? — O interrompeu incrédulo.

Albert fingiu certeza.

— Vejo que você já encontrou alguém que te agrade na minha festinha! —o rapaz observava Cherry, não parecia reconhecer a garota.

— Você sabe que eu não fico sozinho nem dez segundos! — riu Alphonse. Ele olhou para os lados observando algo — Meu caro irmão, eu posso estar enganado, mas me recordo de você comentar algo sobre uma festa no navio?

Albert esqueceu a presença de Cherry.

— Essa, meu querido irmão, é só a parte numero um da festa! Depois das iniciações iremos daqui para meu navio que já esta em alto mar!

Parecia embriagado de energia. Cherry ficou cansada só de olhar para animação daquele rapaz. Alphonse deu um assovio surpreso.

— Acha mesmo que os novatos vão alcançar o navio? Esta meio distante para eles.

— Considere isso como parte da iniciação! — disse Albert animado. — E não duvide de meus filhos Alphonse, sabe que eu os valorizo!

Os dois riram. Cherry só esperava esquisitices vindas daqueles dois.

— Vamos! Quero te apresentar meus favoritos! — Albert conduziu Alphonse para longe dela, mas ela jurara ter o visto virar o rosto alguns centímetros em sua direção.

Não poderia reclamar, não quando foi ela quem quis vir. Teria que se cuidar sozinha naquele lugar.

Havia garotas rindo sem parar, pareciam estar em algum um transe alucinado. Sobre a capota dos carros, alguns jovens dançavam descamisados, coberto de uma bebida muito forte. O mais impressionante era o show de raios que alguns emitiam. Pequenas cargas que rompiam de suas mãos e atingiam uns aos outros, como uma guerra de bolas de neve.

Ninguém parecia se importar com nada daquilo. Era uma festa incomum.

Cherry precisou cobrir seus olhos para cenas que não desejava ver. Não havia pudor algum. Havia jovens com duas ou três garotas, todas estranhamente alegres. Suspeitou que estivessem gostando apesar das habilidades incomuns que as conduzia.

Soltou seu cabelo novamente. Ela tinha o amarrado tão depressa que ficara parecendo uma louca, não custava nada parecer mais decente. Mas antes que pudesse amarrá-lo novamente…

— Oi docinho! —chamou a voz melosamente romântica.

Com um giro de espanto ela se deparou com o garoto motorista de cabelos arrepiados. Carl.

— Alphonse já te largou? —falou incrédulo. — Eu demoraria um pouco mais com você… você parece ser uma delicia!

O nojo subiu a garganta da garota. Mesmo ele sendo atraente estava bastante claro que aquele ovo era bastante podre. Ela tentou rir, mas algo a fez perceber que nada adiantaria com aquele cara. Não com o desejo incontrolável e voraz que ele tinha nos olhos.

“Droga… isso realmente vai atrapalhar sua festa Al!”, pensou.

“Aprendendo”

Alphonse seguiu o velho amigo a alguns metros de distancia de Cherry. Coberto de arrependimento e preocupação, ele não conseguira prestar atenção no que Albert dizia. Queria muito olhar para trás.

— Meu irmão o que foi? — perguntou aflito. — Alguma coisa te incomoda?

Pego de surpresa, Alphonse tentou pensar rápido em uma desculpa, pois estava muito claro que estava desligado.

— São muitos! —comentou de repete — Muitos para transformar meu irmão!

Albert então sorriu.

— Compreendo seu medo Al. — Ele colocou a mão no ombro do amigo. — Teme que fujam de meu controle…

Alphonse não pesara nisso. Ele conhecia Albert, sabia que era poderoso demais para perder o controle assim, mas acreditava em um limite.

— Me desculpe meu irmão, mas acho que até você pode se enganar às vezes. — Sabia que o amigo adorava quando as pessoas tinham dúvidas quanto a sua capacidade — Com tantos assim… pode ficar impossível controlá-los.

Albert soltou uma risadinha e assobiou para um bocado dos jovens que estavam em frente a seus carros, todos obedeceram ao chamado imediatamente.

— Então — Começou a dizer — Vocês querem se juntar a minha família?

Muitos murmúrios positivos foram ao ar.

— Isso é o que veremos! — comentou Albert sorrindo. Ele subiu em sua cadeira de praia e cruzou os braços — Minhas garotas irão entregar a vocês uma bebida muito especial…

Os jovens olhavam uns para os outros nervosos enquanto as lindas garotas desfilaram com garrafas cobertas por um papel amaçado. Alphonse sabia muito bem o que era aquilo. “O licor da Luxúria”. Ele nunca produzira um, era preciso querer muito para ter os conhecimentos necessários, e ele não queria. Não desejava que outras pessoas tivessem aquele poder. Não que quisesse protegê-las, mas pensava na dor de cabeça que seria ter que supervisionar seus “filhos”.

Tão imprudentes, os pecados acabariam fazendo alguma besteira como entrar em disputas mortais por títulos idiotas. Ele vivera tempo bastante com aquele pecado para saber que não valia à pena. Mas Albert nunca se importou. Por ser completamente sozinho a vida inteira, ele teve esse impulso descontrolado de transformar mais e mais jovens. Criara sua própria família ao seu jeito.

É claro que todos tiveram escolha. Ninguém é obrigado a se transformar em um pecado encarnado. Não, era preciso querer isso também. Albert não passava de alguém que tinha essa maneira, mas a escolha não partia dele.

“Talvez merecessem isso” pensou.

Quase todos que procuravam esse poder eram pessoas horríveis de índole baixíssima. Criminosos sempre foram os mais desejosos daquele poder, mas sempre os primeiro a cair. Muitos tinham a mente fraca, e se deixavam seduzir pelo pecado e suas “maravilhas”. Depois de tanto observar essas pessoas que voluntariamente aceitava um mal tão grande dentro de si, ele chegou a uma conclusão…

A maioria desejava a morte. Procuram sempre diferentes maneiras de consegui-la, seja em bebidas, drogas, violência brutal; não passavam de maneiras de acabar com suas próprias vidas. O “viver perigosamente” era uma desculpa esfarrapada para a desvalorização do seu “eu”. Não se importam.

— Bebam tudo! — ordenou Albert animado. — Até a última gota!

E foi o que fizeram. Com o aglomerado que se formou a visão de Alphonse foi obstruída, e era impossível ver Cherry de onde estava.

— Agora meus filhos, irão passar pelo único teste que exijo! — Todos se sentiram aliviados por só haver um teste.

Albert desceu de sua cadeira e foi em direção ao enorme penhasco. Ninguém o seguiu.

— O que estão esperando? — gritou. — Venham!

Obedeceram com certa relutância. Alphonse suspirou sabendo o que viria a seguir. “Seus métodos não mudaram muito”, pensou.

O penhasco gigante exibia em seu final um mar nervoso com ondas inquietantes. Era abismal a cena. O vento gelado que fugia das águas batia no rosto dos jovens assustados deixando-os tremeluzentes.

— Fechem seus olhos. — ordenou Albert com calma.

Dessa vez não foi muito difícil obedecer à ordem, era uma saída para a cena aterrorizante. Mas Alphonse sabia que não seria uma fuga de nada. Não. Fechando seus olhos eles entrariam no “túnel de pedras”. Um lugar em que teriam que entregar suas almas para Albert, em troca do poder ilimitado da Luxúria.

Seus rostos pálidos e medrosos pareciam indicar que já chegaram ao momento decisivo, muitos abriam seus olhos e se retiravam calmamente, provavelmente Albert cuidaria deles depois. Os que ficaram permaneceram de olhos fechados.

— Certo! — disse o amigo finalmente. — Vamos ao teste…

Os jovens respiravam com alguma dificuldade, mas inexplicavelmente riam de si mesmos, como loucos.

— Alphonse? — chamou ele. — Meu irmão, poderia ensiná-los?

Alphonse o encarou com negatividade, mas o amigo lhe retribuiu com um sorriso. Sabia que não iria negar a um pedido vindo de Albert.

— Escutem com atenção garotas! — disse Alphonse ao grupo — Não vou me repetir!

Ele abriu caminho entre os rapazes, todos o olhavam com curiosidade, talvez pensando o que ele teria de tão especial.

— Olhem para cima! — apontou. Lá estava o céu tempestuoso repleto de nuvens carregadas de um azul escuro e intenso. — A partir de hoje Albert será o pai de vocês, e ela a mãe!

