Invasão

1 Capítulo Único


Observo-o no seu quarto, lidando com os seus cadernos, fazendo exercícios de alguma disciplina escolar na qual não tenho conhecimento. Sua escrivaninha é grudada na parede, e seu guarda-roupa está do lado da mesma. Na outra parede há a cama e a janela, que está aberta. Nos pés da cama há um puff verde com um cubo mágico resolvido jogado em cima dele. O outro lado do pequeno quarto pertence ao irmão dele, cuja cama estou sentada. Enquanto o garoto estuda, seu celular toca insistentemente. O garoto está totalmente alheio a mim.

Ele joga o celular em cima da cama tocando ainda, ignorando a outra pessoa no outro lado da linha. Ele apoia a cabeça entre as mãos, e bufa, cansado de estudar. Fecha os cadernos e os joga dentro de uma gaveta. Olha na minha direção, mas não me vê. Não me vê porque estou dentro de um sonho dele.

Frequentemente escorrego para os sonhos das pessoas. Vejo todo o tipo de coisas, mas na maioria das vezes assisto pesadelos. Mas nunca entrei num sonho do meu namorado. Sonho esse que parece normal demais, irrelevante. Penso um pouco, e decido testar uma teoria.

- Carlos! — Chamo pelo nome dele, em alto e bom som. Ele levanta a cabeça e olha ao redor. Depois fita o vazio à sua frente, balança a cabeça em sinal de negativo e abre uma gaveta. — Carlos. Olha. Vou te mostrar que eu estou aqui.

Levanto-me da cama e vou até o puff. Pego o cubo mágico, e coloco em cima da mesa dele, bem à frente dele. Ele deve ter visto o cubo voar, pois está com uma expressão incrédula estampada no rosto.

- O que está acontecendo?

- Calma. Apenas deseje ver o que você não consegue ver.

Ele fecha os olhos, respira fundo e os abre novamente. Não sei de onde tiro a ideia de falar tal coisa, mas percebo que deu certo, pois ele olha na minha direção de alto a baixo. Talvez o fato de eu estar de pijama deixe-o meio encabulado.

- Leya... O que você está fazendo aqui? — Ele se levanta e se aproxima de mim, com um meio sorriso nos lábios.

- Tenho a estranha capacidade de entrar nos sonhos das outras pessoas. É meio assustador, eu sei. Mas essa é a primeira vez que eu ajo, que o sonhador pode me ver, e que eu não sou somente uma observadora impotente.

Abraço-o, e ele acaricia meu rosto, plantando um beijo suave nos meus lábios.

- E Carlos, — digo, jogando-me na cama dele — eu não sei como nem porque isso acontece. Apenas acontece. Mas no momento isso não é tão ruim assim.

- Tá, deixa eu entender. Você tem a capacidade de controlar os sonhos dos outros.

- Normalmente não. Mas esse seu sonho não está sendo controlado por mim. Você tem livre-arbítrio para fazer o que quiser.

Ele tira os óculos e também se deita ao meu lado, olhando para mim. Enrola uma mecha do meu cabelo no seu dedo. Acabo com a distância existente entre nós e o beijo de forma faminta, e ele corresponde da mesma forma.

- Eu vou me lembrar disso? — Ele pergunta, o semblante curioso.

- Não sei. Eu vou lembrar. Quando eu escorrego para o mundo onírico de alguém, lembro-me de todos os detalhes.

Ele se senta na cama, e eu me sento no colo dele, com as pernas abertas. Nossos corpos se encaixam perfeitamente, e ele morde o meu lábio inferior, tirando-me um pouco de sangue. Nossos olhares se encontram, e percebo que o meu sangue está nos lábios dele.

- Eu sou meio maníaco, lembra?

- Como esquecer esse singelo detalhe sobre voc...

Então saio do sonho dele abruptamente, e acordo, sentando-me na cama. Fito o vazio por um longo tempo. Meu celular toca. É o Carlos.

- Leya. Me responde uma coisa.

- Fala.

- Você tem a estranha capacidade de entrar nos sonhos das outras pessoas?

- Ás vezes isso acontece. Por que?

- Então aquilo foi verdade. Realmente aconteceu. — Ele divaga.

- Sim. Doeu um pouco, sabia? Eu ainda consigo sentir gosto de sangue.

- Eu sempre quis morder você. Esse é o meu lado insano falando. — Ele ri um pouco.

- Me fala. O teu quarto é daquele jeito?

- É sim. Desde quando você consegue fazer isso?

- Desde os sete anos de idade. Eu odeio isso, porque normalmente eu assisto a pesadelos traumáticos. Não posso interferir para ajudar a pessoas.

- Mas esse você conseguiu interferir.

- Sim. Normalmente os sonhadores não sabem que eu estou ali vendo tudo.

- A propósito, seu pijama é lindo. Olha, eu preciso ir no banheiro. Espera aí.

- Ok. E eu sei que você só gostou do meu pijama porque ele é curto.

Ele ri um pouco.

Carlos mora a aproximadamente 1700 KM de distância de mim, e nós namoramos à distância. Em tese, aquela invasão de sonho foi o nosso primeiro encontro como namorados.

- Você é mais baixa do que eu pensava.

- Esqueceu que daquela vez eu tava de sneakers? Aquele calçado me dá uns 7 centímetros de altura.

- Ei, você consegue fazer isso de novo?

- Não sei. Nem era para ter acontecido. Normalmente eu entro nos sonhos das pessoas que dormem perto de mim. Ter sido meio real foi mais estranho ainda.

- Não foi a pior coisa do mundo, vai. Tenta de novo?

- Então dorme. Imagina o teu quarto até tu pegar no sono. Eu vou tentar escorregar para dentro do teu sonho.

- OK. Espero que dê certo. Te vejo logo, minha viajante dos sonhos.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!