Prólogo



1999. Cidade de Ogden em Utah. Uma velha mulher caminha na calçada. Ela está usando roupas de frio, pois o clima não é tão ameno quanto o sol no horizonte pode sugerir. À medida que anda, o vento frio irrita sua face, fazendo seu nariz congestionar. Por vezes ela passa os nós dos dedos encarquilhados no rosto, para diminuir a sensação de pele seca, fustigada pelo vento. Suas pernas doem, mas seu passo é constante. Um pouco mais e ela chegará a sua residência.

Ela abre a porta da casa, meio gótica e antiga. Coloca todos os ferrolhos existentes no batente. Abre a janela em estilo guilhotina. Vai retirando os agasalhos do corpo e tenta ajeitá-los do melhor modo possível sobre um móvel.

Ela já ia preparar o almoço solitário e minguado, quando o telefone de mesa toca estridente.

- Alô!

- Vó? Sou eu, o Chris!

- Ah, O que houve querido? Algum problema?

- Não vozinha, você esqueceu? Eu lhe disse que iria me comunicar quando chegasse a Londres. Lembra que eu lhe disse que ligasse o computador?

- Oh! Aquilo! – a velha senhora deixa o telefone pendurado, e vai até o monitor sobre uma escrivaninha na sala de refeições.

Ela liga alguns fios na eletricidade e então aperta um botão. Sente-se agoniada com tudo aquilo. Sempre vivera sem computadores. Não gostava da interferência deles em sua vida rotineira e segura. A tela azul com a palavra “Windows” não lhe parecia correta. Faltava algo, mas não se lembrava do que era. Finalmente lembra-se de clicar sobre o símbolo do “discador” da internet. Após alguns minutos um quadro se reproduz na tela, e ela pode ver a figura sorridente de seu neto.

- Oi vó! – A voz agora saia do conjunto que compunha o computador de mesa.

- Oi, meu neto! – a velha mulher responde, enquanto vê outra janelinha menor refleti-la, como se fosse um espelho fantástico.

- Vó, fale no microfone. É este aqui! – Seu neto lhe fala da superfície espelhada.

A velha mulher procura pelo microfone ausente, mas um barulho distante chama sua atenção. Ela afasta-se do computador pessoal e vai até a porta que dá para a cozinha. Seu neto no écran a espera pacientemente, afinal mexer em parafernálias eletrônicas poderia ser um pouco complicado para idosos.

De seu apartamento em Londres, ele vê através do monitor, quando sua avó sai do campo de visão do webcam, e quando ela volta momentos mais tarde, coberta de um líquido escuro, se arrastando para se aproximar da tela brilhante.

- Vó! O que está acontecendo?... Meu Deus!

Sua avó arria-se próxima ao computador, e somente nessa hora, é que o rapaz percebe uma terceira pessoa na porta da cozinha, olhando fixamente para ele, através do webcam. O rapaz tenta pedir socorro, mas está paralisado de terror, até que um grito rouco escapa de sua garganta.



Ato 1



A van escura aproximou-se devagar do acostamento. Um homem idoso, de rosto cheio de linhas e vincos, olhou esperançoso para a paisagem a sua frente. A vila de bangalôs cor de barro, com janelas brancas, contrastava com o fundo de cordilheira azul.

Ao seu lado, uma menina de oito anos, de cabelos cacheados, castanhos, estava sonolenta, mesmo assim animou-se com a chegada e sorriu para ele.

- Pai! É essa a nossa nova casa?

- Oh! – O velho virou-se para o lado de sua janela e mirou o bangalô amarelo, que acabara de alugar. – Sim, Jordan! Vamos conhecê-la?

Frank Black e sua filha Jordan haviam saído de Seattle para tentar a sorte e um futuro melhor, longe de todas as desgraças que os acometeram nos últimos anos. A perda da esposa e a de amigos antigos o abateu, tanto ou mais que os crimes que investigava para o FBI.

O grupo Millennium revelou-se perigoso e ditatorial. Ele não deveria ter se espantado com o nível de perversão e sadismo, que percebeu entre aqueles que se projetavam como guardiões e salvadores do mundo. Afinal o poder corrompe, e um poder terrível, corrompe terrivelmente.

Frank era agora oficialmente um aposentado, sem ligações com o Millennium ou com o FBI. Somente a família de sua finada mulher ainda o contatava, por causa de Jordan. Entretanto, Frank sabia que uma lupa estava sobre ele, cobrindo seus passos e sabendo exatamente tudo o que ele estava fazendo, e o que acabaria por fazer. Pensando nisso, Frank olhou de soslaio para o alto e pensou ter visto um brilho distante no céu. Ele e a filha carregaram a bagagem para a casa amarela.

xxx

Frank é interrogado pelo policial local como parte da rotina de investigação do crime.