Os jovens olharam para onde ele apontara, os trovões pareciam responder a afirmação. A tempestade, a mãe da Luxúria.

— Nossa mãe. — repetiu sério — Nunca falhará conosco se formos fiéis a ela! Se acreditarmos em seu poder!

Alphonse fechou seus olhos e respirou fundo. Seu sorriso saiu automaticamente. Com um movimento repentino, correu para frente a toda velocidade e se jogou do penhasco.

Houve gritos.

O pequeno grupo correu para ver o que havia acontecido com o jovem suicida, mas não existia mais qualquer indicio de sua existência na água. O mar carregara seu corpo?

— Alguém morreu? — perguntou a voz de trás da multidão.

Espantados, todos olharam Alphonse de braços cruzados esperando por uma resposta.

— Como? — perguntou um deles.

— Acreditem! Confiem nela! — disse Albert sorrindo.

Tomou certa distância do lugar.

— Só estarão prontos depois disso! — advertiu.

O medo era evidente em seus rostos. Somente alguns pareciam criar coragem o bastante para que suas pernas inclinassem para frente.

— PULEM! — berrou Albert.

Os mais corajosos foram primeiro. Com um salto no último vestígio de terra, se entregaram à queda. Os gritos enlouquecidos de alegria ecoaram mesmo com os trovões. Em segundos estavam de volta à terra firme, berrando enlouquecidos.

No final todos acabaram pulando, mas nem todos retornaram.

— Eles escolheram. — explicou Albert. — Você são meus filhos agora! Divirtam-se!

O choque de pular de um penhasco passara rapidamente, como Alphonse previra. Agora viveriam em função da diversão, sob as ordens de Albert.

— São confiáveis meu irmão, eu lhe disse.

Alphonse assentiu, mas só porque não queria abrir uma discussão novamente com o velho amigo.

Um grito arrancou-lhe de seus pensamentos.

— O que foi isso? — perguntou. Não houve resposta. A aglomeração se dissipou e Alphonse pode ver o que acontecia.

Uma garota de cabelo castanho lutava com todas as forças para se separar de um rapaz de cabelos espetados. “CHERRY!” berrou em sua cabeça.

— O que disse meu irmão? — Alphonse se assustara com aquela pergunta. Precisava controlar suas emoções, Albert era muito poderoso.

— Esses novatos simplesmente se esquecem das boas maneiras! —falou, desejando que o amigo caísse mais uma vez em uma mentira.

Albert suspirou.

— É verdade. Admito que da certo trabalho adestrá-los, mas você precisa levar em consideração o fato de que nós americanos não possuímos toda essa educação que vocês ingleses possuem.

Ele sorriu para Alphonse e acrescentou:

— Não vamos interferir. A garota vai acabar cedendo. Mais tarde ele receberá um castigo pelo barulho.

Mas o desespero tomou o corpo de Alphonse.

“Resistindo”

Minutos antes, Cherry fitava o rapaz a sua frente, sem saber que artifício usaria para afastá-lo. Os centímetros que separavam os dois diminuíam perigosamente.

— Sabe… — começou a dizer — O Alphonse vai me querer de volta. Ele disse isso!

Carl era um jovem que possuía um sorriso largo e sedento. Parecia ser alguém que frequentava muitas festas, com um visual descolado e perfume forte. Seus olhos pareciam fitar algum tipo de alvo no corpo da garota. Um objetivo.

— Então é melhor me apressar, não? — disse ele animado.

Cherry deu um passo para trás, mas o jovem avançou.

— Gostei muito quando você disse que adora um pecado. Tenho preferencia por garotas soltas. — Ele tocou no rosto dela, imediatamente todos os pelos do corpo de Cherry se arrepiaram — Principalmente quando são lindas como você.

Seus dedos deslizaram para boca de Cherry, mas ela deu um tapa na mão.

— O que foi? — perguntou confuso.

— Já te disse que Alphonse não vai gostar! — explicou aflita.

Ele pensou por um segundo.

— Você não disse isso. Só disse que ele iria querer você de volta, ele não vai se importar em dividir, lembra?

Para sua infelicidade era verdade, Alphonse prometera isso para Carl. Mas também era uma mentira ao mesmo tempo. Dessa vez ele segurara seu braço com força e a puxara para si. Aquilo doeu muito.

— Você é dessas que gosta de violência? — Ele cheirou seu cabelo. — Pois para mim você cheira a virgindade…

Ela o empurrou com força, mas só tombou para trás.

— Não vou ficar com você, desista! — reclamou ela, mal controlando sua raiva.

O sorriso dele não se desfez, só ganhou mais força.

— Gosto assim gata. — riu. — Quando vocês reclamam, batem o pezinho… quando gritam, hummm, que delicia!

Mais uma aproximação, dessa vez ele tomara seus pulsos com força. Ela tremeu de raiava e dor.

— Isso. — sussurrou — É exatamente do que gosto, fica nervosinha vai. Fica vermelha…

Ele tocou seus lábios no pescoço de Cherry, seus pulsos ardiam de tanta dor, enquanto Carl gemia em seu ouvido.

— Você gosta disso, não é? — Ele sussurrava tão perto de sua pele que ela sentia arrepios na alma. — Gosta de ser obrigada, não é?

Cherry não conseguia falar, seu corpo se contraía com a energia que invadia seu sistema. Começou a suar nervosa e apavorada. Ele gemeu com mais vontade, seu corpo inteiro a desejava.

— Assim… — arfou em gemidos próximos. — Linda e… molhada!

TUM

O grito do rapaz chamou a atenção dos que estavam próximos. Cherry acertara seu nariz em cheio com uma cabeçada desesperada, o garoto urrava no chão.

— SUA VACA! — berrou.

Ela aproveitou a brecha para sair correndo, mas o rapaz avançara com violência e tocou forte em seu ombro. Imediatamente uma corrente poderosa invadiu todo o seu corpo. Tudo girava em sua mente. A sensação estranha de que alguém tentava abrir a porta de seu quarto e ela, com todas as forças, forçava para que continuasse fechada.

— Agora docinho. — falou Carl com o nariz vermelho escuro. — Você vai começar tirando a sua blusa para mim devagar.

O terror tomou conta dos olhos dela quando percebeu que seus braços, contra sua vontade, se estenderam lentamente.

“NÃO!”, berrou em sua mente, mas nada acontecia. Seus braços delicadamente se curvaram para erguer sua blusa azul. A platéia assistia desejosa.

Alphonse a alertara sobre o que poderia acontecer, mas ela se deixou levar pela sua incerteza patética. Não queria estar naquele lugar. Deixara sua casa querida e aconchegante para bancar a idiota em um penhasco com um bando de adolescentes maníacos por sexo. Pecados demoníacos.

Estava com a camiseta preta que usava sempre por baixo. Seus ombros completamente expostos. Não haveria mais nada se ela retirasse mais alguma coisa.

— Vamos minha querida flor, tire tudo! — ordenou, pondo novamente a mão em seu ombro, ele ofegava constantemente, já não era um ser humano normal.

Havia uma energia sinistra que a conduzia fazia sua cabeça latejar dolorosamente. A impressão que dava era a mesma de uma forte enxaqueca.

“NÃO!”

Seus dedos conduziam a retirada da camiseta com muita lentidão, sua suspeita era de que ele quisesse apreciar cada segundo daquela cena.

“Cherry força!”

O frio atacou seu ventre exposto provocando uma leve contração. Sua pele pálida se destacava naquele lugar em que a luz se fora há muito tempo.

“Vamos Cherry, nós vamos conseguir... TENTE!”

Era tão inútil gritar com seu próprio corpo, que não dava sinais de obedecer. Então ela deveria se entregar de uma vez?

“Nunca. Jamais!”

Seus olhos fecharam antes que seus braços retirassem toda a sua roupa. A escuridão seria mais segura agora.

Por que da outra vez, com Alphonse, ela lutara? Porque resistira? Assim era tão mais fácil; se entregar era mais fácil. Teve uma breve lembrança do dia em que seu pai lhe dissera que nem sempre o caminho mais fácil é o certo. “Papai e seus clichês!” — pensou.

Uma queimação invadiu seu corpo. Ela estaria traindo?

— Ande logo! Tire logo essa blusa! — A voz impacienta a despertara.

