Invasão

11 Sobreviventes


Sarah segurava firme na mão de Will enquanto caminhavam pelo bairro de Georgetown, suas sombras longas projetadas pelas chamas que ainda ardiam em alguns prédios. A cidade parecia um cenário de pesadelo: carros abandonados, destroços espalhados, e o silêncio opressor interrompido apenas por sons ocasionais de explosões e gritos distantes. Ela apertou os lábios, tentando conter o medo que crescia em seu peito.

Encontraram um prédio abandonado e Sarah decidiu que precisavam de uma pausa. Ao entrar, ela trancou a porta e guiou Will até um canto mais seguro, onde o abraçou para protegê-lo do frio e do terror ao redor.

— Vai ficar tudo bem, Will – ela sussurrou, embora estivesse tentando convencer a si mesma.

Will respirava com dificuldade, e Sarah sabia o que isso significava. Ele estava entrando em crise. Ela colocou as mãos em seus ombros e olhou nos olhos do irmãozinho.

— Escuta, Will. Lembra da música que o papai sempre canta para você quando isso acontece? – ela perguntou com um sorriso trêmulo.

Will assentiu, tentando falar, mas sem fôlego suficiente.

— Então vamos cantar juntos, tá bom? Eu começo. – Sarah respirou fundo e começou a cantarolar a melodia suave que Jacob costumava usar para acalmá-lo.

Aos poucos, Will relaxou em seus braços, embora ainda estivesse pálido e arfando.

— Você é muito corajoso, Will – ela disse, acariciando seu cabelo. – Agora, eu prometo que vou encontrar uma bombinha pra você. A gente vai ficar bem, tá?

Will assentiu novamente, confiante na promessa da irmã. Sarah colocou o irmão nas costas e saiu do prédio, caminhando com dificuldade até encontrar uma rua cheia de casas abandonadas.

Ao entrar em uma delas, Sarah o colocou no chão e começou a vasculhar a cozinha. Armários estavam vazios ou cheios de comida estragada, e não havia sinal de um kit de primeiros socorros.

— Não tem nada aqui, Will – ela murmurou, frustrada.

Will, ainda arfando, olhou para ela com olhos cheios de medo.

— E se... e se os monstros tiverem levado a mamãe?

Sarah congelou por um segundo, mas rapidamente se forçou a sorrir, mesmo que estivesse aterrorizada com a ideia.

— Não, Will. A mamãe está bem. Eu tenho certeza disso. Ela deve estar procurando pela gente agora.

Ele a observou, parecendo querer acreditar.

— O papai sempre disse que, se algo acontecesse em Washington, era para a gente ir para o Museu Militar. Acha que a mamãe também vai pra lá?

Sarah assentiu.

— Com certeza. Mas antes, precisamos achar uma farmácia. Você precisa respirar melhor, e eu sei que deve ter uma no caminho.

Ela ajudou Will a subir em suas costas novamente e saiu da casa, determinada. Enquanto caminhavam entre as casas abandonadas, Sarah ouviu um som estranho. Primeiro, um farfalhar, depois um estrondo que fez o chão vibrar. Ela parou, os olhos arregalados ao ver uma das aranhas gigantes ao longe.

A criatura caminhava lentamente em sua direção, suas pernas enormes esmagando o que encontrava no caminho. Sarah sentiu o coração acelerar, mas não demonstrou pânico.

— Will, segura firme – ela sussurrou, apertando sua mão.

— O que é isso, Sarah? – ele perguntou, apavorado.

— Não olha pra trás. Apenas corre!

...

O céu de Washington estava coberto por uma sombra sinistra. O som de sirenes ecoava por todos os lados, misturado a gritos e explosões distantes. Sarah segurava a mão de Will com força, guiando-o por entre os escombros de prédios desmoronados. O pequeno soluçava baixinho, os olhos arregalados refletindo o terror ao seu redor.

— Sarah... – ele sussurrou, com a voz tremendo. – A gente vai ficar bem?

Sarah parou por um instante, abaixando-se na altura do irmão. Encarou seus olhos castanhos, tão semelhantes aos de seu pai, e tentou sorrir, embora seu coração estivesse disparado.

