Inumana.
4 Garotas bonitas que lutam.
Notas iniciais
Ela era bonita. Talvez não uma beldade de tirar o fôlego como as outras garotas esforçavam-se para ser, mas inegavelmente bonita e quiçá encantadora quando fazia o favor de sorrir um pouco. Quase nunca realizava tamanha ação complicada para tal menina mal-humorada e briguenta, sempre de cabeça quente e com a boca rápida para respostas cruéis. Era toda punhos machucados e língua maldosa, verdadeiramente intragável e insuportável para a maioria das pessoas que dispendia apenas um olhar desinteressado à criatura peculiar.
Como o mundo era uma construção de meias-verdades convenientes, poucos se aventuravam para além das palavras afiadas e do ímpeto incontrolável de brigar. A verdade era que não se deixava ceder para aquela existência injusta, não parava lutar pelo que achava certo e acreditava, não suportando injustiças. Ao que era de se esperar de uma sociedade patriarcal, no entanto, uma mulher não era parabenizada por isso: deveria ser calma, compassiva, delicada e gentil, não uma confusão de gargalhadas cínicas, dizeres maliciosos e pouca submissão.
Era sempre muito fácil para os meninos apontarem os dedos com insultos gritados e também para as meninas, com seus olhares discretos e vozes sussurradas, descreverem os defeitos que carregava em sua impulsividade borbulhante. Ela nunca, nunca pedia desculpas – seus irmãos não o faziam quando estavam errados e seu pai não ousava se rebaixar a tanto, mas sua mãe detinha de incontáveis razões para estar falhando e pedindo perdão. Não desceria a tal nível de complacência tola, de protestos silenciados por pessoas que não queriam ouvir e vida controlada porque assim deveria ser – por ser quem era e por se comportar como se comportava.
Bem, ela lutaria por todas as outras que não sabiam que precisavam lutar por um lugar decente no mundo. A mesma garota que não calava a boca e tinha ideias demais para uma mulher, era uma peça em um tabuleiro grande demais e antigo demais. Sendo assim, não pararia de batalhar até que pudesse fazer o seu jogo, da forma que queria e com as regras que inventasse quando estivesse em um de seus lapsos criativos que geravam textos normalmente ignorados pelos professores, porém, profundos e recheados de críticas mais necessárias e mais ignoradas.
Ela era inteiramente a construção de erros da sociedade, toda a rebeldia gritada na falta de comportamento adequado e da raiva quente e pulsante. Era o produto de gerações que erravam insistentemente e agora tinham um algoz incansável, embora não inocente. Talvez também estivesse errada, sendo inconstante demais e volátil demais, muito rápida na ira e muito lenta no perdão, contudo, não se importava. Aquilo era sua própria personalidade, sua forma de protesto – mostraria todos os resultados para as ideias tolas incrustadas nas cabeças dos seres humanos desde o nascimento.
De qualquer forma, era a criatura desestruturada que tinha uma boca rápida demais e uma mente que funcionava, ao contrário de todos os outros que permaneciam na Idade Média, apenas com novas ideias para empurrar nas gargantas de cada membro da nova sociedade que nascia. A única vantagem que possuía naquela luta era que desaprendera a calar-se perante as injustiças e gritaria até a sua morte, se preciso.
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