Abrindo os olhos ela teve a feliz constatação de que seu corpo parara. Somente seu ventre e um tanto mais estavam expostos. Os dedos do jovem apertaram em seu ombro, mas dessa vez ela sentiu uma leve cócegas na nuca. Seus braços despencaram pondo a camiseta de volta no lugar.

— O que esta havendo? — disse. — EU MANDEI VOCÊ TIRAR A DROGA DA ROUPA!

Cherry o encarou com sutileza.

— Sinto muito ter que te desapontar, mas o show acabou. — Ela abaixou para vestir sua blusa azul novamente.

Os olhares que a cercavam agora acompanhavam cochichos curiosos. Não importava muito para ela, só queria encontrar Alphonse e cair fora daquele lugar.

Sua preocupação foi o motivo que a fez se distrair. Nem se quer notara que o jovem que dera de costas, suava e tremia em fúria. O sorriso aterrorizador e insaciável se abriu, e um grito de excitação soou com força.

Cherry também gritou.

O rapaz arrancara com um só movimento um enorme pedaço de sua blusa azul. Deixara a alça da camiseta, que a garota usava por baixo, caída. Cherry esforçou-se para manter a roupa no lugar. Sua mão direita segurava o que agora estava à amostra. Carl, louco, mais uma vez a atacou.

Dessa vez ela o recebera com socos e chutes descoordenados, que o impedira de avançar mais. Cherry berrava também, queria desesperadamente uma ajuda e quando avistou Alphonse de longe seu peito se encheu de esperança.

Mas Alphonse não sabia o que fazer. O amor de sua vida estava sendo violentado pelo jovem pecado a sua frente, mas nada daquilo era simples. Todos olhavam o espetáculo, inclusive Albert. Não poderia fazer nada sem que houvesse uma indignação geral. Cherry encontrou o seu olhar, ele desviou covardemente.

Para seu assombro ele nada fez.

Tentou novamente encará-lo em meio a desespero e suplência, mas não houve nenhuma resposta. Alphonse ficava ali parado, fingindo não ver ou escutar seus gritos, ignorando sua presença.

“Socorro Al…”

Carl a atacava com brutalidade, pressionando seu enorme peso contra seu corpo. Sua pele arranhando no chão dolorosamente. Ela chorava com a dor de lutar contra aquele mostro absurdamente mais forte.

“Al…”

O jovem jogou Cherry com violência no chão. Não demorou um milésimo de segundo para montar-se sobre ela. Todo o seu corpo respondendo aquela garota. A blusa azul voou longe, ele pressionou os lábios com os dela a ponto de fazer sua boca sangrar.

Cherry sufocava. Seu último esforço físico só serviu para separá-lo alguns poucos centímetros, e sua boca tomar ar para seus pulmões…

— ALPHONSE! — explodiu.

Os eventos aconteceram tão rápido que ela só pode sentir seu corpo aliviar-se do peso que a esmagara. Seus olhos só puderam ver uma luz forte de um azul infinito e incomum.

“Sofrendo”

Assustada, Cherry levantou com dificuldade da grama. Sua visão agora voltara ao normal.

— O que houve? — perguntaram muitos.

Ela conseguiu estender seu olhar para o corpo arremessado metros de distancia. O barulho de sua queda foi semelhante a uma boneca de trapos, e era exatamente como ele se parecia agora. Somente sua silhueta visível na grama verde escuro. Cambaleando para frente. Seguiu alguns passos em direção ao rapaz deitado, quando se aterrorizou.

A silhueta de seu corpo estava incompleta.

Em seu lugar, uma sombra se estendia tornando a grama cada vez mais negra… vermelho vinho. Cherry não quis olhar. Os outros jovens se aproximaram do corpo sem vida, aterrorizados também. Ela andou para trás lentamente, como se quisesse fugir, mas esbarrou em algo firme e conhecido.

— Alphonse! — exclamou animada. Mas não houve resposta alguma.

Estava rígido em sua posição, suas veias saltando por toda parte. Seus olhos abertos, mas fitando a silhueta incompleta com um sorriso insano.

— Al? — chamou novamente.

Os outros pecados agora olhavam para Cherry e Alphonse, se questionando sobre o que acabara de acontecer, ela pode ver alguns emitirem raios ameaçadores de seus braços.

Albert foi rápido quando apareceu por detrás de Cherry. Em um movimento ele pegara a jovem em um braço, e Alphonse no outro. Desapareceram em segundos.

Ela foi arremessada para o lado quando chegaram ao um novo lugar.

— VOCÊ PERDEU COMPLETAMENTE A RAZÃO, MEU IRMÃO? — berrou Albert alucinado.

Cherry não reconhecera o lugar onde estavam. Sentia-se meio tonta e percebeu que não havia mais grama e sim um chão sólido.

— ALPHONSE! — gritava. Mas o jovem estava em choque por alguma coisa que Cherry não sabia o que era.

Albert balançava furiosamente o amigo. Cherry se levantou nervosa, e constatou que estavam em uma espécie de navio gigantesco.

— Me perdoe meu irmão… — disse Alphonse finalmente. — Não pude me controlar!

Mas o velho amigo não conseguia assimilar suas palavras, seu ódio era infernal.

— COMO VOCÊ OUSOU MATAR UM FILHO MEU! — urrou.

A primeira vez que Cherry vira Albert fora no avião. Era um rapaz tranqüilo e imensamente atraente, com seus cabelos ruivos que desciam até o pescoço. Mas agora ele se transformara em um ser fora de si, repleto de um ódio insano.

— Eu… Eu… — gaguejou. — Eu não pretendia!

Albert finalmente se voltou para Cherry. O olhar de desprezo lhe deu náuseas.

— Você, sua cadela, a culpa é sua também! — disparou cheio de ódio.

A cabeça da garota girava e girava. Acabara de perceber que o jovem que atacara estava mesmo morto, e Alphonse o matara.

— Minha culpa? —disse indignada, não deixaria barato mesmo que morresse ali mesmo. — Esses seus “filhos” são um bando de moleques sem controle nenhum! Não passam de crianças que só fazem o que querem!

Os olhos de Albert se arregalaram de tal maneira que ela pensou que fossem saltar de seu rosto.

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— Como… como ousa! — seus braços se encheram de uma luz dourada intensa. No céu os trovões pareciam reagir àquela raiva doentia. Ele avançou com fúria…

Por pouco Cherry não perdera a cabeça também. Segurando o braço assassino de Albert, estava Alphonse se contraindo de dor. Raios amarelados rompiam enfurecidos do ruivo.

— Não vou deixar você matá-la meu irmão!

Foi como se tivessem apunhalado bem fundo no coração de Albert. Uma traição imperdoável.

— O que significa isso Alphonse? —perguntou sem fôlego. — Vai se por entre mim e essa garota?

Alphonse não se mexeu. Estava na frente de Cherry como uma muralha e não dava sinais de que iria sair tão cedo.

— Contra mim Alphonse? — Os raios amarelos ganharam uma intensidade assustadora, seu alcance se estendia por quase todo o navio. Dançavam como um polvo nervoso. — Sabe que não pode ganhar!

— Eu sei… — disse o jovem de cabelos negros — Mas…

Ele caiu de joelhos.

— Suplico que não a mate meu irmão… por mim. Leve em conta toda nossa historia, por favor, eu te imploro. Se você a matar estará me matando também!

Albert olhou para o velho amigo com extrema confusão nos olhos.

— Você Alphonse, de joelhos?— espantou-se — O grande Alphonse?

Mas ele não respondeu, só permaneceu assim.

— O poderoso Alphonse caído de joelhos por uma mulher qualquer?

— Cherry é minha vida meu irmão, eu a amo! — Estava claro para ela que Albert jamais ouvira tais palavras saírem da boca de Alphonse.

— O que houve com você meu irmão? — perguntou. — O que te fez mudar assim? Como desceu a esse nível de insanidade?

Alphonse cerrava os punhos contra o chão, os olhos apertados.

— Eu não sei Albert. — soluçou. — Por favor, tire-a daqui em segurança meu irmão! É tudo que lhe peço!

— Você me pede demais — rebateu sério — Os meus filhos vão querer vingança, alguma coisa que os satisfaça. Posso sentir sua raiva daqui onde estamos, quase posso chamá-los de Ira!

Alphonse olhava para o chão. E de alguma maneira aquilo deixou Albert sério.

— Al, olhe para a garota — disse sério.

O amigo soluçou mais alto, Cherry não entendia nada.