- O que faz aqui, Senhor Black?

- Sou um homem aposentado, pensei em curtir minha velhice em sua cidade ao lado de minha filha.

- Deixe-me ver suas credenciais novamente. Ok! Tudo parece estar bem. Sinto muito por incomodá-lo.

- Mais alguma coisa policial?

- Desculpe-me! É que houve um crime aqui perto e... Já que o senhor é um expert do FBI... Desculpe-me, eu não deveria incomodá-lo, uma vez que está aposentado.

- Eu posso fazer consultoria para esse caso, sem problema. Por que não me traz os relatórios?

- O brigado, senhor. Já lhe trago.

O policial voltou uma hora depois, acompanhado pelo xerife local, trazendo uma pasta com documentos. Jordan já estava dormindo, e Frank aproveitou para se inteirar daquele caso. Ao tocar nas fotos do crime, imagens surgiram em sua mente, como flashes: Um homem com capuz cobrindo seu rosto, olhando para uma senhora idosa aterrorizada. Uma tela de computador mostrava o rosto de um jovem espantado, com a boca aberta. A imagem da tela do computador relampeou diversas vezes, até que o homem encapuzado a destruiu com um pé de cabra.

As fotos nas mãos de Frank mostravam o estado do cadáver encontrado pela polícia. O corpo estava estatelado no chão, com braços e pernas abertas, como uma vítima de suplício. Suas roupas estavam em trapos, expondo a maior parte do busto e pernas. A cabeça da idosa era uma pasta disforme, vermelho-escura. Outras fotos mostravam o estado da sala onde foi encontrado o cadáver: móveis revirados e um computador de mesa totalmente despedaçado. Outra foto mostrava a arma do crime, um pé de cabra. Frank a segurou com atenção. Viu em sua mente, mãos fortes empunhando um machado para cortar lenha; trocando pneus de um carro; e usando o pé de cabra para desemperrar uma porta. Finalmente empunhando o objeto para atingir a cabeça de uma fera com grito estridente.

Frank largou as fotos e folheou o resto do relatório. Pegou um bloco de papel e começou a escrever sua análise do perfil do assassino.

xxx

Em seu quarto, Jordan tem um sonho agoniado. Ela está suando e balbucia baixinho, enquanto se remexe na cama. Em seu pesadelo, ela está presa em uma casa de madeira escura. Não há saída ou socorro. Ela chama pela mãe e pelo pai, mas quem vem em seu socorro é uma bela mulher de longos cabelos louros e um par de asas branquinhas. A princípio Jordan fica receosa, mas então se atira nos braços daquela criatura alada, e enterra a cabeça em seu peito, em busca de consolo.

- Não tenha medo Jordan, eu sou do bem, mas há outros que não são.

- Quem?

- Ele! – A entidade alada aponta para um canto escuro da sala.

Só então Jordan percebe uma criatura semelhante a um cão raivoso, sem pelos, como um fauno, e ele escancara os dentes para ela, como um sorriso tenebroso. Jordan grita horrorizada até que desperta chorando. Parece-lhe que o demônio está em seu quarto, espreitando nas sombras.

A porta se abre e Frank entra rapidamente, pega a filha em seu colo, tentando acalmá-la, dizendo que tudo não passara de um sonho mau, embora nem ele mesmo acredite nisso.



Ato 2



Frank passa a investigar o crime.

- O assassino tem entre 30 a 45 anos. É um homem rústico, afeito à dureza do campo. Sem dúvida é um caçador. Ele vê suas vítimas como presas, animais irracionais que ele tem que abater. Talvez haja algum distúrbio mental de origem orgânica, ou relacionado a alguma experiência traumática, mas ainda é cedo para vincular a investigação a esse detalhe. – Frank Black se calou enquanto observava o slide do pé de cabra, refletido sobre a tela branca, na sala de reuniões da delegacia de polícia local.

- O que quer dizer com distúrbio mental de origem orgânica?

- Tumor cerebral. Qualquer doença que destrua o cérebro, como sífilis, por exemplo. Mas isso ainda é pura especulação.

- E por onde podemos começar?

- Procure nos arquivos sobre vítimas semelhantes, bem como animais domésticos mutilados ou massacrados.

- Que mais?

- A vítima tinha um computador pessoal. Procure junto ao provedor o histórico do uso, e com quais pessoas ela se comunicava.

- Provedor?

- Companhia telefônica.

- Oh, sim!

- Quanto a mim, visitarei a cena do crime.


Xxx


- Pai, posso ficar com você, hoje?

- Não, minha filha. Tenho que trabalhar, e lá não é um ambiente para crianças. Não tenha medo. Chamei uma babá para ficar com você, e na próxima semana irá para a escola.

- Tenho medo do monstro.

- Que monstro, Jordan?