— Vai sim, Will. Eu prometo. Papai vai vir buscar a gente. Ele sempre vem, não é?

Will assentiu devagar, mas o medo ainda estampava seu rosto.

— Mas... e se os monstros nos acharem primeiro? – ele perguntou, apertando mais a mão dela.

Sarah respirou fundo, forçando a voz a soar confiante.

— Eles não vão nos achar. Somos rápidos, certo? Mais rápidos que eles. Agora, precisamos sair daqui. Vamos encontrar um lugar seguro até o papai chegar.

O garoto balançou a cabeça, confiando na irmã mais velha. Enquanto corriam, Sarah percebeu que o ar ao redor parecia mais denso, como se algo os estivesse observando. Um barulho estranho, metálico, surgiu à distância, seguido por um brilho azulado que cortou o céu escuro.

— Rápido, Will! – ela instigou, puxando-o pela mão.

Eles adentraram uma floresta próxima, onde as árvores eram altas e os galhos criavam uma barreira natural contra os olhos do céu. Sarah sentia o coração na garganta, mas manteve o foco no irmão.

— Sarah... – Will choramingou, tropeçando em uma raiz.

Ela o segurou antes que caísse, envolvendo-o em um abraço apertado.

— Vai ficar tudo bem – sussurrou, mesmo que estivesse apavorada. – Eu não vou deixar nada acontecer com você.

O som metálico se intensificava, e luzes azuladas piscavam entre as árvores. Sarah segurou a mão de Will novamente e correu, sem olhar para trás.

Naquele momento, só uma coisa a mantinha em pé: a promessa de que Jacob Black encontraria seus filhos, não importava o que custasse.

A luz dourada do sol começou a se infiltrar pelas fendas da gruta, projetando sombras suaves nas paredes de pedra. Sarah acordou com o som distante de pássaros, algo que não ouvia desde que o caos começara. Ainda segurava a mão de Will, que dormia profundamente ao seu lado, o rosto sujo e sereno.

Ela o observou por um momento, sentindo um nó na garganta. Precisava ser forte, por ele e por si mesma.

— Will... – ela chamou baixinho, sacudindo-o de leve.

O menino abriu os olhos lentamente, piscando contra a luz.

— Já é de manhã? – ele murmurou, sentando-se com dificuldade.

— Sim. Temos que ir. Agora é a nossa chance.

Will esfregou os olhos e assentiu. Mesmo exausto, ele confiava na irmã. De mãos dadas, os dois deixaram a segurança temporária da gruta. O sol brilhava forte, e a floresta ao redor parecia mais tranquila, embora o silêncio continuasse pesado demais para ser natural.

Sarah apertou os lábios, relembrando o que havia notado durante a noite.

— Acho que eles só atacam no escuro, Will – disse, tentando soar confiante. – Enquanto o sol estiver no céu, estamos seguros.

Will olhou para ela, os olhos cheios de esperança.

— Tem certeza?

— Tenho. E isso significa que temos tempo pra encontrar ajuda.

Caminharam por horas até chegarem a uma estrada abandonada. Carros estavam parados em filas desordenadas, alguns com as portas abertas, outros virados de lado como se tivessem sido jogados. Sarah parou para observar o cenário, sentindo um arrepio percorrer sua espinha.

— Vamos ver se encontramos algo útil – disse, soltando a mão de Will por um momento.

Ela abriu o porta-malas de um carro próximo, depois outro, e finalmente encontrou uma mochila e uma garrafa d’água pela metade. Quando abriu o terceiro carro, uma arma pequena estava no banco do passageiro.

Sarah a pegou com cuidado, o peso frio e desconhecido em suas mãos.

— Você sabe usar isso? – Will perguntou, observando-a com olhos curiosos.

Sarah respirou fundo, tentando parecer confiante.

— Somos filhos de um herói de guerra, esqueceu?

Will abriu um sorriso tímido, acreditando na força da irmã.

— Então você é tipo o papai agora?

Ela riu, guardando a arma na mochila.