— Alphonse. Quero que olhe para a garota agora! —pediu em um tom maior de voz.

— Não… Posso! — gaguejou em prantos.

A garota estava aterrorizada novamente, o que estava acontecendo? Albert se inclinou para agarrar os cabelos de Alphonse com força, e com um movimento nervoso ele virou a cabeça do amigo.

O jovem de olhos fechados se recusava a encarar Cherry a sua frente. Parecia estar sentindo muita dor.

— ABRA OS OLHOS ALPHONSE OU VOU MATÁ-LA!

Então ele o fez.

Alphonse arregalou seus olhos em desespero. Lá estava Cherry encolhida no chão junto a ele. Tão frágil como sempre fora, mesmo aparentando não ser. Seu cabelo castanho despenteado e sua pele vermelha pelo grande estresse que passara. Mas não era só isso…

Ela estava sem a sua enorme blusa azul que descia em babados. Usava agora uma camiseta bastante rasgada e com uma das alças caídas. Um dos ombros de Cherry estava completamente nu. Era possível ver perfeitamente seus músculos e ossos perto ao peito. Tão perfeito e magistral como uma escultura.

Sua calça jeans que descia até pouco mais do joelho, estava rasgada também. Ela rolara tanto se debatendo que a calça subira muito acima do joelho, exibindo as coxas arranhadas.

Mais uma coisa também estava ali.

Era um cheiro. Um cheiro de suor que ela emanava de seu corpo, era a fragrância que Cherry possuía. O suor a deixara brilhando úmida… Seu rosto pingando.

ARRRRRRG

Cherry pulou para trás quando Alphonse começara a berrar descontroladamente.

— O que foi? — perguntou assustada.

Todas as veias de Alphonse saltavam. Ele puxara seus próprios cabelos com violência, socando sua cabeça loucamente.

— Alphonse! — gemeu Cherry em pânico com a visão.

Albert mesmo espantado segurava o amigo com força, como um dono de cachorro nervoso segurava o animal por sua coleira. Ele se debatia como se estivesse com algum problema mental. Seus olhos fuzilavam a garota, e ao mesmo tempo ele tentava desviar o olhar. Gritava mais ainda, com todo o seu fôlego. Parecia a morte. Seus pés esfregavam com força o piso do navio, conseguindo arranhá-lo.

— O que você fez com ele? — perguntou ela desesperada.

ZUM

O raio dourado e colossal atingiu Alphonse em cheio. Não parecia existir mais.

“Escutando”

Depois que a fumaça dispersou, sua mente começou a funcionar novamente. Encarando o vazio onde antes estava Alphonse

— O QUE VOCÊ FEZ COM ELE? — gritou Cherry.

Albert a analisou com cuidado.

— O que você fez com ele? —perguntou enfurecida.

— Não se preocupe, eu o enviei para bem longe daqui. Assim ele se acalma enquanto conversamos.

Ela não entendeu.

— Conversar? Sobre o que?

Antes que ele respondesse um clarão dourado o engoliu, e em seguida ele estava de volta com um enorme roupão.

— Vista isso antes. — pediu.

Cherry se deu conta que estava com a roupa rasgada e preferiu aceitar sem questionamentos.

— Agora me conte… quem é você? — Ele sentou ao lado dela, tentando respirar com calma.

— Cherry. Cherry White. — Tentou responder com certa cautela, a impressão que dava era que um raio poderia varrê-la da face da terra qualquer momento.

— Não quero saber seu nome, minha jovem. Isso não importa para mim. Quero saber quem é você? Algum tipo de prostituta das boas?

A cautela acabou.

— E você? “Minha jovem”? Temos quase a mesma idade, pare de agir como se tivesse cinqüenta anos! — Ela não parou. — Para começo de conversa eu não sou uma prostituta nem nada do gênero! Sou só uma garota simples que tinha uma vida simples, até que vocês pecados idiotas apareceram e mudaram tudo!

Ela esperou sua morte com uma expressão nervosa. Mas ela não veio.

— Explique melhor — pediu Albert.

Cherry respirou fundo.

— Eu morava em Baltimore há muitos anos, então aconteceu um contratempo e tive que me mudar para Newcastle na Inglaterra…

— Lugar onde Alphonse mora atualmente — completou ele.

— Sim. — concordou. — Acabei conhecendo ele, e então aconteceu...

— O que aconteceu?

“Eu vou ter mesmo que explicar pra esse cara!?”

— Comecei a gostar dele droga! E não consigo mais viver um dia se quer sem pensar naquele bobão sorridente!

Albert quase se entregou ao riso.

— Até ai não vejo nada de incomum. Uma garota conhecer o Al e se apaixona por ele, depois se entrega e segue a vida. — Ele contou os fatos no dedo.

— Só que não existiu a parte de “se entregar” — corrigiu ela.

Mais uma vez ele pareceu confuso.

— Não? —perguntou — Há quanto tempo estão juntos?

— Há alguns meses.

— E vocês ainda não…? — perguntou incrédulo.

— Não.

— Que estranho, nunca vi isso acontecer… —disse ele meio pensativo — Mas tudo o que fazem é evitar o inevitável. Mais cedo ou mais tarde Alphonse vai explodir. É impossível resistir tanto tempo.

Ela só escutou.

— Não entendo porque Alphonse se sujeitou a essa tortura… por que não te possuiu de uma vez e acabou com esse sofrimento todo? Evitaria a cena anterior. Isso não é do seu feitio.

— Cena anterior? — quis saber.

— Por que acha que ele estava gritando feito louco? — perguntou Albert, como se ela soubesse do que se tratava.

— Não sei. Pensei que fosse outra maluquice de vocês. — Deu de ombros. Mesmo que aquela cena tenha sido estranha demais.

— Não minha jovem… amiga — Albert não parecia tão nervoso quanto antes — Ele estava sofrendo.

— Por quê?

— Imagino que durante todos esses meses ele conseguiu aguentar não ir mais além com você, mas hoje quando a viu naquele estado de pouca roupa e ofegante… creio que seus instintos gritaram em sua cabeça. Imagino que deve ter sido um verdadeiro inferno ignorá-los… o que me leva a pergunta principal.

Albert analisou a garota de cima em baixo, parecia que ele mesmo ficou tentado por um momento.

— Por que ignorá-los? — concluiu.

Ela sorriu levemente.

— Simples, ele se importa comigo — explicou pesarosa. — Não quer me esquecer, assim como eu não quero esquecê-lo. Não existe mistério, é isso o que acontece com nós dois.

Albert pensou mais uma vez.

— Mas por que continuar torturando ele assim? Por que não acaba logo com o sofrimento dele?

— Sofrimento dele? E quanto a mim? Eu não sofro? — indagou agressiva. — Eu vou morrer se isso acontecer!

Os dois ficaram por um tempo em silêncio. A maré instável produzia barulhos irritantes colidindo com o navio.

— Posso te perguntar uma coisa? — disse Cherry.

Estava sentada abraçando suas pernas. Apesar do frio ela se encheu de uma esperança aquecedora.

— Pode sim.

— Como funciona? — começou ela — Como funciona essa coisa de esquecer? O Al me explicou algumas coisas, mas disse que você entendia melhor…

Albert agora exibia uma cara triste e enigmática.

— E como ele te explicou?

— Ficou falando sobre ovos...

Ele soltou uma gargalhada inesperada.

— Esse é o Alphonse! — riu — Bem, o que você tem que entender é que nós enxergamos o interior de vocês de uma maneira única.

— Sim, as ondas eletromagnéticas.

— Exatamente. — concordou — Cada pessoa possui a sua onda, e partindo desse ponto seria possível presumir que nós nunca nos esqueceríamos de algumas dessas “ondas” que entramos em contato.

Cherry se animou novamente.

— Mas ele foi infeliz em escolher “ovos” como um exemplo. Creio que o certo seria mais como lâmpadas.

— Lâmpadas?

— Cada lâmpada, as mais comuns ao menos, possui um pequeno fusível em seu interior. Imagine que a luz da lâmpada é o que nós enxergamos, mas lembre-se que nós também possuímos tais luzes, ou seja, somos lâmpadas também.

O cérebro dela não conseguia acompanhar o raciocínio. Ele tocou levemente a palma da sua mão.

— Tocando em seu corpo, eu posso enxergar certa porcentagem de sua luz. Com algum tempo eu decifraria seu código e a enxergaria por completo, assim os traços de sua luminosidade ficariam gravados na minha própria luz, entendeu?