- O monstro do meu sonho. Ele está nessa casa nova.

- Jordan... Venha aqui. Sente aqui. Não existem monstros minha filha. Tudo isso é somente sua imaginação.

- Eu sei pai, mas o monstro não quer ir embora, mesmo quando eu digo que ele não existe.

- Filha, você já é bem crescida, já é quase uma mocinha. Já é hora de... Aprender a saber lidar com ... Seus temores.

- Como, pai? Se eu fosse policial como você, e tivesse uma arma grande como a sua, eu poderia matar o monstro, mas eu sou só uma menina pequena.

- Filha, hã... Esse tipo de monstro, não... Morre com tiros de revólver.

- Não?

- Não, eles... Só se afastam com a força da vontade.

- Força de vontade?

- Sim, Jordan. Todos os dias você diz em silêncio para si mesma: “O monstro não me fará mal, por que eu não quero. Ele irá embora e não voltará”. Diga isso todos os dias com fé e força. Somente isso pode afastá-lo.

- Tem certeza?

- Sim, filha!

Jordan vira-se para o lado e olha para o vazio.

- Acho que você pode ir descansar agora, meu pai me ensinou como me defender do monstro. Tchau!

- Com quem conversa filha?

- Com o anjo que me acompanha para o monstro não me alcançar. – Jordan se vira de novo e se volta para o pai rapidamente. — Eu acho que ela não quer ir embora, pai, continua no mesmo lugar.

Frank mira o vazio onde a filha afirma haver um anjo. Resolve não falar nada a respeito. Dessa vez.



Ato 3



Frank Black foi até a cena do crime. Observou os estragos na mobília, e o desenho do cadáver no chão, feito a giz. Foi até a cozinha e outra cena de destruição, só que em menor grau, como se ali fosse o olho do furacão, enquanto a sala de refeições tivesse sentido sua maior fúria. Dirigiu-se novamente à sala, e nisso a porta da frente se abriu.

O delegado de polícia entrou acompanhado por um jovem pálido e muito abalado. Frank o reconheceu como o jovem da tela do computador, de quando ele teve a visão.

- Senhor Black, este é Chris Carter, o neto da vítima, a Senhora Kathy Gilroy. – O delegado virou-se para o rapaz e falou. – Este é Frank Black, um ex-agente do FBI que está nos prestando consultoria.

- Como vai Senhor Black?

- Meus pêsames!

- Obrigado!

- Então, foi você que avisou a polícia sobre o crime?

- Sim, mas... Não foi a tempo para salvar a vida de minha avó. Eu estava em... Londres. Fiquei muito abalado, quando vi minha avó ser atacada por aquele... Monstro. Demorou um pouco até que conseguisse ligar para a polícia.

- Quando enfim conseguimos entender do que ele estava falando, foi que viemos aqui com uma patrulha, mas então a Senhora Gilroy estava morta.

Frank aproximou-se dos restos do computador e virou-se para o jovem.

- Você estava se comunicando com sua avó?

- Sim, ela... Não sabia mexer direito, e essa seria a primeira vez que conversaríamos via webcam. Oh, céus! – O rapaz cobriu os olhos com as mãos. – Tenho sonhado todas as noites com a visão de seu ataque. Não consigo olhar para monitores. É como se o assassino estivesse me encarando através da tela.

- Já mostramos a ele alguns retratos de assassinos procurados, sem sucesso, e pedimos que fizesse um retrato-falado, mas ele não conseguiu fazer uma descrição precisa. Disse que o assassino usava máscara.

- Usava máscara, ou assim me pareceu. Só pude ver seus olhos. Frios, implacáveis, sem vida, como um... Morto-vivo.

- Havia algum motivo para alguém querer matar sua avó? – Frank perguntou.

- Não! Quem poderia odiar uma idosa frágil e pacata? Se ainda fosse o meu avô, mas ele morreu há 20 anos.

- O que tem o seu avô?

- Ele... Ele era mau. Quero dizer, apenas um homem duro e rígido, implacável e impiedoso. Morreu de ataque cardíaco. Muita gente não gostava dele, mas não descontavam isso na vovó. Ela sempre foi muito amada e respeitada.

Frank olhou inquisitivamente para o jovem e depois para a casa.

- Como era a situação da sua avó? Era uma mulher rica?

- O que? Não! Ela vivia de pensão. Doou todos os seus bens em vida. Recebia apenas o suficiente para sobreviver. Não sei o que está pensando, mas não há nenhuma herança para os herdeiros.

- O que está pensando, Senhor Black? – O delegado interveio.

- Nada, mas é sempre bom se inteirar sobre os espólios da vítima.



Ato 4



- Pai, não está adiantando.

- O que, Jordan?