— Quase isso. Vamos, temos que continuar andando. Papai vai nos encontrar. Só precisamos dar uma chance a eles.

Juntos, seguiram pela estrada deserta, com o sol alto acima deles e a esperança de que, em algum lugar, Jacob Black já estava a caminho.

Sarah e Will caminharam pela estrada por algum tempo, o calor do sol começando a pesar sobre seus corpos cansados. Sarah olhou ao redor, tentando encontrar algo que pudesse indicar onde estavam. Quando avistou uma placa com o nome da estrada, sentiu um fio de esperança.

— Will, espera um pouco – disse, parando no meio do asfalto rachado.

Ela colocou a mochila no chão e pegou um pedaço de fio que havia encontrado no carro. Sarah começou a improvisar uma bússola, lembrando-se das aulas com o pai, que sempre dizia que uma bússola improvisada poderia salvar vidas.

Will a observava com olhos curiosos, mesmo ofegante.

— O que você está fazendo, Sarah?

— Estou tentando descobrir para onde devemos ir – respondeu, concentrada. – O papai sempre disse que, se algo acontecesse, eu devia me lembrar dos pontos cardeais. O Museu Militar fica ao sul daqui.

Will respirava com dificuldade, apertando o peito.

— Está perto? – ele perguntou, a voz trêmula.

Sarah parou o que estava fazendo por um momento e segurou o rosto do irmão com delicadeza.

— Não está tão longe, Will. Mas precisamos sair da estrada. Estamos muito expostos aqui. Os monstros podem nos ver.

Will assentiu, os olhos arregalados.

— E se eles vierem?

— Eles não vão, porque somos mais espertos – respondeu Sarah, tentando soar confiante. – Eu vou cuidar de você.

Ele tentou sorrir, mas estava lutando para respirar. Sarah notou o som chiado vindo do peito dele e se abaixou para deixá-lo subir em suas costas novamente.

— Vamos atravessar aquele bosque ali – apontou para uma área de árvores densas ao lado da estrada. – Depois, seguiremos até encontrarmos uma farmácia. Eu prometo que vou encontrar sua bombinha.

Will segurou firme em seus ombros enquanto ela caminhava pelo mato alto, o som de folhas secas e gravetos estalando sob seus pés. A noite já começava a cair quando Sarah avistou uma construção com uma placa: Farmácia Washington Center.

A porta da farmácia estava entreaberta, torta em suas dobradiças. Sarah se abaixou, colocando Will no chão.

— Vamos rastejar por aqui. Fique perto de mim – sussurrou, apontando para o espaço entre a porta e o chão.

Os dois rastejaram para dentro, o silêncio do local sendo quebrado apenas pelo som de sua respiração. Sarah pegou o celular e ligou a lanterna, movendo o feixe de luz pelas prateleiras.

— Fique aqui – disse para Will, que se sentou atrás de um balcão.

Sarah começou a vasculhar freneticamente as prateleiras. Quando finalmente encontrou uma bombinha de asma, deixou escapar um suspiro aliviado e voltou para o irmão.

— Consegui, Will! – exclamou baixinho, abrindo o dispositivo e ajudando-o a usar.

Will respirou fundo após o primeiro uso, e o som chiado diminuiu.

— Melhor? – ela perguntou, segurando suas mãos.

Will assentiu, um sorriso fraco no rosto.

— Você é a melhor irmã do mundo.

Sarah sorriu, sentindo uma pontada de esperança.

— Agora precisamos descansar. Vamos ficar aqui esta noite, atrás do balcão. Estamos seguros por enquanto.

Ela encontrou alguns pacotes de biscoitos, água e salgadinhos nas prateleiras e voltou para onde Will estava sentado. Dividiram a comida em silêncio, cada um pensando em Jacob e no quanto queriam que ele estivesse ali.

Enquanto o escuro se fechava ao redor deles, Sarah sussurrou:

— Papai vai nos encontrar, Will. Eu tenho certeza.

Will, de olhos fechados e já mais calmo, respondeu baixinho:

— Ele sempre encontra.

E, com essa certeza, os dois adormeceram, protegidos pelo balcão da farmácia.