O mundo girava mais e mais e ela se sentia estúpida. Ele percebeu sua confusão mental e respirou animado pelo desafio. Pensou por um minuto.

— Somos vaga-lumes Cherry! — disse animado com a comparação — Vivemos atrás das luzes do mundo, no caso das pessoas. Só podemos enxergá-las realmente após tocá-las.

— Certo. Estou entendendo o que você disse agora… mas é o mesmo que Alphonse me contou.

— Ótimo! — ele estalou os dedos — As duas lâmpadas quando se aproximam, ou o vaga-lume quando se aproxima da lâmpada, você escolhe o exemplo melhor, se identificam. Com o toque eu posso enxergar sua bela luz… mas existe um limite.

— Limite?

— Sim — assentiu — Enquanto o vaga-lume estiver sobrevoando a lâmpada de perto, os dois estarão em harmonia. As duas lâmpadas estarão em harmonia, suas luzes brilharam da mesma forma…

Albert tentou simular os exemplos com as duas mãos erguidas.

— Mas se esse limite for quebrado, e um contato mais intenso e profundo for cometido, acontece uma explosão!

Ela se assustou com a imitação repentina da explosão.

— O vaga-lume se aproxima demais da lâmpada e acaba morrendo… As luzes das duas lâmpadas ficam tão intensas que acabam queimando seus fusíveis.

Cherry tentava assimilar as coisas, estava conseguindo finalmente.

— O cérebro normal é completamente imune a isso, tudo o que sente é uma pequena dor de cabeça. Mas não funciona assim conosco... — ele deu de ombros — Uma vez que o pequeno fusível de sua cabeça apaga, ele acende novamente como se nada tivesse acontecido.

Albert suspirou.

— Já o meu… — ele coçou a cabeça — Acende de novo, mas sem reconhecer a outra luz.

Estava ali a explicação. Era assim que funcionava, Cherry não conseguia dizer uma palavra se quer.

— Alguns dizem — Albert observou o céu — Que com o passar dos anos nós esquecemos tudo, mesmo os que memorizarmos as luzes conforme mantivermos relações, eles também se perderão.

Agora Cherry estava pálida e fria. Não havia esperança.

“Entendendo”

Albert entortou sua manga de tecido caro. Olhava seu relógio com preocupação.

— Como você conseguiu suportar ficar na minha frente? — disse ela, lembrando que acontecera com Alphonse.

Distraído ele respondeu.

— Alphonse sempre foi o mais galanteador, o Alexander foi o mais esperto e eu, bem… sou o mais poderoso dos dois.

— Pensei que os três fossem “originais”, não?

Ele se levantou pronto para se decidir a respeito do que fazer.

— E somos, mas existe uma coisa que se chama “herdar conhecimento” — comentou — Nós que nascemos com o pecado, herdamos conhecimento de outras vidas. No meu caso, minhas outras vidas tiveram varias experiências importantes.

— Então você nasceu sabendo? — perguntou incrédula.

— É, pode se dizer que sim! — riu. — Minha cara, preciso te deixar aqui.

Ela se espantou.

— Por quê?

— Preciso ver se meus garotos estão bem… a festa não pode simplesmente terminar!

— Mas e o Alphonse?

— Já te disse que ele esta bem! Não se preocupe com ele, você ficara aqui esperando por nós pacientemente, ok?

Albert riu quando Cherry cruzou os braços nervosos.

— Não ficara sozinha, Zahara esta aqui no navio também. Ela te fará companhia.

Ele assoviou levemente. O nome Zahara não era estranho para ela, foi a pouquíssimo tempo que ela vira a princesa africana junto a Albert no avião. Segundo Alphonse ela era uma Gula original.

— Minha querida, cuide dessa iguaria para mim?

Zahara apareceu no andar de cima do convés. Sua pele incrível brilhava como uma pantera da noite. Seus vários colares e outras jóias tribais balançavam conforme o vento. Tudo o que fez foi acenar com a cabeça.

— Nos vemos em breve… — falou Albert, mas os olhos da garota não conseguiram acompanhá-lo, pois ele já havia sido engolido pelo raio dourado.

— Legal, temos o navio só pra nós duas! — A jovem descera as escadas. Usava um pano violeta para limpar alguma coisa no seu rosto — Seu nome é?

— Cherry — respondeu aflita. Não queria ficar no navio enquanto Alphonse estava lá fora.

Zahara fungou.

— Vamos subir Cherry, não quero congelar!

Cherry concordou, se sentindo meio sem graça por estar vestindo um roupão.

— Vamos arranjar uma roupa decente pra você também. — disse a jovem, subindo delicadamente as escadas.

Dentro do navio, o corredor era quente e convidativo. Havia quadros espalhados por todos os lados, uma tapeçaria vermelha que percorria todo o corredor e bebidas, muitas bebidas. Quanto mais as duas caminhavam Cherry percebeu o quão grande era aquele lugar.

— Vamos nos aquecer aqui por enquanto, vou buscar umas roupas — o som do salto alto da jovem cantarolou por um tempo até desaparecer em algum corredor.

O lugar onde Zahara abandonara Cherry era nada mais nada menos do que um gigantesco salão. Totalmente decorado com várias cortinas elegantes, um palco para apresentações e mesas, muitas mesas espalhados por todos os lugares. Havia uma lareira também.

Ela se sentou em uma aconchegante poltrona perto do fogo.

— Bacana, não é? — perguntou Zahara, se aproximando sorrateira com muda de roupa e um chocolate quente.

— Só falta o Leonardo DiCaprio congelado em algum canto… —resmungou Cherry, tomando um longo gole do chocolate quente delicioso.

Zahara riu.

Depois de trocar de roupa, pondo uma blusa branca e um novo jeans, Cherry retorna para perto da lareira. Zahara limpava seu rosto mais uma vez. “Ela esta chorando?”

— Doce? — ofereceu ela, exibindo um saquinho repleto deles — Sou completamente dependente deles, meu outro corpo sofre muito com isso.

Aquilo a fez lembrar que Zahara era a na verdade um pecado. A Gula em pessoa. O fato de ter outro corpo só comprovava essa afirmação. Era difícil se acostumar com a existência daqueles seres por toda parte.

Cherry pegou um doce para não parecer mal educada, estava delicioso.

— Esse lugar é tão frio — comentou — No meu país somos acostumados ao clima quente, mas isso aqui é um gelo!

As duas devoraram mais um doce.

— O que você esta fazendo aqui? — perguntou Zahara de repente, lançando um olhar curioso. — Não era você que estava no avião com o Alphonse, era?

A cabeça de Cherry trabalhou rapidamente.

— Onde? — rebateu com uma expressão vazia. — Com quem?

Zahara a analisou cuidadosamente, mas Cherry não deu sinais nenhum de estar mentindo.

— Acho que confundi com outra pessoa. — Cherry quis apostar na ideia de que Alphonse já teria apagado a sua memória, mas não tinha certeza se daria certo.

— Na verdade, não sei bem como vim parar aqui. — continuou a mentir. — Eu morava em NewCastle, e só me lembro de fazer uma longa viajem. Sabia que teria uma grande festa...

A deusa africana avaliava sua estória com cuidado. Cherry estava determinada a inventar um desculpa e tirar proveito dela.

— Então conheci Albert, e esses pecados…

Plim! Isso acordara Zahara.

— Pecados? — perguntou cautelosa.

Deveria ser um conflito de ideias, pensou Cherry. Pois de início ela não se importou em contar sobre seu outro corpo, mas agora pensara que estava conversando com alguém que não fazia ideia de nada. O que era mentira.

— Sim… acabei presenciando algumas coisas nessa festa, e um cara louco tentou me agarrar. Albert me salvou!

— Sério? — Zahara parecia surpresa — Nunca o vi fazer isso antes… mas ele nunca suportou indelicadezas da parte de seus filhos.

— Então ele me trouxe para cá e me contou sobre os pecados… — Cherry deu de ombros e mordeu outro doce — Não sei bem em que acreditar, mas ele disse que vai me livrar dessas duvidas mais tarde.

Brilhantemente Zahara estava caindo no plano de Cherry. Agora a jovem sabia que ela não tinha mais conexões com Alphonse, mas estava a par da situação dos pecados. E dizendo que Albert a livraria das duvidas, ficou claro o que ele supostamente queria dizer com aquilo.