- O monstro no canto do meu quarto. Ele não quer ir embora, fica fazendo caretas com a boca aberta, como se estivesse engasgado. Eu até disse pra anjo ajudá-lo, mas ela disse não. Eu fiquei triste, pai.

- Filha, você sabe que às vezes não podemos resolver todos os problemas, não sabe? Nessas horas tem que aprender a pedir ajuda. Talvez o anjo não possa ajudar o monstro, mas outra pessoa possa compreender o problema.

- É por isso que estou falando com você, pai. Quero que ajude ao monstro.

- Muito bem, por que quer ajudar a um monstro filha, quando até ontem tinha medo dele?

- Porquê é o certo a fazer?

- Ok! Apenas lembre-se de que isso é perigoso.

- Certo!

XXX


Frank foi até o quarto de Jordan, que seguiu atrás dele, segurando as mãozinhas, aflita.

O velho detetive olhou para o canto escuro do quarto e esperou ver alguma coisa. Em sua mente um fauno se materializou naquele lugar. O ser se contorceu em espasmos e tentou falar algo, mas não emitiu voz. Frank se contagiou com sua aflição. Ele entendeu porquê sua filha sofria.

- Escute! Não tente falar! Tente desenhar o que quer nos dizer. – Frank lhe falou o mais calmo e controlado que conseguiu.

Ao lado dele, Jordan colocou as mãozinhas nos olhos, para não ver o mesmo que o pai, mas a imagem do monstro já estava fixa em sua mente.

O monstro passou a escrever na parede com o dedo ferido. A mensagem apareceu escrita na parede do quarto de Jordan, em sangue: “Desculpe”.

Frank se arrepiou e abraçou a filha.

XXX

- Senhor Black, procuramos por denúncias de gado mutilado e chegamos até este endereço. Temos agora cinco suspeitos deste delito, mas nenhum faz ou fez tratamento no CDCC. – O policial informou Frank por telefone.

- CDCC?

- Sim, para monitoramento de casos de Sífilis.

- Isso foi só um exemplo, não precisava ter seguido ao pé da letra.

- Bem, já o fizemos. Em breve teremos acesso às informações dos computadores. Com sorte poderemos ter uma imagem do assassino. Até mais, Senhor Black.

- Até-logo!

Frank desligou o telefone e passou a meditar sobre o caso. Tudo parecia correr bem, mas a sensação de farsa e de mal oculto lhe dava câimbras. E se isso não bastasse, ainda tinha que lidar com um fantasma no quarto de Jordan, pois agora a menina se recusava a voltar pra lá, e Frank não lhe tirava a razão.

Ele foi até o quarto da filha, sozinho. Entrou e não falou nada, apenas observou tudo, encostado à parede. Viu novamente o fauno contorcionista, se debatendo no canto da parede. Percebeu pela primeira vez o anjo: uma figura de mulher com asas de águia. Ela admirava o fauno com olhos penetrantes e frios. Por um momento, Frank teve a impressão de que era o olhar do anjo que fazia o fauno sofrer. Então o anjo se virou para ele e deu o mesmo tipo de olhar.

- O que quer com ele? – Frank inquiriu sustentando o olhar do anjo.

O anjo nada respondeu, mas já Frank adivinhara a resposta: vingança. Então tudo sumiu, como se um véu houvesse descido sobre eles, ou a conexão houvesse sido cortada. Frank saiu do quarto se sentindo mal.



Epílogo



Nos próximos dias, a polícia interrogou os suspeitos do caso Gilroy, e um deles pareceu-lhes muito perturbado. Outro não tinha álibi para o dia do crime, e um terceiro já tinha passagem na polícia por depredar bem público. Com a chegada dos arquivos dos computadores, o assassino pôde enfim ser revelado. Era o suspeito com distúrbio mental. Ele foi devidamente processado e trancafiado. Durante seu processo, descobriu-se que tinha um tumor no cérebro inoperável.

Frank não esperou o desenrolar dos acontecimentos. Depois do ocorrido no quarto de Jordan, ele tratou de mudar de casa, e quem sabe de cidade. Enquanto transportava suas malas para o carro, Frank viu o carro de um figurão da cidade passar em frente a sua casa. No banco do carona estava o neto da finada Senhora Gilroy. Ambos estavam conversando animadamente e o neto da defunta sorria. Frank teve calafrios com essa visão. Parecia rever a cena do assassinato, com o rapaz observando tudo via webcam. O velho detetive sacudiu a cabeça e continuou a embarcar as malas.

Ele afivelou o cinto de segurança de Jordan e o seu próprio. Manobrou o carro e seguiu para longe da casa mal assombrada. Na beira do caminho ele a viu. A mulher-anjo pálida e rígida. Ela forçou um sorriso no rosto etéreo e acenou para eles.

- Posso pedir pra ela vir conosco, papai? – Jordan perguntou.

- Não, filha.


FIM

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!