Intouchables
2 Acasos planejados
Notas iniciais
Enquanto caminhava pelo longo corredor do trem, o principal objetivo de Emmeline era não encostar em ninguém. Ela tentava não olhar ao redor, pois toda vez que o fazia via gente se abraçando, e só de observar esse ato ela se arrepiava. É claro que era impossível não tocar ninguém em um local cheio de alunos indo e vindo, mas toda vez que isso acontecia ela se encolhia toda, buscando evitar que acontecesse de novo.
Continuou andando à procura de uma cabine completamente vazia para se isolar. Encontrou-a quase no final do vagão, onde se podia ouvir em volume moderado os guinchos dos animais contidos no próximo vagão. Notou que a cabine ao lado da sua era ocupada por um casal de sonserinos aos amassos, e ela apenas desejou que os dois não fizessem muito barulho.
Sentou-se a janela, que era voltada para a plataforma onde seus pais a procuravam com os olhos, acenando assim que a viram. Ela acenou de volta calmamente, e logo seu olhar se perdeu. Começou a se lembrar de sua infância, e de como as coisas pareciam fáceis naquela época. Mas como toda boa memória, aquelas vinham acompanhadas de outras, carregadas de dor e sofrimento, por isso as afastou avidamente e se voltou para seu velho hábito de recitar um poema até cair no sono. Emmeline tinha uma incrível capacidade de memorização, por isso não demorou muito para que as palavras lhe viessem a mente.
Quando à corte silente do pensar
Eu convoco as lembranças do passado,
Suspiro pelo que ontem fui buscar,
Chorando o tempo já desperdiçado…
Mas antes que pudesse cair no sono, lembrou-se da promessa que havia feito no verão quando encontrara com Alice, que iria ao menos tentar se enturmar com as amigas malucas e barulhentas dela no Expresso. Respirou fundo, preparando-se psicológicamente para procurá-las, e se levantou. Primeiramente checou se o corredor estava vazio, e logo notou que estava, abrindo a porta de correr e andando vagarosamente até o fim do corredor.
Tudo o que Lucinda Talkalot queria era simples de se conseguir: Dinheiro, Torturas e Prazer. O primeiro ela tinha de sobra, os Talkalots eram uma família tradicional, prestigiada e muito rica. O segundo ela ainda estava aprendendo a lidar com, mas já amava apenas sensação de se lembrar de suas poucas vítimas e seus gritos desesperados por ajuda. O terceiro era o mais fácil de conseguir, principalmente para uma das garotas mais sedutoras — mesmo que não a mais bela — da escola, e até mesmo naquele momento ela estava carregada de prazer e desejando por mais. O firewhisky em seu organismo à muito fazia efeito, e ela ansiava por bem mais que os beijos trocados a vários minutos com… Quem é que estava ali mesmo? Ah sim, Rosier. Ela sabia que o rapaz provavelmente não se lembraria de seu nome mais tarde, mas quem se importa? Ele lhe sendo útil era o que valia.
Evan queria sentir alguma coisa, nem que mínima fosse, com aquela garota. Desde criança sempre fora difícil de impressionar. Nem mesmo todo o dinheiro dos pais, os presentes que ele ganhava e as festas de aniversário fabulosamente extraordinárias chamavam sua atenção. Mesmo depois de crescido nenhuma daquelas coisas lhe chamavam atenção, e nem mesmo com uso de bebidas e drogas, ou com as várias garotas com quem ele se envolvia semanalmente, conseguia se fazer sentir algo verdadeiro. Apenas uma coisa lhe dava prazer real: O fogo. Toda vez que via aquelas belas ondas alaranjadas à sua frente se sentia vivo como em mais momento nenhum podia sentir.
Mas ele realmente gostaria de sentir algo com a bela morena dos olhos azuis em seu colo. Ela era realmente linda, mais do que a grande maioria das sonserinas que conhecia. Mas... Nada, nem mesmo a mais remota onda de prazer. Depois de algumas doses de firewhisky ele começava a ver os cabelos desgrenhados da menina em chamas, mas antes que fizesse algo do qual se arrependeria amargamente ele a afastou. Sabia que ela queria mais, mas simplesmente não sentia vontade nenhuma de lhe dar o que ela desejava, então apenas se afastou dela, resolvendo caminhar pelos corredores para conseguir voltar ao normal, ignorando os protestos da garota. Achou melhor procurar por Amycus, já que não falava com este desde que havia se deparado com uma Lucinda totalmente bêbada e sozinha numa das cabines. Temia que o amigo fizesse alguma besteira relacionada ao seu mais recente problema e motivo de revolta inacabável. Não que se importasse com quem saíria machucado durante um dos frequentes acessos de fúria do Carrow, na verdade se divertia com isso, mas sim por que arranjar mais encrenca com um monitor o colocaria em uma linha bem tênue e próxima à expulsão, e não havia como Evan sobreviver àquele inferno de escola sem ele, por isso precisava impedir que fizesse algo estúpido, ou pelo menos mais estúpido.
Hestia sentia fome, mas não iria comer nada, como sempre. A desculpa era a mesma. Sem dinheiro, economizando pro Natal, mas a verdade era outra. Ela simplesmente não comia nada, e quando o fazia a comida misteriosamente não caia em seu estômago. Era sempre a mesma coisa.