— Entendo… — disse ela entortando sua boca — Então não faz muita diferença se nós conversarmos abertamente afinal.

Cherry tentou parecer burra o bastante para não entender, mas Zahara continuou.

— Newcastle… — começou dizendo a deusa. — Você escolheu um lugar bem intrigante para morar…

— Por quê? — perguntou Cherry.

— Bem… — Zahara admirou suas unhas compridas cor de laranja — Fiquei sabendo que lá se encontram os sete pecados juntos. Isso é bem raro de se ver hoje em dia…

A curiosidade de Cherry aumentava, precisava se controlar.

— Pensei que todos fossem amigos…

Zahara soltou uma gargalhada.

— Muito longe disso, minha amiga. Em geral não suportamos uns aos outros, aí está à raridade na coisa! — Ela pescou outro docinho. — Provavelmente essa união foi possível pelo fato de que muitos não são pecados originais…a convivência deve ser “fácil”, ou suportável.

Quem sentiu vontade de gargalhar agora foi Cherry. “Fácil para quem?”, pensou.

— O que me intriga mais é o fato deles possuírem uma Vaidade! — os olhos da garota brilharam. — Em toda minha vida eu nunca vi um pecado da vaidade. Dizem que seus poderes são um completo mistério!

De fato eram. Cherry não fazia ideia de que poder Julius possuía, mas não pareciam ser grande coisa. A beleza era o grande especial.

— Mas existe algo que me incomoda também… — Ela entrelaçou seus dedos — Uma Inveja.

Cherry preferiu só ouvir.

— Um pecado que por si só já é bem traiçoeiro e não confiável, mas junto com a Avareza é um fator extremamente preocupante — Ela fechou os olhos por um momento — Já vi várias tribos do meu país serem dizimadas por conta desses dois pecados. Juntos eles são perigosos demais. É quase certo que esses dois criem uma aliança entre si, afinal, faz parte da tradição.

— Tradição? — perguntou ela imediatamente.

— Sim. Normalmente os pecados criam certo afeto entre um deles… mas isso também não acontece com tanta freqüência — ela pensou um segundo — A Luxúria e a Gula, por exemplo, são dois pecados que se dão muito bem, possuem muito em incomum.

“Jenny e Alphonse!”, pensou Cherry, percebendo que fazia sentido a amizade dos dois.

— A Inveja e a Avareza, a Preguiça e a Vaidade… mesmo nunca tendo visto os dois juntos, mas é o que dizem.

— Mas e a Ira?

Ela soltou um risinho.

— A Ira é muito instável. Faz muita destruição onde quer que vá! Dizem que é o único pecado que será extinto, pois as pessoas já fazem um uso muito melhor dele.

Cherry parecia não entender.

— Muitos morrem em menos de um ano, a vida desse pecado é muito curta. Nunca vi um pecado original da Ira, creio que não existe. Ninguém poderia nascer com tanta ferocidade dentro de si.

Cherry lembrou-se da cena do jovem em chamas, que quase matara seu irmão. De algum modo sentiu uma pontada de pena por Richard.

— Nossa. — riu ela nervosamente. — Você fala como se tivesse uns mil anos de conhecimento.

Dessa vez Zahara engolira uns três doces de uma vez.

— Não isso tudo minha cara. — disse. — Mas sem duvida sou mais velha do que aparento ser.

Cherry se surpreendeu olhando para beldade sentada ao seu lado.

— Mais velha quanto? Se me permite perguntar…

— Digamos que meu corpo original tem quatro vezes a minha idade.

“QUATRO VEZES!?”, espantou-se ela em sua mente. A garota parecia ter uns dezessete.

— E onde ela vive? — perguntou ainda espantada.

— Na áfrica. Nós não revelamos nosso paradeiro, sabe. Só posso dizer que fica em algum lugar da África — fez mistério. — Está tão velha… os moradores á veneram como uma espécie de Xamã espiritual.

Cherry sabia que se o corpo original morresse, todas as outras também morreriam. Jenny explicou os riscos no passado.

— Mas não tenho o que reclamar da minha vida, ou melhor, das minhas vidas. Vi e aprendi tanta coisa…

Ela não se conteve, a pergunta simplesmente saiu.

— Já se apaixonou?

Zahara sorriu com o chocolate na boca.

— A paixão… já tive várias! — disse sonhadora. — Muitas decepções, sim, mas tantas vitoriosas. Quase todas se casaram…

— E nesse corpo?

A pergunta não foi respondida com a mesma energia. Ela se quer saiu de sua boca.

— Desculpe. Acho que esse lance de curiosidade eu herdei da minha mãe. — falou Cherry desconcertada.

— Não é ruim a curiosidade… eu aprecio isso nas pessoas — riu pensativa, olhava para o fogo como se ele a acalmasse. — O difícil é dar as respostas, quando você não sabe bem o que responder.

Cherry tentou enxergar o que ela enxergava nas chamas, Mas fracassou.

— Sim, eu vivi e ainda vivo uma paixão nesse corpo. — disse finalmente. — A mais difícil e dolorosa de todas. A causa de minha ruína. Mas o estranho de tudo é que não existe arrependimento.

— Albert.

Ela não sabia como, mas simplesmente sabia. Talvez fora da primeira vez que vira os dois no avião. Obviamente não demonstraram nenhuma menção de afeto, mas Zahara se entregou. Ela conhecia muito bem o olhar, que ela mesma possuía, de alguém que estava perdidamente apaixonado.

Quem sabe Zahara vira o mesmo em Cherry, mas não fora corajosa o bastante para tocar no assunto.

— Sim. — concordou ela. — Eu o amo desde que eu o conheci.

Mesmo entendendo a situação, ela perdera o fôlego. Era a mesma situação em que estava durante todos esses meses. Zahara era alguém que poderia entender tudo!

A esperança tomou o corpo de Cherry novamente. Como ela conseguira? Haveria um jeito? Precisava arrancar tudo daquela garota, mas não poderia confessar a verdade, pois tinha medo que perdesse a confiança que conquistara em tão pouco tempo.

— Mas como? — ela precisava trabalhar a pergunta. — Pensei que fosse impossível, de acordo com o que Albert me contou.

— Vocês tiveram uma longa conversa…

— Acho que ele só queria me acalmar, eu estava em estado de choque — apressou-se em dizer.

Mas uma vez Zahara caíra na mentira.

— Estamos juntos, por assim dizer, há dois anos.

“Dois anos!” alegrou-se ela. Seria impossível resistir dois anos! Eles encontraram uma maneira, concluiu.

— Mantiveram a relação por dois anos? Sem aproximação? — A garganta dela ficou seca, esperava desesperadamente por uma resposta.

— Obviamente depois de certo tempo o limite entre nós foi quebrado Mas… — Ela queria se controlar, mas estava vacilando. — Mas como conseguiram isso? Quer dizer… pensei que eles esquecessem depois do envolvimento.

Zahara deu um logo suspiro. Se ela resolvesse levantar e sair, Cherry tinha certeza que pularia no pescoço da jovem até que respondesse.

— De fato esquecem. — disse — Mas eu encontrei uma maneira.

“QUAL?”

— Qual?

A deusa passou seus longos dedos nos seus lábios poderosos.

— Foi graças ao pecado da Gula — Agora ela olhava diretamente para Cherry. — Descobri que se eu criasse uma cópia depois de me envolver com Albert, ele, de alguma maneira, consegue identificar quem eu sou.

“É claro!”, pensou Cherry. Albert explicou que depois do envolvimento o cérebro perdia o interesse pela onda eletromagnética da pessoa, pois ela se alterava, criava uma espécie de proteção contra a Luxúria, e assim as memórias eram perdidas.

Mas criando uma réplica exata provavelmente o processo seria diferente. A onda seria a mesma de antes da relação, a memória a identificaria. Jenny poderia transformá-la se ela pedisse.

“Mas então…”, ela começava concluir aos poucos. O assombro a tomou quando lembrou do que Zahara disse antes . “Dois anos juntos… Dois longos anos”.

— Zahara. — começou a dizer lentamente — Você disse dois anos. Quantas… Quer dizer…

— Isso mesmo, você entendeu. — falou ela — Não foi só uma vez, estamos juntos há dois anos, seria impossível resistir tanto tempo...

Zahara tentou ser engraçada, mas o coração de Cherry batia acelerado e nervoso. Para cada vez era outra copia que surgia.

— Você sabe o que acontece quando uma gula cria corpos demais? — Cherry fez que não com a cabeça, reparou no olhar e sorriso de Zahara, ambos diziam coisas completamente diferentes — Nossa vida diminuiu drasticamente.

Cherry levou às mãos a boca, completamente aterrorizada com a ideia. Zahara tentava sorrir e pela primeira vez foi possível enxergar um vislumbre do que seria uma pessoa com o corpo doente, certo cansaço no rosto, que mesmo coberto pela maquiagem, conseguia transparecer de certa forma.

A jovem Gula deu de ombros.

— Para cada vez que nos entregamos ao nosso amor… Eu morro mais um pouco — ela fechou os olhos tristes, mas incrivelmente o sorriso permanecia — O mais estranho de tudo é que eu não me importo. Faria todas as cópias novamente se pudesse.

A lareira já era incapaz de aquecer Cherry naquele momento. Um sopro gelado passou por seu estomago e percorreu por sua espinha. Era como se ela pudesse ver uma contagem regressiva acima da cabeça de Zahara.

— Você esta se matando! — exclamou.

Zahara riu.

— Não existe outra maneira.

Cherry não conseguiu controlar sua expressão ao ouvir aquilo. Zahara estranhou.

— Tudo bem?

— Mas Albert? — perguntou aflita — Não faz nada para tentar te ajudar?

— Albert não percebe que nos apaixonamos. Tudo de que se lembra é que ele me conhece de um longo tempo. — Lagrimas brotaram levemente. — De alguma forma ele criou certa obsessão por pesquisar sobre o pecado Luxúria, mas foi só.

— Não é possível que ele não se lembre! — Era claro o desespero de Cherry.

— Eu não ligo para isso. Não me importa se ele sempre vai se esquecer, só quero ficar ao seu lado até meus últimos dias. — Ela colocou uma das mãos na testa. — Eu agradeço aos céus por ele sempre me desejar, não importa quantas cópias eu crie, ele sempre irá me desejar. Isso para mim já é o bastante.

Aquilo era doentio, pensou Cherry. Idiotice das mais absurdas. Zahara morreria amando um homem que nem ao menos tinha noção de seu sacrifício. Só desejava terminar aquela noite de qualquer maneira. “Esse pesadelo!”.

“Acabando”

Alphonse voltou abraçado com seu velho amigo Albert. Não havia mais vestígios da cena anterior.

— Essa festa vai entrar pra historia! —comentou Albert alterado.

— Você sempre diz a mesma coisa meu irmão! —disse Alphonse, igualmente alegre.

Agora todos estavam no navio. Os filhos de Albert não pareciam mais se importar com a presença de Alphonse, nem mesmo discutiam a morte de um dos seus. Tudo o que faziam era beber e beijar suas garotas.

Ele queria encontrar Cherry. Estava preocupada, mesmo que Albert tenha garantido que estava em segurança. Mas talvez só precisasse de sua presença.

— Ela esta no salão. — disse Albert baixinho.

— Muito obrigado meu irmão, estou te devendo para sempre!

— Pode apostar seu traseiro inglês nisso! — riu.

Deixando Albert para trás com várias garotas lindas, Alphonse começou sua busca. O navio era extremamente luxuoso, provavelmente um cruzeiro em seu tempo livre. Os vários andares que possuía estavam infestados de jovens bêbados e barulhentos. A música eletrizante que tocava na área da piscina fazia seus corpos balançarem de uma forma engraçada.

Ele evitou olhar muito para a festa convidativa. No grande salão do navio Cherry estaria a sua espera. A jovem que era dona de sua vida, tão perfeita da sua maneira. Estaria com medo?

Não foi preciso procurar no salão. Cherry estava parada a alguns metros de distância a sua frente. Tão sonhadora e perdida em seu próprio mundo. Seus olhos correram para o rosto de Alphonse, ele sorriu imediatamente. Cherry simulou uma resposta envergonhada.

— Perdida? — perguntou, mal se contendo a manter certa distância da garota.

— Sempre. — respondeu desanimada.

Ele pegou na sua mão, sentia o calor confortante da pele daquela garota. Era impossível ficar nervosa quando ele a tocava.

— Quero ir para casa. —pediu ela, quase como um sussurro.

Alguém de repente gritou.

— Alphonse, você não me ligou! — Algumas garotas no segundo andar berravam alegres.

Desejava aos céus que Cherry entendesse sua situação, afinal ele não fazia ideia de quem eram. “O velho Alphonse saberia, não eu.”

— Vamos. — chamou Cherry, ele não conseguia interpretar o que isso significava.

Foi bem difícil encontrar um lugar vazio para que os dois desaparecessem. Foi um alívio quando um grupo de adolescentes resolveu deixar o “Deck”, abrindo espaço para Cherry e Alphonse escaparem. Em instantes já estavam sobrevoando o mar.

Tentou interpretar os pensamentos de Cherry, mas estavam estranhos. Não havia aquela tempestade de sempre, as dúvidas. Agora havia uma calmaria.

Tiveram que pegar dois táxis até a próxima tempestade. Ela ficara calada o tempo inteiro, tudo o que fazia era se encolher nos abraços calorosos de Alphonse. Parecia anestesiada de alguma forma.

Ele a conduziu pela rua escura. Não queria aparecer exatamente na frente da casa, com medo de chamar atenção. Não havia mais ninguém, só os gatos que corriam alegremente.

Acompanhava a jovem, segurando seus dedos tão frágeis com os seus. A casa estava à frente, Cherry resistiu com um puxão leve.

Alphonse parou e sorriu dizendo:

— O que foi Cherry querida?

Ela olhava para o chão e simulou um sorriso novamente.

— Você fica Al. — disse.

Não demorou muito para que ele entendesse.

— Tem razão — concordou — É melhor eu entrar por trás, se por ventura seu pai estiver acordado vai ser melhor ele não me ver junto com você e…

— Não. — balançou a cabeça negativamente — Não foi isso que eu quis dizer Alphonse.

Não estava entendendo. Cherry dizia as palavras tão diretas e de uma forma confusa.

— Quer que eu espere você conferir se tem alguém, é isso?

— Não quero que você entre! —falou, agora em tom severo . — O que eu quero… é que você vá embora.

— Cherry, aquelas garotas eu nem me lembro…

— Não ligo para isso. —disparou fria. — Entenda com calma. Eu quero que você vá embora. Você não vai precisar entrar, porque você não vai ficar aqui. Suas coisas ainda estão com o cara da limusine, não é?

O coração de Alphonse acelerou nervosamente. O que estava acontecendo?

— Cherry, o que significa isso? Não estou entendendo meu amor, me explique!

Ela bufou impaciente e jogou seus cabelos para trás nervosa.

— Acabou Alphonse! — irritou-se — Estou terminando com nosso namoro, aqui e agora!

Alguma coisa acertara sua cabeça, porque estava tudo girando com violência. Não havia foco nenhum e seus pés pareciam ter deixado o céu. “Estou voando novamente?”, pensou Alphonse.

— Não entendo! — exclamou confuso. — Do que você esta falando? Terminar?

— Sim Alphonse. Por favor, não me faça repetir as coisas. Você sabe o que quer dizer terminar.

— Sei, mas não entendo! — falou impaciente — Por quê?

Cherry cruzou os braços. O vento gelado da noite batia em seu cabelo.

— Eu cansei — disse dura — Não sou o tipo de garota que aceita viver a vida em função de um sonho, uma ilusão. A quem estamos enganando Alphonse? Somos patéticos, idiotas! Não existe esperança e futuro para nossa relação. Isso é burrice!

Foi como um soluço preso na garganta. A falta de ar repentina quase o sufocara, a dor foi descendo dolorosamente até seu peito. Como era amargo aquilo tudo. Sua boca ficou estranhamente seca.

— Burrice Cherry? — arfou de repente, como se sua voz fosse desaparecer — É burrice a gente se amar tanto?

— Talvez não seja amor, e sim outra coisa. — Ela desviou os olhos, mas ele queria o campo visual dela… Precisava. Contornou até que ela o olhasse novamente. — É desejo Al, sempre foi só isso!

— Depois de tudo você ainda pensa assim? — contorcia sua expressão em respostas palavras de Cherry — Eu te provei tanto… Tantas provas que te amava, e você ainda insiste com essa duvida?