Até então ela ignorara os protestos do seu estômago. Estava com suas melhores amigas e simplesmente não conseguia pensar em mais nada a não ser rir com Amelia, Alice, Marlene, Gwenog e Nikkita, e simplesmente esquecer todos os estresses da vida. Com exceção é claro de sua paixão, Dedalus Diggle. Ele estava na cabine ao lado com os amigos, mas toda hora levantava-se para implorar que as garotas rissem mais baixo, o que obviamente era uma desculpa para ver Hestia. Ninguém sabia quando e como toda essa frescura “Destia” havia começado, mas de uma hora para outra Hestia passou a ser pega encarando Dedalus quando este passava, ficando vermelha quando recebia um elogio, e vice-e-versa. Os dois se conheciam desde sempre. Seus pais eram amigos, ambos moravam na mesma rua, nasceram no mesmo mês, tinham a mesma personalidade ao mesmo tempo tímida, insegura, e inteligente e engraçada, eram parecidos em tudo, era até perfeito demais que os dois ficassem juntos, e todos os seus amigos aprovavam. Só faltava, é claro, uma atitude de um dos lados.
E estava claro que esta atitude não partiria de Dedalus.
Pela décima vez naquele dia Dedalus se levantou de seu lugar para pedir que as meninas rissem em um tom mais baixo, mesmo que mais nenhuma das cabines ao redor estivesse reclamando. O sorriso bobo do menino ao cumprimentar Hestia pela décima vez no dia dizia tudo, e já havia ficado bastante claro (graças à sempre sincera e sem papas na língua, Nikkita) até mesmo para a pequena Jones, que não tinha lá muito senso para garotos, que suas idas até ali em nada tinham a ver com o barulho.
– Ahn, meninas, poderiam falar um pouco mais baixo? — disse ele quase num sussurro.
– Claro Ded — repondia uma toda corada Jones mais nova.
E enquanto o garoto saía pela porta e voltava para seu lugar, uma inconveniente Nikki chutava Hestia, dizendo com uma voz afobada:
– Vá atrás dele!
Por um momento Hestia hesitou em seguir o conselho da amiga mais avançada em quesitos amorosos, mas sabia que uma hora ou outra teria que fazê-lo, então antes que pensasse em se arrepender ela se levantou do banco e abriu a porta rapidamente, chamando por Dedalus, que já entrara em sua cabine.
Amycus simplesmente gostaria de poder fechar os olhos e sumir daquele maldito lugar. Não que não gostasse do fato de estar voltando a Hogwarts. Estava feliz por finalmente sair de sua casa e ir ao único lugar no mundo pelo qual nutria algum afeto. Aquilo poderia parecer pouco sonserino, — ele jamais admitiria isso para seus colegas de casa — mas realmente gostava de Hogwarts, ao ponto de desejar voltar para lá algum dia. Detestava sua casa, e para ele o tempo que passava na maldita mansão Carrow era o equivalente à anos em Azkaban. Sua família simplesmente sugava toda e qualquer energia alegre que houvesse no rapaz, se é que havia alguma. Com exceção talvez de Alecto, com quem podia conversar livremente sobre quase qualquer coisa exceto, obviamente, garotas. Mas ainda assim preferia a companhia daquela que, de alguma forma estranha e que ele mesmo não compreendia como, poderia chamar de amiga, apesar das contradições que essa palavra aplicava para pessoas com personalidades tão fortes e independentes como Amycus e Lucinda Talkalot.
Mas naquele momento, ele apenas queria sumir. Amava Hogwarts, mas não suportava ter de voltar para lá sabendo que uma das coisas que mais amava fazer na vida lhe fora tirado para sempre. Ao fechar os olhos viu todas as imagens de cada jogo que ganhou com a Sonserina, cada artilheiro que ele derrubou com um tiro certeiro de balaço impulsionado por seu bastão que nunca errava. Tudo aquilo estava acabado para ele, pelo menos enquanto estivesse na escola. E tudo graças à Leonardo O’Connor. O maldito O’Connor, o amado monitor da Grifinória e batedor do time da mesma. Ah o fraco O’Connor, que nem mesmo aguentava levar um balaço no meio da fuça e já desmonorava da vassoura. No meio disso havia Potter, capitão do time, alegando que o balaço do Carrow fora mandado com força desnecessária. Como ele gostaria de voltar no tempo apenas para meter outro balaço naquele capitão idiota, se soubesse que seria proibido de jogar de qualquer forma.
Levantou-se e decidiu procurar por Evan, que provavelmente estava metido em alguma cabine com alguma garota como sempre fazia. Foi quando o viu, no início do corredor: O’Connor andando tranquilamente pelo na direção do fim do corredor, onde Amycus se encontrava. A tentação de puxar a varinha subiu por toda a extensão de seu corpo, e antes que pudesse se dar conta ele se viu direcionando a mão para o bolso direito.
Foi rápido como um raio, ou uma flecha, e meticulosamente planejado. Por quem? Ainda se é impossível dizer. Em um momento lá estavam, Emmeline Vance, Evan Rosier, Hestia Jones e Amycus Carrow, à poucos metros de distância entre um e outro. E no outro estavam caídos.
O que os atingira fora uma onda que poderia ser comparada com eletricidade, mas totalmente invísivel aos olhos leigos de quem não soubesse o que procurar. O que quer que fosse, não apenas incapacitou os quatro jovens, como também todo aquele vagão, apagando as luzes e gerando o pânico entre os outros adolescentes que ainda permaneciam em suas cabines.
No início do corredor, uma figura permanecia em pé e observava de longe, com uma expressão indecifrável.
Era Leonardo O’Connor.
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