— Não foi o bastante. Nunca será! — atacou ela. — Você não consegue entender mesmo não é?

— Não. — Agora ele sentia a queimação subir avassaladora pela garganta. Seus olhos ardiam. — Me faça entender…

— Você não toma controle de suas ações, essa é a Luxúria te guiando. Tudo o que você fez foi em função dela, pelo desejo. É mais forte que você, e impossível de separar os dois.

Aquilo era uma tortura. Escutar a pessoa que ele mais amava dizendo aquelas palavras tão frias. Estava sendo atacado brutalmente por Cherry, sendo julgado por seu amor querido. Não pôde suportar mais e as lagrimas saíram em brasa, ele apertava os olhos para tentar fitá-la com precisão, pois sua visão estava completamente embaçada.

Onde estava Cherry?

— Cherry. — soluçou — Eu mudei tanto por você… me sacrifiquei tanto! Literalmente!

— Mas eu não quero fazer o mesmo! — rebateu irritada. — Não quero me sacrificar ou mudar quem eu sou por uma ilusão! Eu não sei viver assim, na fantasia! Eu vivo no mundo real, na realidade.

— Nosso mundo é real! — engasgou a voz, pois havia muita saliva, ele apanhou a mão da jovem — Seu mundo é o meu!

— Não. — ela largou a mão de Alphonse — Meu mundo é somente meu. O seu é incerto e perigoso demais pra mim.

Ele andava de um lado para o outro, como se algo o alfinetasse. As lagrimas não paravam, suas mão levadas a cabeça e a dor impetuosa que comprimia seu coração a cada batida insuportável.

— Pensei… que você acreditasse em nós. Que assim como eu, acreditasse que daria certo! — aquilo tudo soou mais como um gemido doloroso, um suplício.

— Talvez tenha lhe passado à impressão errada Alphonse. Eu nunca acreditei… só me deixei levar pelo desejo, assim como você — estava claro que ela tentava colocar seu ponto de vista na cabeça dele.

— Isso não esta acontecendo — ele passou a mão nervosamente em seu cabelo, os olhos exprimidos tentando espantar o pesadelo — Por favor, não brinque comigo assim!

Ela suspirou. Alphonse a olhava com desespero, seus olhos inchados em prantos.

— Brincadeira… — ela sorriu — É isso que define nossa relação. Uma brincadeira.

— NÃO! — explodiu desesperado. — ESSA RELAÇÃO É TUDO PRA MIM!

Parecia uma criança, ao menos sentia-se assim. Era desesperador olhar para Cherry agora, tão fria e certa de sua decisão. A sensação de que nada o que dissesse ou fizesse a faria mudar de idéia era aterrorizante. Ele soluçava alto e agonizante, colocando a mão em seu peito deixando claro que a dor estava concentrada ali. Um buraco se formava em seu coração.

— Chega de sacrifícios. — continuou ela. — Quero viver minha vida… Não estou preparada e talvez nunca esteja para sacrificar tanto da minha felicidade em uma relação. Meu bem estar vem em primeiro lugar, por favor entenda...

Agora Alphonse exibia raiva em sua face. As lagrimas desciam deixando um rastro vermelho e as veias de nervosismo saltaram de seu pescoço.

— É só nisso que você pensa! — disparou irritado — Em si mesma!

Cherry desviou o olhar mais uma vez.

— Não consegue pensar no meu lado também? Que eu sofro todos os dias por não poder te beijar! —Alphonse estava louco e salivante.

— Seu sofrimento acaba quando você o fizer. E quanto a mim? — disputou — Vou carregar para sempre essa droga de sofrimento, enquanto você se diverte com suas garotas!

— Egoísta. — disse amargo. — Não existe só um lado aqui! Os dois sofrem!

— Mas você pode acabar com isso aqui e agora! Eu não! — exclamou repetitiva — Chega dessa palhaçada! Não quero isso pra mim!

A expressão no rosto de Alphonse retornou para tristeza profunda e sufocante. Seus ossos e músculos enfraqueciam aos poucos.

— Por que você esta assim… o que houve? — chorou baixinho. Sua voz saia como um canto de dormir. — Não é a Cherry que eu amo tanto…

— Você nunca me conheceu direito. — replicou mais uma vez seca — Essa é a Cherry verdadeira. A Cherry evoluída. A Cherry normal!

Alphonse soluçava com tristeza produzindo um som de desespero. Sua boca aberta exibia os dentes cerrados, aguentando a dor.

— É assim que eu sou Alphonse — tentou explicar — Sou egoísta e só penso em mim mesmo. Não tenho amigos porque eu os afasto de mim, sou uma pessoa terrível e não quero mudar!

— MAS EU TE AMO CHERRY! — guinchou em prantos desesperados.

— Não ama Alphonse. — articulou calma. — Não ama.

Ele caiu de joelhos no chão. O cansaço o fez despencar como um peso morto. Suas mãos apoiadas ao chão e seu rosto pingando, não tinha mais forças para segurar seu próprio peso. A tristeza levara tudo e sentia que caía mais e mais.

Cherry se aproximou dele e desceu ao seu nível, sentando-se sobre o roupão. Com sua mão ela apanhou o queixo do garoto.

— Acabou Alphonse. — disse com um sorriso sincero, ele parecia embriagado. — Eu não quero mais... Entenda isso.

Ele chorava baixinho, o gosto da dor atacando a sua garganta. “Chega, por favor!” suplicava em sua mente.

— Mas sempre fui uma pessoa forte. E sei que isso tudo não é culpa sua, você nasceu com esse pecado. — Ela deu um longo suspiro, e inclinou seu rosto para frente. — Vou te libertar desse sofrimento, e seguir minha vida. É o máximo que posso fazer por você.

O coração de Alphonse deu um salto em seu peito, seu corpo ganhou vida imediatamente.

— NÃO! — gritou antes mesmos que os lábios dela tocassem os seus. Ela o olhou com espanto.

— Se você pensa que para mim não significa nada… — começou a dizer cheio de ódio— E que eu estaria disposto a aceitar essa sua opção mais fácil e me entregar, esta enganada!

Pela primeira vez Cherry pareceu se importar com as palavras de Alphonse, como se finalmente ele tocasse algo ainda vivo dentro dela. Estavam muito próximos um do outro, a dor de separar essa aproximação foi alucinante para ele.

— Se você vai conviver e agüentar essa dor eu também sou capaz disso! — Ele se pôs de pé. — Eu me enganei sobre você. E sabe de uma coisa? Você não é diferente de nós! Colocando seus problemas e seus interesses na frente de tudo e pensando só em si mesma! Vou contar a Ana Belle que ela tem outra Avareza em potencial, a pior de todas!

TAP.

O rosto de Alphonse virou bruscamente para o lado, mas mesmo com o tapa de Cherry ele abriu um sorriso.

— Espero sinceramente que algum dia você permita que alguém entre em seu mundo. —disse sorrindo e fungando muito — Desejo isso do fundo do meu coração.

E então Alphonse ajeitou sua camisa e tentou melhorar a expressão. Deu as costas para a garota. Caminhou cheio de pressa e com seu estilo de sempre, não houve um “adeus” da parte de nenhum deles. Cherry pode ver a luz azul desaparecer ao longe indicando o fim.

“Recomeçando”

Não precisou dar explicações para ninguém na casa. Só disse que Alphonse não voltaria. Todos entenderam. Os dias seguintes foram bem alegres, ela e Rebecca saíram frequentemente, visitando velhas lojas e outros lugares.

Rebecca estava repleta de novidades de arrepiar os cabelos, e não tocou no assunto nenhuma vez. Quando estava sozinha ela pensou em ligar para Jenny, mas como já se esperava, a garota tomara as dores do velho amigo. “Outra pessoa a menos na minha vida”, pensou.

Deu graças a Deus por ter levado as matérias da escola para Baltimore, pois tinha muito que por em dia. Foi bem difícil, mas Rebecca que sempre fora mestre em todas as matérias, lhe deu um suporte. Encontrou tempo naquela semana lenta para escrever em um novo caderninho. Foi o que fizera na noite que terminara com Alphonse, mas só conseguia escrever palavras soltas.

Um mês se passou. Cherry de volta a Newcastle já não suportava mais evitar encontrar Mike. As aulas voltariam no dia seguinte e se sentia como se fosse o primeiro dia.

Era tempo de recomeçar sua vida…

“Novamente”.